{"id":20786,"date":"2018-09-09T11:25:03","date_gmt":"2018-09-09T14:25:03","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20786"},"modified":"2018-09-09T11:25:03","modified_gmt":"2018-09-09T14:25:03","slug":"colonialismo-2-0-na-america-latina-e-no-caribe-o-que-fazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20786","title":{"rendered":"Colonialismo 2.0 na Am\u00e9rica Latina e no Caribe: o que fazer?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pt.cubadebate.cu\/files\/2018\/08\/2.0.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->CUBA DEBATE<\/p>\n<p>DESDE que a internet se tornou o sistema nervoso central da economia, a pesquisa, a informa\u00e7\u00e3o e a pol\u00edtica, as fronteiras dos EUA estenderam seus limites a toda a geografia planet\u00e1ria. Somente os Estados Unidos e suas empresas s\u00e3o soberanos, n\u00e3o h\u00e1 Estado-na\u00e7\u00e3o capaz de remodelar a rede por conta pr\u00f3pria ou frear o colonialismo 2.0, mesmo quando execute regulamenta\u00e7\u00f5es locais de prote\u00e7\u00e3o antimonop\u00f3licas e pol\u00edticas impec\u00e1veis de sustentabilidade na ordem social, ecol\u00f3gica, econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica. Ainda menos pode construir uma alternativa vi\u00e1vel desligada da chamada \u00absociedade da informa\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Muito cedo, o antrop\u00f3logo brasileiro Darcy Ribeiro alertou que, nas m\u00e3os de uma tecnologia revolucion\u00e1ria, \u00abexiste uma verdadeira coloniza\u00e7\u00e3o em andamento. Os EUA est\u00e3o cumprindo seu papel com enorme efic\u00e1cia no sentido de buscar complementaridades que nos tornar\u00e3o permanentemente dependentes deles \u00bb. E acrescentou: \u00abVendo essa nova civiliza\u00e7\u00e3o e todas as suas amea\u00e7as, temo que mais uma vez seremos povos que n\u00e3o se encaixem, povos que, apesar de todas as suas potencialidades, permanecem como povos de segunda classe\u00bb.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio est\u00e1 vinculado a um programa para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe de controle dos conte\u00fado e dos ambientes de participa\u00e7\u00e3o da cidadania executado com total impunidade, sem que a esquerda tenha prestado a menor aten\u00e7\u00e3o a ele. Em 2011, o Comit\u00ea das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Senado dos EUA aprovou o que em alguns c\u00edrculos acad\u00eamicos \u00e9 conhecido como opera\u00e7\u00e3o \u00abconectividade efetiva\u00bb declarado em um documento p\u00fablico do Congresso dos EUA para \u00abexpandir\u00bb os novos meios sociais no continente, focados na promo\u00e7\u00e3o dos interesses americanos na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O documento explica qual o interesse nas chamadas redes sociais do continente: \u00abCom mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o do mundo menor de 30 anos, as novas m\u00eddias sociais e tecnologias associadas, que s\u00e3o t\u00e3o populares neste grupo demogr\u00e1fico, continuar\u00e3o revolucionando as comunica\u00e7\u00f5es no futuro. A m\u00eddia social e os incentivos tecnol\u00f3gicos da Am\u00e9rica Latina, com base em realidades pol\u00edticas, econ\u00f4micas e sociais ser\u00e1 crucial para o sucesso dos esfor\u00e7os do governo dos EUA na regi\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m resume a visita de uma comiss\u00e3o de especialistas a v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina para conhecer in situ as pol\u00edticas e financiamentos nesta \u00e1rea e conclui com recomenda\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para cada um dos nossos pa\u00edses, que envolvem \u00abaumentar a conectividade e minimizar os riscos cr\u00edticos para EUA\u00bb, governo l\u00edder no investimento de infraestrutura. \u00abO n\u00famero de usu\u00e1rios da m\u00eddia social aumenta exponencialmente na medida em que a novidade se torna a norma, as possibilidades de influenciar o discurso pol\u00edtico e da pol\u00edtica no futuro est\u00e3o a\u00ed\u00bb, diz ele.<\/p>\n<p>O que h\u00e1 por tr\u00e1s desse modelo de \u00abconectividade efetiva\u00bb para a Am\u00e9rica Latina? A vis\u00e3o instrumental do ser humano, suscet\u00edvel de ser dominado pelas tecnologias digitais; a certeza de que, em nenhum caso, as chamadas plataformas sociais s\u00e3o um servi\u00e7o neutro que explora um servi\u00e7o gen\u00e9rico; s\u00e3o fundadas em bases tecnol\u00f3gicas e ideol\u00f3gicas e s\u00e3o sistemas institucionalizados e automatizados que inevitavelmente projetam e manipulam conex\u00f5es.<\/p>\n<p>O que calcula o governo dos EUA com sua \u00abopera\u00e7\u00e3o\u00bb \u00e9 a possibilidade de que essas ferramentas criem uma simula\u00e7\u00e3o de base e colapsem sistemas pol\u00edticos que n\u00e3o s\u00e3o \u00abconvenientes\u00bb. Qual parte operou das redes sociais na situa\u00e7\u00e3o que vivem hoje a Venezuela e a Nicar\u00e1gua e antes vimos na Bol\u00edvia, no Brasil, no Equador e na Argentina?<\/p>\n<p>QUANDO A POL\u00cdTICA \u00c9 TECNOPOL\u00cdTICA<\/p>\n<p>Apenas as grandes empresas t\u00eam capacidade de processamento para processar as quantidades colossais de dados que deixamos nas redes sociais, em cada clique nos mecanismos de busca, telefones celulares, cart\u00f5es magn\u00e9ticos, chats e e-mails. A soma dos rastros e o processamento de dados permitem criar valor. Quanto mais conex\u00f5es, mais capital social. Mas os interesses fundamentais da abertura dos dados e o convite para \u00abcompartilhar\u00bb, para \u00abcurtir\u00bb ou \u00abn\u00e3o curtir\u00bb para \u00abretuitar\u00bb, etc., n\u00e3o s\u00e3o os usu\u00e1rios, mas os das corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse poder d\u00e1 aos propriet\u00e1rios uma enorme vantagem sobre os usu\u00e1rios na batalha pelo controle de informa\u00e7\u00f5es. A Cambridge Analytica, filial de Londres de um empreiteiro estadunidense dedicada a opera\u00e7\u00f5es militares em rede ativa por um quarto de s\u00e9culo, interveio em cerca de 200 elei\u00e7\u00f5es em metade do mundo. O modus operandi era o das \u00abopera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas\u00bb; seu objetivo: mudar a opini\u00e3o das pessoas e influenci\u00e1-las, n\u00e3o atrav\u00e9s da persuas\u00e3o, mas atrav\u00e9s do \u00abdom\u00ednio da informa\u00e7\u00e3o\u00bb. A novidade n\u00e3o \u00e9 o uso de folhetos, a Radio Europa Libre ou a TV Mart\u00ed, mas o Big Data e a intelig\u00eancia artificial para trancar cada cidad\u00e3o que deixa rastros na rede em uma bolha observ\u00e1vel, parametrizada e previs\u00edvel.<\/p>\n<p>A Cambridge Analytica envolveu-se em processos eleitorais contra os l\u00edderes de esquerda na Argentina, Col\u00f4mbia, Brasil e M\u00e9xico. Na Argentina, por exemplo, participaram da campanha de Mauricio Macri em 2015, criando perfis psicol\u00f3gicos detalhados e identificando pessoas perme\u00e1veis \u00e0s mudan\u00e7as de opini\u00e3o para influenciar atrav\u00e9s de informa\u00e7\u00f5es falsas e sele\u00e7\u00e3o parcial da informa\u00e7\u00e3o. Assim que assumiu o cargo, Macri aprovou um decreto que lhe permitiu manter bases de dados de ag\u00eancias governamentais para us\u00e1-los em campanhas em seu favor, mais um entre muitos outros com os quais cortou a base jur\u00eddica e institucional de comunica\u00e7\u00e3o forjada nos governos de esquerda na Argentina.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, a pol\u00edtica tornou-se tecno-pol\u00edtica, sua variante mais c\u00ednica. O pr\u00f3prio Alexander Nix, CEO da Cambridge Analytica, vangloriou-se perante seus clientes de que para convencer \u00abn\u00e3o importa a verdade, \u00e9 necess\u00e1rio que o que se diga seja cred\u00edvel\u00bb, e destacava um fato emp\u00edrico inquestion\u00e1vel: o descr\u00e9dito da publicidade comercial em massa \u00e9 diretamente proporcional ao aumento da publicidade nas m\u00eddias sociais, altamente personalizada e brutalmente efetiva.<\/p>\n<p>Quem rever a p\u00e1gina de parceiros do Facebook (Facebook Marketing Partners) vai descobrir centenas de empresas dedicadas a comprar e vender dados e troc\u00e1-los com a empresa do polegar azul. Algumas at\u00e9 se especializaram em \u00e1reas geogr\u00e1ficas ou pa\u00edses como a Cisneros Interative \u2013 do Grupo Cisneros, que participou do golpe contra o presidente Ch\u00e1vez em 2002, revendedor do Facebook, que j\u00e1 controla o mercado de publicidade digital em 17 pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O QUE FAZER?<\/p>\n<p>Essas quest\u00f5es ainda est\u00e3o longe dos debates profissionais e dos programas dos movimentos progressistas do continente. Sobram os discursos satanizadores ou hipnotizados que descrevem a nova civiliza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas faltam estrat\u00e9gias e programas que nos permitam gerar linhas de a\u00e7\u00e3o para construir um modelo verdadeiramente soberano da informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o e apropriarmo-nos das chamadas novas tecnologias.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi poss\u00edvel concretizar na regi\u00e3o um canal pr\u00f3prio de fibra \u00f3tica, um sonho da Unasul. N\u00e3o existe uma estrat\u00e9gia sist\u00eamica ou quadro jur\u00eddico homog\u00eaneo e confi\u00e1vel, que minimize o controle dos EUA, garanta que o tr\u00e1fego de rede se intercambie entre os pa\u00edses vizinhos, incentive o uso de tecnologias que assegurem a confidencialidade das comunica\u00e7\u00f5es, preserve os recursos humanos na regi\u00e3o e elimine os obst\u00e1culos \u00e0 comercializa\u00e7\u00e3o de instrumentos, conte\u00fados e servi\u00e7os digitais produzidos em nosso p\u00e1tio.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o se avan\u00e7ou em uma agenda comunicacional comum, supranacional, nem em espa\u00e7os onde se concretize. Precisamos de redes de observat\u00f3rios que, al\u00e9m de fornecer indicadores b\u00e1sicos e alertas sobre a coloniza\u00e7\u00e3o do nosso espa\u00e7o digital, permitam recuperar e socializar as boas pr\u00e1ticas na utiliza\u00e7\u00e3o destas tecnologias e a\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia na regi\u00e3o, a partir do entendimento de que o sucesso ou fracasso diante dessas novas desigualdades depende de decis\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Nenhum pa\u00eds no Sul por si s\u00f3 \u2013 e muito menos uma organiza\u00e7\u00e3o isolada \u2014 pode encontrar recursos para desafiar o poder da direita que \u00e9 mobilizada na velocidade de um clique.<\/p>\n<p>Esse debate sobre apocal\u00edpticos e integrados \u00e0 cultura de massas foi transcendido h\u00e1 algum tempo. Esse mundo est\u00e1vel descrito por Umberto Eco n\u00e3o existe mais. Existem v\u00e1rias sa\u00eddas no horizonte e uma delas pode ser aquela em que n\u00f3s comecemos a criar as nossas pr\u00f3prias ferramentas libertadoras, mas a busca e constru\u00e7\u00e3o de alternativas n\u00e3o \u00e9 apenas um problema tecno-cient\u00edfico: depende sobretudo do \u00abato coletivo\u00bb no curto e m\u00e9dio prazo, com perspectivas t\u00e1ticas e estrat\u00e9gicas na comunica\u00e7\u00e3o presencial e virtual que facilitem a mudan\u00e7a das rela\u00e7\u00f5es sociais e das redes t\u00e9cnicas em favor de nossos povos. Vamos fazer isso, porque n\u00e3o temos muito tempo.<\/p>\n<p><strong>(Granma)<\/strong><\/p>\n<p>http:\/\/pt.cubadebate.cu\/noticias\/2018\/08\/23\/colonialismo-20-na-america-latina-e-no-caribe-o-que-fazer\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20786\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[226],"class_list":["post-20786","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5pg","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20786","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20786"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20786\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20786"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20786"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20786"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}