{"id":20939,"date":"2018-09-26T22:03:31","date_gmt":"2018-09-27T01:03:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20939"},"modified":"2018-09-26T22:03:31","modified_gmt":"2018-09-27T01:03:31","slug":"quem-vota-em-jair-bolsonaro-por-que-e-o-que-esperar-do-bolsonarismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20939","title":{"rendered":"Quem vota em Jair Bolsonaro, por que e o que esperar do bolsonarismo?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/EgQrdVlnPDZHhUS14htkk3RusPW9LxSWz3EXtJImYcuwhcc6LnNrHf51jnU2HqHZmc-PMO5AkDZFE7d-spJYfEiTHa2GnkFs5sg1ezImCz7A8MCpBVflLvDDwbD5_OpFNIhBH8efkPqHnSRkgw_Yt5NRUkzcPQRqQQRzQmndm1ln9N1qqA4cpdoAROU3asGhQaUFWR_asauomVDc-M6qXEruEau742Fl-31Fe4_yp15ZxJkzLvwGGmI_a39wCjcRn06zcto_xRfmiuhK0YpchXebDl7Q5tymEEOQR8JYJDUL4iA4Bqs_cogTYuY0Q2iOEzn5PkNGacsCSXEHI82Zl8kVZtVJhk_WTWimaAEQvZxt10dn1FT7CL60AzbiEGhkUPIVOxVqXeYxaLHEucjiX7e786HG-pWpatEGS7Ct5endl9Cus1FKs3qp1t7w-rXg3URYRy5yy9qZ2YI6xD79uGdiWfHHfRWtduF1NggBWmH79YcG15ugRj-Bmlq-Ioi3lnum5p2TqPPVrPckFGT2-2BMRFhOxrip-7vVr4PAsO8o2xVuFFEp5cUokgF_HlRMfUmDTJGX3cmuHx8G1skRuEsAGmNA9lJpKET1RRJqSsbzGC7Lt3hmQRum2Oq8zdiYQR70-EUI-zB1mQBO8awJ-IuXBV5ivsP36Ui6RlZ_zMjBkMYSoIC_rIULug=w799-h448-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><strong>Quem vota em Jair Bolsonaro, por que e o que esperar do bolsonarismo?<\/strong><\/p>\n<p>David Maciel*<\/p>\n<p><strong>Quem \u00e9 o eleitor de Bolsonaro?<\/strong><\/p>\n<p>Pesquisa do Instituto Vox Populi em parceria com a Central \u00danica dos Trabalhadores, divulgada em julho de 2018, revela 12% de inten\u00e7\u00e3o de voto no deputado Jair Bolsonaro, do PSL. Trata-se de um voto org\u00e2nico, n\u00e3o influenciado pelos c\u00e1lculos do \u201cvoto \u00fatil\u201d, pois na pesquisa tamb\u00e9m aparecem o ex-presidente Lula e diversas outras candidaturas conservadoras como Geraldo Alckmin e Marina Silva, que apresentavam maior viabilidade eleitoral do que hoje, dividindo o voto antipetista. Ainda n\u00e3o havia ocorrido o atentado ao candidato, o impedimento definitivo da candidatura Lula e nem a desidrata\u00e7\u00e3o das candidaturas Alckmin e Marina, como acontece hoje, o que ampliou as inten\u00e7\u00f5es de voto no deputado em todos os indicadores (regi\u00e3o, sexo, idade, faixa de renda, faixa de idade e n\u00edvel de escolaridade), como indicam pesquisas recentes. Por isso, a pesquisa de julho nos permite apurar melhor quem \u00e9 o eleitor convicto de Jair Bolsonaro, que forma o \u201cn\u00facleo duro\u201d do eleitorado bolsonarista e que mesmo ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es tende a se manter como uma base social importante para a extrema-direita. \u00c9 importante ressaltar que, com pequenas varia\u00e7\u00f5es, as tend\u00eancias aqui apresentadas tamb\u00e9m aparecem em outras pesquisas realizadas na mesma \u00e9poca, particularmente as do IBOPE e do DataFolha, e que posteriormente tenderam a se confirmar.<\/p>\n<p>Decompondo-se esse percentual por crit\u00e9rios regionais, \u00e9 nas regi\u00f5es Sul, onde tem 19%\u00a0\u00a0e Centro-Oeste\/Norte, onde tem 17% que o candidato apresenta maiores \u00edndices de inten\u00e7\u00e3o de voto. Na regi\u00e3o Sudeste ele reproduz sua m\u00e9dia nacional, com 12%, enquanto na regi\u00e3o Nordeste este \u00edndice cai para 7%. Assim, \u00e9 nas regi\u00f5es Sul e Centro-Oeste\/Norte que Bolsonaro tem os melhores \u00edndices de inten\u00e7\u00e3o de voto. Decompondo os dados, al\u00e9m de sulista e centroestino\/nortista, podemos dizer que predominantemente o eleitor m\u00e9dio de Bolsonaro \u00e9 homem (15% no eleitorado masculino, contra 9% no feminino); jovem, tem entre 16 e 29 anos, (16%, contra 12% entre os adultos e 6% entre os maduros); pertence \u00e0s classes m\u00e9dias (incluindo- se aqui a pequena burguesia), com renda mensal acima de cinco sal\u00e1rios m\u00ednimos (17%, contra 9% entre os ganham at\u00e9 dois SM e 14% entre os que ganham de dois a cinco SM); tem n\u00edvel de escolaridade m\u00e9dio ou superior (16% para cada n\u00edvel contra 7% entre os que t\u00eam ensino fundamental) e \u00e9 majoritariamente evang\u00e9lico (14% contra 10% entre os cat\u00f3licos)\u00a0(1).<\/p>\n<p>Socialmente falando \u00e9 um eleitorado predominantemente formado por setores da pequena burguesia urbana e rural (comerciantes, prestadores de servi\u00e7os, industriais, pequenos\u00a0\u00a0propriet\u00e1rios rurais), trabalhadores de classe m\u00e9dia (profissionais liberais, aut\u00f4nomos, funcion\u00e1rios p\u00fablicos) e agentes do aparato repressivo estatal (militares, policiais, etc.). \u00c9 fato que o bolsonarismo conta com a ades\u00e3o de setores das classes dominantes, particularmente dos grandes propriet\u00e1rios\u00a0de\u00a0terra,\u00a0e\u00a0dos\u00a0trabalhadores\u00a0precarizados,\u00a0mas\u00a0\u00e9\u00a0nos\u00a0setores\u00a0de\u00a0classe\u00a0m\u00e9dia\u00a0que\u00a0apresenta maior inser\u00e7\u00e3o. A ades\u00e3o prolet\u00e1ria \u00e0 candidatura do deputado \u00e9 relativamente reduzida e limitada \u00e0 categorias profissionais que se auto-identificam como micro empres\u00e1rios (caminhoneiros, camel\u00f4s, e outras categorias de trabalhadores aut\u00f4nomos precarizados). Portanto, setores bastante sens\u00edveis ao problema da seguran\u00e7a p\u00fablica e que tendem a ver os direitos trabalhistas como privil\u00e9gios de uns poucos. Nos setores inclu\u00eddos no mercado formal de trabalho e\/ou corporativamente organizados e naqueles trabalhadores precarizados que acessam as pol\u00edticas sociais compensat\u00f3rias a posi\u00e7\u00e3o predominante \u00e9 de hostilidade \u00e0 sua\u00a0candidatura.<\/p>\n<p><b>De onde vem sua for\u00e7a eleitoral no atual per\u00edodo?<\/b><\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista parece surpreendente que o candidato favorito para disputar o segundo turno nas atuais elei\u00e7\u00f5es presidenciais seja um obscuro deputado de direita, militar da reserva, de origem malufista, filiado a um partido min\u00fasculo, membro veterano do \u201cbaixo clero\u201d da C\u00e2mara dos Deputados (est\u00e1 no s\u00e9timo mandato), sem qualquer participa\u00e7\u00e3o expressiva nos grandes embates pol\u00edticos nacionais, notabilizado apenas pela defesa dos interesses corporativos dos militares e pelos ju\u00edzos pol\u00edticos e morais estapaf\u00fardios \u00e0 luz da civilidade e do Estado de Direito. No entanto, seu favoritismo eleitoral expressa a for\u00e7a pol\u00edtica de uma extrema-direita que sempre esteve por a\u00ed, mas que recentemente ganhou musculatura organizativa e mobilizat\u00f3ria, o que lhe tornou capaz de mudar o eixo da disputa pol\u00edtica no pa\u00eds, at\u00e9 hoje polarizada entre PT e PSDB.<\/p>\n<p>Desde a ascens\u00e3o do PT ao governo federal, em 2003, formou-se uma oposi\u00e7\u00e3o social com forte inser\u00e7\u00e3o nas classes sociais acima descritas, por\u00e9m, polarizadas politicamente pelo PSDB e pelo PFL\/DEM, partidos que se mantiveram na oposi\u00e7\u00e3o aos governos petistas todo o tempo. Na chamada \u201ccrise do Mensal\u00e3o\u201d (2005) esses setores se mobilizaram fortemente contra a administra\u00e7\u00e3o petista, patrocinando manifesta\u00e7\u00f5es massivas de direita, nas ruas, na m\u00eddia e nas redes sociais, como n\u00e3o se via desde os idos do golpe de 1964 e antecipando o que viria a partir de 2013. Nas campanhas eleitorais de 2006 e 2010 tais setores se alinharam \u00e0s candidaturas de oposi\u00e7\u00e3o, mas particularmente em torno da plataforma neoliberal extremada representada pelas candidaturas da alian\u00e7a PSDB-PFL\/DEM. No entanto, em 2013 a for\u00e7a pol\u00edtica e organizativa dessa oposi\u00e7\u00e3o de direita se adensou, mobilizando setores ainda passivos e adquirindo um perfil ainda mais reacion\u00e1rio, demonstrando que a perspectiva fascista tinha diante de si uma base social de massa, que poderia ser mobilizada para al\u00e9m do oposicionismo institucional representado pelo peessedebismo\/peefelismo. Em 2015 sua emerg\u00eancia na cena pol\u00edtica foi fundamental para conferir \u201capoio popular\u201d ao\u00a0<em>impeachment\u00a0<\/em>e ao golpe em curso desde ent\u00e3o; al\u00e9m de alimentar as pretens\u00f5es eleitorais do deputado. A crise do sistema de representa\u00e7\u00e3o politica, do qual o PSDB e o DEM s\u00e3o dois importantes pilares, favoreceu o deslocamento de parte desses setores de oposi\u00e7\u00e3o para a extrema-direita e para a perspectiva da \u201cantipol\u00edtica\u201d t\u00edpica do fascismo cl\u00e1ssico, como veremos adiante, favorecendo sua autonomia e mesmo hostilidade diante dos partidos tradicionais de direita.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o politica da extrema-direita, e do fascismo em seu interior, \u00e9 um fen\u00f4meno mundial, alimentado no longo prazo pelo predom\u00ednio do neoliberalismo como programa pol\u00edtico principal do capital internacional, pela crise econ\u00f4mica mundial e pela ofensiva contra os trabalhadores. Neste sentido o que ocorre no Brasil reflete a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e o processo da luta de classes na atualidade em termos internacionais. No entanto, para al\u00e9m da din\u00e2mica internacional da luta de classes e da trajet\u00f3ria espec\u00edfica da direita no Brasil, \u00e9 preciso considerar que, contraditoriamente, estas for\u00e7as francamente hostis ao lulismo e ao petismo\u00a0 foram alimentadas e fortalecidas pelas pr\u00f3prias pol\u00edticas de governo do PT na presid\u00eancia da Rep\u00fablica entre 2003 e 2016. Ou seja, o apogeu do lulopetismo alimentou o seu\u00a0advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 preciso considerar que uma das facetas da pol\u00edtica econ\u00f4mica dos governos do PT foi o fortalecimento dos setores prim\u00e1rios e\/ou de baixa densidade tecnol\u00f3gica da economia, particularmente do agroneg\u00f3cio. A onda internacional de valoriza\u00e7\u00e3o das\u00a0<em>commodities<\/em>, refor\u00e7ando o papel dos setores prim\u00e1rio-exportadores na conquista de sucessivos super\u00e1vits na balan\u00e7a comercial e as pol\u00edticas governamentais de financiamento e apoio \u00e0 expans\u00e3o da agricultura comercial possibilitaram o fortalecimento deste segmento econ\u00f4mico e dos setores a ele vinculados (distribui\u00e7\u00e3o de alimentos, mat\u00e9rias primas e insumos agr\u00edcolas, assist\u00eancia t\u00e9cnica agron\u00f4mica e veterin\u00e1ria, e um sem n\u00famero de atividades desenvolvidas nas pequenas e m\u00e9dias cidades, mais ou menos ligadas \u00e0 cadeia do agroneg\u00f3cio e dependentes da renda gerada por ele). Nas regi\u00f5es Sul e Centro-Oeste\/Norte, justamente aquelas onde o bolsonarismo \u00e9 mais forte, o agroneg\u00f3cio se constitui como o setor econ\u00f4mico mais importante, fortalecendo-se ainda mais no per\u00edodo em rela\u00e7\u00e3o ao cen\u00e1rio nacional. Mesmo nos setores da pequena propriedade rural, que foram relativamente preteridos pelos governos petistas em favor do agroneg\u00f3cio, o apoio ao bolsonarismo \u00e9 consider\u00e1vel, por raz\u00f5es que exporemos adiante. Neste sentido, a base de massas do bolsonarismo ganhou musculatura material durante os governos do PT, fazendo com que o eleitor t\u00edpico de Bolsonaro seja homem, jovem, religioso, conservador, anticomunista ferrenho e morador das pequenas e m\u00e9dias cidades do interior.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 preciso considerar que a ades\u00e3o ao neoliberalismo pelos governos petistas, a ado\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes em rela\u00e7\u00e3o aos interesses dominantes e de transformismo em rela\u00e7\u00e3o aos trabalhadores e suas organiza\u00e7\u00f5es, contribu\u00edram para fortalecer a cultura da \u201cantipol\u00edtica\u201d que alimenta o bolsonarismo. \u00c9 claro que a \u201cantipol\u00edtica\u201d tamb\u00e9m \u00e9 uma politica, mas a estamos entendendo enquanto nega\u00e7\u00e3o da esfera de representa\u00e7\u00e3o politica como inst\u00e2ncia de representa\u00e7\u00e3o dos interesses sociais junto ao Estado, como inst\u00e2ncia de media\u00e7\u00e3o e negocia\u00e7\u00e3o dos conflitos sociais e da luta de classes. O discurso da \u201cantipol\u00edtica\u201d faz parte do pensamento autocr\u00e1tico em geral, inclusive do neoliberalismo, mas particularmente se insere no ide\u00e1rio fascista. Nesta perspectiva, a esfera de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, particularmente aquela definida pelos crit\u00e9rios democr\u00e1ticos de escolha dos representantes, \u00e9 tida como fonte de desestabiliza\u00e7\u00e3o social, pois baseada na divis\u00e3o social e no conflito de interesses entre classes e\u00a0grupos sociais, o que fere a unidade e a coes\u00e3o sociais, necess\u00e1rias para o desenvolvimento e o progresso do conjunto da nacionalidade. Assim, em lugar da representa\u00e7\u00e3o politica deve prevalecer a representa\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica, em que o Estado \u00e9 ocupado e dirigido pela burocracia, pois esta pretensamente representa o conjunto do Povo-Na\u00e7\u00e3o, n\u00e3o suas partes, como fazem os pol\u00edticos em sentido estrito.<\/p>\n<p>A esta altura o leitor atento deve estar se perguntando se Mussolini e Hitler eram ou n\u00e3o pol\u00edticos! Sim, eles eram, mas se diziam estar acima dos interesses espec\u00edficos de classes e grupos sociais, pois representavam toda a It\u00e1lia ou toda a Alemanha. Neste sentido, assumiam a perspectiva da representa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da burocracia e justificavam seu direito ao comando do Estado com base nisto. Ora, neste aspecto o fascismo refor\u00e7a um dos elementos constitutivos do Estado burgu\u00eas, o princ\u00edpio da representa\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica, em detrimento de outro, o princ\u00edpio da representa\u00e7\u00e3o politica. No que se aproxima da pr\u00f3pria ideologia neoliberal, que tamb\u00e9m refuta a representa\u00e7\u00e3o politica quando argumenta que determinados aspectos das pol\u00edticas de Estado, cruciais para a vida social, como a politica econ\u00f4mica, n\u00e3o devem ser definidas por crit\u00e9rios \u201cpol\u00edticos e ideol\u00f3gicos\u201d, mas sim por crit\u00e9rios \u201ct\u00e9cnicos\u201d, devendo ficar a cargo de especialistas, ou seja, de burocratas e tecnocratas! A pergunta que fica no ar \u00e9: especialistas para que e para quem? Em certa medida, \u00e9 esta base ideol\u00f3gica comum que permitiu \u00e0 Bolsonaro transitar do nacional- estatismo para o neoliberalismo em termos program\u00e1ticos sem grandes turbul\u00eancias, como veremos mais \u00e0\u00a0frente.<\/p>\n<p>Voltando ao nosso argumento, avaliamos que as pol\u00edticas adotadas pelo PT no governo federal contribu\u00edram para o fortalecimento da cultura da \u201cantipol\u00edtica\u201d. Ao longo dos anos, particularmente as novas gera\u00e7\u00f5es (aqueles atingiram a adolesc\u00eancia sob o per\u00edodo de governo do PT), foram (des)educadas politicamente pelo fen\u00f4meno do lulismo nos seguintes pontos:<\/p>\n<ol>\n<li>a)entendendo que o neoliberalismo e sua perspectiva antiestatista e de elimina\u00e7\u00e3o dos controles pol\u00edticos sobre a movimenta\u00e7\u00e3o do capital s\u00e3o inevit\u00e1veis, pois mesmo o maior partido do espectro pol\u00edtico historicamente identificado como n\u00e3o-neoliberal adota pol\u00edticas neoliberais quando assume o governo. Al\u00e9m de desqualificar a perspectiva transformadora e mesmo reformista da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, desqualifica ainda sua dimens\u00e3o propositiva e seu papel na media\u00e7\u00e3o dos conflitos, fortalecendo uma esp\u00e9cie de \u201crealismo c\u00ednico\u201d fascistizante e\u00a0messi\u00e2nico.<\/li>\n<li>b)deslegitimando a perspectiva pol\u00edtica dos partidos de esquerda, n\u00e3o apenas aplicando o programa do grande capital, mas adotando pr\u00e1ticas fisiol\u00f3gicas e patrimonialistas tradicionalmente identificadas com os partidos de direita. O que deu base para a cria\u00e7\u00e3o de um senso comum que concebe todos os partidos como corruptos e degenerados (\u201ctodos os partidos s\u00e3o iguais\u201d, \u201co maior esquema de corrup\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria do pa\u00eds\u201d, etc.), favorecendo a associa\u00e7\u00e3o liberal entre estatismo e corrup\u00e7\u00e3o\/inefici\u00eancia e o pr\u00f3prio discurso da\u00a0\u201cantipol\u00edtica\u201d.<\/li>\n<li>c)submetendo os movimentos sociais a uma l\u00f3gica transformista, por meio de sua coopta\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o em correias de transmiss\u00e3o das pol\u00edticas governamentais, em especial das pol\u00edticas sociais\u00a0compensat\u00f3rias,\u00a0o\u00a0que\u00a0os\u00a0apresenta\u00a0comoreivindicantes\u00a0de\u00a0demandas\u00a0meramente\u00a0corporativas e assistencialistas, n\u00e3o de interesse geral, corroendo assim a legitimidade pol\u00edtica e ideol\u00f3gica de sua constitui\u00e7\u00e3o como sujeitos pol\u00edticos e de sua pauta.<\/li>\n<li>d)com o fen\u00f4meno do lulismo criou-se a ant\u00edpoda da perspectiva de auto-organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, tradicionalmente identificada com o petismo e com a cultura pol\u00edtica da esquerda socialista, apesar da j\u00e1 longeva op\u00e7\u00e3o petista pela via institucional. O paternalismo lulista permitiu ao pensamento liberal refor\u00e7ar a identifica\u00e7\u00e3o entre socialismo\/estatismo\/populismo e destes com privil\u00e9gios, incompet\u00eancia, inefic\u00e1cia e manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O que deslegitimou aos olhos dos setores m\u00e9dios as pol\u00edticas minimamente voltadas para as classes populares e que fundamentam o car\u00e1ter neoliberal moderado dos governos<\/li>\n<\/ol>\n<p>Finalmente, \u00e9 preciso considerar a import\u00e2ncia da chantagem do \u201cmal menor\u201d (ruim com o PT, pior com o PSDB\/DEM) e do transformismo impostos pelos governos petistas \u00e0 esquerda e aos movimentos sociais na apatia politica e no desarme ideol\u00f3gico de intelectuais, artistas e lutadores sociais frente \u00e0 ofensiva ideol\u00f3gica da grande m\u00eddia e dos aparelhos privados de hegemonia de perfil neoliberal e ou fascista (Instituto Millenium, Movimento Brasil Livre, Vem pra Rua, Indignados On Line, Movimento Brasil 200, etc.). O ataque n\u00e3o s\u00f3 ao petismo, mas \u00e0 democracia, \u00e0 perspectiva politica do socialismo e aos valores igualit\u00e1rios da esquerda n\u00e3o suscitou rea\u00e7\u00e3o \u00e0 altura, configurando uma derrota no campoideol\u00f3gico.<\/p>\n<p><b>A estrutura ideol\u00f3gica do bolsonarismo<\/b><\/p>\n<p>Da conflu\u00eancia entre a cultura pol\u00edtica autocr\u00e1tica presente historicamente em setores importantes das classes dominantes e das classes m\u00e9dias, e os influxos pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos estimulados pelo lulismo nos governos petistas refor\u00e7ou-se uma estrutura ideol\u00f3gica\u00a0aparentemente contradit\u00f3ria, mas que d\u00e1 sentido \u00e0 a\u00e7\u00e3o da extrema-direita. Uma concep\u00e7\u00e3o que faz uma miscel\u00e2nea de id\u00e9ias e valores conservadores e reacion\u00e1rios de origens e matrizes variadas e \u00e9 coerente com a perspectiva fascista em tempos de hegemonia cultural\u00a0neoliberal.<\/p>\n<p>De um lado se real\u00e7a a tradicional perspectiva autocr\u00e1tica, que considera como fontes de caos, divisionismo, desorganiza\u00e7\u00e3o e irracionalidade o processo pol\u00edtico em geral, e em particular o processo democr\u00e1tico e a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das massas populares. A a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das massas populares \u00e9 vista como algo que serve apenas para manter no poder pol\u00edticos profissionais que mobilizam o apoio popular para representar interesses escusos e refor\u00e7ar suas posi\u00e7\u00f5es de mando nos partidos e no interior do Estado por meio da corrup\u00e7\u00e3o e de medidas populistas e\u00a0 demag\u00f3gicas. Nisto reside um dos aspectos do atual discurso da \u201cantipol\u00edtica\u201d. Este foi um dos argumentos utilizados em 1964 para justificar o golpe militar e legitim\u00e1-lo como \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d. Por\u00e9m, h\u00e1 mais, e nisto reside um dos elementos fundamentalmente fascistas desta cultura autocr\u00e1tica, qual seja a nega\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica das classes subalternas como sujeito, o n\u00e3o reconhecimento do seu direito de elaborar demandas pr\u00f3prias e acessar o Estado e a arena da disputa politica em nome delas; o que requer o tratamento\u00a0<em>manu militari\u00a0<\/em>da sua a\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-social e at\u00e9 mesmo\u00a0sua\u00a0elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Quando Bolsonaro afirma que a Ditadura \u201cmatou e torturou pouco\u201d ou promete fuzilar a \u201cpetralhada\u201d para \u201climpar o pa\u00eds\u201d est\u00e1 reverberando esta concep\u00e7\u00e3o. Quando convoca o general Mour\u00e3o, outro militar saudoso da Ditadura como ele, para compor sua chapa presidencial a refor\u00e7a ainda mais.<\/p>\n<p>Outro elemento propriamente fascista, e que deriva da compreens\u00e3o da luta pol\u00edtica como imp\u00e9rio da viol\u00eancia, \u00e9 a recusa da a\u00e7\u00e3o consciente, racionalmente definida e autonomamente executada em favor do \u201cdeixar-se levar\u201d, da submiss\u00e3o volunt\u00e1ria, mas irracional, \u00e0 dire\u00e7\u00e3o dos que portam a \u201csolu\u00e7\u00e3o final\u201d, simples e sem media\u00e7\u00f5es, para os intrincados problemas do real. Atualmente o discurso da \u201cantipol\u00edtica\u201d, alimentado pela crise do sistema de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, potencializa esse componente do ide\u00e1rio fascista.<\/p>\n<p>O nacionalismo tamb\u00e9m aparece. Mesmo sem se vincular \u00e0 perspectiva de independ\u00eancia econ\u00f4mica e de expans\u00e3o imperialista, tamb\u00e9m presentes no fascismo cl\u00e1ssico (2), hoje o ide\u00e1rio nacionalista aparece identificado com certa xenofobia. Veja-se, por exemplo, a hostilidade aos m\u00e9dicos cubanos contratados pelo Programa Mais M\u00e9dicos, os ataques \u00e0 postura amig\u00e1vel do Itamaraty e da Petrobr\u00e1s quando da nacionaliza\u00e7\u00e3o dos hidrocarbonetos na Bol\u00edvia e a rea\u00e7\u00e3o recente aos imigrantes venezuelanos em Roraima (estado onde Bolsonaro ganha at\u00e9 mesmo de Lula nas inten\u00e7\u00f5es de voto e defendeu cria\u00e7\u00e3o de um \u201ccampo de refugiados\u201d). Por\u00e9m, a perspectiva nacionalista aparece identificada principalmente com um \u201cpatriotismo de caserna\u201d, saudoso da Ditadura Militar (1964-1985) e que a v\u00ea como momento de apogeu da nacionalidade, quando se criaram as condi\u00e7\u00f5es para o pleno desenvolvimento nacional, devidamente desbaratadas ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Com base no revisionismo que predomina na historiografia sobre o golpe e a Ditadura desde os anos 2000 e numa narrativa inventada sobre o per\u00edodo, criou-se uma imagem falsa da Ditadura Militar, tida como um per\u00edodo de ordem, prosperidade, honestidade nas rela\u00e7\u00f5es pessoais, seguran\u00e7a p\u00fablica, probidade administrativa, compromisso com a coisa p\u00fablica por parte dos agentes p\u00fablicos, defesa dos valores tradicionais da fam\u00edlia, da religi\u00e3o e da propriedade, etc. Ou seja, o oposto do descalabro criado pela democracia, marcado pela crise econ\u00f4mica, pela corrup\u00e7\u00e3o, pela criminalidade, pelo abandono dos valores \u201csadios\u201d, etc. Mas uma imagem que, mesmo historicamente falsa, d\u00e1 sentido \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o e manifesta\u00e7\u00f5es de grande repercuss\u00e3o. Da\u00ed o desembara\u00e7o dos que, em plena luz do dia, defendem uma interven\u00e7\u00e3o militar e a volta da ditadura. A presen\u00e7a do general Mour\u00e3o na chapa presidencial de Bolsonaro refor\u00e7a esta perspectiva fascista.<\/p>\n<p>Soma-se a isso um incisivo conservadorismo nos planos comportamental e cultural, que reage ao identitarismo p\u00f3s-moderno e \u00e0s pautas democr\u00e1ticas valorizando a fam\u00edlia tradicional, baseada na supremacia masculina e paterna sobre mulher e filhos; alimentando forte preconceito contra negros, \u00edndios e homossexuais; reagindo \u00e0s pautas identit\u00e1rias e ao reconhecimento de direitos para negros, mulheres, lgbt\u2019s, pobres, etc. Na atualidade essa perspectiva se manifesta no combate \u00e0 descriminaliza\u00e7\u00e3o do aborto, ao casamento homossexual, \u00e0 dita \u201cideologia de g\u00eanero\u201d e\u00a0defende propostas como \u201cEscola sem Partido\u201d, \u201ccura gay\u201d, etc., das quais Bolsonaro se tornou propagandista.<\/p>\n<p>Por outro lado, ao inv\u00e9s da perspectiva corporativista de unifica\u00e7\u00e3o do ente nacional ou racial pela a\u00e7\u00e3o estatal totalizante e \u201ctotalit\u00e1ria\u201d, em tempos de hegemonia neoliberal o\u00a0 autocratismo fascista se combina com o individualismo propriet\u00e1rio em suas diversas faces. O que, para al\u00e9m da hostilidade fascista aos direitos civis e \u00e0 democracia liberal, rep\u00f5e em novas bases a tradicional afinidade entre fascismo e liberalismo baseada no entendimento da desigualdade social como fen\u00f4meno natural e ou divino. Esta mescla entre ide\u00e1rio fascista cl\u00e1ssico e neoliberalismo se apresenta nos seguintes\u00a0pontos:<\/p>\n<ol>\n<li>a)defesa do empreendedorismo e da livre iniciativa, como alternativa aos direitos sociais e trabalhistas e \u00e0s pol\u00edticas sociais compensat\u00f3rias, tidos como privil\u00e9gios, \u201cestatismo\u201d, fonte de demagogia e leni\u00eancia com \u201cos fracos\u201d. Esta perspectiva se reproduz em setores da pequena burguesia e mesmo do proletariado (trabalhadores aut\u00f4nomos e precarizados). Nas grandes cidades esta perspectiva polariza ainda certos setores prolet\u00e1rios desencantados com o sistema de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e afeitos ao discurso da\u00a0\u201cantipol\u00edtica\u201d.<\/li>\n<li>b)ultraliberalismo instrumental, presente na tese manhosa de que em nome da efici\u00eancia os servi\u00e7os e as empresas p\u00fablicas devem ser privatizados, por\u00e9m o Estado deve apoiar com recursos p\u00fablicos ou reduzindo impostos os setores din\u00e2micos da<\/li>\n<li>c)cren\u00e7a numa religiosidade crist\u00e3 conservadora, que combina a defesa da fam\u00edlia, das rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas entre os g\u00eaneros e uma vis\u00e3o moralista do cotidiano com a teologia da prosperidade, que enxerga a conquista da propriedade e do sucesso profissional como gra\u00e7a divina. Neste sentido, o bolsonarismo tamb\u00e9m foi cevado nos \u00faltimos anos pelo avan\u00e7o do pentescostalismo evang\u00e9lico e da renova\u00e7\u00e3o carism\u00e1tica cat\u00f3lica, fortalecendo a perspectiva conservadora nos planos social e cultural. N\u00e3o \u00e0 toa, o candidato tem obtido apoio de lideran\u00e7as e entidades religiosas, particularmente entre os evang\u00e9licos, como a Confedera\u00e7\u00e3o dos Pastores do<\/li>\n<\/ol>\n<p>Portanto, em tempos de hegemonia ideol\u00f3gica do neoliberalismo o discurso fascista se atualiza, incorporando contraditoriamente o ultraindividualismo e a defesa do livre mercado, sem abandonar o salvacionismo da \u201csolu\u00e7\u00e3o final\u201d. Neste ponto, o \u201cantiestatismo\u201d neoliberal se cruza com a \u201cantipol\u00edtica\u201d fascista. A ades\u00e3o de Bolsonaro \u00e0 pauta neoliberal extremada, abandonando a perspectiva nacional-estatista com a qual era historicamente identificado e visando atrair o apoio das fra\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas do bloco no poder, contribuiu para refor\u00e7ar a associa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea entre o ide\u00e1rio fascista cl\u00e1ssico e o neoliberalismo, mostrando sua afinidade nos tempos\u00a0atuais.<\/p>\n<p><b>Por que o voto em Bolsonaro?<\/b><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, al\u00e9m dos influxos ideol\u00f3gicos alimentados pelo lulopetismo, a crise do sistema de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica criado a partir da Nova Rep\u00fablica abriu brecha para um discurso da \u201cantipol\u00edtica\u201d e de \u201curg\u00eancia\u201d que propugna \u201csolu\u00e7\u00f5es fortes\u201d, definitivas, para a crise global. Da\u00ed\u00a0o apoio \u00e0 volta da Ditadura Militar, como se o problema fosse falta de decis\u00e3o e \u201cpatriotismo\u201d; o apoio \u00e0 tortura, como se a criminalidade se devesse \u00e0 impunidade e aos \u201cdireitos humanos\u201d dos criminosos; o apoio \u00e0 repress\u00e3o politica, como se as demandas sociais existissem por liberalidade do Estado em permitir manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, e por fim, a cr\u00edtica ao papel da pol\u00edtica como inst\u00e2ncia de media\u00e7\u00e3o e negocia\u00e7\u00e3o dos conflitos sociais e \u00e0 universalidade de direitos. Por sua origem militar e pelo perfil fascista de seu discurso Bolsonaro se apresenta como o \u201cgen\u00e9rico\u201d da interven\u00e7\u00e3o militar direta, alimentando a perspectiva salvacionista de que vai sanear o sistema de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, varrer a corrup\u00e7\u00e3o, cortar privil\u00e9gios, acabar com a criminalidade, etc., ou mesmo promover um \u201cauto-golpe\u201d, fechando o Congresso, os partidos e cancelando elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a crise econ\u00f4mica radicaliza a disputa pela renda e pelas oportunidades no mercado, inclusive o de trabalho, particularmente em setores da classe m\u00e9dia que se v\u00eaem amea\u00e7ados em seu status e em seus rendimentos pela melhoria da renda salarial e pelo acesso a determinados bens de consumo de setores anteriormente marginalizados. Da\u00ed a cr\u00edtica \u00e0s pol\u00edticas inclusivas e \u00e0s pol\u00edticas sociais compensat\u00f3rias adotadas pelos governos petistas. O antipetismo desses segmentos sociais de classe m\u00e9dia reside mais nisso do que na pr\u00f3pria quest\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o, t\u00e3o\u00a0alardeada.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, um elemento importante na pauta do candidato \u00e9 sua pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica. Conforme anunciado aos quatro cantos, para o candidato \u201cviol\u00eancia se combate com viol\u00eancia\u201d, ou seja, \u00e0 criminalidade n\u00e3o s\u00f3 o Estado deve responder de maneira mais repressiva, mas os pr\u00f3prios cidad\u00e3os devem ter o direito de reagir aos ataques \u00e0 sua vida e ao seu patrim\u00f4nio. Neste sentido Bolsonaro defende leis e penas mais duras, melhor armamento e maior liberdade de a\u00e7\u00e3o para as for\u00e7as repressivas e liberaliza\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 posse de armas para os indiv\u00edduos privados. \u00c9 uma vis\u00e3o fascista do problema da seguran\u00e7a p\u00fablica, pois entende que este deve ser resolvido com mais repress\u00e3o e viol\u00eancia, n\u00e3o com pol\u00edticas sociais. Al\u00e9m de atrair o apoio entusiasmado de militares, policiais e demais agentes repressivos, esse discurso tamb\u00e9m reverbera a perspectiva propriet\u00e1ria pequeno burguesa t\u00edpica, que define o direito de propriedade como algo sagrado. O aumento da viol\u00eancia e da criminalidade tem estimulado o verdadeiro pavor dos propriet\u00e1rios em geral, do pequeno lojista \u00e0s grandes redes de com\u00e9rcio, com o crescimento dos assaltos, \u201carrast\u00f5es\u201d, roubos de carga, seq\u00fcestros e do pr\u00f3prio tr\u00e1fico de drogas. No campo, al\u00e9m dos assaltos acrescente- se a isso o medo dos acampamentos e ocupa\u00e7\u00f5es de terra, a unificar numa mesma consci\u00eancia propriet\u00e1ria de latifundi\u00e1rios \u00e0 camponeses. N\u00e3o \u00e0 toa tais segmentos hoje bolsonaristas possuem um hist\u00f3rico de vincula\u00e7\u00e3o \u00e0 partidos conservadores e organiza\u00e7\u00f5es de extrema direita, como a UDR.<\/p>\n<p>Portanto, essa pauta \u00e9 afinada com os interesses corporativos do agroneg\u00f3cio, do latif\u00fandio em geral e de segmentos significativos da pequena burguesia e da classe m\u00e9dia. Tradicionalmente atemorizados diante da possibilidade de perda da propriedade, tais segmentos s\u00e3o\u00a0altamente\u00a0sens\u00edveis\u00a0ao\u00a0problema\u00a0da\u00a0criminalidade\u00a0e\u00a0da\u00a0viol\u00eancia\u00a0urbana\u00a0e\u00a0francamente\u00a0hostis\u00a0\u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es de terras e im\u00f3veis pelos movimentos sociais. N\u00e3o \u00e0 toa, o candidato n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 contra a reforma agr\u00e1ria e ao direito \u00e0 terra de ind\u00edgenas e quilombolas, como considera os movimentos de luta pela terra e pela moradia nada menos que organiza\u00e7\u00f5es criminosas, que devem\u00a0\u00a0ser tratadas \u00e0 bala. Esse discurso atrai o apoio desses setores sociais, principalmente do agroneg\u00f3cio, do latif\u00fandio em geral e da pequena burguesia rural, descrente no poder de justi\u00e7a do Estado e ansiosa por se auto-defender de bandidos e tamb\u00e9m dos sem terra. Se somarmos a este discurso o compromisso do candidato com a amplia\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito rural e a redu\u00e7\u00e3o ainda maior das restri\u00e7\u00f5es ambientais \u00e0 expans\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, n\u00e3o surpreende que grande parte das lideran\u00e7as e entidades representativas do agroneg\u00f3cio e dos grandes propriet\u00e1rios de terras ap\u00f3iem Bolsonaro, inclusive a dire\u00e7\u00e3o da UDR. Na verdade, esses segmentos lideram esta frente eleitoral e d\u00e3o apoio material \u00e0 candidatura do deputado. O que surpreende \u00e9 que mesmo setores vinculados \u00e0 agricultura familiar, tradicionalmente polarizados por uma perspectiva mais progressista em termos pol\u00edticos e ambientais, tamb\u00e9m venham aderindo ao bolsonarismo por conta do direito de propriedade e do tema da seguran\u00e7a no campo, evidenciando sua subordina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica \u00e0s fra\u00e7\u00f5es agr\u00e1rias das classes dominantes nas pequenas e m\u00e9dias cidades e a voca\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica desse discurso.<\/p>\n<p>A ades\u00e3o de Bolsonaro a determinados aspectos da agenda neoliberal extremada tamb\u00e9m explica o apoio de v\u00e1rios setores \u00e0 sua candidatura. De um lado, seu compromisso com as privatiza\u00e7\u00f5es, a autonomia do Banco Central, o ajuste fiscal em um ano, a reforma da previd\u00eancia, a emenda que corta gastos p\u00fablicos por 20 anos e a redu\u00e7\u00e3o da carga tribut\u00e1ria para o capital busca atrair o apoio das classes dominantes e qualific\u00e1-lo como um gestor \u201cconfi\u00e1vel\u201d para o \u201cmercado\u201d. Por outro lado, seu apoio \u00e0 reforma trabalhista e \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dos gastos com as pol\u00edticas sociais compensat\u00f3rias atrai o apoio da pequena burguesia, que emprega m\u00e3o de obra e para quem os custos salariais tem um peso significativo em seus gastos totais, e de setores das classes m\u00e9dias, hostis \u00e0 pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o e inclus\u00e3o\u00a0social.<\/p>\n<p>Finalmente, o histrionismo e a agressividade de Bolsonaro d\u00e3o-lhe uma apar\u00eancia de candidato\u00a0<em>outsider<\/em>, de algu\u00e9m que n\u00e3o tem compromisso com as elites pol\u00edticas e governamentais, o que \u00e9 importante numa situa\u00e7\u00e3o de crise do sistema de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, pois d\u00e1 \u00e0 sua interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica um car\u00e1ter pretensamente espont\u00e2neo, verdadeiro e direto, sem \u201cpapas na l\u00edngua\u201d; escamoteando o fato de que o candidato \u00e9 um pol\u00edtico profissional h\u00e1 mais de trinta anos. Isto combina com a perspectiva fascista cl\u00e1ssica da \u201csolu\u00e7\u00e3o final\u201d, de nega\u00e7\u00e3o das media\u00e7\u00f5es, de irracionalismo, t\u00e3o ao gosto das classes e segmentos sociais polarizados pela \u201cantipol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p><b>Do Bolsonarismo emergir\u00e1 um movimento fascista t\u00edpico?<\/b><\/p>\n<p>Apesar de at\u00e9 o momento deter o maior \u00edndice de inten\u00e7\u00e3o de votos na elei\u00e7\u00e3o presidencial\u00a0(3), de galvanizar o voto de direita e de possuir inser\u00e7\u00e3o em segmentos sociais significativos, a candidatura Bolsonaro ainda n\u00e3o apresenta as condi\u00e7\u00f5es para dar organicidade ao\u00a0movimento criado em torno de suas pretens\u00f5es eleitorais. O crescimento de sua candidatura em termos de inten\u00e7\u00e3o de votos pode gerar uma onda de adesismo baseado no antipetismo e atrair votos dos outros candidatos da direita, principalmente Alckmin. Tamb\u00e9m poder\u00e1 atrair apoio material de outros setores do grande capital, ainda vinculados a outras candidaturas, por\u00e9m, amedrontados com a possibilidade vit\u00f3ria do petismo. Por\u00e9m, mesmo contando com a presen\u00e7a militante de seus apoiadores nas redes sociais e com o apoio de entidades corporativas e culturais variadas e numerosas, falta-lhe ainda uma estrutura pol\u00edtica s\u00f3lida e suficientemente articulada \u00e0 sua rede de apoiadores, que unifique essas iniciativas e entidades num movimento que se mantenha para al\u00e9m das elei\u00e7\u00f5es polarizando o processo pol\u00edtico. Esse papel poderia ser exercido por um partido, no entanto, o mesmo ainda n\u00e3o existe. O PSL \u00e9 fundamentalmente um partido fisiol\u00f3gico, que absorveu a candidatura do deputado por raz\u00f5es puramente eleitoreiras, visando ampliar seu espa\u00e7o institucional. Neste sentido, est\u00e1 relativamente longe ainda do esfor\u00e7o de organiza\u00e7\u00e3o, mobiliza\u00e7\u00e3o, prega\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e enraizamento na sociedade civil necess\u00e1rios para a forma\u00e7\u00e3o de um movimento pol\u00edtico e social de tipo fascista cl\u00e1ssico, com vida org\u00e2nica, capacidade de interven\u00e7\u00e3o permanente na cena pol\u00edtica e de criar consenso de massas ativo e militante. O que n\u00e3o quer dizer que isto n\u00e3o possa vir a ocorrer no futuro, com Bolsonaro e o PSL ou n\u00e3o, pois a base social de massa e o caldo de cultura de perfil fascista tendem a permanecer\u00a0\u00a0por tempo consider\u00e1vel na cena pol\u00edtica brasileira, podendo ser galvanizada por outra lideran\u00e7a pol\u00edtica e organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esta hip\u00f3tese \u00e9 particularmente plaus\u00edvel no caso de um retorno do PT ao governo federal, pois o campo pol\u00edtico da extrema direita continuar\u00e1 operando com relativa for\u00e7a durante o atual per\u00edodo da luta de classes, radicalizando a oposi\u00e7\u00e3o ao governo. Por isso, podemos afirmar que por enquanto a mobiliza\u00e7\u00e3o em torno de Bolsonaro apresenta car\u00e1ter proto-fascista, carecendo ainda de uma estrutura organizativa unificada e presente de forma org\u00e2nica nos aparelhos privados de hegemonia e na sociedade pol\u00edtica. Caso o movimento de extrema-direita mantenha seu atual perfil proto-fascista, ele tende a funcionar como base de massa mobiliz\u00e1vel em termos pol\u00edticos e eleitorais pelos partidos da direita n\u00e3o-fascista, que devem acentuar a perspectiva conservadora de seus programas para atrair este tipo de apoio, ou mesmo de um governo oriundo de uma interven\u00e7\u00e3o\u00a0militar.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o as cr\u00edticas e sugest\u00f5es dos professores Cl\u00e1udio Maia, Walmir Barbosa, Danilo Martuscelli e Jo\u00e3o Alberto da Costa Pinto. Os erros e imprecis\u00f5es que este artigo por ventura cont\u00e9m s\u00e3o de minha inteira responsabilidade.<\/p>\n<p>1\u00a0&#8211;\u00a0https:\/\/admin.cut.org.br\/system\/uploads\/ck\/CUT_Brasil\/VOX_POPULI_ELEICOES_P RESIDENCIAIS_DIVULGACAO_26_07_1.pdf, acessado em 1 de agosto de 2018.<\/p>\n<p>2\u00a0&#8211; Consideramos como fascismo cl\u00e1ssico aquele desenvolvido entre os anos 20 e 40 do s\u00e9culo XX em diversos pa\u00edses e que teve no Nazismo alem\u00e3o a sua experi\u00eancia mais acabada como partido, ideologia e regime.<\/p>\n<p>3\u00a0&#8211; no momento em que escrevemos, o candidato do PT \u00e9 Fernando Haddad, pois a candidatura de Lula foi impugnada e\u00a0Bolsonaro aparece em primeiro lugar nas pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de votos para o primeiro turno.<\/p>\n<p>*Professor de Hist\u00f3ria na Universidade Federal de Goi\u00e1s e militante da Unidade Classista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20939\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[268],"tags":[225],"class_list":["post-20939","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eleicoes-2018","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5rJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20939","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20939"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20939\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20939"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20939"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20939"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}