{"id":20816,"date":"2018-09-11T08:50:48","date_gmt":"2018-09-11T11:50:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20816"},"modified":"2018-09-11T08:51:29","modified_gmt":"2018-09-11T11:51:29","slug":"um-pais-fraturado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20816","title":{"rendered":"Um pa\u00eds fraturado"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2018\/09\/marielle-atentado-bueno.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><i>Somos um pa\u00eds fraturado. Um pa\u00eds fraturado \u00e9 mais que um pa\u00eds dividido, \u00e9 um pa\u00eds no qual a divis\u00e3o tornou-se algo explosivo. N\u00e3o \u00e9 um mero trauma, \u00e9 uma fratura exposta. Os b\u00e1lsamos e unguentos tradicionais n\u00e3o v\u00e3o curar o osso partido, a pele rompida, os tend\u00f5es e m\u00fasculos destro\u00e7ados.<\/i><\/p>\n<p>Acabamos de receber a not\u00edcia que a arte de Marielle Franco na Rep\u00fablica\/SP foi atacada e o fato ocorreu logo ap\u00f3s o atentado que atingiu um candidato \u00e0 presid\u00eancia da rep\u00fablica do PSL. Atentados a pol\u00edticos \u00e9 algo realmente grave. Queremos saber, quem matou Marielle?<\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o urbana do artista Bueno Caos em homenagem a Marielle Franco na Avenida Consola\u00e7\u00e3o, na regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo, amanheceu depredada no feriado do sete de setembro. A imagem da vereadora carioca brutalmente assassinada em mar\u00e7o deste ano (caso ainda sem resolu\u00e7\u00e3o) foi vandalizada pouco ap\u00f3s o atentado que atingiu o candidato \u00e0 Presid\u00eancia da rep\u00fablica do PSL.<\/p>\n<p><em>Por\u00a0Mauro Luis Iasi*<\/em><\/p>\n<p>Blog da Boitempo<\/p>\n<p><em>\u201cUma coisa \u00e9 um pa\u00eds,<br \/>\noutra um cicatriz.\u201d<br \/>\n<\/em><strong><em>Affonso Romano de Sant\u2019Anna<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Somos um pa\u00eds fraturado. Um pa\u00eds fraturado \u00e9 mais que um pa\u00eds dividido, \u00e9 um pa\u00eds no qual a divis\u00e3o tornou-se algo explosivo. N\u00e3o \u00e9 um mero trauma, \u00e9 uma fratura exposta. Os b\u00e1lsamos e unguentos tradicionais n\u00e3o v\u00e3o curar o osso partido, a pele rompida, os tend\u00f5es e m\u00fasculos destro\u00e7ados.<\/p>\n<p>Sempre fomos um pa\u00eds divido. Dividido pela desigualdade estruturante das forma\u00e7\u00f5es sociais, inclu\u00eddas a for\u00e7a na ordem mercantil mundial e depois no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Dividido entre colonizadores e povos ind\u00edgenas, entre escravocratas e escravos, entre oligarcas e povo, entre latifundi\u00e1rios e agricultores, entre burgueses e prolet\u00e1rios. No entanto, essa desigualdade nem sempre se manifesta como fratura. Em tempos ditos normais, a desigualdade encontra formas de subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem, seja ela colonial, escravocrata, republicana ou democr\u00e1tica, de maneira que as tens\u00f5es inevit\u00e1veis entre aqueles que exploram e dominam e aqueles que sofrem a domina\u00e7\u00e3o podem se apresentar como formas \u201ccivilizadas\u201d de uma ordem institu\u00edda, at\u00e9 mesmo logrando a submiss\u00e3o passiva ou ativa de amplos segmentos das camadas oprimidas.<\/p>\n<p>Por vezes, no entanto, essa ordem \u00e9 abalada pela explos\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es que v\u00e3o se acumulando no tecido de uma sociabilidade fundada na desigualdade e na explora\u00e7\u00e3o. Isso acontece com muito mais frequ\u00eancia do que gostariam os art\u00edfices do discurso sobre nossa \u201cvoca\u00e7\u00e3o pac\u00edfica e ordeira\u201d. S\u00e3o muitos os exemplos, desde a resist\u00eancia ind\u00edgena na Confedera\u00e7\u00e3o dos Tamoios (1554-1567), passando pelo Quilombo dos Palmares (1580-1710), a Confedera\u00e7\u00e3o do Equador (1824), a Revolta dos Mal\u00eas (1835), as Rebeli\u00f5es Regenciais (1831-1840), a guerra de Canudos (1896-1897) as lutas oper\u00e1rias desde o final do s\u00e9culo XIX, a Greve Geral de 1917 e a insurrei\u00e7\u00e3o de 1919, o Movimento Tenentista de 1922, a Revolu\u00e7\u00e3o Paulista de 1924, a Coluna Prestes (1925-1927), o movimento de 1930 que levou Get\u00falio Vargas ao poder, a insurrei\u00e7\u00e3o da ANL e do PCB de 1935, a revolta de Trombas e Formoso em Goi\u00e1s (1950-1957), a resist\u00eancia armada contra o Golpe de 1964, apenas para citar alguns exemplos numa longa lista hist\u00f3rica de revoltas e resist\u00eancias \u00e0s quais devemos somar a cotidiana e, muitas vezes, invis\u00edvel resist\u00eancia contra a viol\u00eancia, a fome, a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o di\u00e1ria que empreendem os oprimidos.<\/p>\n<p>A natureza estrutural da desigualdade, que encontra suas ra\u00edzes no passado colonial e escravista, mas que que se consolida com o desenvolvimento do capitalismo dependente e a submiss\u00e3o ao imperialismo, acaba por determinar limites evidentes ao desenvolvimento da ordem democr\u00e1tica que se v\u00ea condenada \u00e0 uma democracia restrita para poucos, resultando no aspecto autocr\u00e1tico do Estado brasileiro, nos termos em que define Florestan Fernandes. Uma democracia para poucos setores privilegiados, resultantes da fus\u00e3o olig\u00e1rquica-burguesa, que tem por principal problema equacionar a exclus\u00e3o das amplas maiorias da ordem que as explora e domina.<\/p>\n<p>O mito segundo o qual o desenvolvimento da economia capitalista resultaria na gradual diminui\u00e7\u00e3o das desigualdades se demonstrou uma fal\u00e1cia, seja pela prova pr\u00e1tica do chamado \u201cmilagre brasileiro\u201d durante a ditadura, seja pela recente e traum\u00e1tica experi\u00eancia de concilia\u00e7\u00e3o de classes do ciclo petista. O que ficou comprovado \u00e9 que a altern\u00e2ncia de ciclos de crescimento e recess\u00e3o acabam por revelar, ao final, aumento significativos das desigualdades econ\u00f4micas e sociais entre as classes.<\/p>\n<p>Nos momentos de euforia se produz fantasias ideol\u00f3gicas, tais como a \u201cbrasilianidade\u201d da \u00e9poca getulista, o mito do \u201cBrasil pot\u00eancia\u201d na Ditadura, ou o discurso de que o Brasil poderia ser um \u201cpa\u00eds de todos\u201d no engodo da concilia\u00e7\u00e3o de classes. No entanto, na crise do capital, inevit\u00e1vel no processo de valoriza\u00e7\u00e3o do valor para quem o conhece, a ideologia se desmascara e a contradi\u00e7\u00e3o latente emerge na forma de conflito e, em certas condi\u00e7\u00f5es, de fratura. \u00c9 nestes momentos que a outra face de nosso \u201ccar\u00e1ter\u201d se revela.<\/p>\n<p>Vivemos hoje um desses momentos e \u00e9 necess\u00e1rio compreend\u00ea-lo. Estamos convencidos de que n\u00e3o se trata de uma \u201conda conservadora\u201d, ou um acidente inexplic\u00e1vel no curso normal de uma democratiza\u00e7\u00e3o interrompida, ou ainda uma moment\u00e2nea esp\u00e9cie de \u201cpsicose de massas\u201d. Estamos diante de uma manifesta\u00e7\u00e3o compreens\u00edvel e at\u00e9 certo ponto esperada de uma sociedade fortemente cindida em interesses inconcili\u00e1veis de classe que tem sido mantida e reproduzida por artif\u00edcios pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos que encontraram seu ponto de esgar\u00e7amento.<\/p>\n<p>Resumidamente, podemos afirmar que vivemos em uma sociedade na qual os setores dominantes (primeiro olig\u00e1rquicos e aristocr\u00e1ticos; depois burgueses dependentes e aliados \u00e0 ordem imperialista, suspeitamos que sem que se percam aspectos olig\u00e1rquicos e aristocr\u00e1ticos) que constituem n\u00e3o mais que algo em torno de 3% da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa, concentram a maior parte da riqueza socialmente produzida. Os dados de 2014 indicavam que os 10% mais ricos concentravam cerca de 72,4% da riqueza nacional (em 1990 concentravam 53%), em 2015, 1% dos mais ricos concentravam 28% da riqueza. Como um exemplo, as seis pessoas mais ricas do Brasil em 2017 (segundo dados da Oxfam), Jorge Paulo Lemann (AB Inbev), Joseph Safra (Banco Safra), Marcel Hermmann Telles (AB Inbev), Carlos Alberto Sicupira (AB Inbev), Eduardo Saverin (Facebook) e Ermirio Pereira de Moraes (Grupo Votorantim), juntas t\u00eam mais dinheiro que metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Alguns estudiosos est\u00e3o preferindo utilizar termos como \u201cplutocracia\u201d para designar uma ordem na qual uma pequena maioria imp\u00f5e seus interesses, e me parece cada vez mais adequado. Em um quadro como este, as formas pol\u00edticas t\u00eam que ser limitadas \u00e0 deforma\u00e7\u00f5es autocr\u00e1ticas, ainda que, por momentos, se expressem em apar\u00eancias democr\u00e1ticas, resultando naquilo que o mesmo Florestan denominou de \u201cdemocracia de coopta\u00e7\u00e3o\u201d. Nesta situa\u00e7\u00e3o, a\u00a0ideologia\u00a0evidentemente ganha centralidade, uma vez que a ordem precisa do consentimento de parte daqueles que de fato nada t\u00eam a ganhar com ela, tal consentimento s\u00f3 pode ser logrado com poderosas doses de encobrimento, naturaliza\u00e7\u00e3o, justificativas, invers\u00f5es que possam apresentar os estreitos interesses de uma insignificante minoria como se fossem interesses gerais.<\/p>\n<p>O momento da crise \u00e9 tamb\u00e9m o momento em que os mecanismos ideol\u00f3gicos mostram sua insufici\u00eancia para acobertar o real. As ideias que correspondiam a uma certa ordem social, perdem essa correspond\u00eancia, tornando-se, nas palavras de Marx e Engels, \u201cinaut\u00eanticas\u201d (<em>A ideologia alem\u00e3<\/em>, p. 283). No entanto, seguem os mesmos autores, paradoxalmente essas ideias \u201cquanto mais desmentidas pela vida [\u2026] t\u00e3o mais resolutamente s\u00e3o afirmadas, tanto mais hip\u00f3critas, moralistas e santa se torna\u201d.<\/p>\n<p>A fal\u00eancia dos mecanismos pol\u00edticos, jur\u00eddicos, policiais e ideol\u00f3gicos, abre espa\u00e7o para a viol\u00eancia. Mas analisemos mais detidamente essa viol\u00eancia. Na ordem burguesa (seja ela abertamente autocr\u00e1tica ou formalmente democr\u00e1tica), a viol\u00eancia sempre se faz presente \u2013 ela \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel, inclusive para a forma\u00e7\u00e3o do chamado \u201cconsenso\u201d. A viol\u00eancia de que aqui se trata \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o de um segmento minorit\u00e1rio e privilegiado numa ordem intrinsicamente injusta e violenta que v\u00ea o risco da massa de oprimidos levantar-se contra eles.<\/p>\n<p>Este \u00e9 outro dos aspectos constitutivos de nossa forma\u00e7\u00e3o social: as camadas e classes dominantes se antecipam para evitar que os fechamentos de ciclos possam levar a explos\u00f5es que coloquem em risco a continuidade de seu dom\u00ednio. Foi assim na aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, cercadas de garantias legais e policiais, para que os ex-escravizados n\u00e3o resolvessem reagir a s\u00e9culos de arb\u00edtrio, agress\u00f5es e explora\u00e7\u00e3o a que foram submetidos. Foi assim na chamada transi\u00e7\u00e3o lenta, gradual e segura transi\u00e7\u00e3o da ditadura \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o. Um dos mecanismos desse fen\u00f4meno, que j\u00e1 foi chamado de \u201cmudan\u00e7a conservadora\u201d, \u00e9 o fato que as classes dominantes manipulam estere\u00f3tipos para produzir em torno delas a universalidade vazia que possa ocupar o lugar daquela que ela um dia por ventura tenha tido alguma substancialidade. A\u00ed se inscrevem os mitos da \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d, do \u201cdesenvolvimento\u201d, do \u201crisco do comunismo\u201d, da \u201cguerra contra as drogas e o crime\u201d, a \u201cdefesa da fam\u00edlia e da moral\u201d, o combate \u00e0 \u201ccorrup\u00e7\u00e3o\u201d entre outros.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que as classes dominantes s\u00e3o t\u00e3o violentas e irracionais:<em>\u00a0medo<\/em>. E elas t\u00eam motivos para temer. O aspecto aparentemente irracional \u00e9 ades\u00e3o de segmentos dos explorados na defesa desses mitos e refor\u00e7ando estere\u00f3tipos que em \u00faltima inst\u00e2ncia se voltam contra eles pr\u00f3prios.\u00a0Em outra oportunidade refletimos sobre isso ao remeter aos estudos de Reich e a psicologia de massas do fascismo. Agora nos interessa um outro aspecto.<\/p>\n<p>Algumas pessoas t\u00eam buscado entender a radicaliza\u00e7\u00e3o da fratura em nosso pa\u00eds pela emerg\u00eancia de um suposto \u201cdiscurso de \u00f3dio\u201d. Para provocar, nossa reflex\u00e3o come\u00e7aria dizendo que n\u00e3o h\u00e1 \u201cdiscurso de \u00f3dio\u201d\u2026 o que existe \u00e9 \u00f3dio que se expressa, entre outras coisas, no discurso. Essa distin\u00e7\u00e3o aparentemente sutil nos parece importante porque, sem ela, podemos cair no equ\u00edvoco de acreditar que \u00e9 o \u201cdiscurso\u201d que gera o \u00f3dio, o que nos levaria \u00e0 ing\u00eanua posi\u00e7\u00e3o de alertar as pessoas para ter cuidado com que falam porque o que for dito pode nos conduzir \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 barb\u00e1rie. Caso estejamos certos em nossas premissas, o discurso de \u00f3dio expresso por representantes das camadas privilegiadas \u00e9 a express\u00e3o do receio desses segmentos de que as condi\u00e7\u00f5es que permitem a continuidade de seus privil\u00e9gios possam ser abaladas pelo despertar das massas cuja explora\u00e7\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para tanto. Trata-se de um \u201c\u00f3dio de classe\u201d, o que n\u00e3o impede que se expresse tamb\u00e9m como racismo, homofobia, machismo e misoginia, fundamentalismo religioso ou outra forma qualquer de irracionalismo, mas seu fundamento \u00e9 o \u00f3dio de classe. H\u00e1 uma clara diferen\u00e7a no tratamento da desigualdade e da viol\u00eancia contra negros, mulheres, gays e l\u00e9sbicas, quando se soma ao estigma do preconceito a condi\u00e7\u00e3o de classe, ainda que seja sempre racismo, machismo, homofobia etc. \u00c9 ineg\u00e1vel que para os pobres e a classe trabalhadora o preconceito assume a forma de risco de morte.<\/p>\n<p>Identificamos o fato de que o trauma da desigualdade e seu fundamento na explora\u00e7\u00e3o, alcan\u00e7ou o\u00a0<em>status<\/em>\u00a0de fratura, na medida que mesmo as manifesta\u00e7\u00f5es mais elementares que poderiam indicar um caminho saud\u00e1vel de fus\u00e3o em torno de uma universalidade um pouco mais substantiva, s\u00e3o o meio pelo qual o \u00f3dio de classe se manifesta. Vale elencar alguns poucos, mas representativos, exemplos.<\/p>\n<p>Uma jovem negra e l\u00e9sbica \u00e9 assinada com tiros na cabe\u00e7a, uma lideran\u00e7a ind\u00edgena \u00e9 abatida a tiros, um \u00f4nibus em campanha \u00e9 atingido por tiros, um museu pega fogo e destr\u00f3i um patrim\u00f4nio inestim\u00e1vel. Imediatamente, o tecido fraturado da sociedade d\u00e1 espa\u00e7o para o brutal ataque e desqualifica\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas, de forma violenta, mentirosa, mesquinha. Vejam, n\u00e3o \u00e9 um expediente desconhecido. Quando um jovem \u00e9 assassinado na favela \u00e9 preciso transform\u00e1-lo em traficante, quando um pedreiro \u00e9 torturado at\u00e9 a morte e seu corpo desaparece \u00e9 preciso levantar d\u00favidas sobre seu comportamento, quando uma m\u00e3e de fam\u00edlia \u00e9 baleada e seu corpo arrastado por uma viatura, \u00e9 necess\u00e1rio contextualizar essa cena num tiroteio contra o crime organizado.<\/p>\n<p>Agora, a vereadora assassinada ainda tem que ser alvejada por calunias contra sua pessoa, a universidade p\u00fablica incinerada novamente, agora por not\u00edcias falsas que a responsabilizam pela agress\u00e3o da PEC 241 que congela gastos por 20 anos, o ex-presidente tem que ser preso pela suposta e n\u00e3o provada propriedade de um apartamento na praia, a presidente deposta tem que ser agredida e desqualificada, um professor de uma universidade p\u00fablica, com h\u00e1bito de ler poemas, tem que ser processado como um perigoso terrorista que pode eliminar todos os conservadores a golpe de sonetos, pedagogos t\u00eam que ser torturados at\u00e9 confessar que leram Paulo Freire e que\u00a0<em>O pequeno pr\u00edncipe\u00a0<\/em>\u00e9 parte do \u201ckit gay\u201d distribu\u00eddo nas escolas. Parece irracional,\u00a0<em>porque \u00e9.<\/em>\u00a0Mas \u00e9 uma irracionalidade compreens\u00edvel.<\/p>\n<p>A \u00fanica maneira de uma ordem desumana, depredadora, profundamente desigual e cruel conseguir forjar um consenso em torno dos segmentos privilegiados \u00e9 criar algo que aparentemente atinja todos e responsabilizar os segmentos que voc\u00ea quer isolar. Um exemplo cl\u00e1ssico \u00e9 o da corrup\u00e7\u00e3o. Uma vez que tal pr\u00e1tica delapida o patrim\u00f4nio p\u00fablico e acaba desviando os recursos da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade e de outros setores, basta colar o estigma no segmento que se deseja combater e pronto.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o costuma funcionar como um evento traum\u00e1tico que signifique muito para muita gente. Manipula-se um sentimento de inseguran\u00e7a; uma morte, um assassinato, que possa gerar identifica\u00e7\u00e3o imediata. V\u00e1rios s\u00e3o os exemplos de epis\u00f3dios que antecederam aventuras violentas e desastrosas: o famoso inc\u00eandio de 1933 no\u00a0<em>Reichstag<\/em>, cuja culpa foi atribu\u00edda a um pedreiro desempregado que havia sido membro do Partido Comunista, contribuindo de forma decisiva para a consolida\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio nazista na Alemanha; o atentado contra Carlos Lacerda, na Rua Tonelero, em 1954, que acabou por isolar o presidente Get\u00falio Vargas e o levar ao suic\u00eddio; o assassinato do Arquiduque de Sarajevo, em 1914, estopim da Primeira Guerra Mundial; o conhecido \u201cplano Cohen\u201d, forjado por Get\u00falio Vargas e atribu\u00eddo aos comunistas para justificar o golpe de 1937, entre muitos outros exemplos.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que nem toda tentativa \u00e9 assim t\u00e3o sofisticada (tenho muita pena dos historiadores do futuro), como a delirante den\u00fancia de que os perigosos marxistas do Foro de S\u00e3o Paulo (poucas iniciativas foram t\u00e3o reformistas e pouco marxistas como o Foro de S\u00e3o Paulo) t\u00eam um plano secreto para implantar na Am\u00e9rica Latina uma federa\u00e7\u00e3o de rep\u00fablicas socialistas. No entanto, a l\u00f3gica \u00e9 a mesma: encontrar o inimigo, estigmatiz\u00e1-lo, depositar a culpa da crise sobre seus ombros e arrastar o irracionalismo at\u00e9 o ponto em que parte das massas sirvam \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o e a prestem-se ao papel de defesa de uma ordem que as oprime e despreza contra aqueles que tentam defender seus reais interesses.<\/p>\n<p>Assim se destr\u00f3i a sa\u00fade p\u00fablica e se culpa os que defendem o SUS. Assim se sucateia a universidade p\u00fablica culpando aqueles que trabalham em sua defesa. Assim se mata nas favelas, culpando as que pr\u00f3prias pessoas que s\u00e3o obrigadas a viverem l\u00e1. Assim se destr\u00f3i todo um pa\u00eds culpabilizando aqueles que tentam salv\u00e1-lo. As margens do rio continuam seu trabalho de opress\u00e3o e j\u00e1 se prepara o discurso que culpabilizar\u00e1 a for\u00e7a das \u00e1guas que est\u00e3o prestes a transbordar.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 o que fazer com fraturas expostas. As classes dominantes est\u00e3o jogando um jogo muito perigoso, mas que jogam bem e t\u00eam recursos para tanto. Acreditam, como em outros momentos da hist\u00f3ria, que podem utilizar de seus extratos mais radicalizados da extrema direita, eliminar seus advers\u00e1rios e voltar com reconciliadores da vida nacional. Nem sempre d\u00e1 certo, como provam os casos do nazi-fascismo na Europa, a ditadura no Brasil e o Trump nos EUA. No enterro da democracia, coitada t\u00e3o fr\u00e1gil, todos os presentes chorar\u00e3o copiosamente, inclusive, como vemos sempre nos filmes e series policiais, o assassino. Uma coisa sabemos: o b\u00e1lsamo das elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o ungir\u00e1 o vencedor com a legitimidade esperada e o Brasil sair\u00e1 do pleito ainda mais fraturado do que entrou.<\/p>\n<p>Nuvens pesadas se assomam no horizonte e di\u00e1logos francos e ch\u00e1 de camomila ajudam tanto como a crian\u00e7a que tenta juntar os cacos do vaso que despeda\u00e7ou.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Mauro Iasi\u00a0<\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro\u00a0<em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em>\u00a0(Boitempo, 2002) e colabora com os livros\u00a0<em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em>\u00a0(Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o\u00a0<strong>Blog da Boitempo\u00a0<\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/09\/10\/um-pais-fraturado\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20816\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[219],"class_list":["post-20816","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5pK","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20816","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20816"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20816\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20816"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20816"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20816"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}