{"id":20866,"date":"2018-09-17T22:23:05","date_gmt":"2018-09-18T01:23:05","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20866"},"modified":"2018-09-17T22:23:05","modified_gmt":"2018-09-18T01:23:05","slug":"victor-jara-um-crime-que-ainda-se-chora-no-chile","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20866","title":{"rendered":"V\u00edctor Jara, um crime que ainda se chora no Chile"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.prensalatina.com.br\/images\/2018\/septiembre\/16\/G.V1.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->\u00c0s vezes move levemente o canto de seus l\u00e1bios para desenhar um sorriso, enquanto o olhar permanece ausente: chama-se Joan Turner, a vi\u00fava de V\u00edctor Jara.<\/p>\n<p>Tem 91 anos e todos a conhecem no Chile como Joan Jara. \u00c9 a m\u00e3e de Amanda, a filha que inspirou V\u00edctor Jara a compor umas de suas mais belas e reconhecidas can\u00e7\u00f5es, antes de ser cruelmente torturado pela ditadura de Augusto Pinochet.<\/p>\n<p>Confinado no Est\u00e1dio Chile depois do golpe de estado de 11 de setembro de 1973, sofreu torturas pelo simples fato de professar ideias de esquerda, pois era militante do Partido Comunista. Era mestre, dramaturgo, cantor e compositor.<\/p>\n<p>Cinco dias mais tarde, foi assassinado na instala\u00e7\u00e3o esportiva que hoje leva seu nome. Queimaram-no com cigarros, cortaram-lhe a l\u00edngua e esmagaram seus dedos. Depois, recebeu 44 tiros e foi jogado em um matagal ao lado do Cemit\u00e9rio Metropolitano.<\/p>\n<p>Havia seis cad\u00e1veres, um era de V\u00edctor Jara.<\/p>\n<p><i>Te Recuerdo Amanda<\/i>,\u00a0<i>Plegaria a un Labrador<\/i>,\u00a0<i>El Derecho de Vivir en Paz<\/i>, entre outras, s\u00e3o can\u00e7\u00f5es que t\u00eam acompanhado a Am\u00e9rica Latina nestes 45 anos de aus\u00eancia de Jara.<\/p>\n<p>Cantava, escrevia poemas, foi professor, ator e diretor teatral. Seu pecado foi abra\u00e7ar a causa da Unidade Popular do presidente Salvador Allende no Chile.<\/p>\n<p>Em um dos muros do Museu da Mem\u00f3ria, est\u00e1 registrado aquele que foi o \u00faltimo poema de Jara:<\/p>\n<p><strong>Somos cinco mil\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Somos cinco mil aqu\u00ed.<br \/>\nEn esta peque\u00f1a parte de la ciudad.<br \/>\nSomos cinco mil.<br \/>\n\u00bfCu\u00e1ntos somos en total<\/p>\n<p>en las ciudades y en todo el pa\u00eds?<\/p>\n<p>Somos aqu\u00ed diez mil manos<br \/>\nque siembran y hacen andar las f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>\u00a1Cu\u00e1nta humanidad<br \/>\ncon hambre, fr\u00edo, p\u00e1nico, dolor,<br \/>\npresi\u00f3n moral, terror y locura!<\/p>\n<p>Seis de los nuestros se perdieron<\/p>\n<p>en el espacio de las estrellas.<br \/>\nUn muerto, un golpeado como jam\u00e1s cre\u00ed<br \/>\nse podr\u00eda golpear a un ser humano.<\/p>\n<p>Los otros cuatro quisieron quitar<br \/>\nse todos los temores,uno saltando al vac\u00edo,<br \/>\notro golpe\u00e1ndose la cabeza contra el muro,<br \/>\npero todos con la mirada fija de la muerte.<\/p>\n<p>\u00a1Qu\u00e9 espanto causa el rostro del fascismo!<\/p>\n<p>Llevan a cabo sus planes con precisi\u00f3n artera sin importarles nada.<br \/>\nLa sangre para ellos son medallas.<br \/>\nLa matanza es acto de hero\u00edsmo.<\/p>\n<p>\u00bfEs \u00e9ste el mundo que creaste, Dios m\u00edo?<br \/>\n\u00bfPara esto tus siete d\u00edas de asombro y trabajo?<\/p>\n<p>En estas cuatro murallas s\u00f3lo existe un n\u00famero que no progresa.<br \/>\nQue lentamente querr\u00e1 la muerte.<\/p>\n<p>Pero de pronto me golpea la consciencia<br \/>\ny veo esta marea sin latido<br \/>\ny veo el pulso de las m\u00e1quinas<br \/>\ny los militares mostrando su rostro de matrona lleno de dulzura.<\/p>\n<p>\u00bfY M\u00e9jico, Cuba, y el mundo?<br \/>\n\u00a1Qu\u00e9 griten esta ignominia!<\/p>\n<p>Somos diez mil manos que no producen.<br \/>\n\u00bfCu\u00e1ntos somos en toda la patria?<\/p>\n<p>La sangre del Compa\u00f1ero Presidente<br \/>\ngolpea m\u00e1s fuerte que bombas y metrallas.<br \/>\nAs\u00ed golpear\u00e1 nuestro pu\u00f1o nuevamente.<br \/>\nCanto, que mal me salescuando tengo que cantar espanto.<br \/>\nEspanto como el que vivo, como el que muero, espanto.<\/p>\n<p>De verme entre tantos y tantos momentos del infinito<br \/>\nen que el silencio y el grito son las metas de este canto.<\/p>\n<p>Lo que nunca vi, lo que he sentido<br \/>\ny lo que siento har\u00e1 brotar el momento&#8230;<\/p>\n<p>A Corte Suprema de Justi\u00e7a do Chile ampliou a solicita\u00e7\u00e3o de extradi\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos do oficial da reserva do Ex\u00e9rcito, Pedro Barrientos N\u00fa\u00f1ez, como respons\u00e1vel pelos delitos de sequestro simples e homic\u00eddio de Jara e Litr\u00e9 Quiroga.<\/p>\n<p>Em julho passado, o juiz Miguel V\u00e1zquez condenou nove ex-militares pelo crime contra Jara. O magistrado indicou que o artista foi submetido a constantes e violentos epis\u00f3dios de agress\u00e3o f\u00edsica e verbal por parte dos militares.<\/p>\n<p>Aplicaram-lhe torturas f\u00edsicas, &#8220;sendo os golpes mais severos aqueles que recebeu na regi\u00e3o de seu rosto e em suas m\u00e3os&#8221;.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o da Verdade e Reconcilia\u00e7\u00e3o de 1990 detalhou que &#8220;o cad\u00e1ver de Jara, com m\u00e3os e rosto muito desfigurados, apresentava 44 orif\u00edcios de disparos, prova da f\u00faria na execu\u00e7\u00e3o por parte dos militares&#8221;.<\/p>\n<p>Em dezembro de 2009 Jara foi exumado, teve um funeral acompanhado por uma multid\u00e3o de pessoas e foi sepultado em uma tumba onde pode ser lido: V\u00edctor Jara Mart\u00ednez. 1938-Setembro-1973.<\/p>\n<p>Joan Jara, bailarina de origem brit\u00e2nica e com numerosas contribui\u00e7\u00f5es ao desenvolvimento de dan\u00e7a no Chile, foi condecorada com a Ordem ao M\u00e9rito Art\u00edstico e Cultural Pablo Neruda, das m\u00e3os da presidenta Michelle Bachelet, em dezembro de 2016.<\/p>\n<p>Junto a suas filhas Amanda e Manuela (de seu primeiro casal), n\u00e3o tem deixado de se empenhar no sentido de que os assassinos de V\u00edctor Jara sejam punidos.<\/p>\n<p><b>V\u00cdCTOR JARA<\/b><\/p>\n<p>http:\/\/memoriasdaditadura.org.<wbr \/>br\/artistas\/victor-jara\/index.<wbr \/>htmlEm 12 de setembro de 1973, cerca de 600 professores e estudantes da Universidade T\u00e9cnica do Estado (UTE), em Santiago, faziam vig\u00edlia no campus. O grupo manifestava seu apoio ao presidente Salvador Allende, deposto na v\u00e9spera por um golpe militar patrocinado por Augusto Pinochet, quando foi conduzido ao Est\u00e1dio Chile. Era um gin\u00e1sio de esportes no qual se realizavam shows, partidas de v\u00f4lei e basquete, que tinha sido convertido desde o dia anterior em centro de deten\u00e7\u00e3o e quartel general da repress\u00e3o. Entre os presos estava um conhecido compositor de cabelo encaracolado, logo identificado por um dos soldados.\u00a0\u201cN\u00e3o o tratem como mulherzinha\u201d, orientou o oficial. Seu nome era V\u00edctor Jara.<\/p>\n<p><b>Professor da Faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o da UTE, V\u00edctor Jara militava no Partido Comunista, havia apoiado a elei\u00e7\u00e3o de Allende pela Unidade Popular em 1971, e firmava-se como o maior nome da can\u00e7\u00e3o de protesto em seu pa\u00eds. Instantes depois de pisar no Est\u00e1dio Chile, V\u00edctor Jara foi brutalmente espancado. Seu rosto vertia sangue quando lhe esmigalharam tamb\u00e9m as m\u00e3os, a coronhadas, diante de todos. Seus torturadores afirmavam fazer aquilo para que ele nunca mais empunhasse um viol\u00e3o.<\/b><\/p>\n<p>Cinco dias ap\u00f3s a pris\u00e3o, V\u00edctor Jara foi assassinado. O laudo emitido ap\u00f3s a aut\u00f3psia, feita quando localizaram o cad\u00e1ver num matagal, indicou uma por\u00e7\u00e3o de ossos quebrados e 44 marcas de balas. Antes de morrer, conseguiu redigir um poema, entregue aos companheiros de c\u00e1rcere, que providenciaram c\u00f3pias e conseguiram preserv\u00e1-lo, dando-lhe mais tarde o t\u00edtulo de \u201cEst\u00e1dio Chile\u201c: \u201cSomos cinco mil aqu\u00ed\/ en esta peque\u00f1a parte de la ciudad\/ (\u2026) Seis de los nuestros se perdieron\/ en el espacio de las estrellas.\/ Uno muerto, un golpeado como jam\u00e1s cre\u00ed\/ se podr\u00eda golpear a un ser humano.\/ Los otros cuatro quisieron quitarse\/ todos los temores, \/ uno saltando al vac\u00edo,\/ otro golpe\u00e1ndose la cabeza contra un muro\/ pero todos con la mirada fija en la muerte.\/ \u00a1Qu\u00e9 espanto produce el rostro del fascismo!\u201d. Trinta anos depois, em setembro de 2003, o mesmo Est\u00e1dio Chile foi nomeado\u00a0Est\u00e1dio V\u00edctor Jara.<\/p>\n<p>Filho de lavrador, V\u00edctor Jara tocava e cantava num grupo de m\u00fasica folcl\u00f3rica quando conheceu Violeta Parra, na segunda metade dos anos 1950, e foi convencido por ela a continuar insistindo na carreira. Em 1965, j\u00e1 tinha gravado um disco com o conjunto quando passou a frequentar a\u00a0<em>Pe\u00f1a de los Parra<\/em>. Seus dois primeiros LPs como artista solo foram lan\u00e7ados em 1967.<\/p>\n<p>Aos poucos, a can\u00e7\u00e3o folcl\u00f3rica e os temas rurais foram cedendo espa\u00e7o para a m\u00fasica de protesto, mais urbana e, ao mesmo tempo, profundamente alinhada \u00e0s bandeiras pol\u00edticas da \u00e9poca. V\u00edctor apoia o l\u00edder vietnamita Ho Chi Min, citando-o nominalmente em plena guerra fria na can\u00e7\u00e3o \u201cEl Derecho de Vivir en Paz\u201c. Grava \u201cCruz de Luz\u201d, de Daniel Viglietti, solidarizando-se com o padre e guerrilheiro colombiano Camilo Torres. Monta um repert\u00f3rio com can\u00e7\u00f5es em homenagem a Pancho Villa, Che Guevara e Salvador Allende. Musica o poema de Neruda \u201cAqu\u00ed me Quedo\u201c: \u201cEu n\u00e3o quero a p\u00e1tria dividida \/ cabemos todos na minha terra\u201d.<\/p>\n<p>Mais conhecido como compositor de\u00a0\u201cTe Recuerdo Amanda\u201d, gravada por Mercedes Sosa, Joan Baez, Ivan Lins e muitos outros, V\u00edctor Jara registrou sua miss\u00e3o na primeira estrofe da can\u00e7\u00e3o \u201cManifesto\u201c: \u201cEu n\u00e3o canto por cantar\/ nem por ter uma voz bonita\/ Canto porque o viol\u00e3o\/ tem sentido e raz\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Mural a V\u00edctor Jara, Santiago do Chile<\/p>\n<p>Foto: Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0) https:\/\/creativecommons.org\/<wbr \/>licenses\/by-sa\/3.0<\/p>\n<p>https:\/\/www.prensalatina.com.br\/index.php?o=rn&#038;id=19235&#038;SEO=victor-jara-um-crime-que-se-chora-ainda-no-chile<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20866\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[87,50],"tags":[233],"class_list":["post-20866","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c100-chile","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5qy","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20866","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20866"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20866\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20866"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20866"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20866"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}