{"id":2099,"date":"2011-11-22T15:16:56","date_gmt":"2011-11-22T15:16:56","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2099"},"modified":"2011-11-22T15:16:56","modified_gmt":"2011-11-22T15:16:56","slug":"discurso-proibido-de-vera-paiva-na-sansao-da-lei-da-comissao-da-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2099","title":{"rendered":"Discurso (proibido) de Vera Paiva na sans\u00e3o da Lei da Comiss\u00e3o da Verdade"},"content":{"rendered":"\n<p>Excelent\u00edssima Sra. Presidenta Dilma, querida ministra dos Direitos Humanos Maria do Ros\u00e1rio. Demais ministros presentes. Senhores representantes do Congresso Nacional, das For\u00e7as Armadas. Car\u00edssimos ex-presos pol\u00edticos e familiares de desaparecidos aqui presentes, tanto tempo nessa luta.<\/p>\n<p>Agradecemos a honra, meu filho Jo\u00e3o Paiva Avelino e eu, filha e neto de Rubens Paiva, de estarmos aqui presenciando esse momento hist\u00f3rico e, dentre as centenas de fam\u00edlias de mortos e desaparecidos, de milhares de adolescentes, mulheres e homens presos e torturados durante o regime militar, o privil\u00e9gio de poder falar.<\/p>\n<p>Ao enfrentar a verdade sobre esse per\u00edodo, ao impedir que viola\u00e7\u00f5es contra direitos humanos de qualquer esp\u00e9cie permane\u00e7am sob sigilo, \u00a0estamos mais perto de enfrentar a heran\u00e7a que ainda assombra a vida cotidiana dos brasileiros. N\u00e3o falo apenas do cotidiano das fam\u00edlias marcadas pelo per\u00edodo de exce\u00e7\u00e3o. Incont\u00e1veis fam\u00edlias ainda hoje, em 2011, \u00a0sofrem em todo o Brasil com pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, seq\u00fcestros, humilha\u00e7\u00e3o e a tortura. Sem advogado de defesa, sem fian\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 em todos os jornais e na televis\u00e3o quase todo dia, denunciando, por exemplo, como se deturpa a retomada da cidadania nos morros do Rio de Janeiro? In\u00fameros dados indicam que especialmente \u00a0brasileiros mais pobres e mais pretos, ou interpretados como homossexuais, ainda s\u00e3o cotidianamente agredidos sem defesa nas ruas, ou s\u00e3o presos arbitrariamente, sem direito ao respeito, sem garantia de seus direitos mais b\u00e1sicos \u00e0 n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o e a integridade f\u00edsica e moral que a Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos consagrou na ONU depois dos horrores do nazismo em 1948.<\/p>\n<p>Isso tudo continua acontecendo, Excelent\u00edssima Presidenta. Continua acontecendo pela a\u00e7\u00e3o de pessoas que desrespeitam sua obriga\u00e7\u00e3o constitucional e perpetuam a\u00e7\u00f5es \u00a0herdeiras do estado de exce\u00e7\u00e3o que vivemos de modo acirrado de 1964 a 1988.<\/p>\n<p>O respeito aos direitos humanos, o respeito democr\u00e1tico \u00e0 diferen\u00e7a de opini\u00f5es assim como a constru\u00e7\u00e3o da paz se constr\u00f3i todo dia e a cada gera\u00e7\u00e3o! Todos, civis e militares, devemos compromissos com sua sustenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nossa hist\u00f3ria familiar \u00e9 uma entre tantas registradas em livros e exposi\u00e7\u00f5es. Aqui em Bras\u00edlia a exposi\u00e7\u00e3o sobre o calv\u00e1rio de Frei Tito pode ser mais uma li\u00e7\u00e3o sobre o per\u00edodo que se deve investigar.<\/p>\n<p>Em Mar\u00e7o desse ano, na inaugura\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o sobre meu pai no Congresso Nacional, ressaltei que h\u00e1 exatos \u00a040 anos o t\u00ednhamos visto pela \u00faltima vez. Rubens Paiva que foi um combativo l\u00edder estudantil na luta \u201cPelo Petr\u00f3leo \u00e9 Nosso\u201d, depois engenheiro construtor de Bras\u00edlia, depois deputado eleito pelo povo, cassado e exilado em 1964. Em 1971 era um bem sucedido engenheiro, democrata preocupado com o seu pa\u00eds e pai de 5 filhos. Foi preso em casa quando voltava da praia, feliz por ter jogado v\u00f4lei e poder almo\u00e7ar com sua fam\u00edlia em um feriado. Intimado, foi dirigindo seu carro, cujo recibo de entrega dias depois \u00e9 a \u00fanica prova de que foi preso. \u00a0Minha m\u00e3e, dedicada m\u00e3e de fam\u00edlia, foi presa no dia seguinte, com minha irm\u00e3 de 15 anos. Ficaram dias no DOI-CODI, um dos cen\u00e1rio de horror naqueles tempos. Revi minha irm\u00e3 com a alma partida e minha m\u00e3e esqu\u00e1lida. De quartel em quartel, gabinete em gabinete passou anos a fio tentando encontr\u00e1-lo, ou pelo menos ter noticias. Nenhuma noticia.<\/p>\n<p>Apenas na inaugura\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo , 40 anos depois, fizemos pela primeira vez um Memorial onde juntamos fam\u00edlia e amigos para honrar sua mem\u00f3ria. Descobrimos que a data em que cada um de n\u00f3s decidiu que Rubens Paiva tinha morrido variava muito, meses e anos diferentes&#8230;Aceitar que ele tinha sido assassinado, era mat\u00e1-lo mais uma vez.<\/p>\n<p>Essa cicatriz fica menos dolorida hoje, diante de mais um passo para que nada disso se repita, para que o Brasil consolide sua democracia e um caminho para a paz.<\/p>\n<p>Excelent\u00edssima Presidenta: temos muitas coisas em comum, al\u00e9m das marcas na alma \u00a0do per\u00edodo de exce\u00e7\u00e3o e de sermos mulheres, m\u00e3e, funcion\u00e1ria p\u00fablica. Compartilhamos os direitos humanos como refer\u00eancia \u00e9tica e para as pol\u00edticas p\u00fablicas para o Brasil. \u00a0Tamb\u00e9m com 19 anos me envolvi com movimentos de jovens que queriam mudar o pais. Enquanto esperava essa cerim\u00f4nia come\u00e7ar, preparando o que ia falar, lembrava de como essa mobiliza\u00e7\u00e3o come\u00e7ou. Na diretoria do rec\u00e9m fundado DCE-Livre da USP, \u00a0Alexandre Vanucci Leme, um dos jovens colegas da USP sacrificados pela ditadura, ajudei a organizar a 1a mobiliza\u00e7\u00e3o nas ruas desde o AI-5, contra pris\u00f5es arbitr\u00e1rias de colegas presos e pela anistia aos presos pol\u00edticos. Era maio de 1977 e at\u00e9 sermos parados pelas bombas do Coronel Erasmo Dias, and\u00e1vamos pacificamente pelas ruas do centro distribuindo uma carta aberta a popula\u00e7\u00e3o cuja palavra de ordem era<\/p>\n<p>HOJE, CONSENTE QUEM CALA.<\/p>\n<p>Acho essa carta absolutamente adequada para expressar nosso desejo hoje, no ato que sanciona a Comiss\u00e3o da Verdade. Para esclarecer de fato o que aconteceu nos chamados anos de chumbo, quem \u00a0calar consentir\u00e1, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>Se a Comiss\u00e3o da Verdade n\u00e3o tiver autonomia e soberania para investigar, e uma grande equipe que a auxilie em seu trabalho, estaremos consentindo. Consentindo, quero ressaltar, seremos c\u00famplices \u00a0do sofrimento de milhares de fam\u00edlias ainda afetadas por essa heran\u00e7a de horror que agora n\u00e3o est\u00e1 apoiada em leis de exce\u00e7\u00e3o, mas segue inquestionada nos fatos.<\/p>\n<p>A nossa carta de 1977, publicada na primeira p\u00e1gina do jornal o Estado de S\u00e3o Paulo no dia seguinte, expressava a indigna\u00e7\u00e3o juvenil com a falta de democracia e justi\u00e7a social, que seguem nos desafiando. O Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds a encerrar o per\u00edodo de escravid\u00e3o, os recentes dados do IBGE confirmam que continuamos uma pa\u00eds rico, mas absurdamente desigual&#8230; Hoje somos o \u00faltimo pa\u00eds a, muito timidamente mas com esperan\u00e7a, come\u00e7ar a fazer o que outros pa\u00edses que viveram ditaduras no mesmo per\u00edodo fizeram. Somos cobrados pela ONU, pelos organismos internacionais e at\u00e9 pela Revista Economist, a avan\u00e7ar nesse processo. Todos concordam que re-estabelecer a verdade e preservar a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 revanchismo, que respons\u00e1veis pela barb\u00e1rie sejam julgadas, com o direito a defesa que os presos pol\u00edticos nunca tiveram, \u00e9 fundamental para que os torturadores de hoje n\u00e3o se sintam impunes para impedir a paz e a justi\u00e7a de todo dia. Chile e Argentina j\u00e1 o fizeram, \u00a0a \u00c1frica do Sul deu um exemplo magn\u00edfico de como enfrentar a verdade e resgatar a mem\u00f3ria. Para que anos de chumbo n\u00e3o se repitam, para que cada gera\u00e7\u00e3o a valorize.<\/p>\n<p>Termino insistindo que \u00a0a DEMOCRACIA SE CONSTR\u00d3I E RECONSTR\u00d3I A CADA DIA. Deve ser valorizada e reconstru\u00edda a CADA GERA\u00c7\u00c3O.<\/p>\n<p>E que hoje, quem cala, consente, mais uma vez.<\/p>\n<p>Obrigada.&#8221;<\/p>\n<p>Vera Paiva \u00a0(filha de Rubens Paiva)<\/p>\n<p>Tomei conhecimento agora da mensagem postada pela Vera Paiva (que reproduzo a seguir), onde ela comenta o fato de n\u00e3o lhe ter sido dada a palavra na cerim\u00f4nia de san\u00e7\u00e3o da lei que criou a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade e divulga as anota\u00e7\u00f5es do que seria sua fala.<\/p>\n<p>Estou inteiramente solid\u00e1ria com a Vera Paiva e concordo com os termos de sua fala n\u00e3o falada. N\u00e3o afirmo, mas acho que todos os familiares de mortos e desaparecidos e ex-presos que estiveram presentes (e os que estiveram ausentes, mas assinaram a Nota dos Familiares de 18\/11\/2011) tamb\u00e9m est\u00e3o solid\u00e1rios com ela.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, acho muito estranho o epis\u00f3dio: n\u00e3o falou nem a representante dos familiares nem a Ministra dos Direitos Humanos. Mal sinal!<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o dada a Vera, de que tiveram que encurtar a cerim\u00f4nia n\u00e3o me parece adequada. Pior e mais grave \u00e9 a vers\u00e3o que circulou na imprensa (19\/11\/2011) de que Genoino teria influenciado no sentido de n\u00e3o se conceder a palavra a uma representante dos familiares porque isto poderia ser mal recebido pelos comandantes militares. Inaceit\u00e1vel, tanto o argumento quanto o papel de Genoino!<\/p>\n<p>Concluo dizendo: a Presidenta Dilma precisa ouvir os familiares de mortos e desaparecidos pol\u00edticos; e n\u00f3s precisamos nos unir para derrotar o obscurantismo, conquistar a \u00a0Verdade e a Justi\u00e7a (como bem afirmou a Alta Comiss\u00e1ria da ONU para os Direitos Humanos).<\/p>\n<p>Iara Xavier Pereira<\/p>\n<p>\u201cDepois de saber que fui impedida de falar ontem, lembro \u00a0de um texto de meu irm\u00e3o Marcelo Paiva em sua coluna, dirigida aos militares:\u201d<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00eas pertencem a uma nova gera\u00e7\u00e3o de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura (\u2026)Por que n\u00e3o limpar a fama da corpora\u00e7\u00e3o?\u2028N\u00e3o se comparem a eles. N\u00e3o devem nada a eles, que sujaram o nome das For\u00e7as Armadas. Voc\u00eas devem seguir uma tradi\u00e7\u00e3o que nos honra, garantiu a Rep\u00fablica, o fim da ditadura de Get\u00falio, depois de combater os nazistas.<\/p>\n<p>Vera Paiva<\/p>\n<p>Universidade de S\u00e3o Paulo &#8211; PST &amp; NEPAIDS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Carta Maior\n\n\n\n\n\n\n\n\n&#8220;Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011, 11:00. \u00a0Pal\u00e1cio do Planalto, Bras\u00edlia.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2099\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-2099","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-xR","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2099","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2099"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2099\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2099"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2099"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2099"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}