{"id":20858,"date":"2018-09-16T17:04:20","date_gmt":"2018-09-16T20:04:20","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20858"},"modified":"2018-09-16T17:28:39","modified_gmt":"2018-09-16T20:28:39","slug":"seis-meses-depois-nos-ainda-perguntamos-quem-matou-marielle-franco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20858","title":{"rendered":"Seis meses depois, n\u00f3s ainda perguntamos: quem matou Marielle Franco?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/-K2N2LZO7801PnDTN5vuGA0dLPl-oWV4vtqiPqoWe34R3OREC_ELniXr30RRQ-8y4ofGP7zAPT0Crrm1D28wK9eZwuqESb7dt4NdcHK0kwfFGzIKO-pYz_x7IA1q-EHhoewa-68iybvM_IvvVUU_yrr_XtZbiOGGROZFxCG-UnaM1MAfeJ-qd12MA9q-kV4qKMWUEPTBKWTaQ7iDZoqcNmBSFFPiqtcNaJLoFLqkhLXeCSpvbpFthj4ziS_CJAmOxYTdJFfrQyXTgOOosfMgykYE7u9H1GiM0UkEyK55Oc0BSOpaTIEc2-I4DRAaKthYrv-EGeRGwXwQ-eGg6m0j_kHCY0uGuJzsmQP8ENnDFhZVJ51V8DGhYrhGZe6bPzAp4h7iEfvETAIsF4ZwxIQCMlyLe994BM4FzJO-uLQKSPpJD2dZd8pb09I7tuLAw7Gw7PJpEtBH8vngKOAdLX4n69voaKkteB7q0ANeaW1eIs0b-3fCBqXhIBzg1DVj3NlGg1nVRhw5JpSrwKhCa7arCGunyxjrDWWAv_UMYSGYI340NuDpBAGwP5yX6gmLS9o4bkVddWOiXYmhpu6YuJVLhkjFLgzK4YJ8PUFX7Vh_zA_0nDTswXYtfxNbZlGoTOWLqC73gaLRgORLs2dMxRqiLc5RYDCzoVJmWa2HuyK51V8K4prNxlkDjv22PA=w800-h500-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Henrique Oliveira*<br \/>\nRaquel Melo**<\/p>\n<p>Na noite do dia 14 de mar\u00e7o, a vereadora Marielle Franco do PSOL e o motorista Anderson Gomes foram brutalmente assassinados no centro da cidade do Rio de Janeiro, quando Marielle voltava de uma roda de conversa chamada \u201cMulheres Negras Movendo as Estruturas\u201d, em meio \u00e0 interven\u00e7\u00e3o militar do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>E mulheres negras, como Marielle Franco, s\u00e3o as principais v\u00edtimas de feminic\u00eddio no Brasil. Entre os anos de 2005 e 2015, a taxa de mortalidade de mulheres negras aumentou em 22%,enquanto a de mulheres brancas reduziu em 7,4%. As balas que atingiram Marielle Franco e Anderson Gomes n\u00e3o se restringiram apenas aos seus corpos, mas sim a todo o\u00a0conjunto dos movimentos sociais, organiza\u00e7\u00f5es e partidos que est\u00e3o comprometidos com a luta em defesa dos interesses dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Mulher, perif\u00e9rica, negra, LGBT, para al\u00e9m de todas as opress\u00f5es estruturais que a\u00a0mesma sofria, Marielle foi morta por aquilo que ela representava em seu conjunto. Muito mais do que uma representatividade na institucionalidade burguesa, ela simbolizava um modo de fazer pol\u00edtica que era vinculado \u00e0 classe trabalhadora, aqueles que s\u00e3o diariamente massacrados pelo Estado brasileiro. Vereadora eleita com 46 mil votos, se destacava pela sua trajet\u00f3ria como defensora dos direitos humanos e, principalmente, contra a viol\u00eancia policial no Rio de Janeiro. Viol\u00eancia que a mesma denunciava via redes sociais e pelo seu mandato. A morte de Marielle tamb\u00e9m foi um duro golpe na quest\u00e3o de g\u00eanero, num pa\u00eds cuja representa\u00e7\u00e3o feminina nas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas \u00e9 baix\u00edssima. Em um ranking de 190 pa\u00edses, o Brasil ocupa a 152\u00aa posi\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o percentual de parlamentares homens e mulheres.<\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es do duplo assassinato de Marielle e Anderson j\u00e1 superam o tempo de outros casos parecidos, como de Amarildo, que durou 80 dias, e da ju\u00edza Patricia Acioli,que durou 74 dias. O caso Marielle j\u00e1 passa dos 165 dias sem nenhuma resposta efetiva de quem mandou e quem executou. Numa entrevista concedida ao programa \u201cEntre Aspas\u201d, da Globonews, o ministro da seguran\u00e7a p\u00fablica, Raul Jungman, declarou que o envolvimento de agentes p\u00fablicos, principalmente, de policiais e pol\u00edticos dificulta a elucida\u00e7\u00e3o do caso. S\u00f3 para termos no\u00e7\u00e3o do n\u00e3o interesse do Estado em solucionar e dar respostas, 5 meses ap\u00f3s o ocorrido, o celular de Marielle sequer foi periciado, como denunciou a vi\u00fava M\u00f4nica Ben\u00edcio, recentemente \u00e0 imprensa.<\/p>\n<p>Se por um lado o Estado n\u00e3o deu uma solu\u00e7\u00e3o final, nesses 6 meses os algozes de Marielle n\u00e3o se pouparam, chegaram ao ponto de amea\u00e7ar a sua ex companheira\u00a0M\u00f4nica Ben\u00edcio, que foi perseguida duas vezes no mesmo dia por um carro branco pr\u00f3ximo a sua casa. E por causa disso, M\u00f4nica chegou a solicitar prote\u00e7\u00e3o \u00e0 Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos.<\/p>\n<p>O saldo da interven\u00e7\u00e3o militar no Rio de Janeiro desde fevereiro, tendo um or\u00e7amento de 1 bilh\u00e3o de reais, \u00e9 vergonhoso. Entre 16 de fevereiro e 30 de junho, as opera\u00e7\u00f5es custaram 46 milh\u00f5es de reais, no entanto, as apreens\u00f5es de armamento pesado como fuzis e metralhadoras foram menores do que no mesmo per\u00edodo do ano passado. Em 6 meses, os resultados foram p\u00edfios: foram 31 chacinas com 130 mortos; o n\u00famero de tiroteios aumentou de 3.477 para 4.850; os homic\u00eddios dolosos ficaram em 2.617 pessoas; 736 pessoas foram mortas pela pol\u00edcia; 99.571 roubos registrados. Enquanto a Interven\u00e7\u00e3o focava sua atua\u00e7\u00e3o nas comunidades controladas pelos grupos envolvidos com o tr\u00e1fico de drogas, ignorava as regi\u00f5es dominadas pela mil\u00edcia, grupo paramilitar formado por ex e atuais policiais, membros das for\u00e7as armadas e seguran\u00e7as particulares, que tamb\u00e9m vendem droga, traficam armas, exploram servi\u00e7os, amea\u00e7am e\u00a0matam no estado do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Em meio aos confrontos, dois militares tamb\u00e9m foram mortos, um cabo e um soldado. Uma das faces mais cru\u00e9is da Interven\u00e7\u00e3o Federal e do atual projeto de seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 que de ambos os lados, as pessoas que est\u00e3o tombando, s\u00e3o homens pobres e negros. Segundo o jornal The Intercept Brasil, muitos militares que est\u00e3o atuando na Interven\u00e7\u00e3o s\u00e3o moradores de comunidades ocupadas. A desigualdade s\u00f3cio racial, contradi\u00e7\u00e3o fundamental da sociedade brasileira, se reflete tamb\u00e9m no Ex\u00e9rcito, em que os cargos de oficiais s\u00e3o ocupados em 51% por brancos, por negros em 47%. Entre os pra\u00e7as, a desigualdade se mant\u00e9m, mas como estamos falando uma posi\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica inferior, os negros s\u00e3o 58% e 37% s\u00e3o brancos.<\/p>\n<p>A Interven\u00e7\u00e3o Militar tem sido usada para o desenvolvimento dos neg\u00f3cios da seguran\u00e7a, estreitando as rela\u00e7\u00f5es entre o Estado e a ind\u00fastria das armas. No m\u00eas de mar\u00e7o, uma cerim\u00f4nia realizada no Forte de Copacabana, o Ex\u00e9rcito recebeu uma\u00a0\u201cdoa\u00e7\u00e3o\u201d de 100 fuzis modelo T4, que foram entregues pela Taurus e pela Companhia Brasileira de Cartuchos. O Gabinete de Interven\u00e7\u00e3o Federal comprou 1,1 milh\u00e3o de muni\u00e7\u00f5es de diversos calibres, no valor de 7,7 milh\u00f5es, uma compra sem licita\u00e7\u00e3o. No final do m\u00eas de agosto, foram adquiridos 14.875 coletes bal\u00edsticos a prova de bala de\u00a0fuzil, no valor de R$ 76,743,559,85, tamb\u00e9m dispensando o processo licitat\u00f3rio.<\/p>\n<p>O assassinato de Marielle Franco se insere, infelizmente, no cen\u00e1rio de persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica hist\u00f3rica que os lutadores sociais sofrem no Brasil. Aqueles que resistem ao poder do capital, que criam barreiras aos seus interesses de acumula\u00e7\u00e3o e dom\u00ednio, t\u00eam sido dizimados. Esta resist\u00eancia vem de longe, desde as popula\u00e7\u00f5es nativas e africanas escravizadas para a expans\u00e3o do mercado capitalista via coloniza\u00e7\u00e3o. O capitalismo brasileiro \u00e9 uma m\u00e1quina de moer gente, e somente a luta organizada dos trabalhadores, sem ilus\u00e3o com a concilia\u00e7\u00e3o de classes, pode deter o terrorismo de Estado \u00e0 servi\u00e7o da burguesia.<\/p>\n<p>*Militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira\/Bahia<\/p>\n<p>**Militante do PCB, UJC e Ana Montenegro\/S\u00e3o Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20858\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,244],"tags":[223],"class_list":["post-20858","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","category-violencia","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5qq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20858","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20858"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20858\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20858"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20858"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20858"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}