{"id":20771,"date":"2018-09-09T10:46:08","date_gmt":"2018-09-09T13:46:08","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20771"},"modified":"2018-09-09T10:46:08","modified_gmt":"2018-09-09T13:46:08","slug":"o-fracasso-de-macri-e-seu-laboratorio-neoliberal-na-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20771","title":{"rendered":"O fracasso de Macri e seu laborat\u00f3rio neoliberal na Argentina"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resumenlatinoamericano.org\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/6-de-sep-ARGEN-620x400.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Santiago Mayor, El Salto<\/p>\n<p>Resumen Latinoamericano<\/p>\n<p><strong>Diferente das mobiliza\u00e7\u00f5es de 2001, a sociedade argentina conta com mecanismos de prote\u00e7\u00e3o social. No entanto, o projeto de Macri se racha e dispara a evas\u00e3o de capital.<\/strong><\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica argentina se acelerou nas \u00faltimas semanas e levou a Alian\u00e7a Cambiemos a sua situa\u00e7\u00e3o mais complicada desde que assumiu o Governo em dezembro de 2015. Tanto pela press\u00e3o dos capitais internacionais \u2013 atrav\u00e9s da fuga massiva de divisas que provocou uma desvaloriza\u00e7\u00e3o do peso \u2013 como por uma sociedade com um importante n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A alta do d\u00f3lar, que chegou a superar os 40 pesos na \u00faltima semana \u2013 provocando uma desvaloriza\u00e7\u00e3o de mais de 100% at\u00e9 agora \u2013 obrigou o Executivo liderado por Mauricio Macri a tomar medidas dr\u00e1sticas. Inserida em seu plano neoliberal, a resolu\u00e7\u00e3o foi apostar em maiores medidas de ajuste, algumas in\u00e9ditas na hist\u00f3ria da democr\u00e1tica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Entre estas \u00faltimas, se destaca a degrada\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade ao status de Secretaria dependente da pasta de Desenvolvimento Social. O mesmo aconteceu com o Minist\u00e9rio do Trabalho, que agora ficar\u00e1 sob a \u00f3rbita da Produ\u00e7\u00e3o, retrocedendo assim 70 anos de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Por sua vez, isto faz parte de uma aposta para reduzir o d\u00e9ficit fiscal que visa ser levado \u00e0 zero em 2019. Uma medida que tem um antecedente pouco feliz para a sociedade argentina: foi anunciada como a salva\u00e7\u00e3o pelo Governo de Fernando de la R\u00faa meses antes de estourar a maior crise da hist\u00f3ria do pa\u00eds sul-americano em dezembro de 2001.<\/p>\n<p>Para isto, se reduzir\u00e1 ainda mais o gasto p\u00fablico eliminando os subs\u00eddios a empresas privadas de servi\u00e7os o que, se espera, repercuta em mais aumentos de tarifas e mais infla\u00e7\u00e3o (originalmente prevista pelo Governo em uns 15% anuais e que j\u00e1 se prognostica acima de 35%).<\/p>\n<p><strong><em>Em come\u00e7os de 2018, os mesmos mecanismos que permitiram a entrada de divisas para a especula\u00e7\u00e3o financeira, garantiram sua r\u00e1pida sa\u00edda quando a alta da taxa de juros nos EUA golpeou todas as economias do mundo<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m continuar\u00e3o as demiss\u00f5es dos trabalhadores da Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, como vem acontecendo de forma sustentada. Por\u00e9m, essa tend\u00eancia agora se ver\u00e1 aprofundada pela elimina\u00e7\u00e3o de Minist\u00e9rios inteiros e seus consequentes programas. Une-se ao corte do or\u00e7amento para a Educa\u00e7\u00e3o e a Ci\u00eancia, o que desatou um extenso conflito nas Universidades Nacionais que se encontram h\u00e1 um m\u00eas em greve.<\/p>\n<p>Tudo isto far\u00e1 aumentar o desemprego e a pobreza, tal como reconheceu o pr\u00f3prio presidente durante um discurso ao pa\u00eds emitido na segunda-feira.<\/p>\n<p><strong>AS RAZ\u00d5ES DA CRISE<\/strong><\/p>\n<p>Desde sua chegada \u00e0 presid\u00eancia, Macri desenvolveu uma pol\u00edtica econ\u00f4mica com diretrizes claramente neoliberais que, combinadas com problemas estruturais, deixaram a Argentina em uma situa\u00e7\u00e3o muito fr\u00e1gil ante qualquer embate do mercado mundial.<\/p>\n<p>Entre as primeiras medidas, esteve baixar e, em alguns casos diretamente eliminar, o imposto \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria e mineradora. Desta forma, se anulou uma das principais fontes de dividas. Por sua vez, se permitiu a livre remessa de dinheiro das empresas \u00e0s matrizes (previamente, as multinacionais estavam obrigadas a ter um ano no pa\u00eds).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, implementaram enormes aumentos de tarifas de servi\u00e7os p\u00fablicos (eletricidade, g\u00e1s, \u00e1gua, transporte, combust\u00edveis) que impactaram no bolso da popula\u00e7\u00e3o e reduziram o consumo, gerando, assim, uma queda na atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Estas decis\u00f5es foram acompanhadas de uma desregula\u00e7\u00e3o total do mercado financeiro e uma taxa de lucro alta que permitiu a capitais especulativos fazer neg\u00f3cio com as chamadas Letras do Banco Central (Lebacs), gerando um importante ingresso de d\u00f3lares durante os primeiros dois anos de gest\u00e3o, por\u00e9m n\u00e3o para investimento em ind\u00fastrias nem para gerar vagas de emprego.<\/p>\n<p>Em come\u00e7os de 2018, os mesmos mecanismos que permitiram a entrada de divisas para a especula\u00e7\u00e3o financeira, garantiram sua r\u00e1pida sa\u00edda quando a alta da taxa de lucro nos EUA golpeou todas as economias do mundo. A primeira crise cambial \u2013 em maio \u2013 foi seguida por uma mais recente, em agosto.<\/p>\n<p><strong><em>O acordo com o FMI por 50.000 milh\u00f5es de d\u00f3lares converteu a Argentina no pa\u00eds mais endividado com o \u00f3rg\u00e3o financeiro a n\u00edvel mundial<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Durante este processo, a administra\u00e7\u00e3o Macri elevou a taxa de lucro de refer\u00eancia primeiro a 40% e, depois, a 60% (express\u00f5es \u00fanicas no mundo), tornando imposs\u00edvel qualquer tipo de financiamento ou cr\u00e9dito, sobretudo para as pequenas e m\u00e9dias empresas que s\u00e3o as principais credoras de postos de trabalho.<\/p>\n<p>O combo levou a uma economia estruturalmente dependente \u2013 cujo principal ingresso de divisas provem da exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias primas \u2013 a sofrer os embates da falta de d\u00f3lares e coloca-la \u00e0 beira de uma crise.<\/p>\n<p>Foi, ent\u00e3o, que Macri solicitou um empr\u00e9stimo ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI). O acordo por 50.000 milh\u00f5es de d\u00f3lares converteu a Argentina no pa\u00eds mais endividado com o \u00f3rg\u00e3o financeiro a nivel mundial e aprofundou sua depend\u00eancia, j\u00e1 que precisou adaptar-se aos objetivos impostos pelo organismo presidido por Christine Lagarde.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, n\u00e3o pode cumprir nem sequer com essas medidas e teve de levar a cabo recentemente o que foi qualificado por diversos analistas como um \u201cajuste do ajuste\u201d.<\/p>\n<p><strong>AS PRIMEIRAS FA\u00cdSCAS DE UM POVO ORGANIZADO E VIGILANTE<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s os an\u00fancios desta semana, se deram epis\u00f3dios isolados que lembram a crise anterior: ocorreram\u00a0<em>cacerolazos<\/em>\u00a0[panela\u00e7os] na Cidade de Buenos Aires e saques de com\u00e9rcios em alguns pontos do pa\u00eds. O mais tr\u00e1gico foi o sucedido na localidade de Sa\u00e9nz Pe\u00f1a, na prov\u00edncia de Chaco (noreste), onde um jovem de 13 anos morreu proveniente a um disparo no peito no marco da repress\u00e3o policial.<\/p>\n<p>No entanto, uma das principais diferen\u00e7as com a crise de 2001 e que permitem supor que o resultado n\u00e3o ser\u00e1 igual, \u00e9 o n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o que tem a sociedade argentina e sua estrutura de conten\u00e7\u00e3o. Existem dois grandes movimentos que se destacam por seu dinamismo e presen\u00e7a nas ruas: o feminismo e a economia popular.<\/p>\n<p>O primeiro, formado ao calor de d\u00e9cadas de organiza\u00e7\u00e3o paciente das mulheres argentinas, cobrou massividade a partir de 2015 no marco das mobiliza\u00e7\u00f5es de #NiUnaMenos contra os feminic\u00eddios e este ano marcou um momento ao conseguir que o debate do abroto chegasse ao Congresso. Apesar do Senado ter repudiado o projeto, isso n\u00e3o evitou que a discuss\u00e3o gerasse uma transforma\u00e7\u00e3o cultural que teve seu corol\u00e1rio na macha de dois milh\u00f5es de mulheres em 8 de agosto.<\/p>\n<p>Por sua vez, foi este movimento o primeiro a realizar uma greve nacional contra o governo de Macri em outubro de 2016, quando a principal central sindical, a Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho (CGT) se mostrou, como agora, hesitante.<\/p>\n<p>J\u00e1 o movimento da Economia Popular representa os setores desclassificados que n\u00e3o conseguiram ser integrados durante os governos de N\u00e9stor e Cristina Fern\u00e1ndez de Kirchner. Trata-se de pessoas que criaram seu pr\u00f3prio trabalho e est\u00e3o agrupadas centralmente em cooperativas hoje organizadas em torno da Confedera\u00e7\u00e3o de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP) e outras organiza\u00e7\u00f5es similares.<\/p>\n<p>Este movimento conseguiu importantes vit\u00f3rias, inclusive legislativas, como a Lei de Emerg\u00eancia Social, e foi um dos que arrancou mais recursos do Governo por sua forte inser\u00e7\u00e3o nos bairros populares, principalmente nos grandes centros urbanos e suas periferias.<\/p>\n<p>Um ator mais a considerar s\u00e3o os sindicatos que, ainda que com pouca rea\u00e7\u00e3o geral \u2013 salvo exce\u00e7\u00f5es \u2013, continuam sendo organiza\u00e7\u00f5es com um importante poder de press\u00e3o e capacidade de paralisar o pa\u00eds. Apesar de sua posi\u00e7\u00e3o historicamente negociadora, foram obrigados a deslocar-se cada vez mais para a oposi\u00e7\u00e3o ante a impossibilidade de acordar condi\u00e7\u00f5es aceit\u00e1veis para suas bases.<\/p>\n<p>Todas estas express\u00f5es, todavia com demandas parciais e desarticuladas, tiveram no entanto um enfrentamento frontal com o modelo neoliberal, seja por orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (como no caso do feminismo), como por reivindica\u00e7\u00f5es concretas (como na economia popular e sindicalismo tradicional).<\/p>\n<p>Finalmente, se complementam com uma oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que tamb\u00e9m se encontra dispersa, por\u00e9m que tem no kirchnerismo \u2013 com a figura da senadora e ex-presidente Cristina F. Kirchner encabe\u00e7ando \u2013 e nas distintas express\u00f5es da esquerda, dois atores que tamb\u00e9m mantiveram seu car\u00e1ter combativo e sem vacila\u00e7\u00f5es com o Governo.<\/p>\n<p><strong>UM NOVO 2001?<\/strong><\/p>\n<p>Embora as medidas econ\u00f4micas e algumas de suas consequ\u00eancias sejam muito similares as da \u00faltima grande crise do pa\u00eds, as bases sobre as quais se assenta s\u00e3o diferentes. A Argentina de hoje n\u00e3o tem mais de 20% de desemprego nem a metade da popula\u00e7\u00e3o vive na pobreza e seu PIB \u00e9 uns 150% maior que naquele momento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, durante os governos anteriores, gestou-se uma rede de assist\u00eancia social que, ainda que hoje deteriorada, continua servindo de barreira de conten\u00e7\u00e3o: aposentadorias, abono universal por filho, programas laborais nos bairros, etc. permitem que grande parte da popula\u00e7\u00e3o ainda tenha um m\u00ednimo de renda.<\/p>\n<p>Estas condi\u00e7\u00f5es gerais se complementam com os atores pol\u00edticos e sociais mencionados anteriormente, que canalizam e organizam a insatisfa\u00e7\u00e3o popular. Desta forma, \u00e9 prov\u00e1vel que a espontaneidade nas ruas que se viu durante a rebeli\u00e3o de 2001, hoje n\u00e3o se manifeste da mesma forma j\u00e1 que possui outros marcos organizativos e institucionais sobre os quais sustentar-se e expressar-se.<\/p>\n<p>Depender\u00e1 em grande parte dos movimentos do pr\u00f3prio Governo nas pr\u00f3ximas semanas qual ser\u00e1 o desenlace. Se opta por chegar \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de outubro de 2019 \u00e0 for\u00e7a de ajuste e repress\u00e3o ou deve optar por uma sa\u00edda antecipada ante a impossibilidade de evitar a crise.<\/p>\n<p>Em qualquer caso, o modelo neoliberal est\u00e1 golpeado e quem vier depois de Macri \u2013 seja de qual matiz pol\u00edtica for \u2013 dever\u00e1 resolver se escolhe seguir os ditames do FMI e do capital transnacional ou apoiar-se em um povo que come\u00e7a a dizer basta e est\u00e1 disposto a sair \u00e0s ruas.<\/p>\n<p>Fonte:\u00a0http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2018\/09\/06\/el-fracaso-de-macri-y-su-laboratorio-neoliberal-en-argentina\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20771\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[57],"tags":[227],"class_list":["post-20771","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c68-argentina","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5p1","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20771","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20771"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20771\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20771"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20771"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20771"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}