{"id":209,"date":"2008-11-15T09:08:54","date_gmt":"2008-11-15T09:08:54","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=209"},"modified":"2008-11-15T09:08:54","modified_gmt":"2008-11-15T09:08:54","slug":"paraguai-entre-lula-e-a-soja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/209","title":{"rendered":"PARAGUAI, ENTRE LULA E A SOJA"},"content":{"rendered":"\n<p>Os grandes plantadores de soja brasileiros foram se instalando no Paraguai a partir da d\u00e9cada de 1960, atra\u00eddos pelo baixo pre\u00e7o da terra e pelas facilidades outorgadas pela ditadura, e trouxeram tamb\u00e9m seus &#8220;pe\u00f5es&#8221; do Brasil. Calcula-se que existe hoje no Paraguai algo como meio milh\u00e3o de brasiguaios, representando 10% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Em algumas zonas dos departamentos fronteiri\u00e7os, San Pedro, Itap\u00faa, Alto Paran\u00e1, Concepci\u00f3n, Amambay e Canindey\u00fa, se fala portugu\u00eas e se comercia em reais. Ainda que n\u00e3o haja dados oficiais, estima-se que at\u00e9 80% dos cultivos de soja estejam nas m\u00e3os de brasiguaios.<\/p>\n<p>As ocupa\u00e7\u00f5es de terra dos camponeses &#8211; em particular aquelas lideradas pela Organiza\u00e7\u00e3o de Luta pela Terra (OLT), nas que participam tamb\u00e9m militantes de outros movimentos &#8211; focalizaram-se nas fazendas do brasiguaio Tranquilo Favero, propriet\u00e1rio de 55 mil hectares e 30 dep\u00f3sitos de soja nos departamentos de Alto Paran\u00e1 e Amambay. No final de outubro quatro mil camponeses derrubaram arames e amea\u00e7aram queimar os dep\u00f3sitos. O &#8220;rei da soja&#8221; e seus colegas se queixaram \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Rural e ao governo Lugo, contando com um poderoso aliado&#8230;<\/p>\n<p>No in\u00edcio de outubro o governo de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva emitiu o decreto 6952, que regulamenta o Sistema Nacional de Mobiliza\u00e7\u00e3o, com o qual o governo do PT pretende enfrentar uma eventual &#8220;agress\u00e3o estrangeira&#8221;. O decreto a define como &#8220;amea\u00e7as ou atos lesivos \u00e0 soberania nacional, \u00e0 integridade territorial, ao povo brasileiro ou \u00e0s institui\u00e7\u00f5es nacionais, ainda que n\u00e3o signifiquem invas\u00e3o do territ\u00f3rio nacional&#8221;.<\/p>\n<p>No dia 17 de outubro, 10 mil soldados brasileiros iniciaram exerc\u00edcios militares na fronteira com o Paraguai. A gigantesca movimenta\u00e7\u00e3o militar formou parte da Opera\u00e7\u00e3o Fronteira Sul II, que durante uma semana incluiu a utiliza\u00e7\u00e3o de avi\u00f5es, tanques, barcos, com uso de muni\u00e7\u00e3o real. A imprensa de Assun\u00e7\u00e3o informou que a opera\u00e7\u00e3o contempla exerc\u00edcios como a ocupa\u00e7\u00e3o de Itaipu e o resgate de cidad\u00e3os brasileiros.<\/p>\n<p>O governo de Lugo levou o tema \u00e0 Assembl\u00e9ia Permanente da OEA, onde insinuou que o operativo militar foi um &#8220;recado sobre Itaipu&#8221; e assegurou que o Brasil quer negociar a paz para os plantadores de soja com um pequeno aumento do pre\u00e7o da energia que compra do Paraguai. Os governos de Lugo e Lula come\u00e7aram uma rodada de negocia\u00e7\u00f5es centradas em torno de dois pontos-chave: o Paraguai quer recuperar a livre disponibilidade de sua energia e poder vender o seu excedente a qualquer pa\u00eds, e quer receber algo mais que o pre\u00e7o de custo que estabelece o Tratado de Itaipu, cinco vezes menor que o pre\u00e7o de mercado.<\/p>\n<p>O general Jos\u00e9 Elito Carvalho Siqueira, chefe do Comando Militar do Sul, explicou \u00e0 imprensa as raz\u00f5es da opera\u00e7\u00e3o: &#8220;j\u00e1 terminou a fase em que t\u00ednhamos que esconder as coisas. Hoje n\u00f3s temos que demonstrar que somos uma pot\u00eancia, e \u00e9 importante que nossos vizinhos o saibam. N\u00e3o podemos deixar de exercitar e mostrar que somos fortes, que estamos presentes e temos capacidade de enfrentar qualquer amea\u00e7a&#8221;. Uma das amea\u00e7as a que aludiu \u00e9 uma poss\u00edvel ocupa\u00e7\u00e3o de Itaipu por movimentos sociais, j\u00e1 que a represa fornece 20% da energia que o Brasil consome.<\/p>\n<p>Mas foi o diretor da revista militar DefensaNet, Kaiser Konrad, quem, ao entrevistar o general Carvalho, explicou as raz\u00f5es de toda aquela mobiliza\u00e7\u00e3o militar: &#8220;a Opera\u00e7\u00e3o Fronteira Sul II quer dar um recado ao governo Lugo, o de que os militares brasileiros est\u00e3o atentos \u00e0 situa\u00e7\u00e3o enfrentada pelos brasiguaios, que est\u00e3o sofrendo com as invas\u00f5es de terra e as amea\u00e7as de perder suas propriedades legalmente adquiridas&#8221;.<\/p>\n<p>Para afastar qualquer d\u00favida sobre a atitude do governo Lula, o ministro Celso Amorin pediu ao governo paraguaio, sem rodeios, que controlasse os &#8220;excessos&#8221; contra os brasiguaios. Em agosto um movimento campon\u00eas queimou uma bandeira brasileira num assentamento sem terra, refletindo um sentimento muito disseminado no Paraguai. N\u00e3o s\u00e3o poucos no pa\u00eds guarani os que sentem que a pot\u00eancia regional se comporta como se os pequenos pa\u00edses que o rodeiam fossem o seu p\u00e1tio traseiro.<\/p>\n<p>Simultaneamente, o governo de Rafael Correa expulsou a multinacional brasileira Odebrecht do Equador por violar contratos, o que levou Lula a sair em defesa da empresa fundada por seu amigo Norberto Odebrecht, um dos principais contribuintes das campanhas eleitorais do PT.<\/p>\n<p>O Paraguai atravessa uma encruzilhada. Pela primeira vez, ao longo de seis d\u00e9cadas de governos colorados, pode-se superar a tutela de Washington, realizar algumas reformas que limitem a corrup\u00e7\u00e3o, e melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o se quer cair numa nova depend\u00eancia, diante de um poderoso vizinho que \u00e9 a pot\u00eancia emergente da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os movimentos est\u00e3o tamb\u00e9m numa encruzilhada. Apoiaram Lugo porque ele os defendeu desde a diocese, quando era bispo, e prometeu a reforma agr\u00e1ria. N\u00e3o est\u00e3o dispostos a seguir esperando. Muito menos ir\u00e3o tolerar repress\u00e3o, como vem sucedendo frente \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es nos dois \u00faltimos meses.<\/p>\n<p>Originalmente publicado em La Jornada, M\u00e9xico, em 07\/10\/2008. Tradu\u00e7\u00e3o de Rodrigo Oliveira Fonseca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ra\u00fal Zibechi\nA potente mobiliza\u00e7\u00e3o dos camponeses paraguaios est\u00e1 revelando s\u00e9rias contradi\u00e7\u00f5es regionais e for\u00e7ando o governo de Fernando Lugo a definir-se em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 prometida reforma agr\u00e1ria. Com a ascens\u00e3o de Lugo \u00e0 presid\u00eancia, os de baixo sentiram que chegou a hora de come\u00e7ar a resolver injusti\u00e7as hist\u00f3ricas e decidiram come\u00e7ar a cobrar a fatura. At\u00e9 hoje a repress\u00e3o provocou um morto e dezenas de feridos e detidos.\nOs camponeses est\u00e3o ocupando terras dos grandes propriet\u00e1rios plantadores de soja, muitos deles brasileiros, os chamados brasiguaios. No Paraguai a soja tem crescido de forma exponencial, aproximando-se dos tr\u00eas milh\u00f5es de hectares na colheita de 2007\/2008, sendo o pa\u00eds o quarto exportador mundial. O outro lado dessa expans\u00e3o da soja \u00e9 a migra\u00e7\u00e3o massiva de camponeses. Em 1989, quando caiu a ditadura de Alfredo Stroessner, 60% dos paraguaios viviam no campo. Hoje este \u00edndice n\u00e3o chega a 40%.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/209\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[35],"tags":[],"class_list":["post-209","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c40-paraguai"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3n","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/209","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=209"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/209\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=209"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=209"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=209"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}