{"id":20650,"date":"2021-07-20T00:20:19","date_gmt":"2021-07-20T03:20:19","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20650"},"modified":"2021-07-20T00:55:54","modified_gmt":"2021-07-20T03:55:54","slug":"e-o-imperio-foge-na-calada-da-noite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20650","title":{"rendered":"E o imp\u00e9rio foge na calada da noite"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/im-media.voltron.voanews.com\/Drupal\/01live-166\/styles\/221x146\/s3\/2021-07\/ap21186538253703.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Soldado afeg\u00e3o junto de blindados abandonados pelas tropas dos EUA ap\u00f3s estas abandonarem a base de Bagram. Afeganist\u00e3o, 5 de Julho de 2021<\/p>\n<p>Cr\u00e9ditosRahmat Gul \/ AP Photo<\/p>\n<p>Por Jos\u00e9 Goul\u00e3o<\/p>\n<p>ABRIL ABRIL<\/p>\n<p>A retirada norte-americana e da OTAN simbolizada em Bagram, sob o signo da miss\u00e3o cumprida, deixa o Afeganist\u00e3o como um pa\u00eds dilacerado e mergulhado na guerra civil.<\/p>\n<p>Um telegrama da insuspeita Associated Press, assinado por Kathy Gannon, testemunha o seguinte: em 2 de julho \u00abos Estados Unidos deixaram a base a\u00e9rea de Bagram no Afeganist\u00e3o ao cabo de quase 20 anos, apagando as luzes e fugindo durante a noite sem notificarem o novo comandante afeg\u00e3o da base, que deu pela partida dos norte-americanos mais de duas horas depois, segundo fontes afeg\u00e3s\u00bb.<\/p>\n<p>O imp\u00e9rio e o seu aparelho de guerra, a OTAN, escapuliram-se de fininho pela calada da noite tentando evitar a repeti\u00e7\u00e3o das imagens de 1975 em Saigon, quando chefes militares e diplomatas norte-americanos subiram apressadamente nos helic\u00f3pteros na altura em que os patriotas vietnamitas estavam entrando na cidade. O secretismo covarde da opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o esconde nem disfar\u00e7a, por\u00e9m, mais uma derrota militar dos Estados Unidos e dos aliados \u2013 entre os quais Portugal \u2013 desta feita na sua guerra mais longa, que duplicou o tempo de envolvimento no Vietn\u00e3.<\/p>\n<p>Para tr\u00e1s ficaram mais centenas de milhares de baixas \u2013 o n\u00famero real provavelmente jamais ser\u00e1 conhecido \u2013 bilh\u00f5es de d\u00f3lares queimados, um pa\u00eds em guerra e completamente destru\u00eddo. Mais um, a se juntar ao Iraque, \u00e0 S\u00edria e \u00e0 L\u00edbia, para citar apenas os casos mais recentes.<\/p>\n<p>Miss\u00e3o cumprida, proclamou o comandante em chefe de turno da \u00abciviliza\u00e7\u00e3o ocidental\u00bb, Joseph Biden. \u00abOs Estados Unidos fizeram o que vieram fazer\u2026 apanhar os terroristas que nos atacaram em 11 de Setembro; agora \u00e9 hora de voltar para casa\u00bb. Assim se escreve a hist\u00f3ria, falsificando-a, contando com a mem\u00f3ria cada vez mais curta das opini\u00f5es p\u00fablicas trabalhadas por uma comunica\u00e7\u00e3o social agindo em modo de propaganda. Segundo a narrativa oficial, o suposto respons\u00e1vel pelos atentados de 11 de Setembro, Osama bin Laden, foi assassinado por for\u00e7as especiais norte-americanas em 2 de maio de 2011, h\u00e1 dez anos: a \u00abhora de voltar para casa\u00bb est\u00e1, portanto, uma d\u00e9cada atrasada. \u00c9 verdade que tamb\u00e9m n\u00e3o se pode ter certeza sobre a morte de bin Laden nessa data, porque os matadores se apressaram a lan\u00e7ar o cad\u00e1ver aos peixes. A opera\u00e7\u00e3o serviu principalmente para honra e gl\u00f3ria do presidente dos Estados Unidos que, at\u00e9 ao momento, ter\u00e1 cometido mais execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais: Barack Obama. De quem Biden foi vice-presidente.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio fazer uma grande pesquisa de documenta\u00e7\u00e3o para concluir que os objetivos oficiais declarados da invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o, iniciada no outono de 2001, prometiam um pa\u00eds reconstru\u00eddo, democr\u00e1tico e est\u00e1vel, livre de terroristas, uma vez derrotados os Talib\u00e3s e os seus protegidos. Ora, os Talib\u00e3s controlam hoje 80% do Afeganist\u00e3o \u2013 apenas menos 5% do que em 2001 \u2013, em Cabul (e pouco mais) reinam um presidente e uma classe pol\u00edtica corrupta. As elei\u00e7\u00f5es, quando h\u00e1, s\u00e3o exemplos de falsifica\u00e7\u00e3o e, segundo as not\u00edcias mais recentes, os ex-ocupantes e os seus aliados est\u00e3o ressuscitando as mil\u00edcias terroristas fundadas pela CIA nos anos oitenta e que foram exterminadas pelos Talib\u00e3 entre 1992 e 1996.<\/p>\n<p>Bagram era um s\u00edmbolo<br \/>\nA fuga imperial de Bagram \u00e9 um epis\u00f3dio que marca, como nenhum outro, a derrota dos Estados Unidos e da OTAN no Afeganist\u00e3o. A base de Bagram era um s\u00edmbolo e um centro operacional da ocupa\u00e7\u00e3o. Situada apenas a 60 quil\u00f4metros de Cabul, era tamb\u00e9m o principal ponto de apoio militar ao regime instalado na capital e que nunca conseguiu estender a sua a\u00e7\u00e3o para muito al\u00e9m do per\u00edmetro da principal cidade do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Bagram era tamb\u00e9m um dos principais centros de tortura que caracterizam as guerras eternas impostas pelos Estados Unidos e aliados como sustent\u00e1culos de uma ordem mundial unipolar assente no imperialismo e no colonialismo militar da OTAN, a servi\u00e7o da globaliza\u00e7\u00e3o do regime \u00fanico neoliberal.<\/p>\n<p>Embora a fuga de Bagram marque o fim de 20 anos de invas\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o pela OTAN, a interven\u00e7\u00e3o norte-americana no pa\u00eds iniciou-se muito antes, h\u00e1 42 anos, ainda na administra\u00e7\u00e3o do presidente democrata James Carter e do seu chefe do Conselho de Seguran\u00e7a Nacional, o estrategista Zbigniew Brzezinski.<\/p>\n<p>Foi nessa altura que os Estados Unidos, por interm\u00e9dio da CIA e tamb\u00e9m do Paquist\u00e3o, Fran\u00e7a, Reino Unido e Ar\u00e1bia Saudita, criaram a malha de terrorismo de fachada isl\u00e2mica para combaterem indiretamente a presen\u00e7a militar da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica no apoio ao governo progressista de Cabul. \u00c9 imposs\u00edvel ter no\u00e7\u00e3o do que seria hoje o Afeganist\u00e3o sob a a\u00e7\u00e3o continuada dos governos da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica \u2013 designadamente em \u00e1reas como a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, as vias de comunica\u00e7\u00e3o, o abastecimento de \u00e1gua e energia e os direitos das mulheres \u2013 se a sua atividade n\u00e3o tivesse sido sabotada pelo terrorismo disseminado pelos Estados Unidos e que deu origem a aberra\u00e7\u00f5es como Bin Laden, a al-Qaeda e as gangues de criminosos conhecidos como Mujahidines.<\/p>\n<p>\u00c9 importante recordar que a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Afeganist\u00e3o sobreviveu tr\u00eas anos \u00e0 retirada militar sovi\u00e9tica, em 1989, e apenas foi derrotada quando a R\u00fassia do inqualific\u00e1vel Boris Ieltsin e da sua corte de \u00abreformadores\u00bb lhe retirou apoio, dando assim alento \u00e0s v\u00e1rias fac\u00e7\u00f5es terroristas, que n\u00e3o tardaram em entrar numa destruidora guerra civil.<\/p>\n<p>Por outro lado, ao contr\u00e1rio da narrativa oficial consumida no Ocidente, a retirada sovi\u00e9tica n\u00e3o foi descoordenada, nem desordenada, nem um caos, muito menos uma debandada pela calada da noite.<\/p>\n<p>Escreve o analista Lester W. Grau na publica\u00e7\u00e3o Slavic Militay Studies: \u00abH\u00e1 uma narrativa e uma percep\u00e7\u00e3o comuns de que os sovi\u00e9ticos foram derrotados e expulsos do Afeganist\u00e3o. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Quando os sovi\u00e9ticos deixaram o Afeganist\u00e3o em 1989 fizeram-no de forma coordenada, deliberada e profissional, deixando para tr\u00e1s um governo a funcionar, uma situa\u00e7\u00e3o militar melhorada e um esfor\u00e7o consultivo e econ\u00f4mico que garantiu a viabilidade e a continuidade do governo. A retirada foi baseada num plano diplom\u00e1tico, econ\u00f4mico e militar coordenado, permitindo que as for\u00e7as sovi\u00e9ticas se retirassem em boa ordem e que o governo afeg\u00e3o sobrevivesse\u00bb.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, a a\u00e7\u00e3o norte-americana baseada nos grupos terroristas isl\u00e2micos com mentalidade medieval, que hoje funcionam como bra\u00e7os supletivos da OTAN, por exemplo nas guerras eternas na S\u00edria e no Iraque, tal como aconteceu na L\u00edbia, foi o princ\u00edpio do fim da experi\u00eancia modernizadora do Afeganist\u00e3o, afundando o pa\u00eds num caos ingovern\u00e1vel s\u00f3 travado transit\u00f3ria e parcialmente pelos Talib\u00e3s em 1996.<\/p>\n<p>Da mesma maneira, a retirada norte-americana e da OTAN simbolizada em Bagram, sob o signo da miss\u00e3o cumprida, deixa o Afeganist\u00e3o como um pa\u00eds dilacerado e mergulhado na guerra civil.<\/p>\n<p>Mas a partida da guarni\u00e7\u00e3o da base pela calada da noite significa uma retirada de fato ou uma transi\u00e7\u00e3o para a continua\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia norte-americana agora sob o formato de guerra h\u00edbrida, tal como acontece na S\u00edria e em grande parte do Iraque? Muitos ind\u00edcios apontam para esta metamorfose da ocupa\u00e7\u00e3o, mas os Talib\u00e3s, progredindo no terreno sobre a inefic\u00e1cia e o desmoronamento das for\u00e7as de seguran\u00e7a montadas pelos ocupantes, t\u00eam muito a dizer quanto \u00e0s pr\u00f3ximas etapas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Guerra h\u00edbrida<br \/>\nDesde os an\u00fancios da retirada da OTAN do Afeganist\u00e3o, os avan\u00e7os dos Talib\u00e3s em dire\u00e7\u00e3o a Cabul tornaram-se ainda mais fulgurantes. Os antigos \u00abestudantes de teologia\u00bb da etnia pashtun, fundados em 1994 em Kandahar, mas com ra\u00edzes tamb\u00e9m no Paquist\u00e3o, controlam hoje mais de metade dos 421 distritos afeg\u00e3os, que correspondem a uma \u00e1rea de 80% do territ\u00f3rio. Nos \u00faltimos tempos os avan\u00e7os n\u00e3o t\u00eam sido feitos com base em combates mas sim em negocia\u00e7\u00f5es, rendi\u00e7\u00f5es, deser\u00e7\u00f5es e fugas dos efetivos das for\u00e7as de seguran\u00e7a criadas e treinadas pela OTAN. Em Cabul teme-se que o Ex\u00e9rcito Nacional Afeg\u00e3o possa desintegrar-se em algumas semanas.<\/p>\n<p>Segundo mensagens que os dirigentes Talib\u00e3s t\u00eam feito circular, por exemplo na sequ\u00eancia de uma recente visita a Moscou, o grupo n\u00e3o pretende atingir Cabul atrav\u00e9s da guerra, mantendo-se no quadro das lentas negocia\u00e7\u00f5es de Doha, no Qatar, para encontrar uma coliga\u00e7\u00e3o governativa que possa pacificar e estabilizar o pa\u00eds.<\/p>\n<p>O grupo isl\u00e2mico alega, por outro lado, que deixou de ser etnicamente homog\u00eaneo e que atualmente cerca de 30% dos seus quadros dirigentes s\u00e3o n\u00e3o-pashtuns, designadamente tajiques, usbeques e at\u00e9 xiitas hazaras, seus inimigos jurados durante os anos noventa.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o Talib\u00e3 adverte, contudo, que tem \u00ablinhas vermelhas\u00bb como a de n\u00e3o tolerar que o atual cl\u00e3 governante do presidente Ashraf Ghani fa\u00e7a parte de uma futura coliga\u00e7\u00e3o governamental e a de n\u00e3o permitir quaisquer tropas da OTAN no terreno, sejam for\u00e7as especiais norte-americanas, mercen\u00e1rios contratados por Washington ou Bruxelas ou mesmo as tropas turcas que atualmente fazem seguran\u00e7a ao aeroporto de Cabul. \u00abQualquer membro da OTAN ser\u00e1 considerado ocupante\u00bb, definem os Talib\u00e3s.<\/p>\n<p>O mais prov\u00e1vel, por\u00e9m, \u00e9 que o grupo isl\u00e2mico venha a confrontar-se n\u00e3o com o precocemente decr\u00e9pito ex\u00e9rcito afeg\u00e3o, mas sim com os bra\u00e7os multifacetados de uma guerra h\u00edbrida montada em Washington e que ter\u00e1 como meta principal manter a instabilidade no Afeganist\u00e3o para que o pa\u00eds n\u00e3o possa se inserir nos enquadramentos regionais euroasi\u00e1ticos e, sobretudo, da \u00c1sia Central, que est\u00e3o sendo desenvolvidos pela R\u00fassia e a China, muitas vezes atrav\u00e9s da coopera\u00e7\u00e3o m\u00fatua e de forma complementar.<\/p>\n<p>Os documentos secretos do Minist\u00e9rio brit\u00e2nico da Defesa encontrados recentemente num caixote do lixo numa parada rodovi\u00e1ria no Sudeste da Inglaterra e divulgados pela BBC especificam que Washington e Londres devem cuidar da perman\u00eancia de for\u00e7as especiais no Afeganist\u00e3o que lhes permitam manter o controle das rotas do \u00f3pio que, nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, financiaram os servi\u00e7os secretos brit\u00e2nicos e norte-americanos, por exemplo na execu\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es clandestinas. Nunca o Afeganist\u00e3o deu origem a tanta hero\u00edna produzida a partir do \u00f3pio como durante a ocupa\u00e7\u00e3o da OTAN \u2013 responsabilizando-se, segundo dados da ONU, por cerca de 90% do mercado mundial.<\/p>\n<p>Neste contexto, cabem duas perguntas: ser\u00e1 que a CIA consegue conservar a sua rota da hero\u00edna afeg\u00e3 para sustentar as opera\u00e7\u00f5es clandestinas? Se n\u00e3o conseguir, para onde ser\u00e1 transferido esse esfor\u00e7o?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 que ter muitas d\u00favidas quanto \u00e0 autenticidade dos documentos secretos encontrados \u00abpor acaso\u00bb na Inglaterra. Neles est\u00e1 descrita a provoca\u00e7\u00e3o contra a R\u00fassia protagonizada pela passagem do destr\u00f3ier brit\u00e2nico HMS Defender pelas \u00e1guas da Crimeia em prontid\u00e3o de combate, opera\u00e7\u00e3o entretanto consumada.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das for\u00e7as especiais, s\u00e3o v\u00e1rias as componentes encaradas pelos estrategistas norte-americanos para o aparelho de guerra h\u00edbrida contra o Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>O jornal USA Today revelou que o Conselho de Seguran\u00e7a Nacional dos Estados Unidos est\u00e1 debatendo \u00abas novas formas consideradas necess\u00e1rias para manter v\u00e1rios milhares de contratados ocidentais\u00bb, isto \u00e9, mercen\u00e1rios, de modo a permitir a atividade de \u00abhelic\u00f3pteros e aeronaves cruciais para a movimenta\u00e7\u00e3o das pequenas, mas excelentes for\u00e7as especiais afeg\u00e3s\u00bb.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ainda segundo o USA Today, \u00abuma vez que as tropas terrestres da OTAN se tenham retirado, o poder a\u00e9reo da alian\u00e7a baseado na regi\u00e3o pode servir para ajudar a rec\u00e9m-criada For\u00e7a A\u00e9rea afeg\u00e3 a apoiar as suas tropas no solo quando estiverem sob ataque\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, contudo, apenas de \u00abapoio\u00bb. As miss\u00f5es Estados Unidos\/OTAN no Golfo, especialmente no Iraque, manter\u00e3o o Afeganist\u00e3o sob mira, inclusive para bombardear o pa\u00eds, se necess\u00e1rio. O comandante do dispositivo n\u00e3o ser\u00e1 j\u00e1 um general colocado no Afeganist\u00e3o mas o general Frank McKenzie do CentCom, respons\u00e1vel operacional do M\u00e9dio Oriente. Trata-se de utilizar a \u00abcapacidade al\u00e9m horizonte\u00bb, segundo a terminologia do Pent\u00e1gono.<\/p>\n<p>Ainda de acordo com o USA Today, nas reflex\u00f5es do Conselho de Seguran\u00e7a Nacional sugere-se que \u00abalgumas \u00e1reas que permane\u00e7am sob o controle dos Talib\u00e3s devem ser contra-atacadas sempre que haja alvos da lideran\u00e7a do grupo importantes para as for\u00e7as afeg\u00e3s\u00bb.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00abas mais apropriadas das muitas mil\u00edcias afeg\u00e3s\u00bb, os grupos mujahidines em fase de ressurrei\u00e7\u00e3o promovida pelo governo de Cabul, \u00abdever\u00e3o ser colocadas na folha de pagamentos do governo e integradas num plano geral de campanha. Os pagamentos devem ser condicionados\u00bb \u2013 o c\u00famulo do cinismo \u2013 \u00aba alguma medida de conten\u00e7\u00e3o e respeito por vidas inocentes por parte desses grupos\u00bb. Os Mujahidines ficaram conhecidos pelos saques e chacinas cometidos sob os olhos dos tutores da CIA.<\/p>\n<p>Sabe-se igualmente que a Turquia est\u00e1 transferindo para o Afeganist\u00e3o cerca de dois mil mercen\u00e1rios isl\u00e2micos do contingente da al-Qaeda que ocupa Idleb, na S\u00edria, provavelmente uigures origin\u00e1rios da regi\u00e3o chinesa de Xijiang, refor\u00e7ando as bolsas do ISIS e da organiza\u00e7\u00e3o fundada pela CIA e Bin Laden que se reativaram no Afeganist\u00e3o sob a ocupa\u00e7\u00e3o da OTAN. Parte desses efetivos foram transferidos numa opera\u00e7\u00e3o especial montada pela CIA quando o Isis perdeu a sua \u00abcapital\u00bb na S\u00edria, a cidade de Raqqa 2.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixou ainda de ser uma ideia acarinhada na sede da OTAN, em Bruxelas, a de continuar a manter o Afeganist\u00e3o como um para\u00edso para o terrorismo isl\u00e2mico e respectiva exporta\u00e7\u00e3o, funcionando sob controle do Paquist\u00e3o.<\/p>\n<p>De tudo isto resulta muito claro que a nova fase da influ\u00eancia militar e pol\u00edtica dos Estados Unidos e da OTAN sobre o Afeganist\u00e3o se orienta pela necessidade de alimentar a guerra civil, prolongar os conflitos inter\u00e9tnicos e interconfessionais, perpetuar a instabilidade e impedir a reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Ou seja, um foco de caos para dificultar as a\u00e7\u00f5es que se orientam pela reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, a integra\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento regional.<\/p>\n<p>Os movimentos da China e da R\u00fassia<br \/>\nNeste quadro, parece natural que se registem aproxima\u00e7\u00f5es da China, da R\u00fassia e do pr\u00f3prio Ir\u00e3 em rela\u00e7\u00e3o aos Talib\u00e3s, a organiza\u00e7\u00e3o que parece em melhores condi\u00e7\u00f5es para assumir um papel estabilizador no Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>Em junho realizou-se uma reuni\u00e3o trilateral entre representantes da China, dos Talib\u00e3s e do Paquist\u00e3o, a prop\u00f3sito da qual o ministro chin\u00eas dos Neg\u00f3cios Estrangeiros saudou \u00abo r\u00e1pido retorno\u00bb do grupo afeg\u00e3o \u00ab\u00e0 vida pol\u00edtica no pa\u00eds\u00bb, fez votos de \u00abuma recupera\u00e7\u00e3o pac\u00edfica do Afeganist\u00e3o\u00bb e prometeu \u00abexpandir la\u00e7os econ\u00f4micos e comerciais\u00bb.<\/p>\n<p>A China est\u00e1 interessada em estender ao Afeganist\u00e3o o seu projeto de corredor econ\u00f4mico com o Paquist\u00e3o integrado na nova rota da seda ou Iniciativa Cintura e Estrada (ICE). O primeiro passo seria a constru\u00e7\u00e3o de uma auto estrada ligando Cabul a Peshavar atrav\u00e9s da passagem do Khyber. O projeto seria um setor do corredor econ\u00f4mico China-Paquist\u00e3o, que inclui a constru\u00e7\u00e3o do estrat\u00e9gico aeroporto de Tashkurgan do lado do Xijiang na estrada do Carac\u00f3rum, a apenas 50 quil\u00f3metros do Paquist\u00e3o e tamb\u00e9m nas proximidades do Afeganist\u00e3o e do porto de Gwadar, no Baluchist\u00e3o.<\/p>\n<p>Pequim entende tamb\u00e9m que a pacifica\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o seria muito importante para reduzir as a\u00e7\u00f5es desenvolvidas por terroristas do Isis contra a regi\u00e3o uigur do Xijiang.<\/p>\n<p>Moscou tem sido palco de reuni\u00f5es interafeg\u00e3s e recebeu recentemente a visita de uma delega\u00e7\u00e3o Talib\u00e3 do mais alto n\u00edvel \u2013 o que faz admitir uma pr\u00f3xima retirada do grupo isl\u00e2mico da lista de organiza\u00e7\u00f5es consideradas terroristas pela R\u00fassia.<\/p>\n<p>Um Afeganist\u00e3o pacificado \u00e9 igualmente um objetivo que se enquadra nos esfor\u00e7os de integra\u00e7\u00e3o regional desenvolvidos pela R\u00fassia atrav\u00e9s da Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai e da Uni\u00e3o Econ\u00f3mica Euroasi\u00e1tica, que incluem projetos sintonizados com a\u00e7\u00f5es da China na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A fuga da OTAN de Bagram pela calada da madrugada de 2 de julho n\u00e3o foi, na perspectiva norte-americana, um movimento para induzir a pacifica\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o. H\u00e1 perspectivas claras sobre o futuro do pa\u00eds em termos de guerra e paz. O colonialismo ocidental continuar\u00e1 a privilegiar a guerra, ainda que em novos formatos, mas tanto em Washington como em Bruxelas seria aconselh\u00e1vel refletir sobre a tradi\u00e7\u00e3o afeg\u00e3 de ser um cemit\u00e9rio de imp\u00e9rios.<\/p>\n<p>O mais certo, por\u00e9m, \u00e9 que a cegueira geopol\u00edtica prevale\u00e7a.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Goul\u00e3o, Exclusivo O Lado Oculto\/AbrilAbril<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20650\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[228],"class_list":["post-20650","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5n4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20650","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20650"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20650\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20650"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20650"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20650"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}