{"id":20569,"date":"2018-08-19T21:52:45","date_gmt":"2018-08-20T00:52:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20569"},"modified":"2018-08-19T21:52:45","modified_gmt":"2018-08-20T00:52:45","slug":"no-para-familias-expulsas-pela-vale-brigam-contra-a-hydro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20569","title":{"rendered":"No Par\u00e1, fam\u00edlias expulsas pela Vale brigam contra a Hydro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2018\/08\/17_08_morador_taue_exulso_foto_nailana_thiely_agencia_publica.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Para apostar na agricultura tradicional, comunidade do Tau\u00e1 enfrentou a vigil\u00e2ncia de drones, destrui\u00e7\u00e3o das casas e polui\u00e7\u00e3o t\u00f3xica.<\/p>\n<p>A reportagem \u00e9 de Jessica Mota, publicada por Ag\u00eancia P\u00fablica, 15-08-2018.<\/p>\n<p>O visitante desavisado que pega a PA-483 em Barcarena, ilha pr\u00f3xima a Bel\u00e9m do Par\u00e1, nem imagina o que se esconde por tr\u00e1s da floresta que margeia a estrada. A rodovia de duas m\u00e3os e duas pistas, sem acostamento, \u00e9 rota de caminh\u00f5es que v\u00e3o e voltam dos portos de escoamento de multinacionais que exportam gr\u00e3os, bois e alumina \u2013 subst\u00e2ncia-base do alum\u00ednio \u2013, produ\u00e7\u00f5es de muito peso na balan\u00e7a comercial brasileira.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s das \u00e1rvores e em cima de igap\u00f3s e nascentes est\u00e1 uma enorme bacia que guarda res\u00edduos qu\u00edmicos da maior ind\u00fastria do mundo na produ\u00e7\u00e3o de alumina: a Alunorte, que desde 2010 deixou de ser controlada pela Vale para ser controlada pela Hydro, empresa do governo noruegu\u00eas.<\/p>\n<p>A f\u00e1brica \u00e9 respons\u00e1vel por extrair bauxita e exportar alumina, retirada no Projeto Grande Caraj\u00e1s (no sudeste do Par\u00e1). J\u00e1 a bacia se chama DRS2 e funcionava em regime de testes at\u00e9 maio, quando a Justi\u00e7a Federal proibiu seu funcionamento.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 como uma piscina gigante de estimados 264 campos de futebol, cavada acima do solo, com 50 metros de profundidade. Essa piscina abriga a lama vermelha, a mat\u00e9ria que cont\u00e9m metais pesados, retirada do solo em Caraj\u00e1s e descartada depois que a bauxita \u00e9 separada.<\/p>\n<p>\u00c9 ali perto do dep\u00f3sito de res\u00edduos que passa o rio Tau\u00e1. E no entorno da piscina de lama vermelha repousam castanheiras, pequizeiros, bacurizeiros e outras \u00e1rvores que contam hist\u00f3rias invis\u00edveis aos rec\u00e9m-chegados. S\u00f3 quem viveu ali metade da sua vida consegue reconhecer os resqu\u00edcios de s\u00edtios e ro\u00e7as antigas das fam\u00edlias que formavam a comunidade do Tau\u00e1 at\u00e9 os idos dos anos 1980. \u201cNos criamos, todos n\u00f3s, trabalhando na ro\u00e7a. Fomos criados com carne de ca\u00e7a e peixe. N\u00f3s ca\u00e7ava aqui no meio dessa mata, tinha muita carne. N\u00f3s matava paca, tatu, cotia\u2026 Papai levava pra preparar pra n\u00f3s comer\u201d, lembra Manoel Dias, de 65 anos, um jovem senhor de olhar v\u00edvido e cabelos prateados. Com voz firme, lembra com detalhes sua liga\u00e7\u00e3o com este lugar: \u201cNasci duas horas da madrugada e quinze minutos, no rio Tau\u00e1. Meu pai pegou meu umbigo e colocou l\u00e1 no toco\u201d.<\/p>\n<p>Manoel Dias \u00e9 uma das principais lideran\u00e7as de uma comunidade que resolveu fazer o caminho de volta e retomar uma \u00e1rea da qual fam\u00edlias foram expulsas para dar lugar \u00e0 alumina e ao rejeito t\u00f3xico em plena Amaz\u00f4nia. Junto com ele, dezenas de outras fam\u00edlias expulsas de outros projetos na regi\u00e3o vivem em casas de madeira simples, sem muros, com cozinhas e banheiros externos.<\/p>\n<p>Como tudo come\u00e7ou<\/p>\n<p>Quando a ent\u00e3o estatal Vale do Rio Doce, que era dona do complexo Albras-Alunorte, chegou, aliada ao grupo de empresas japonesas NAAC \u2013 Nippon Amazon Aluminium \u2013 para instalar a maior f\u00e1brica de produ\u00e7\u00e3o de alumina do mundo, os moradores do Tau\u00e1 foram pegos de surpresa. \u201cNessas reuni\u00f5es, o que eles falavam? \u2018Olha, n\u00f3s vamos precisar dessa terra todinha, que isso aqui vai ser uma \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o ambiental e voc\u00eas n\u00e3o podem ficar aqui dentro\u2019\u201d, conta Manoel. Ao todo, foram desapropriados 6.104 hectares.<\/p>\n<p>Segundo um levantamento da Secretaria Municipal de Ordenamento Territorial de Barcarena, foram removidas 513 fam\u00edlias de 16 comunidades; n\u00e3o h\u00e1 registro da localidade de 19 fam\u00edlias. O Tau\u00e1 foi de onde saiu mais gente: 73 fam\u00edlias. De acordo com levantamento da Associa\u00e7\u00e3o de Desapropriados de Barcarena, 90 fam\u00edlias \u2013 17,5% do total \u2013n\u00e3o foram indenizadas.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias que estavam no Tau\u00e1 foram morar em ocupa\u00e7\u00f5es e bairros novos e sem infraestrutura em Barcarena e na grande Bel\u00e9m. \u201cAs pessoas foram se espalhando, mas viram que o dinheiro era muito pouco, foram questionando. Muitas pessoas, como as do Tau\u00e1, n\u00e3o receberam a indeniza\u00e7\u00e3o\u201d, contextualiza o professor e pesquisador do servi\u00e7o social da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA) Marcel Hazeu, que h\u00e1 oito anos pesquisa a situa\u00e7\u00e3o das comunidades atingidas pelos projetos industriais.<\/p>\n<p>Mesmo as fam\u00edlias deslocadas ainda utilizavam a floresta como principal fonte de sobreviv\u00eancia. \u201cAs comunidades do rio Tau\u00e1 e as comunidades do rio Murucupi e do rio Dend\u00ea viviam da pesca, coleta de frutas, planta\u00e7\u00e3o de ro\u00e7a e de ca\u00e7a. Esse modo de vida n\u00e3o se restringe a um lote. As \u00e1reas de ro\u00e7a eram bem distantes do rio. Isso sofreu muitas mudan\u00e7as quando a ind\u00fastria chegou\u201d, explica o pesquisador Hazeu. \u201cFizeram assentamentos que criaram situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza e fome. Muitas pessoas que est\u00e3o hoje no Tau\u00e1 sa\u00edram [dos assentamentos] porque n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de sobreviver.\u201d<\/p>\n<p>A Alunorte come\u00e7ou a operar em 1995, quando a popula\u00e7\u00e3o que habitava os bairros planejados pelo projeto j\u00e1 era maior que o previsto. Antes dela, a Albras operava desde 1985.<\/p>\n<p>Em 1989, 450 pessoas entraram com um processo na Justi\u00e7a contra a Companhia de Desenvolvimento Industrial do Par\u00e1 e a Companhia de Desenvolvimento de Barcarena, empresas p\u00fablicas de \u00e2mbito estadual e federal, respectivamente, que ent\u00e3o foram respons\u00e1veis pela remo\u00e7\u00e3o e indeniza\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Entre os que moviam o processo, como indica a senten\u00e7a, havia aqueles que n\u00e3o conseguiram comprovar suas posses conforme o requerido (163 pessoas); os que comprovaram e foram indenizados, mas questionavam os valores e pediam complementa\u00e7\u00e3o (60 pessoas); e aqueles que n\u00e3o receberam indeniza\u00e7\u00f5es de nenhum tipo (227 pessoas).<\/p>\n<p>A primeira decis\u00e3o, no tribunal federal em Bel\u00e9m, foi a favor dos \u00faltimos dois grupos, totalizando 287 pessoas que comprovaram a posse. O juiz Henrique Dantas da Cruz decidiu ainda que, al\u00e9m dos valores relativos \u00e0s casas e planta\u00e7\u00f5es que haviam recebido parte das pessoas, cabiam indeniza\u00e7\u00f5es pela \u201cdesagrega\u00e7\u00e3o social causada pela perda da terra\u201d e pela impossibilidade de explorar os recursos da floresta.<\/p>\n<p>Entre 1997 e 2006, as companhias questionaram a decis\u00e3o do juiz de Bel\u00e9m junto ao tribunal de segunda inst\u00e2ncia em Bras\u00edlia. O juiz Gl\u00e1ucio Maciel Gon\u00e7alves, ent\u00e3o, respondeu que aquelas fam\u00edlias que haviam recebido indeniza\u00e7\u00f5es n\u00e3o poderiam mais question\u00e1-las.<\/p>\n<p>Mas decidiu a favor daquelas que n\u00e3o haviam recebido nenhuma indeniza\u00e7\u00e3o \u2013 e negou indeniza\u00e7\u00e3o pela perda da floresta e desagrega\u00e7\u00e3o social pelas diferentes situa\u00e7\u00f5es de vida dos autores do processo. Em 2007, as empresas moveram a\u00e7\u00f5es para tentar anular o processo, mas em 2012, outro juiz federal, Olindo Menezes, analisou e negou os pedidos das empresas. Em 2014, o processo foi suspenso e ainda hoje as indeniza\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram pagas.<\/p>\n<p>De volta ao Tau\u00e1<\/p>\n<p>A cerca de 7 km da DRS2, a bacia de res\u00edduos minerais da Hydro, se erguem casas de madeira onde tamb\u00e9m crescem as planta\u00e7\u00f5es de mandioca, milho, arroz, feij\u00e3o, banana, a\u00e7a\u00ed, muruci e goiaba; e as vidas dos agricultores do Tau\u00e1.<\/p>\n<p>As manh\u00e3s come\u00e7am com banhos no igarap\u00e9 e caf\u00e9 forte. Faz dois anos que Manoel Dias decidiu retornar e viver no Tau\u00e1, em 2016. Com ele, vieram 182 fam\u00edlias. Criaram o Assentamento dos Agricultores das Fam\u00edlias Tradicionais da Amaz\u00f4nia do Rio Tau\u00e1. Entre as fam\u00edlias est\u00e3o remanescentes da comunidade, descendentes dos antigos moradores da \u00e1rea e pessoas de outras comunidades que foram perdendo espa\u00e7o com a crescente atividade industrial na ilha de Barcarena. \u201cAs comunidades tinham rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima uma da outra. Muitas pessoas eram de outras \u00e1reas de onde foram retiradas e formavam um sistema. Elas voltaram para um terreno que fazia parte do sistema\u201d, pontua o professor Hazeu.<\/p>\n<p>O retorno se deu depois de anos de espera. \u201cV\u00e1rias pessoas sa\u00edram pra Barcarena-sede, CDI, que \u00e9 uma col\u00f4nia, aqui pro [bairro de] Conde, Itupanema, se espalhamos dentro do munic\u00edpio. At\u00e9 ent\u00e3o, queriam levar os nossos parentes pra fora do munic\u00edpio, que n\u00e3o era pra haver esse processo de volta pra terra. Nossos parentes morreram com depress\u00e3o, com saudade da terra, morreram assim desesperados porque sabiam que nunca mais iam voltar pras terras\u201d, conta Carlos Esp\u00edndula, de 48 anos, outra lideran\u00e7a do assentamento. \u201cA\u00ed, esperando sair essa indeniza\u00e7\u00e3o, como n\u00e3o saiu, mediante esse processo todo, n\u00f3s se reunimos como fam\u00edlia tradicional: \u2018Vamos voltar pra terra que ainda resta nossa\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Dona Maria Marcolina, agricultora de 67 anos, est\u00e1 h\u00e1 um ano e seis meses no Tau\u00e1. Antes morava no bairro Laranjal, formado a partir das remo\u00e7\u00f5es for\u00e7adas nos anos 1980. Vivia num terreno de 10 x 30 metros, onde n\u00e3o podia plantar o suficiente para sua subsist\u00eancia. Com ela, moram os tr\u00eas filhos. \u201cA terra aqui \u00e9 muito maravilhosa, o que voc\u00ea plantar aqui d\u00e1\u201d, fala em meio a sorrisos durante a colheita do milho, atividade em que se ocupava quando a reportagem se aproximou.<\/p>\n<p>Segundo o projeto original da Albras-Alunorte, 536 hectares seriam destinados \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma col\u00f4nia agr\u00edcola. O restante da \u00e1rea pr\u00f3xima ao rio Tau\u00e1 se tornaria uma \u00e1rea de reserva ambiental da empresa. De fato se tornou, mas s\u00f3 no papel. A realidade \u00e9 outra: h\u00e1 d\u00e9cadas a mata ali \u00e9 explorada por madeireiros ilegais e ca\u00e7adores. \u201cExiste v\u00e1rios ramal de madeireiros. At\u00e9 hoje a gente tem uma luta com os madeireiros. Somos amea\u00e7ados por eles. A gente j\u00e1 tiramos v\u00e1rios madeireiros [da terra]. Temos foto, j\u00e1 fizemos v\u00e1rias den\u00fancia tanto na delegacia do munic\u00edpio como na delegacia de meio ambiente\u201d, ressalta Carlos Esp\u00edndula.<\/p>\n<p>Em dois anos, os moradores do assentamento j\u00e1 fizeram tr\u00eas registros na Pol\u00edcia Civil para denunciar a extra\u00e7\u00e3o ilegal. A P\u00fablica entrou em contato com a Pol\u00edcia Civil do Par\u00e1 para verificar o andamento das ocorr\u00eancias, mas n\u00e3o obteve resposta at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o deste texto.<\/p>\n<p>Ainda assim, a vida em meio \u00e0s nascentes e aos igarap\u00e9s contrasta fortemente com a vida em outras comunidades de Barcarena, como as cinco comunidades quilombolas reconhecidas pela Funda\u00e7\u00e3o Palmares \u2013 S\u00e3o Sebasti\u00e3o de Burajuba, S\u00edtio Concei\u00e7\u00e3o, S\u00edtio Cupua\u00e7u\/Boa Vista, S\u00edtio S\u00e3o Jo\u00e3o e S\u00edtio Debri\u00ea\/S\u00e3o Louren\u00e7o. As comunidades quilombolas s\u00e3o formadas por pequenos s\u00edtios e casas, separadas por cercas e ruas. No Burajuba, por exemplo, existem cria\u00e7\u00f5es de animais, pequenos com\u00e9rcios e alguns pomares, j\u00e1 prejudicados pela contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas do rio Murucupi, que atravessa a comunidade em toda a sua extens\u00e3o. As frutas ficam podres ainda no p\u00e9. Os animais adoecem e morrem.<\/p>\n<p>No Tau\u00e1, onde a mata \u00e9 mais farta, as planta\u00e7\u00f5es ainda crescem saud\u00e1veis na apar\u00eancia e em abund\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u201cHoje a gente t\u00e1 tentando resgatar o pouquinho que sobrou. A gente t\u00e1 tentando levantar, reerguer a vida, voltar \u00e0 nossa tradi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a agricultura. \u00c9 o plantio\u201d, explica Midian Ribeiro, de 40 anos, que vive no Tau\u00e1 com o marido e dois filhos. \u201cEsse ano a gente tem uma produ\u00e7\u00e3o boa de arroz, estamos plantando a mandioca.\u201d A agricultura divide espa\u00e7o com a cria\u00e7\u00e3o de pequenos animais, como galinhas e patos. A fartura que ali brota parece anunciar esperan\u00e7a de uma vida mais digna.<\/p>\n<p>Amea\u00e7as e drones<\/p>\n<p>No come\u00e7o foi mais duro. Carlos Esp\u00edndula, que mora com a esposa \u2013 cuja fam\u00edlia tamb\u00e9m foi removida para a implanta\u00e7\u00e3o da Alunorte \u2013, conta que a Hydro mandava drones para vigiar as fam\u00edlias logo quando ocuparam a \u00e1rea, em 2016. \u201cEra todo dia, era terr\u00edvel. At\u00e9 minha m\u00e3e foi pega saindo do banheiro com a toalha. Ela saiu do banheiro e o drone bem em cima da casa dela l\u00e1\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Procurada pela reportagem, em resposta, via assessoria de imprensa, a Hydro informa que a \u00e1rea \u201c\u00e9 de propriedade da Alunorte e integra o Distrito Industrial de Barcarena\u201d e que \u201ca empresa busca sua reintegra\u00e7\u00e3o dentro dos devidos tr\u00e2mites legais\u201d. A mineradora afirma que a reintegra\u00e7\u00e3o de posse foi efetuada em 2017. \u201cImportante ressaltar que, na ocasi\u00e3o, n\u00e3o havia casas nessa \u00e1rea, apenas uma serraria e estrutura de apoio\u201d, declaram. \u201cA reintegra\u00e7\u00e3o foi acompanhada por observadores externos independentes, com foco na garantia dos direitos humanos. Cerca de um m\u00eas depois da reintegra\u00e7\u00e3o determinada pela Justi\u00e7a, a \u00e1rea foi novamente invadida\u201d.<\/p>\n<p>Em outro momento, quando policiais estavam na \u00e1rea para tentar impedir a consolida\u00e7\u00e3o da comunidade, ele conta ter sido amea\u00e7ado por um PM. \u201cA gente tava fazendo aquela guarita l\u00e1 [na entrada da comunidade]. Eu peguei a draga que foi pra cavar um buraco do esteio, a\u00ed ele tomou da minha m\u00e3o e eu pedi pra ele, que aquele era o meu material de trabalho\u201d, lembra. \u201cEle pegou a arma e disse: \u2018Esse aqui \u00e9 o meu trabalho tamb\u00e9m\u2019. E engatilhou a arma. Eu disse: \u2018Bom, j\u00e1 que \u00e9 o seu material de trabalho, ent\u00e3o use\u2019. A\u00ed foi que o comandante, o capit\u00e3o, major, n\u00e3o me recordo, falou com ele. Ele pegou e desengatilhou a arma.\u201d<\/p>\n<p>Em outubro de 2016, a Hydro entrou com um processo de reintegra\u00e7\u00e3o de posse na \u00e1rea e venceu em primeira inst\u00e2ncia. O processo correu na 2\u00aa Vara C\u00edvel e Empresarial de Barcarena e foi decidido pela ju\u00edza Gisele Camaro Leite. As fam\u00edlias entraram com recurso para questionar a compet\u00eancia da ju\u00edza que julgou o processo. Para as fam\u00edlias, o tema deveria ser julgado por uma vara agr\u00e1ria, que trata de quest\u00f5es de terra coletiva em \u00e1rea rural. A ju\u00edza n\u00e3o concordou. Na decis\u00e3o de abril de 2017, ela relata que n\u00e3o encontrou \u201cqualquer preparo da terra destinado ao plantio e\/ou cria\u00e7\u00e3o de animais\u201d quando visitou a \u00e1rea. Argumenta tamb\u00e9m que, ainda que sejam v\u00e1rias pessoas processadas, o tema n\u00e3o envolve quest\u00e3o coletiva, mas individual.<\/p>\n<p>O argumento da ju\u00edza se baseia no Plano Diretor de Barcarena, lei que estabelece os diferentes usos do solo na cidade. Uma parte da mata do Tau\u00e1, antes reservada apenas para prote\u00e7\u00e3o ambiental, foi transformada numa revis\u00e3o do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Barcarena em \u00e1rea de expans\u00e3o urbana, destinada a atividade industrial. Essa revis\u00e3o foi publicada como lei complementar no dia 17 de outubro de 2016. No dia seguinte, a Hydro entrou com esse pedido de reintegra\u00e7\u00e3o de posse contra os moradores do Tau\u00e1.<\/p>\n<p>Nesse meio-tempo, munida da decis\u00e3o dada em car\u00e1ter de urg\u00eancia e antes que fossem julgados os pedidos de revis\u00e3o da decis\u00e3o, funcion\u00e1rios da empresa foram \u00e0 \u00e1rea e destru\u00edram as casas e pontes que os assentados do Tau\u00e1 haviam constru\u00eddo. As fam\u00edlias haviam sa\u00eddo da \u00e1rea quando isso ocorreu e retornaram em maio de 2017. Come\u00e7aram a refazer as ro\u00e7as, reconstruir as casas e pontes.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m em 2017 que as fam\u00edlias foram procurar o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal. Em junho daquele ano, relataram ao procurador Patrick Menezes que seus pais, m\u00e3es, tios e tias foram expulsos da \u00e1rea para a constru\u00e7\u00e3o do complexo Albras-Alunorte sem indeniza\u00e7\u00e3o. Contaram tamb\u00e9m que fazia cinco meses que haviam retornado \u00e0 \u00e1rea e foram impedidos de permanecer pelo processo movido pela Hydro.<\/p>\n<p>O relato originou uma investiga\u00e7\u00e3o na procuradoria que trata de temas ligados aos direitos ind\u00edgenas e de comunidades tradicionais, de responsabilidade do procurador Felipe Palha, que acompanha o caso desde fevereiro deste ano. O relato das fam\u00edlias de outra comunidade atingida pela expans\u00e3o industrial, a Acu\u00ed, tamb\u00e9m originou investiga\u00e7\u00e3o no \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>Os dois inqu\u00e9ritos buscam averiguar o dano causado pela omiss\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis pelas remo\u00e7\u00f5es das comunidades S\u00e3o Sebasti\u00e3o, Japiim, Santa Rosa e Tau\u00e1 na d\u00e9cada de 1980. As investiga\u00e7\u00f5es come\u00e7aram em 2017 e ainda aguardam a conclus\u00e3o de estudos antropol\u00f3gicos e a resposta de diversos \u00f3rg\u00e3os do governo brasileiro.<\/p>\n<p>\u201cEles falavam em reuni\u00e3o pra n\u00f3s que n\u00f3s ia ser privilegiado com col\u00e9gio, com sa\u00fade, com n\u00e3o sei o que mais\u2026 Na \u00e9poca, tudinho eles prometeram pra n\u00f3s, nas reuni\u00f5es l\u00e1 dentro pra n\u00f3s poder sair de l\u00e1\u201d, lembra Manoel Dias. \u201cN\u00e3o cumpriram com nada. Infelizmente, n\u00e3o. S\u00f3 foi publicado pra n\u00f3s flores. Mas infelizmente essas flores\u2026 Est\u00e1 a\u00ed o fruto hoje acontecendo com n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p>A contamina\u00e7\u00e3o cada vez mais perto<\/p>\n<p>Manoel se refere \u00e0 maior amea\u00e7a que paira hoje sobre o Tau\u00e1 e outras comunidades tradicionais de Barcarena: a contamina\u00e7\u00e3o e polui\u00e7\u00e3o do solo e da \u00e1gua. Em um lugar onde se busca reconstruir a vida a partir da terra, \u00e9 fundamental que ela tenha sa\u00fade. O alarme que soou ao mundo em fevereiro deste ano, quando Barcarena se fez presente nas manchetes de jornais \u2013 na madrugada do dia 16 para 17 de fevereiro, as fam\u00edlias que vivem pr\u00f3ximas \u00e0 \u00e1rea onde est\u00e3o as bacias de rejeitos da Hydro viram a lama vermelha tomar conta de seus quintais e po\u00e7os artesianos \u2013 n\u00e3o \u00e9 o primeiro.<\/p>\n<p>No Tau\u00e1, ao caminhar pelo igap\u00f3 que tem seu curso em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 DRS2 \u2013 ainda \u00famido no ver\u00e3o paraense \u2013, Carlos Esp\u00edndula e Manoel Dias indicam os resqu\u00edcios da invas\u00e3o da lama vermelha que ocorreu em fevereiro. No ch\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel ver sacos de areia revirados em meio \u00e0 terra colorida de vermelho. Um relat\u00f3rio interno da for\u00e7a-tarefa convocada pela Hydro relata o uso de sacos de areia ao redor da DRS1 como medida de seguran\u00e7a para um poss\u00edvel transbordamento.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as den\u00fancias das comunidades, a Hydro foi alvo de nove a\u00e7\u00f5es da Secretaria de Meio Ambiente do Par\u00e1, entre notifica\u00e7\u00f5es e registros de infra\u00e7\u00f5es. Uma das primeiras, feita logo no dia 16 de fevereiro, identificou um duto irregular que sa\u00eda da DRS2 e despejava direto na floresta \u00e1gua da chuva acumulada na bacia de rejeitos, sem tratamento.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o, o Instituto Evandro Chagas, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, divulgou relat\u00f3rio de sua avalia\u00e7\u00e3o qu\u00edmica das 36 amostras coletadas entre 25 de fevereiro e 19 de mar\u00e7o nos igarap\u00e9s pr\u00f3ximos \u00e0s bacias de rejeitos e nos arredores e dutos da f\u00e1brica. Os \u00edndices de alum\u00ednio e ferro dissolvidos num igarap\u00e9 tribut\u00e1rio do Tau\u00e1, nos rios Par\u00e1, Guajar\u00e1 do Beja, Arapiranga e nos igarap\u00e9s Curuper\u00ea e Dend\u00ea estavam bem acima dos limites estipulados pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente em 2005. Os n\u00edveis de ars\u00eanio, chumbo e cromo, metais t\u00f3xicos, tamb\u00e9m estavam acima do estipulado em alguns pontos desses cursos d\u2019\u00e1gua. \u201cOs resultados nestas \u00e1reas foram indicativos que as \u00e1guas superficiais destes rios n\u00e3o poderiam naquele momento ser usadas para recrea\u00e7\u00e3o, pesca ou consumo humano\u201d, conclui o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 s\u00f3 mais um cap\u00edtulo na hist\u00f3ria dos \u201cfilhos de Barcarena\u201d, como se referem os moradores nascidos na cidade. A diferen\u00e7a \u00e9 que agora a not\u00edcia se espalhou. O documento \u201cBarcarena Livre Informa\u201d \u2013 um informativo do Movimento Barcarena Livre, que re\u00fane pesquisadores do Ibase e da UFPA \u2013 imputa \u00e0s empresas do complexo Albras-Alunorte e \u00e0 mineradora de origem francesa Imerys (que exporta caulim, min\u00e9rio usado em tintas, pap\u00e9is e cosm\u00e9ticos) a maior parte de 17 ocorr\u00eancias de contamina\u00e7\u00f5es e crimes ambientais registradas em 18 anos.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancia, as fam\u00edlias das comunidades no entorno passaram a ter dificuldades para pescar, criar animais e plantar. Al\u00e9m disso, muitos moradores associam o surgimento de doen\u00e7as de pele, c\u00e2ncer e problemas digestivos \u00e0 polui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEles precisam fazer novas bacias e pra onde v\u00e3o fazer? Avan\u00e7ando sobre a \u00e1rea do Tau\u00e1\u201d, argumenta o professor Hazeu. \u201cComo chove muito e eles usam muita \u00e1gua nos processos industriais, ent\u00e3o constroem suas bacias sempre em cima dos rios e de suas cabeceiras. A Imerys est\u00e1 em cima do rio Curuper\u00ea e a Hydro em cima do Murucupi, e a segunda bacia [DRS2] t\u00e1 na beira do rio Tau\u00e1. Se v\u00e3o ampliar, v\u00e3o por cima do rio Tau\u00e1. V\u00e3o avan\u00e7ando sobre os rios dos quais as pessoas dependem pra sobreviver.\u201d<\/p>\n<p>D\u00e9cadas de expuls\u00f5es<\/p>\n<p>A cidade de Barcarena se tornou na \u00faltima d\u00e9cada um importante polo log\u00edstico para a ind\u00fastria da minera\u00e7\u00e3o e de gr\u00e3os. Al\u00e9m das f\u00e1bricas de mineradoras multinacionais como a Hydro e a Imerys, a ilha passou a abrigar portos de escoamento de gr\u00e3os da multinacional Bunge e da Hidrovias do Brasil.<\/p>\n<p>Os dados mais atualizados do IBGE mostram que toda a produ\u00e7\u00e3o de Barcarena em 2015 somou mais de R$ 5,5 bilh\u00f5es, um recorde. Esse valor era de cerca de R$ 2 bilh\u00f5es em 2012. A atividade industrial \u00e9 a que mais contribui para a cifra. A cidade representa o quinto maior polo de produ\u00e7\u00e3o do estado do Par\u00e1. Em 2015, isso equivaleu \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de R$ 4,7 milh\u00f5es por habitante.<\/p>\n<p>Marcel Hazeu, pesquisador da UFPA que estudou as migra\u00e7\u00f5es na cidade de Barcarena, mostra em sua pesquisa que a expans\u00e3o das ind\u00fastrias promove at\u00e9 hoje os deslocamentos for\u00e7ados. As fam\u00edlias v\u00e3o ocupar \u00e1reas ainda desocupadas no munic\u00edpio, se somam aos bairros e ocupa\u00e7\u00f5es j\u00e1 existentes ou migram para cidades pr\u00f3ximas, como Bel\u00e9m e Abaetetuba.<\/p>\n<p>De acordo com o levantamento na pesquisa de Hazeu, desde os anos 1970 at\u00e9 2013 foram 1.132 fam\u00edlias expulsas. Al\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o do complexo Albras-Alunorte, a Usipar, a Zona de Processamento para Exporta\u00e7\u00e3o, a Companhia de Alum\u00ednio do Par\u00e1, a Tecop (Terminais de Combust\u00edveis da Para\u00edba), a Imerys e a Hidrovias do Brasil tiveram responsabilidade nas expuls\u00f5es.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2018\/08\/17_08_deslocamento_compulsorio_foto_agencia_publica.jpg<\/p>\n<p>(Foto: Ag\u00eancia P\u00fablica)<\/p>\n<p>Os deslocamentos s\u00e3o acompanhados do alto crescimento populacional na cidade. Ao longo do tempo, outros moradores tamb\u00e9m foram chegando, entre oper\u00e1rios, investidores e negociantes. A popula\u00e7\u00e3o quase triplicou em 20 anos, passando de 17.498 moradores na d\u00e9cada de 1970 para 45.946 na d\u00e9cada de 1990. Em 2010, j\u00e1 eram 99.859 habitantes em Barcarena. Na estimativa lan\u00e7ada em 2017, o IBGE estipula a popula\u00e7\u00e3o municipal em 121.190 pessoas. Isso representa sete vezes a quantidade de gente que havia na ilha de Barcarena h\u00e1 48 anos.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/581887-no-para-familias-expulsas-pela-vale-agora-brigam-contra-a-hydro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20569\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[118],"tags":[222],"class_list":["post-20569","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c131-reforma-agraria","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5lL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20569","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20569"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20569\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20569"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20569"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20569"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}