{"id":20932,"date":"2018-09-25T18:49:28","date_gmt":"2018-09-25T21:49:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20932"},"modified":"2018-09-25T18:49:28","modified_gmt":"2018-09-25T21:49:28","slug":"este-monstro-mole-e-indeciso-ainda-que-e-o-brasil-mario-de-andrade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20932","title":{"rendered":"&#8220;Este monstro mole e indeciso ainda que \u00e9 o Brasil&#8221; (M\u00e1rio de Andrade)"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/i.ytimg.com\/vi\/WMOp-wkh2ao\/maxresdefault.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Jacques Grumman<\/p>\n<p>Fa\u00e7o minha declara\u00e7\u00e3o de voto. N\u00e3o d\u00e1 para ser a seco. O pa\u00eds est\u00e1 mergulhado num clima irracional, o debate pol\u00edtico foi substitu\u00eddo por uma combina\u00e7\u00e3o \u00e1cida de frustra\u00e7\u00f5es, sentimentos difusos e messianismo. Nos bastidores, reaparece um fantasma que assombrou, torturou e dizimou minha gera\u00e7\u00e3o. No Brasil, quando a caserna, em aberto desafio \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o, se mete a dar opini\u00e3o pol\u00edtica, advert\u00eancia vira amea\u00e7a. Por tudo isso, qualifico o que penso e, para organizar melhor o pensamento, vou ser um tanto esquem\u00e1tico. Lamento.<\/p>\n<p>1. Antes de dar um passo \u00e0 frente, dou dois atr\u00e1s. A resist\u00eancia \u00e0 ditadura civil-militar nunca foi uniforme, mas sab\u00edamos quem era o inimigo principal. Isso nos unia, mesmo sob regras eleitorais draconianas e claras diverg\u00eancias doutrin\u00e1rias. Em 1974, por exemplo, esta unidade em torno do MDB derrotou a ditadura em 16 estados. Esse ponto \u00e9 importante: podemos ter d\u00favidas sobre os aliados, mas jamais sobre o inimigo.<\/p>\n<p>Hoje, vivemos uma situa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, tanto pela dimens\u00e3o como pela velocidade com que surgiu. Nunca houve um partido de massas de extrema-direita no Brasil. Continua n\u00e3o havendo, mas uma plataforma inorg\u00e2nica protofascista est\u00e1 seduzindo amplos setores sociais e conseguindo penetrar em todo o pa\u00eds. O desgaste da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e essa \u00e9 uma responsabilidade tamb\u00e9m da esquerda, joga nos bra\u00e7os de um deputado med\u00edocre a catarse contra a viol\u00eancia cotidiana e a inseguran\u00e7a econ\u00f4mica. O n\u00edvel de esquizofrenia \u00e9 tal que, por mais que o ex-capit\u00e3o ofenda as mulheres, ele continua crescendo neste segmento. Nestas horas, parece que o pa\u00eds surtou.<\/p>\n<p>O inimigo principal \u00e9, portanto, a extrema-direita. Sem desvios ou d\u00favidas. Faz lembrar um personagem do Henfil. Cada vez que um pol\u00edtico ligado \u00e0 ditadura tentava desviar a aten\u00e7\u00e3o popular, o personagem gritava \u201cDiretas-j\u00e1 !\u201d. Todas as diverg\u00eancias se dissolvem para derrotar o projeto totalit\u00e1rio. As firulas a gente resolve depois.<\/p>\n<p>2. \u00c9 tarefa importante dos partidos de esquerda e movimentos populares analisar o fen\u00f4meno filofascista, sem subestim\u00e1-lo ou folcloriz\u00e1-lo. Que direita \u00e9 essa ? Que bases sociais a sustentam ? Que interesses representa ? Pode evoluir para uma forma\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, uma esp\u00e9cie de \u201cdireita popular\u201d ? N\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es triviais. O poss\u00edvel enfrentamento, em segundo turno, entre o pesadelo do coturno e a imposs\u00edvel volta a uma Shangri-l\u00e1 id\u00edlica (o tempo n\u00e3o para, dizia Cazuza), sob a dire\u00e7\u00e3o de um novo Padim Ci\u00e7o, tornar\u00e1 as respostas muito urgentes. Digo mais. Qualquer que seja o resultado final desta elei\u00e7\u00e3o, o horizonte ser\u00e1 movedi\u00e7o, sujeito a turbul\u00eancias extremas.<\/p>\n<p>3. Um dos tra\u00e7os melanc\u00f3licos do quadro eleitoral \u00e9 a indig\u00eancia partid\u00e1ria. Praticamente tudo est\u00e1 fulanizado. Os partidos pol\u00edticos, quase todos, s\u00e3o meros logotipos de palanque. Candidatos do PDT, por exemplo, n\u00e3o falam de trabalhismo. Alguns se penduram na heran\u00e7a de Brizola e Darcy Ribeiro (como se fossem nomes populares entre os jovens &#8230;), sem explicar do que se trata. Ilusionismo. O PT, que nasceu de uma conjuga\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que lutaram contra a ditadura e foi, na origem, socialista, h\u00e1 muito abandonou este projeto. O petismo \u00e9 cada vez mais substitu\u00eddo pelo lulismo, vulgariza\u00e7\u00e3o envergonhada da tradi\u00e7\u00e3o sebastianista lusa. A corros\u00e3o da base oper\u00e1ria levou ao que o soci\u00f3logo Ricardo Antunes chama de \u201csindicalismo negocial, maneiroso para fora e mandonista para dentro\u201d. O projeto de poder articulou, e continua articulando, alian\u00e7as com partidos e pol\u00edticos ligados \u00e0s oligarquias. Quem n\u00e3o lembra a famosa feijoada na casa de Paulo Maluf, cujos comensais foram Lula e Haddad ? Quem pode esquecer os apoios formais de Lula \u00e0 sucess\u00e3o de bandidos que governaram o Rio de Janeiro nos \u00faltimos anos ? Francisco de Oliveira, soci\u00f3logo e fundador do PT (do qual se desligou na alvorada do mensal\u00e3o), chama o lulismo de \u201cpervers\u00e3o do petismo\u201d. Exagero ? N\u00e3o sei. O que sei \u00e9 que a exalta\u00e7\u00e3o de mitos despolitiza e facilita o caminho da direita.<\/p>\n<p>Ainda o Chico de Oliveira: \u201cOs partidos tornam-se irrelevantes para a grande pol\u00edtica; esta se decide em outras inst\u00e2ncias, fora dos controles democr\u00e1ticos e republicanos; o Banco Central \u00e9 a principal delas. A economia engole o Estado\u201d.<\/p>\n<p>4. O processo de concilia\u00e7\u00e3o de classes e a miragem do poder pavimentaram a estrada para a corrup\u00e7\u00e3o. S\u00f3 mesmo o fanatismo pode explicar a nega\u00e7\u00e3o deste fato. Cito dois personagens. Lula, em 2005: \u201cEu me sinto tra\u00eddo por pr\u00e1ticas inaceit\u00e1veis sobre as quais eu n\u00e3o tinha qualquer conhecimento. N\u00e3o tenho vergonha de dizer que n\u00f3s temos de pedir desculpas\u201d. Jamais esclareceu que \u201cpr\u00e1ticas inaceit\u00e1veis\u201d eram aquelas, muito menos pediram desculpas ou fizeram uma autocr\u00edtica. Tarso Genro, em 2012: \u201cQue tem pessoas que cometeram ilegalidades, n\u00e3o tenho d\u00favidas. Seria debochar da Justi\u00e7a do pa\u00eds e do processo dos inqu\u00e9ritos achar que todo mundo \u00e9 inocente\u201d. Isso me permite sair do terreno da conspira\u00e7\u00e3o, mantra \u00fanico de quem n\u00e3o se disp\u00f5e a aceitar o \u00f3bvio.<\/p>\n<p>5. A utopia da esquerda foi sequestrada neste s\u00e9culo. Substitu\u00edda pelo gerenciamento de conflitos t\u00edpica dos limites do movimento sindical. Como se bastassem bons administradores para harmonizar interesses contradit\u00f3rios. Frase lapidar neste sentido foi dita por um ilustre representante do capital: Delfim Neto (a quem cham\u00e1vamos de Gordinho Sinistro quando era o czar da economia dos generais). Reconhecendo a habilidade negociadora de Lula, sentenciou: \u201cLula salvou o capitalismo no Brasil\u201d. \u00c9 para isso que se quer reformar o pa\u00eds ? Para manter intocada a din\u00e2mica da acumula\u00e7\u00e3o capitalista ?<\/p>\n<p>Para entender este processo, Chico de Oliveira elaborou o conceito de hegemonia \u00e0s avessas. Controvertido, lembra o Chico o que aconteceu na luta contra o apartheid sul-africano. Derrotado o regime nefando, adotou-se uma pol\u00edtica neoliberal ortodoxa. \u201cVoc\u00ea derrota o apartheid para servir aos senhores do apartheid\u201d, ponderou. No caso brasileiro, apesar dos permanentes esbravejamentos contra as \u201celites\u201d, governou-se com elas. Nunca os banqueiros ganharam tanto dinheiro como nos meus governos, diz Lula com orgulho, imaginando que pode replicar o modelito em qualquer quadra hist\u00f3rica. E vai seguindo a prociss\u00e3o &#8230;<\/p>\n<p>6. Nunca votei em nomes. Sou antigo, voto em programas. Assim, e dentro da perspectiva de fortalecer uma refer\u00eancia de esquerda que v\u00e1 al\u00e9m do espa\u00e7o limitad\u00edssimo das urnas, votarei nos candidatos da coliga\u00e7\u00e3o PSOL\/PCB\/MTST\/movimentos sociais. De presidente a deputado estadual. N\u00e3o \u00e9, sei disso, um voto pragm\u00e1tico. E direi que pouco importa. O que me importa \u00e9 contribuir para a reinser\u00e7\u00e3o de objetivos abandonados exatamente pelo excesso de pragmatismo (no limite, n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a para o cinismo) e mancebia com a din\u00e2mica exploradora do capital.<\/p>\n<p>Como se materializa essa inten\u00e7\u00e3o ? Recorro ao professor Vladimir Safatle: \u201cSugiro que a esquerda pare de tentar impedir a autodestrui\u00e7\u00e3o do capitalismo e lute por uma sociedade na qual a propriedade n\u00e3o seja mais a representa\u00e7\u00e3o \u00fanica da liberdade\u201d.<\/p>\n<p>7. No segundo turno, coerente com o que escrevi no princ\u00edpio, \u00e9 unidade para barrar o fascismo.<\/p>\n<p>Para terminar, me ocorre uma antiga pe\u00e7a de teatro, escrita por Paulo Pontes. Brasileiro, Profiss\u00e3o Esperan\u00e7a surgiu quando fazia muito escuro nas nossas vidas. E sa\u00edmos daquilo, penosamente, mas transformando o desencanto, o conformismo, em esperan\u00e7a militante. \u00c9 disso que precisamos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20932\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[224],"class_list":["post-20932","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5rC","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20932","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20932"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20932\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20932"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20932"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20932"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}