{"id":2081,"date":"2011-11-17T21:27:40","date_gmt":"2011-11-17T21:27:40","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2081"},"modified":"2011-11-17T21:27:40","modified_gmt":"2011-11-17T21:27:40","slug":"gonzalo-malcolm-e-fidel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2081","title":{"rendered":"Gonzalo, Malcolm e Fidel"},"content":{"rendered":"\n<p>O Hotel Theresa foi o mais alto, belo e imponente edif\u00edcio do Harlem durante seis d\u00e9cadas.\u00a0 Com seu estilo neorrenascentista, onze andares e trezentos quartos, destacava-se das constru\u00e7\u00f5es \u00e0 sua volta e chegou a ser comparado at\u00e9 mesmo ao Waldorf Astoria.\u00a0 Ainda que durante um bom tempo a ger\u00eancia s\u00f3 aceitasse h\u00f3spedes brancos e algumas poucas celebridades negras, a partir dos anos quarenta os novos donos, desta vez afro-americanos, mudaram a cara do lugar.\u00a0 O fato \u00e9 que o Harlem entrou num processo de decad\u00eancia e empobrecimento paulatinos, especialmente nos anos vinte, levando boa parte dos moradores endinheirados a se transferir para bairros distantes dali.\u00a0 Por outro lado, enquanto ocorria esse processo de pauperiza\u00e7\u00e3o e deprecia\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, a popula\u00e7\u00e3o negra come\u00e7ava a afluir em grande n\u00famero para os pr\u00e9dios residenciais e neg\u00f3cios locais, e tomou conta da \u00e1rea.\u00a0 Eram trabalhadores, migrantes, em sua maioria da Virg\u00ednia, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Ge\u00f3rgia.\u00a0 Entre 1920 e 1930, em torno de 118. 792 moradores brancos se mudaram de l\u00e1, enquanto, no mesmo per\u00edodo, 87. 417 negros chegaram para viver naquele bairro.\u00a0 Foi ent\u00e3o que o Harlem tornou-se, de fato, a \u201ccapital\u201d da\u00a0<em>Black America. <\/em>Entre seus mais emblem\u00e1ticos\u00a0<em>landmarks,<\/em> como o Cotton Club, o Savoy Ballroom e o Apollo Theater, o Theresa certamente tamb\u00e9m deve ser inclu\u00eddo.<\/p>\n<p>Projetado pelos arquitetos George e Edward Blum, e constru\u00eddo pelo alem\u00e3o Gustavus Sidenberg, um pouco antes da Primeira Guerra Mundial, mais tarde, depois de ser \u201cdessegregado\u201d, teve como h\u00f3spedes ilustres, artistas como Louis Armstrong, Lena Horne, Josephine Baker, Duke Ellington, Jimi Hendrix, e muitos outros.\u00a0 Velhos tempos\u2026 De l\u00e1 para c\u00e1, muita coisa havia mudado\u2026<\/p>\n<p>Na esquina da Adam Clayton Powell Jr. Boulevard e Martin Luther King Jr. Boulevard (anteriormente, a 7\u00aa Avenida com a rua 125), um vulto pequeno e magro se misturava \u00e0 massa an\u00f4nima que transitava de um lado ao outro, apressada.\u00a0 Pernas finas, levemente arqueadas, repletas de estrias; os bra\u00e7os delgados, el\u00e1sticos, pendendo displicentemente nos ombros; a singela barriga fl\u00e1cida despontando do tronco pouco desenvolvido; uma boca grande, rasgada, escondendo a comprida l\u00edngua negra e enrolada; a pele musguenta e pegajosa, com as rugas de sempre; e os olhos, dilatados, de cor amarelada, enfeitados por p\u00e9s de galinha nas laterais e duas olheiras que mais pareciam sacos de areia.\u00a0 Sim, leitor, voc\u00ea j\u00e1 sabe de quem se tratava: era Gonzalo, o pol\u00eamico sapo argentino, de visita \u00e0 terra do Tio Sam, numa quent\u00edssima tarde de ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Dava para ver que precisava de mais uma grande x\u00edcara de caf\u00e9 amargo.\u00a0 E logo.\u00a0 As duas canecas do Java aguado que tomara depois do almo\u00e7o numa lanchonete pulguenta nas imedia\u00e7\u00f5es n\u00e3o haviam sido suficientes.\u00a0 Queria algo mais a seu gosto.\u00a0\u00a0<em>\u201cCaf\u00e9 de hombre\u201d, <\/em>pensava sempre em momentos como aquele.<\/p>\n<p>Pelo menos estava num pa\u00eds onde muitas pessoas falavam espanhol.\u00a0 Afinal, boa parte do territ\u00f3rio dos Estados Unidos havia sido do M\u00e9xico.\u00a0 A popula\u00e7\u00e3o hisp\u00e2nica, e principalmente a mexicana, era enorme e cada vez mais crescia e retomava, paulatinamente, o que antes havia sido seu. Gonzalo, portanto, podia se comunicar em castelhano com gar\u00e7ons, taxistas e atendentes, o que certamente ajudava.\u00a0 Como preferia ficar sempre do lado dos\u00a0<em>underdogs, <\/em>estava bem acompanhado.<\/p>\n<p>O caf\u00e9 n\u00e3o sa\u00eda de sua cabe\u00e7a e ele cogitava ir para alguma Deli logo, logo.\u00a0 O clima excruciante (principalmente com a barriga cheia ap\u00f3s uma \u201crefei\u00e7\u00e3o\u201d composta de corantes, aditivos qu\u00edmicos e gordura saturada) lhe dava tonturas.\u00a0 Mas antes de entrar em qualquer recinto com o ar-condicionado ligado na pot\u00eancia m\u00e1xima e que tivesse um letreiro de neon em cima de sua porta principal, o batr\u00e1quio queria tirar uns minutos para apreciar, diante de si, aquele que fora o antigo e cl\u00e1ssico \u201cmonumento\u201d do bairro.\u00a0 Afinal de contas, se at\u00e9 1967 (ano em que foi fechado) aquele era um hotel de renome internacional, desde 1971 havia se transformado no \u201cTheresa Towers\u201d e usado como espa\u00e7o para salas, escrit\u00f3rios comerciais e ap\u00eandice de algumas universidades.\u00a0 Ah, o bom e velho Theresa\u2026 Quantas mudan\u00e7as!<\/p>\n<p>O anuro argentino olhava para as janelas cintilantes da ampla fachada, que refletia a luz do sol.\u00a0 Em total sil\u00eancio, n\u00e3o emitia palavra, um grunhido sequer, permanecendo est\u00e1tico, enquanto os pedestres esbarravam vez por outra em seus ombros, aos encontr\u00f5es, ou ent\u00e3o cruzavam por ele, sem sequer not\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Passou um len\u00e7o na testa; quase cambaleou.\u00a0 O calor era tanto que dava para fritar um peda\u00e7o de\u00a0<em>bacon<\/em> no asfalto.<\/p>\n<p>Tirou um ma\u00e7o de\u00a0<em>American Spirit <\/em>do bolso e colocou um cigarro amassado entre os l\u00e1bios.\u00a0 Como n\u00e3o tinha isqueiro, e n\u00e3o queria parar ningu\u00e9m na cal\u00e7ada para pedir um f\u00f3sforo que fosse, decidiu encostar a ponta do palheiro \u201ctotalmente org\u00e2nico\u201d num poste de luz, pelando, e deu uma tragada.\u00a0 Estava t\u00e3o quente que acendeu o fumo na hora!<\/p>\n<p>Um vapor escaldante subia do ch\u00e3o de concreto; algumas figuras ao longe pareciam se liquifazer, suas silhuetas dan\u00e7ando como se pulverizassem no ar, \u00e0 semelhan\u00e7a de miragens no deserto.\u00a0 Um senhor, idoso, abriu um hidrante, e crian\u00e7as brincavam com os jatos d\u2019\u00e1gua.\u00a0 Calor insuport\u00e1vel! As solas dos p\u00e9s do<em>hermano <\/em>j\u00e1 ganhavam as primeiras bolhas; a cachola parecia ferver; e os l\u00e1bios, ardiam como carv\u00e3o em brasa.\u00a0 Mas ele, apesar de tudo isso, aguentava\u2026<\/p>\n<p>At\u00e9 que sentiu um toque gelado no ombro, como se um p\u00e9-de-vento acabasse de cutuc\u00e1-lo.\u00a0 Estranhamente, parecia at\u00e9 que era algu\u00e9m tentando chamar sua aten\u00e7\u00e3o.\u00a0 Quando virou o rosto para ver do que se tratava, levou um susto; um arrepio percorreu sua espinha inteira, de baixo para cima.\u00a0 Os olhos arregalados de Gonzalo, saltados para fora do rosto, pareciam dois ovos de avestruz; as pupilas tremelicavam; pequeninas art\u00e9rias, como rel\u00e2mpagos escarlates, se irradiavam da \u00edris irritada.<\/p>\n<p>\u201cBoa tarde\u201d, disse o estranho.<\/p>\n<p>Gonzalo n\u00e3o sabia o que falar.<\/p>\n<p>O homem continuou:<\/p>\n<p>\u201cBelo edif\u00edcio, n\u00e3o? J\u00e1 esteve dentro dele?\u201d<\/p>\n<p>O mutismo do batr\u00e1quio prosseguia.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea pelo jeito n\u00e3o \u00e9 de falar muito\u2026\u201d<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Gonzalo balbuciou:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 que estou um pouco surpreso\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 sei, voc\u00ea est\u00e1 me achando um pouco estranho\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o foi isso que eu quis dizer\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cTudo bem, compreendo.\u00a0 \u00c9 sempre assim da primeira vez\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea \u00e9, por acaso\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cSugar Ray Robinson.\u00a0 Ou melhor, o que restou dele\u201d.<\/p>\n<p>O homem esticou as m\u00e3os calejadas, putrefatas, as unhas sujas e levemente compridas, os n\u00f3dulos dos dedos ossudos, ainda bastante inchados.\u00a0 Cumprimentou Gonzalo, que tentou apertar a m\u00e3o do interlocutor, mas s\u00f3 encontrou o ar.<\/p>\n<p>\u201cE-e-eu m-m-me chamo Gonzalo\u2026 Estou aqui de f\u00e9rias\u2026\u201d, respondeu, gaguejando, tentando se recompor.<\/p>\n<p>Percebendo o desconforto do sapo, Sugar Ray tentou tranquiliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea deve ter notado que estou um pouco p\u00e1lido\u2026 \u00c9 que desde que fiquei neste estado lastim\u00e1vel, perdi aquelas bochechas coradas.\u00a0 Acho que \u00e9 algo transit\u00f3rio\u2026 Pelo menos, \u00e9 o que eu espero\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea est\u00e1 dizendo\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cSim, ser um ectoplasma nos dias de hoje n\u00e3o \u00e9 coisa f\u00e1cil\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cUm fantasma!\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o gosto muito desta palavra.\u00a0 Mas, tecnicamente, voc\u00ea est\u00e1 certo\u2026 O mais estranho \u00e9 poder ver atrav\u00e9s do seu pr\u00f3prio corpo.\u00a0\u00a0<em>Really weird\u2026 <\/em>A gente se toca, mas n\u00e3o sente nada\u2026 Uma sensa\u00e7\u00e3o bem esquisita mesmo\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 verdade\u201d, respondeu o jia riplantense, j\u00e1 mais calmo.\u00a0 \u201cPosso imaginar pelo que voc\u00ea est\u00e1 passando.\u00a0 Mas n\u00e3o desanime.\u00a0 Olhe s\u00f3, voc\u00ea est\u00e1 igualzinho \u00e0 imagem que tenho de seus tempos de\u00a0<em>boxeur <\/em>na ativa.\u00a0 Vi muitas fotos e filmagens de suas lutas, na \u00e9poca em que voc\u00ea estava no auge.\u00a0 A cara \u00e9 a mesma! Talvez s\u00f3 um pouquinho caqu\u00e9tico, mas isso passa\u2026 Ainda tem a talha do velho campe\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>\u201cObrigado, voc\u00ea \u00e9 muito gentil.\u00a0 Se voc\u00ea visse a apar\u00eancia do Rocky Graziano e do Jack Dempsey nos dias de hoje, me acharia um gal\u00e3! Aqueles branquelos est\u00e3o horr\u00edveis, as fu\u00e7as mais amassadas do que se tivessem levado umas pancadas do Mike Tyson depois de doze\u00a0<em>rounds!<\/em> Parece que foram atropelados por um caminh\u00e3o! Lembra daquele cantor, o Michael Jackson?\u00a0 Andava um pouco estranho nos \u00faltimos tempos, n\u00e3o acha? Pois Graziano e Dempsey est\u00e3o com um aspecto pior do que o dele\u2026 E olha que isso \u00e9 bem dif\u00edcil\u2026 J\u00e1 eu\u2026 A mulherada aqui da outra dimens\u00e3o at\u00e9 que me elogia bastante\u2026 Mas o que o traz aqui? Digo, ao Harlem.\u00a0 Por acaso conhece a hist\u00f3ria do Theresa?\u201d<\/p>\n<p>\u201cUm pouco.\u00a0 \u00c9, de fato, um bel\u00edssimo edif\u00edcio\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 mais do que isso.\u00a0 Cada um de seus quartos e corredores traz a mem\u00f3ria viva deste bairro.\u00a0 Eu mesmo me hospedei muito aqui.\u00a0 Foi constru\u00eddo um ano antes de eu nascer.\u00a0 \u00c9 um lugar especial para mim\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cParece que Joe Louis vinha sempre comemorar suas vit\u00f3rias no restaurante do hotel.\u00a0 Dizem que quando ganhou o campeonato mundial de pesos pesados pela primeira vez, superlotou o lugar com milhares de f\u00e3s negros\u201d.<\/p>\n<p>\u201cIsso.\u00a0 E Muhammad Ali tamb\u00e9m vinha muito aqui\u201d.<\/p>\n<p>O ectoplasma brilhoso de Sugar Ray meneava a cabe\u00e7a, sorrindo com as lembran\u00e7as dos velhos tempos.<\/p>\n<p>Robinson continuou:<\/p>\n<p>\u201cAli que, por sinal, virou as costas para Malcolm X, o homem que mais o apoiou quando ainda era Cassius Clay, em sua busca para conquistar o cintur\u00e3o dos pesos pesados.\u00a0 O l\u00edder mu\u00e7ulmano esteve sempre a seu lado, dando total apoio, lhe injetando \u00e2nimo e insistindo que venceria a luta contra Sonny Liston, algo que ningu\u00e9m acreditava.\u00a0 Clay se tornou campe\u00e3o mundial e, no dia seguinte, se converteu ao islamismo e ingressou na Na\u00e7\u00e3o do Isl\u00e3.\u00a0 Tudo isso por causa de Malcolm, seu principal mentor no momento\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 verdade.\u00a0 E depois de tudo isso, Clay, mesmo assim, preferiu ficar do lado de Elijah Muhammad, o l\u00edder da NOI, que lhe deu o novo nome de Muhammad Ali.\u00a0 Por falar nisso, Malcolm tamb\u00e9m tem sua hist\u00f3ria ligada ao velho Theresa.\u00a0 Pois foi aqui que ele manteve a sede da\u00a0<em>Organization of Afro-American Unity<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>\u201cIsso! A primeira vez que Malcolm esteve diante do Theresa, em 1942, provavelmente n\u00e3o imaginou o papel que a hospedaria teria em sua vida.\u00a0 Bem aqui onde estamos, em frente ao pr\u00e9dio, ele fez v\u00e1rios discursos em manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, com centenas e centenas de pessoas a sua volta, e no interior do edif\u00edcio, deu diversas confer\u00eancias para a imprensa.\u00a0 O Theresa se tornaria o\u00a0<em>headquarter <\/em>da OAAU\u2026 Mais especificamente, a su\u00edte 128, na pr\u00e1tica, um enorme aposento no mezanino do hotel.\u00a0 Voc\u00ea v\u00ea como as hist\u00f3rias de todos n\u00f3s, m\u00fasicos, artistas, pol\u00edticos, atletas, se cruzam aqui! O Theresa era onde a nata da cultura negra norte-americana se encontrava! Mas talvez o auge do velho hotel tenha sido em 1960, quando nosso querido Fidel e sua comitiva se hospedaram nele\u201d.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 ouvi sobre esse epis\u00f3dio.\u00a0 Aquele deve ter sido um evento inesquec\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>E foi.\u00a0 A visita de Fidel, de fato, foi um grande acontecimento\u2026<\/p>\n<p>Em outubro de 1995, Fidel Castro era recebido por quase 1. 600 moradores do Harlem, que lotaram entusiasticamente a Igreja Batista Abiss\u00ednia para ouvi-lo discursar.\u00a0 Aquela era a volta triunfal do presidente de Cuba, que tr\u00eas d\u00e9cadas e meia antes, ainda como primeiro-ministro, fora recebido de bra\u00e7os abertos pela popula\u00e7\u00e3o daquele bairro pobre de Nova Iorque.<\/p>\n<p>No dia 18 de setembro de 1960, Castro chegou aos Estados Unidos para participar das comemora\u00e7\u00f5es dos quinze anos da funda\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas e discursar na Assembl\u00e9ia Geral da ONU.\u00a0 N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que ele era a principal estrela do evento.<\/p>\n<p>Um dia antes de sua viagem, ele havia assinado decretos nacionalizando tr\u00eas subsidi\u00e1rias de bancos norte-americanos na ilha, e a esta altura, j\u00e1 era visto como uma pedra no sapato de Washington, que cada vez mais o considerava um inimigo.\u00a0 A CIA, como se pode imaginar, j\u00e1 andava elaborando planos mirabolantes para assassin\u00e1-lo, sem \u00eaxito.<\/p>\n<p>Nos dez dias que permaneceriam na cidade, Fidel e sua\u00a0<em>entourage <\/em>de cinquenta pessoas (o historiador Manning Marable nos conta que eram \u201coitenta e cinco\u201d) seriam supostamente \u201cprotegidos\u201d por 258 homens do Departamento de Pol\u00edcia de Nova Iorque.\u00a0 A delega\u00e7\u00e3o cubana inicialmente ficou hospedada em vinte su\u00edtes no caro e confort\u00e1vel Shelburne Hotel, na Avenida Lexington com a Rua 37, perto da ONU.\u00a0 Fidel, contudo, estava extremamente incomodado com o tratamento dado pelo hotel: n\u00e3o concordava que a ger\u00eancia exigisse dos cubanos um dep\u00f3sito pr\u00e9vio de dez mil d\u00f3lares em dinheiro vivo.\u00a0 Por seu lado, o hotel n\u00e3o queria a presen\u00e7a daquela comitiva, e s\u00f3 aceitou receb\u00ea-la por insist\u00eancia do Departamento de Estado.\u00a0 O pessoal do Shelbourne alegava que os cubanos fritavam galinhas nos aposentos e teriam causado estragos nas instala\u00e7\u00f5es que acarretavam em preju\u00edzos no valor de\u00a0<em>ten grand.<\/em> Por isso, a exig\u00eancia daquele dep\u00f3sito.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o tornou-se desagrad\u00e1vel o suficiente para que o\u00a0<em>Comandante, <\/em>irritado, decidisse abandonar o local, indo, em prociss\u00e3o, por oito quadras, at\u00e9 o edif\u00edcio da Secretaria Geral da ONU, na Primeira Avenida, para fazer um protesto formal ao pr\u00f3prio secret\u00e1rio Dag Hammarskj\u00f6ld.\u00a0 Fidel e mais sete companheiros seguiram num Oldsmobile preto, acompanhados de outros autom\u00f3veis, membros da delega\u00e7\u00e3o a p\u00e9, policiais e jornalistas.<\/p>\n<p>O l\u00edder cubano chegou a dizer que, se fosse o caso, levaria sua comitiva inteira para acampar no Central Park.\u00a0 Afinal de contas, eram todos guerrilheiros, haviam lutado na\u00a0<em>Sierra Maestra <\/em>e podiam muito bem montar barracas e levantar um acampamento completo no gramado do maior parque de Manhattan.\u00a0 Quando o governo norte-americano, preocupado com a repercuss\u00e3o negativa dos fatos, ofereceu \u00e0 delega\u00e7\u00e3o aposentos \u201cde gra\u00e7a\u201d no luxuoso Commodore Hotel, a tr\u00eas quadras da ONU, o barbudo recusou.<\/p>\n<p>Pois foi neste exato momento que um grupo ligado ao\u00a0<em>Fair Play for Cuba Committee <\/em>(v\u00e1rios deles militantes do\u00a0<em>Socialist Workers Party<\/em>), prop\u00f4s aos cubanos que fossem para o Harlem.\u00a0 O gesto de Fidel de levar, pela primeira vez na hist\u00f3ria, uma comitiva diplom\u00e1tica estrangeira para o famoso bairro negro nova-iorquino, seria simb\u00f3lico e certamente apreciado e admirado pelos afro-americanos de todos os Estados Unidos.\u00a0 O\u00a0<em>Jefe M\u00e1ximo<\/em> imediatamente aceitou o convite e reservas foram feitas para quarenta quartos no hist\u00f3rico Hotel Theresa (h\u00e1 quem diga que foram oitenta aposentos, por oitocentos d\u00f3lares por dia).<\/p>\n<p>Ao chegar l\u00e1, Fidel seria recepcionado pelos membros do\u00a0<em>Fair Play, <\/em>que ficariam no s\u00e9timo piso e colocariam v\u00e1rios de seus militantes em frente de cada elevador e sa\u00eddas do pr\u00e9dio, para garantir a seguran\u00e7a.\u00a0 Os cubanos, assim, estariam \u201cprotegidos\u201d!<\/p>\n<p>No Harlem, Fidel teve uma recep\u00e7\u00e3o calorosa.\u00a0 Junto com o Comandante Juan Almeida (o\u00a0<em>Chief of Staff <\/em>das For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias, que fora trazido \u00e0s pressas para a ocasi\u00e3o, por ser negro e simbolicamente mostrar a inclus\u00e3o racial e oportunidades para todos em Cuba) e outros delegados, Castro caminhou pelas ruas do bairro, cumprimentando moradores, tomando suco de laranja e comendo cachorros-quentes, em clima festivo.\u00a0 O dirigente hist\u00f3rico do Partido Comunista dos Estados Unidos, Benjamin J. Davis, tamb\u00e9m negro, ainda organizou uma manifesta\u00e7\u00e3o a favor de Fidel, que contou com a presen\u00e7a de grande p\u00fablico.<\/p>\n<p>Em sua su\u00edte, no nono andar do Theresa, o\u00a0<em>Jefe M\u00e1ximo <\/em>receberia a visita de importantes l\u00edderes mundiais, como Gamal Abdel Nasser, do Egito, Jawaharlal Nehru, da \u00cdndia, Antonin Novotny, da Tchecoslov\u00e1quia, Kwame Nkrumah, de Ghana e Nikita Kruschev, da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.\u00a0 No dia 19, tamb\u00e9m conversou com Malcolm X, que anos mais tarde chegaria a conhecer e se tornar amigo e admirador de Che Guevara.\u00a0 Um dos membros da Na\u00e7\u00e3o do Isl\u00e3 presentes na reuni\u00e3o com Fidel, Benjamin 2X Goodman, afirmou que Malcolm tentou convencer Castro a se unir aos\u00a0<em>Black Muslims <\/em>(algo que parece duvidoso).\u00a0 O que foi discutido, de fato, entre os dois naquele dia, contudo, ainda \u00e9 algo bastante difuso.\u00a0 O que se sabe \u00e9 que Malcolm foi convidado v\u00e1rias vezes a visitar Cuba (mas nunca aceitou) e que deu ordens, num discurso no Mosque No. 7, em 21 de setembro, para que os homens da Na\u00e7\u00e3o do Isl\u00e3 ali presentes ficassem em estado de alerta 24 horas por dia, enquanto Fidel permanecesse no Harlem, j\u00e1 que o revolucion\u00e1rio era, de acordo com ele, um amigo dos mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>Do lado de fora do hotel, todas as noites, centenas de pessoas olhavam para as janelas l\u00e1 no alto, tentando receber um aceno que fosse de Fidel.\u00a0 O frenesi era tanto que o\u00a0<em>New York Times <\/em>chegou a dizer que aquele era o maior evento na rua 125 desde o funeral do famoso\u00a0<em>bluesman <\/em>W. C. Handy, em 1958.<\/p>\n<p>Desde a chegada da comitiva, entretanto, a m\u00eddia local n\u00e3o cansou de atacar a delega\u00e7\u00e3o da ilha caribenha com todo tipo de acusa\u00e7\u00f5es e falsifica\u00e7\u00f5es.\u00a0 Jornalistas at\u00e9 mesmo afirmaram que os cubanos, \u201cbarbudos de uniforme verde-oliva, coturnos e boina na cabe\u00e7a\u201d, convidavam prostitutas para seus quartos e corriam atr\u00e1s de galinhas nos corredores do hotel, para agarr\u00e1-las e cozinh\u00e1-las em seus aposentos.\u00a0 Not\u00edcias sensacionalistas e preconceituosas\u2026 Na verdade, nem o discurso de quatro horas e meia que Castro proferiu nas Na\u00e7\u00f5es Unidas, no dia 26, teve tanta repercuss\u00e3o quanto sua presen\u00e7a no Harlem.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>Comandante <\/em>n\u00e3o deixava de trabalhar naqueles dias.\u00a0 Era comum que participasse de confer\u00eancias telef\u00f4nicas com seu gabinete em Havana (para estreitar la\u00e7os diplom\u00e1ticos com a China e a Coreia do Norte) e que se reunisse com C\u00e9lia S\u00e1nchez e o capit\u00e3o Nu\u00f1ez Jim\u00e9nez para discutir quest\u00f5es de Estado.<\/p>\n<p>Certa noite, por\u00e9m, num momento de folga, convidou o\u00a0<em>staff<\/em> do Theresa para jantar com ele e Almeida, como agradecimento pela forma carinhosa pela qual haviam sido tratados pelos funcion\u00e1rios do hotel.\u00a0 Como prato principal, arroz e frango, trazidos de um restaurante da esquina\u2026 Em outra ocasi\u00e3o, recebeu os poetas Langston Hughes e Allen Ginsberg para um bate-papo informal.<\/p>\n<p>No dia 29 de setembro, Fidel finalmente partiu de volta a Havana, num turboh\u00e9lice sovi\u00e9tico Ilyushin 18, para n\u00e3o arriscar que alguma aeronave da<em>Cubana de Aviaci\u00f3n <\/em>fosse confiscada pelas autoridades norte-americanas como parte das indeniza\u00e7\u00f5es que os cubanos supostamente lhes deviam.\u00a0 De volta \u00e0 capital do pa\u00eds, ele seria recebido com entusiasmo por 150. 000 pessoas nas ruas.\u00a0 J\u00e1 os moradores do Harlem daquela \u00e9poca, e boa parte da comunidade negra dos Estados Unidos, nunca se esqueceriam de sua visita e sempre se lembrariam dele como um irm\u00e3o.<\/p>\n<p>O sapo ouvia a hist\u00f3ria, emocionado.\u00a0 A maioria dos transe\u00fantes mal notava que ele estava ali.\u00a0 Alguns poucos, por\u00e9m, ao ver o pequenino batr\u00e1quio, achavam que se tratava de um louco, falando sozinho.\u00a0 \u00c9 que ningu\u00e9m conseguia ver Sugar Ray Robinson.\u00a0 S\u00f3 Gonzalo.<\/p>\n<p>Sem se dar conta disso, ele gesticulava para o velho lutador.\u00a0 E Robinson continuava a falar.<\/p>\n<p>\u201cBem, acho que chegou a hora de ir\u2026 Est\u00e3o me chamando\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 S\u00e3o Pedro que te chama, Sugar? Ou quem sabe outro santo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cQue nada! \u00c9 minha esposa que me aporrinha o tempo todo, dizendo que nem no al\u00e9m eu fico em casa! Pode uma coisa dessas?! Voc\u00ea consegue entender isso?! Achei que ia ter um pouco de paz na outra dimens\u00e3o, mas nem assim a velha para de gritar nos meus ouvidos! Ora essa! Vai dizer que estive bebendo com meu treinador, que sa\u00ed com mulheres, que meus amigos s\u00e3o todos uns vagabundos! Vou te contar!\u201d<\/p>\n<p>\u201cParece que as coisas n\u00e3o mudam\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cPois \u00e9,\u00a0<em>Gonzalucho! <\/em>A gente se v\u00ea por a\u00ed! Uma hora dessas apare\u00e7o e conversamos um pouco mais.\u00a0 Agora vou embora, sen\u00e3o terei problemas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 mais,\u00a0<em>mi querido. <\/em>Foi um prazer conhec\u00ea-lo.\u00a0 E muito obrigado pelas hist\u00f3rias!\u201d<\/p>\n<p>Sugar Ray, acenando com uma m\u00e3o, lentamente foi se tornando cada vez mais et\u00e9reo, transparente, sua silhueta desaparecendo na frente do sapo. \u00a0At\u00e9 que sumiu de vez.\u00a0 E Gonzalo, finalmente, foi tomar seu caf\u00e9.\u00a0 Sem a\u00e7\u00facar!<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>J\u00e1 est\u00e1 \u00e0 venda em vers\u00e3o eletr\u00f4nica (<strong>ebook<\/strong>) o livro de Luiz Bernardo Peric\u00e1s publicado pela Boitempo Editorial,\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/www.gatosabido.com.br\/ebook-download\/155867\/Os_cangaceiros.html\">Os cangaceiros: ensaio de interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<\/a><\/strong>, dispon\u00edvel no\u00a0<a href=\"http:\/\/busca.gatosabido.com.br\/web\/Resultado.aspx?q=Boitempo%20Editorial&amp;ordenacao=relevancia&amp;ipp=12&amp;pagina=1&amp;marca=Boitempo%20Editorial&amp;visualizacao=grade\">Gato Sabido<\/a>.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Luiz Bernardo Peric\u00e1s<\/strong> \u00e9 formado em Hist\u00f3ria pela George Washington University, doutor em Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica pela USP e p\u00f3s-doutor em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela FLACSO (M\u00e9xico). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. \u00c9 autor, pela Boitempo, de\u00a0<em>Os Cangaceiros \u2013 Ensaio de interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<\/em> (2010). Tamb\u00e9m publicou\u00a0<em>Che Guevara: a luta revolucion\u00e1ria na Bol\u00edvia<\/em> (Xam\u00e3, 1997),\u00a0<em>Um andarilho das Am\u00e9ricas <\/em>(Eleva\u00e7\u00e3o, 2000),\u00a0<em>Che Guevara and the Economic Debate in Cuba<\/em> (Atropos, 2009) e\u00a0<em>Mystery Train<\/em> (Brasiliense, 2007). Colabora para o\u00a0<strong>Blog da Boitempo<\/strong> mensalmente, \u00e0s sextas-feiras.<\/p>\n<p>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/boitempoeditorial.wordpress.com\/2011\/11\/11\/gonzalo-malcolm-e-fidel\/\">http:\/\/boitempoeditorial.wordpress.com\/2011\/11\/11\/gonzalo-malcolm-e-fidel\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Boitempo\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor Luiz Bernardo Peric\u00e1s.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2081\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-2081","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c1-popular"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-xz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2081","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2081"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2081\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2081"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2081"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2081"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}