{"id":210,"date":"2008-11-17T09:11:04","date_gmt":"2008-11-17T09:11:04","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=210"},"modified":"2008-11-17T09:11:04","modified_gmt":"2008-11-17T09:11:04","slug":"a-tragedia-da-social-democracia-retardataria-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/210","title":{"rendered":"A trag\u00e9dia da social-democracia retardat\u00e1ria no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>O primeiro deles teve como atores principais os anarquistas, especialmente os imigrantes italianos, espanh\u00f3is e portugueses que vieram ao Pa\u00eds no processo de transi\u00e7\u00e3o entre a economia agro-exportadora e o in\u00edcio do processo industrial. Estes valorosos militantes propagandearam e desenvolveram a luta de classes, buscaram organizar os trabalhadores e chegaram a realizar uma greve geral em 1917, com relativo \u00eaxito [1] . Mas, a partir de 1922, com a forma\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Brasileiro (PCB), a influ\u00eancia dos anarquistas foi decrescendo, at\u00e9 mesmo porque muitos dos dirigentes anarquistas ajudaram a formar o Partid\u00e3o.<\/p>\n<p>A nova fase que se abre a partir de 1922 ser\u00e1 caracterizada por uma hegemonia do PCB nos movimentos sociais, pol\u00edticos e culturais do Pa\u00eds, de modo que as outras organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, comparadas \u00e0 influ\u00eancia dos comunistas, podem ser consideradas apenas residuais [2] , muito embora esse partido tenha se caracterizado ao longo de sua hist\u00f3ria por uma pol\u00edtica de alian\u00e7as com todas as for\u00e7as progressistas.<\/p>\n<p>Um dos aspectos singulares da trajet\u00f3ria do PCB, entre 1922 e 1975, come\u00e7o de seu decl\u00ednio pol\u00edtico, foi a persegui\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel das classes dominantes, tanto que esse partido viveu praticamente na clandestinidade durante toda a sua exist\u00eancia. Somente nos primeiros meses de funda\u00e7\u00e3o e, entre 1945 e 1947, pode desfrutar da legalidade pol\u00edtica \u2013 o resto dos anos foram consumidos numa dura e tenaz luta clandestina \u2013 ao todo foram 60 anos de clandestinidade. Se levarmos em conta que o PCB s\u00f3 conquistou a legalidade em 1986, poderemos dizer que esta foi uma das organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias com maior tempo de clandestinidade na hist\u00f3ria do movimento revolucion\u00e1rio mundial.<\/p>\n<p>Mas a repress\u00e3o de 1974-75 (aliada \u00e0 condu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica equivocada do ent\u00e3o Comit\u00ea Central desde o ex\u00edlio, e mesmo ap\u00f3s seu retorno, com a anistia em 1979) levaram o PCB a perder a influ\u00eancia no movimento social, permitindo assim o surgimento de uma nova gera\u00e7\u00e3o de l\u00edderes oper\u00e1rios, nascidos das lutas espont\u00e2neas de 1978-80, que posteriormente formariam o Partido dos Trabalhadores, organiza\u00e7\u00e3o que passaria a hegemonizar a luta social no Brasil por cerca de 25 anos.<\/p>\n<p>O terceiro momento da esquerda brasileira come\u00e7a com as lutas oper\u00e1rias em S\u00e3o Bernardo do Campo, que posteriormente se espalham pelo Brasil \u00e0 fora, e se condensam politicamente com a forma\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980, e da Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT), em 1983. Essas lideran\u00e7as e as lutas que desenvolveram deram aportes fundamentais para o enfraquecimento da ditadura militar e colocaram em movimento dezenas de milhares de lutadores sociais e pol\u00edticos no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>O PT se apresentava como uma organiza\u00e7\u00e3o renovada, distante dos m\u00e9todos de organiza\u00e7\u00e3o dos comunistas, e com uma postura pol\u00edtica aparentemente radical, \u00e0 esquerda do PCB, ao mesmo tempo em que estrategicamente colocava o socialismo como refer\u00eancia program\u00e1tica, muito embora n\u00e3o explicitasse muito bem qual era exatamente o socialismo que queria, at\u00e9 mesmo porque nos primeiros anos de funda\u00e7\u00e3o a disputa pela hegemonia no PT era muito grande e tornava-se quase imposs\u00edvel chegar-se a um consenso em meio a uma colm\u00e9ia de tend\u00eancias partid\u00e1rias.<\/p>\n<p>Portanto, a crise atual do Partido dos Trabalhadores marca o fim de uma era iniciada com as greves de S\u00e3o Bernardo. Qualquer desfecho que esta crise venha a ter, o PT n\u00e3o ser\u00e1 mais o mesmo e nem ter\u00e1 mais a influ\u00eancia que teve junto aos movimento sociais. Poder\u00e1 sobreviver at\u00e9 como uma organiza\u00e7\u00e3o tipicamente eleitoral, mas sem a aura que o norteou desde sua funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como sempre ocorre nos processos hist\u00f3ricos, o movimento social n\u00e3o vai ficar esperando que o PT cure suas feridas, assim como n\u00e3o esperou que os anarquistas repensassem a estrat\u00e9gia para um Brasil transitando da fase agr\u00e1ria para a industrial e tamb\u00e9m n\u00e3o aguardou que o PCB refletisse melhor sobre o Pa\u00eds na d\u00e9cada de 70 e retificasse sua linha pol\u00edtica. A hist\u00f3ria cobra um pre\u00e7o muito alto aos erros dos atores pol\u00edticos e tanto o PT quanto seus aliados \u00e0 esquerda, que amarraram seu destino ao destino do governo Lula, ir\u00e3o perder a influ\u00eancia pol\u00edtica conquistado em passado recente.<\/p>\n<p>No bojo dessa crise em curso, os trabalhadores saber\u00e3o criar novas organiza\u00e7\u00f5es sociais pol\u00edticas para defender os seus interesses hist\u00f3ricos e \u00e9 exatamente esse o calcanhar de Aquiles da conjuntura que se desenha a partir de agora. A organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que sintetizar teoricamente esse momento pol\u00edtico, construir um projeto de Pa\u00eds, inclusive compreendendo os novos fen\u00f4menos oriundos da globaliza\u00e7\u00e3o e dele tirando li\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 a nova porta-voz dos interesses dos trabalhadores.<\/p>\n<p>ANTECEDENTES HIST\u00d3RICOS<\/p>\n<p>Pode-se dizer claramente que, de 1922 at\u00e9 1975, quando a grande maioria dos militantes comunistas foram presos na Opera\u00e7\u00e3o Jacarta , o Partido Comunista Brasileiro foi a for\u00e7a hegem\u00f4nica da esquerda nacional, n\u00e3o apenas na arena pol\u00edtica mas, principalmente, nos movimentos sociais e culturais. Comandou os principais batalhas da luta de classes da hist\u00f3ria do proletariado brasileiro do per\u00edodo, sofreu duras derrotas e obteve conquistas hist\u00f3ricas, a grande maioria ainda hoje presente na sociedade brasileira. Como diria o poeta Ferreira Goulart, um antigo militante comunista, quem contar a hist\u00f3ria do Brasil e de seus her\u00f3is e n\u00e3o falar do PCB estar\u00e1 falseando a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Neste mais meio s\u00e9culo de lutas, praticamente todas as conquistas dos trabalhadores foram influenciadas pela luta dos comunistas e muitas vezes seus militantes pagaram com a vida a ousadia de lutar contra o sistema capitalista. Se fizermos uma trajet\u00f3ria sum\u00e1ria poderemos dizer que j\u00e1 na d\u00e9cada de 20 o PCB estava na vanguarda da luta pela industrializa\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds, fato que se tornou realidade com a revolu\u00e7\u00e3o de 1930.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria d\u00e9cada de 30 vai encontrar um Partido Comunista influenciando a luta pela legaliza\u00e7\u00e3o dos sindicatos, pela conquista da jornada de oito horas e do descanso semanal remunerado, as f\u00e9rias de 30 dias, sal\u00e1rio m\u00ednimo, e um conjunto de direitos posteriormente sistematizados na Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho (CLT). Ressalte-se que muitas dessas bandeiras de luta j\u00e1 eram reivindicadas por socialistas e anarquistas no per\u00edodo anterior ao surgimento do PCB, mas s\u00f3 se concretizaram ap\u00f3s a luta organizada do PCB. [3] Muitos argumentam que estas conquistas foram uma d\u00e1diva de Get\u00falio Vargas, mas isso n\u00e3o corresponde \u00e0 verdade, pois Vargas apenas chancelou velhas reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores, de forma a que n\u00e3o fosse ultrapassado pelo movimento de massas.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o da primeira central sindical do Pa\u00eds &#8211; a Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho do Brasil, em 1929, foi um esfor\u00e7o do PCB, da mesma forma que tamb\u00e9m foi o incentivador da cria\u00e7\u00e3o da segunda grande central dos trabalhadores &#8211; o Comando Geral dos Trabalhadores \u2013 o hist\u00f3rico CGT, junto com seus aliados do antigo PTB, na \u00e9poca um partido progressista. Na luta pelas reformas de base, com Jo\u00e3o Goulart na Presid\u00eancia, l\u00e1 estava novamente o PCB na linha de frente pelas transforma\u00e7\u00f5es do Pa\u00eds. Nesse per\u00edodo, os trabalhadores alcan\u00e7aram uma de suas maiores conquistas, o 13\u00ba sal\u00e1rio, fruto de uma greve geral comandada pelo CGT, cuja maioria era formada por dirigentes sindicais comunistas [4] .<\/p>\n<p>Se avaliarmos ainda por outro \u00e2ngulo, o da cultura, o PCB tamb\u00e9m tem uma trajet\u00f3ria bastante expressiva na frente cultural. Muitos dos fundadores da Semana da Arte Moderna foram militantes do PCB, como e Osvald de Andrade, Patr\u00edcia Galv\u00e3o, a Pagu, para falar dos mais conhecidos. Na pintura contou com os tra\u00e7os marcantes de C\u00e2ndido Portinari e na m\u00fasica com militantes dedicados como Nora Ney, Jorge Goulart ou compositores como Paulo da Portela e Mario Lago. Na literatura, tamb\u00e9m foram militantes do PCB Jorge Amado, Graciliano Ramos, Rui Fac\u00f3, Eneida, entre outros grandes nomes da literatura. O PCB tamb\u00e9m foi um dos grandes incentivadores do CPC da UNE, um dos maiores movimentos culturais do Pa\u00eds, que revelou grandes nomes da m\u00fasica, literatura, teatro, entre outros.<\/p>\n<p>Mas recentemente, podemos dizer que a dramaturgia brasileira e, mesmo a teledramaturgia, foi profundamente influenciada pelos autores comunistas, tais como Vianinha, Paulo Pontes, Dias Gomes e Gianfrancesco Guarnieri. Tamb\u00e9m no cinema foram militantes do PCB Jo\u00e3o Batista de Andrade e Leon Hirzmann. Todo esse patrim\u00f4nio de lutas, conquistas e forma\u00e7\u00e3o da cultura brasileira representaram um patrim\u00f4nio n\u00e3o apenas do PCB, mas de toda a popula\u00e7\u00e3o brasileira [5] .<\/p>\n<p>Mas em 1974-75, como j\u00e1 constatamos, o PCB sofreu uma ofensiva terrorista da ditadura militar: milhares de comunistas foram presos ou torturados neste per\u00edodo e o DOI-CODI matou na tortura um ter\u00e7o do Comit\u00ea Central (CC), o que fez com que o restante CC fosse obrigado a se exilar. Quando as lutas populares emergiram em 1978, com a greve da Scania, o PCB estava na cadeia e sua dire\u00e7\u00e3o no exterior. A milit\u00e2ncia que foi solta estava vigiada e os novos militantes n\u00e3o tinham a experi\u00eancia suficiente para compreender aquele momento pol\u00edtico, nem for\u00e7a pol\u00edtica para dar uma dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria ao Partido, at\u00e9 mesmo porque, desde o exterior, a dire\u00e7\u00e3o trabalhava em outra perspectiva [6] .<\/p>\n<p>A ditadura militar foi cient\u00edfica na luta contra o PCB: diante do chamado processo de abertura lenta, segura e gradual que o regime buscava implementar era necess\u00e1rio liquidar o Partid\u00e3o a qualquer pre\u00e7o, nem que para isso se utilizasse m\u00e9todos semelhantes aos dos nazistas. O \u00f3dio do regime militar ao Partid\u00e3o era explicado por duas circunst\u00e2ncias b\u00e1sicas:<\/p>\n<p>Primeiro, porque naquele per\u00edodo (1974-75) o Partido era a \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o que estava ainda praticamente intacta no Pa\u00eds e, portanto, era tamb\u00e9m a \u00fanica que podia desenvolver um combate efetivo contra a ditadura, at\u00e9 porque sua linha pol\u00edtica de reunir amplas for\u00e7as patri\u00f3ticas e democr\u00e1ticas na luta contra a ditadura tinha sido vitoriosa: o PCB teve papel importante na organiza\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro (MDB) e na vit\u00f3ria eleitoral de 1974, quando a ditadura foi derrotada para o Senado em 16 Estados. Ou seja, a palavra de ordem de acumular for\u00e7as no movimento de massas para desgastar e, posteriormente, golpear a ditadura estava se mostrando correta.<\/p>\n<p>Segundo, porque a repress\u00e3o matou exatamente os quadros do Comit\u00ea Central com maior clareza da situa\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds, justamente aqueles mais comprometidos com uma pol\u00edtica de classe. Portanto, era quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia pol\u00edtica da ditadura militar a destrui\u00e7\u00e3o do PCB \u2013 da\u00ed a ferocidade repressiva, onde esses companheiros do Comit\u00ea Central n\u00e3o apenas foram mortos, mas esquartejados e os corpos escondidos para que o povo nunca reverenciasse sua mem\u00f3ria. Foi um verdadeiro massacre: matou-se desde o presidente da Uni\u00e3o da Juventude Comunista (UJC), Jos\u00e9 Montenegro de Lima, que coordenava os esfor\u00e7os para a constru\u00e7\u00e3o de uma UNE de massas, at\u00e9 membros de Comit\u00eas Estaduais e do Comit\u00ea Militar do Partido.<\/p>\n<p>Para se ter uma id\u00e9ia da for\u00e7a do PCB at\u00e9 aquele per\u00edodo, mesmo enfrentando a mais dura clandestinidade, \u00e9 necess\u00e1rio dizer que o partido distribu\u00eda todo m\u00eas, na Volks, a maior empresa do Pa\u00eds, em 1973, 300 jornais Voz Oper\u00e1ria, o tabl\u00f3ide clandestino do Partido, e tinha 150 militantes em praticamente todas as se\u00e7\u00f5es da empresa, al\u00e9m de militantes nas grandes metal\u00fargicas da regi\u00e3o [7] . O PCB dirigia ainda Centros Acad\u00eamicos nas grandes universidades e at\u00e9 a Caixa Beneficiente da Pol\u00edcia Militar de S\u00e3o Paulo, cujo oficial respons\u00e1vel foi assassinado na tortura. Praticamente todos os militantes do Partido, em todo o Pa\u00eds, foram presos, entre 1974-75. \u00c9 muito raro encontrar algum militante daquele per\u00edodo que n\u00e3o tenha passado pelas pris\u00f5es da ditadura.<\/p>\n<p>Portanto, o movimento social que come\u00e7a a tomar f\u00f4lego com as lutas por reposi\u00e7\u00f5es salariais, em fun\u00e7\u00e3o da falsifica\u00e7\u00e3o dos dados estat\u00edsticos da infla\u00e7\u00e3o de 1973, pelo ent\u00e3o ministro Delfim Neto, encontra a milit\u00e2ncia do PCB na cadeia ou intensamente marcada e vigiada pela repress\u00e3o. Mesmo quando o PCB ganhava alguma elei\u00e7\u00e3o sindical, o governo impedia que a chapa assumisse o sindicato. Este foi o caso de Frei Chico (irm\u00e3o mais velho de Lula e militante do PCB), que ganhou por duas vezes o Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Caetano e n\u00e3o pode assumir. Esta situa\u00e7\u00e3o se tornaria mais grave em fun\u00e7\u00e3o das diverg\u00eancias pol\u00edticas que atingiram o Comit\u00ea Central no ex\u00edlio. A repress\u00e3o obtivera \u00eaxito em afastar o PCB do movimento de massas \u2013 Golbery podia considerar-se vitorioso.<\/p>\n<p>Com a anistia, em 1979, a dire\u00e7\u00e3o do Partido volta ao Pa\u00eds j\u00e1 envolta numa dura luta interna entre o secret\u00e1rio geral, Luis Carlos Prestes, e o restante do Comit\u00ea Central. Reproduzia-se no interior do Partido a quest\u00e3o do eurocomunismo, um debate que era travado nos partidos comunistas europeus, especialmente no Partido Comunista Italiano, organiza\u00e7\u00e3o que influenciou enormemente o antigo Comit\u00ea Central. A derrota interna de Prestes e seu afastamento do Partido consolidou uma linha pol\u00edtica que rebaixou a atua\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do PCB.<\/p>\n<p>Em vez de incentivar o recrudescimento da luta oper\u00e1ria e direcion\u00e1-la na luta contra a ditadura, o Comit\u00ea Central privilegiava a luta pela democracia, sob o pretexto de que o acirramento da luta dos trabalhadores poderia levar a um retrocesso no Pa\u00eds. N\u00e3o compreendia que a conjuntura tinha mudado e que agora a classe oper\u00e1ria irrompia no processo pol\u00edtico disposta a se impor enquanto sujeito pol\u00edtico.<\/p>\n<p>&#8220;As mobiliza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias deslocam a base da luta contra a ditadura, relevando uma dimens\u00e3o que vai para al\u00e9m do mero patamar politicista, incorporando, em sua cr\u00edtica, outros elementos componentes da estrutura da forma-Estado militar-bonapartista, fundamentalmente, sua base econ\u00f4mica. Dentro dessa vis\u00e3o, o significado das reivindica\u00e7\u00f5es imediatas aparecem somente como elemento epifenom\u00eanico: al\u00e9m das exig\u00eancias de aumento salarial, liberdade e autonomia sindical, o fundamento das greves articula-se em torno de dois fatores nodais: o questionamento da base econ\u00f4mica e \u00e0 superestrutura jur\u00eddico-pol\u00edtica do bonapartismo &#8230; O movimento oper\u00e1rio, desse modo, distanciava-se, de um lado, de quem continuava a pol\u00edtica de frente ampla \u2014 no \u00e2mbito da esquerda, o PCB \u2014, quando aquela forma de luta encontrava-se exaurida, j\u00e1 que o n\u00facleo que sustentava a forma-Estado militar-bonapartista est\u00e1 em pleno processo de esfacelamento&#8221; [8] .<\/p>\n<p>O Comit\u00ea Central, influenciado por um debate tipicamente europeu, pensava mecanicamente e n\u00e3o conseguia combinar a luta democr\u00e1tica com a luta oper\u00e1ria. Estava tamb\u00e9m aferrado a uma concep\u00e7\u00e3o etapista da revolu\u00e7\u00e3o brasileira e a uma alian\u00e7a com setores da burguesia nacional, como meio para alcan\u00e7ar o socialismo. Foi um erro fatal: o PCB desligou-se do movimento social e se tornou uma organiza\u00e7\u00e3o residual no cen\u00e1rio pol\u00edtico do Pa\u00eds. No entanto, mesmo levando-se em conta as pris\u00f5es, torturas e assassinatos, o principal respons\u00e1vel pelo fracasso pol\u00edtico do Partido foi sua dire\u00e7\u00e3o, que conduziu a organiza\u00e7\u00e3o para um rumo diverso do que apontava a luta de classe naquele per\u00edodo [9] .<\/p>\n<p>Se o Comit\u00ea Central tivesse apontado em outra dire\u00e7\u00e3o, haveria condi\u00e7\u00f5es para que o Partido, mesmo fragilizado, disputasse com outras for\u00e7as a condu\u00e7\u00e3o do processo social e pol\u00edtico no Pa\u00eds. Afinal, faziam parte do CC quadros hist\u00f3ricos do movimento oper\u00e1rio, muitos deles integrantes da dire\u00e7\u00e3o do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Ora, com uma linha pol\u00edtica correta e com a experi\u00eancia acumulada nos combates do passado, esses dirigentes tinham condi\u00e7\u00f5es de disputar os rumos do movimento social no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>AS GREVES E O NOVO MOVIMENTO OPER\u00c1RIO<\/p>\n<p>Enquanto o PCB se digladiava com sua pr\u00f3pria sombra, o que estava ocorrendo efetivamente na luta de classes do Pa\u00eds? A classe oper\u00e1ria, que vinha acumulando for\u00e7as desde as derrotas das greves de 1968 [10] , entra em cena e passa a comandar a luta contra a ditadura. O movimento oper\u00e1rio, iniciado em S\u00e3o Bernardo do Campo, se espalha para todo o Brasil como um rastilho de p\u00f3lvora [11] , o que demonstra claramente que a situa\u00e7\u00e3o estava madura para as lutas oper\u00e1rias de massas. Portanto, n\u00e3o tinha sentido se privilegiar a luta democr\u00e1tica pelo alto em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luta oper\u00e1ria desde a base.<\/p>\n<p>Mas o movimento oper\u00e1rio que nasce das lutas de S\u00e3o Bernardo e do resto do Pa\u00eds tinha uma caracter\u00edstica muito acentuada de espontaneidade. A grande maioria de sua lideran\u00e7a n\u00e3o tivera v\u00ednculo com as lutas hist\u00f3ricas do proletariado brasileiro. Portanto, n\u00e3o estava testada nas batalhas de classe, n\u00e3o tinha a ideologia vinculada \u00e0 classe oper\u00e1ria nem ao marxismo. Eram oper\u00e1rios combativos, honestos, mas sem ideologia, apenas com um forte sentimento de justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, por falta de tradi\u00e7\u00e3o, era uma lideran\u00e7a oper\u00e1ria avessa ao estudo e \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es de classe. Eram os anti-filhos do modelo econ\u00f4mico da ditadura, mas n\u00e3o poderiam significar sua ant\u00edtese, se n\u00e3o se envolvessem com a ideologia prolet\u00e1ria. Tornaram-se basicamente uma vanguarda sindical, com os limites e impossibilidades do pr\u00f3prio movimento sindical.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, um outro fator pol\u00edtico tamb\u00e9m contribuiu para que n\u00e3o se gestasse no Pa\u00eds uma lideran\u00e7a oper\u00e1ria classista e ideol\u00f3gica. Muitos agrupamentos pol\u00edticos e religiosos se aproximaram do movimento oper\u00e1rio em ascens\u00e3o e buscaram confront\u00e1-lo com o Partido Comunista Brasileiro, transformando o PCB num inimigo dos trabalhadores, num bombeiro da luta de classe, num entulho a ser removido da vida pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n<p>Valia tudo para alij\u00e1-lo do movimento social: a cal\u00fania, o envenenamento anti-comunista das novas gera\u00e7\u00f5es de lutadores e at\u00e9 mesmo a falsifica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Procurava-se espertamente varrer da mem\u00f3ria tudo aquilo que tinha sido feito no passado, afinal n\u00e3o era bom que as novas gera\u00e7\u00f5es soubessem que o PCB estava por tr\u00e1s das maiores batalhas e conquistas dos trabalhadores at\u00e9 ent\u00e3o. Por isso, constru\u00edram uma &#8220;nova hist\u00f3ria&#8221;, na qual o movimento oper\u00e1rio teria come\u00e7ado com as greves em S\u00e3o Bernardo do Campo. Negando a hist\u00f3ria, terminaram negando-se tamb\u00e9m e, ao negar-se, n\u00e3o constru\u00edram ra\u00edzes, passaram a flutuar ideologicamente.<\/p>\n<p>O terreno era f\u00e9rtil para esse discurso e, muitas vezes, o pr\u00f3prio PCB, com sua pol\u00edtica equivocada, contribuiu para que essas falsifica\u00e7\u00f5es vicejassem entre aquelas lideran\u00e7as inexperientes, deslumbradas com seu pr\u00f3prio \u00eaxito e aduladas pela pequena burguesia radicalizada. Para os alpinistas revolucion\u00e1rios, escolados na derrota recente ou no gueto, a carona do movimento oper\u00e1rio era um momento especial de se vingar do velho Partid\u00e3o, com o qual todos tinham profundas diverg\u00eancias pol\u00edticas ou ideol\u00f3gicas. Essa vis\u00e3o era funcional, pois retirava de cena o principal protagonista das lutas oper\u00e1rias no Brasil.<\/p>\n<p>Quem eram os personagens que tanto influenciaram as novas gera\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7as oper\u00e1rias surgidas com as greves de S\u00e3o Bernardo? Fundamentalmente, os agrupamentos pol\u00edticos que pegaram carona no movimento oper\u00e1rio e depois fundaram o PT e Central \u00d9nica dos Trabalhadores (CUT) eram constitu\u00eddos, de um lado, por militantes trotskistas, que sempre carregaram consigo o complexo de pigmeu e agora viam a possibilidade de crescer organicamente e ajustar as contas com o PCB; de outro, velhos camaradas sobreviventes da luta armada, que sa\u00edram magoados com o Partido porque este n\u00e3o os acompanhou na decis\u00e3o de seguir esta forma de luta.; Ah! tinha ainda a esquerda cat\u00f3lica, representada pelas Comunidades Eclesiais de Base, que praticava sorrateiramente o anticomunismo com ares de esquerda e terceiro-mundista. Por \u00faltimo, n\u00e3o se pode deixar de falar nos setores da pequena burguesia radicalizada que encontraram no PT um instrumento especial para exorcizar a sua m\u00e1 consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Entretanto, ao analisarmos objetivamente o comportamento desses agrupamentos pol\u00edticos ou religiosos n\u00e3o se pode deixar de levar em conta que eram tamb\u00e9m companheiros que, apesar de posi\u00e7\u00e3o anti-PCB, estavam sinceramente querendo impulsionar a luta de classes e organizar os trabalhadores, muitos at\u00e9 desejavam o socialismo como horizonte do povo brasileiro. Na \u00e2nsia de dirigir o proletariado esqueceram-se das li\u00e7\u00f5es do passado e formaram uma gera\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as oper\u00e1rias desossadas ideologicamente, despreparadas para os embates classistas e, conseq\u00fcentemente, fr\u00e1geis ideologicamente, portanto perme\u00e1veis aos encantamentos do sistema burgu\u00eas. Era uma trag\u00e9dia anunciada, que se consumou muito antes do que se esperava.<\/p>\n<p>A FORMA\u00c7\u00c3O DO PARTIDO DOS TRABALHADORES<\/p>\n<p>Para compreendermos o momento da forma\u00e7\u00e3o do PT \u00e9 necess\u00e1rio avaliarmos a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Pa\u00eds naquele per\u00edodo, in\u00edcio dos anos 80. A ditadura vivia os seus estertores e n\u00e3o tinha mais condi\u00e7\u00f5es de tomar nenhuma iniciativa pol\u00edtica. Estava na defensiva e com o tempo contado. A luta oper\u00e1ria desmantelara todo o arcabou\u00e7o montado pelo regime, enquanto a luta democr\u00e1tica avan\u00e7ava crescentemente, contribuindo para isolar e golpear a ditadura. Como a derrota j\u00e1 era um dado da realidade, o estrategista do regime, general Golbery do Couto e Silva, buscou uma forma de fazer com que o colapso do regime n\u00e3o significasse o colapso do sistema e a emerg\u00eancia dos comunistas como for\u00e7a pol\u00edtica, afinal foram eles que tra\u00e7aram a estrat\u00e9gia vitoriosa de luta contra a ditadura e isso n\u00e3o poderia ser reconhecido pela popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vale ressaltar que o PCB era um fantasma que atormentava cotidianamente a imagina\u00e7\u00e3o do general Golbery. Ele pensava estrategicamente e sabia que o Partid\u00e3o era um inimigo estrat\u00e9gico, aquele contra o qual n\u00e3o deveria haver vacila\u00e7\u00e3o \u2013 que o diga o massacre de 1974-75 no governo Geisel, quando Golbery era a emin\u00eancia parda do regime Por isso, com a proximidade da democratiza\u00e7\u00e3o era necess\u00e1rio impedir novamente que o Partid\u00e3o surgisse com alternativa para a esquerda no Brasil. Nesse sentido, \u00e9 sintom\u00e1tico que ele tenha possibilitado a legaliza\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores e mantido o PCB na clandestinidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, visando evitar qualquer perigo para a auto-reforma da ditadura, Golbery tamb\u00e9m maquinou maquavelicamente contra os nacionalistas, liderados por Leonel Brizola. Numa manobra aberta, visando evitar que estes tamb\u00e9m pudessem emergir como refer\u00eancia das massas, inviabilizou a forma\u00e7\u00e3o do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) de Leonel Brizola e entregou a sigla para a governista Ivete Vargas, o que obrigou Brizola a formar um outro partido, o PDT.<\/p>\n<p>Por que Golbery permitiu o surgimento do PT? Primeiro, porque sabia que o PT n\u00e3o representava um perigo para o regime capitalista, apesar da fraseologia esquerdista. Mesmo formado a partir das lutas oper\u00e1rias, desde o nascimento seus contatos internacionais eram com a social-democracia europ\u00e9ia, que lhe concedeu vultosas verbas, em forma de bolsas para militantes e conv\u00eanios para projetos pol\u00edticos, de forma a que pudesse implantar sua organiza\u00e7\u00e3o e afastar dos comunistas qualquer possibilidade de influ\u00eancia junto aos trabalhadores. A social-democracia deslocou quadros da para o Brasil, visando assessorar na organiza\u00e7\u00e3o do PT, fortalecendo os v\u00ednculos pol\u00edticos e econ\u00f4micos. Com sua vasta experi\u00eancia internacional na disputa com os comunistas, a social-democracia apostou no longo prazo e terminou conseguindo o que desejava.<\/p>\n<p>Fundado em 1980, a partir de um determinado per\u00edodo, com a forma\u00e7\u00e3o do Grupo dos 113, come\u00e7a a se esbo\u00e7ar no PT um N\u00facleo Dirigente hegem\u00f4nico, do qual fazia parte o pr\u00f3prio Lula, e que mais tarde passaria a ser conhecido por Articula\u00e7\u00e3o e atualmente Campo Majorit\u00e1rio. Este n\u00facleo foi-se consolidando crescentemente a ampliando sua influ\u00eancia sobre o conjunto do Partido. A cada elei\u00e7\u00e3o procurava se diferenciar da esquerda do Partido, ampliar seus dom\u00ednios sobre a m\u00e1quina partid\u00e1ria e, muitas vezes, afastando tend\u00eancias inteiras do interior do PT.<\/p>\n<p>\u00c1 medida em que o PT ocupava importantes espa\u00e7os pol\u00edticos nas prefeituras e governos estaduais, tamb\u00e9m mudava sua pr\u00e1tica org\u00e2nica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 milit\u00e2ncia e sua postura pol\u00edtica como partido de esquerda. Assim, foi se tornando cada vez mais claro que o PT estava deixando de ser um partido da transforma\u00e7\u00e3o \u2014 seu discurso inicial \u2014 para se transformar num partido da ordem. Abandonou a pr\u00e1tica militante e buscou imitar os partidos tradicionais nos embates eleitorais, transformou-se num partido puramente eleitoreiro, construindo m\u00e9todos de a\u00e7\u00e3o inteiramente at\u00edpicos \u00e0s for\u00e7as de esquerda [12] .<\/p>\n<p>NOVO RUMO PROGRAM\u00c1TICO E DEGENERA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>Os primeiros sintomas do apodrecimento da organiza\u00e7\u00e3o petista puderam ser sentidos com os esquemas de corrup\u00e7\u00e3o montados em Santo Andr\u00e9 e Ribeir\u00e3o Preto, cidades administradas pelo PT, e que podem ser consideradas as pioneiras daquilo que viria a acontecer posteriormente em n\u00edvel nacional. Esses esquemas municipais foram-se ampliando \u00e0 medida em que o PT passava a comandar grandes cidades ou Estados. De esquemas municipais e estaduais estruturou-se o esquema nacional com a elei\u00e7\u00e3o de Lula em 2002.<\/p>\n<p>Mesmo com todos esses problemas, alguns denunciados pela imprensa, o PT ainda era considerado o partido da \u00e9tica, o campe\u00e3o da moralidade no trato da coisa p\u00fablica. Seus militantes de base se orgulhavam de ter uma organiza\u00e7\u00e3o que agia de modo diferente dos partidos tradicionais. Inovaram em v\u00e1rios pontos, como o or\u00e7amento participativo e a canaliza\u00e7\u00e3o de verbas p\u00fablicas para os setores populares. Era o modo petista de governar.<\/p>\n<p>Enquanto essa face p\u00fablica era disseminada para a sociedade, nos bastidores a dire\u00e7\u00e3o petista, especialmente o n\u00facleo duro do chamado Campo Majorit\u00e1rio, procurava montar uma m\u00e1quina eleitoral distanciada da milit\u00e2ncia, movida a dinheiro oriundo de doa\u00e7\u00f5es legais e ilegais de grandes empresas e disposta a entrar no vale tudo pelas conquistas dos cargos p\u00fablicos. O PT come\u00e7ava a perder a alma e a raz\u00e3o de ser. Entre as for\u00e7as de esquerda j\u00e1 se comentava que em muitos locais o processo de corrup\u00e7\u00e3o das administra\u00e7\u00f5es petistas era muito semelhante aos das administra\u00e7\u00f5es tradicionais, mas jamais se imaginou que tivesse a dimens\u00e3o que esta crise trouxe \u00e0 tona.<\/p>\n<p>Vale ressaltar ainda que o n\u00facleo dirigente do Campo Majorit\u00e1rio, tanto nos Estados, quanto em n\u00edvel nacional e na CUT, tamb\u00e9m se utilizou destes recursos para conquistar terreno no interior do partido e ampliar a hegemonia na luta contra as outras tend\u00eancias do PT. Aquilo que era praticado externamente em fun\u00e7\u00e3o do jogo burgu\u00eas, passou a prevalecer tamb\u00e9m na luta interna do PT. Os m\u00e9todos externo e interno se confundiam plenamente e o Campo Majorit\u00e1rio passou a ditar completamente os rumos da pol\u00edtica program\u00e1tica do PT.<\/p>\n<p>Um elemento curioso nesta trajet\u00f3ria do discurso petista \u00e9 o fato de que, quanto mais o PT aumentava sua influ\u00eancia social e pol\u00edtica, mais abandonava as bandeiras program\u00e1ticas hist\u00f3ricas, em fun\u00e7\u00e3o de um pragmatismo avesso a qualquer princ\u00edpio ou ideologia. De um discurso inicial que fazia at\u00e9 rever\u00eancia a um indefinido socialismo futuro, o PT foi moderando seu programa e seu discurso at\u00e9 condens\u00e1-lo na Carta aos Brasileiros, divulgada no per\u00edodo imediatamente anterior \u00e0s elei\u00e7\u00f5es, com o objetivo de garantir ao capital especulativo internacional que n\u00e3o haveria quebra dos contratos, nem rupturas que contrariasse os interesses do grande capital. Como forma de disfar\u00e7ar sua ess\u00eancia conservadora, prometia algumas mudan\u00e7as pontuais, que eram uma esp\u00e9cie de satisfa\u00e7\u00e3o \u00e0s bases internas e \u00e0 esquerda que apoiava Lula.<\/p>\n<p>A degenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e o abandono dos princ\u00edpios program\u00e1ticos vieram se somar, como se ficou sabendo agora, \u00e0 degenera\u00e7\u00e3o pessoal, \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o individual. Esse v\u00edcio degenerativo atingiu praticamente toda a c\u00fapula do campo majorit\u00e1rio, com muitos obtendo bens pessoais que seus sal\u00e1rios jamais poderiam amealhar. A cabe\u00e7a do PT estava podre e a milit\u00e2ncia e a sociedade brasileira n\u00e3o sabiam. Os esc\u00e2ndalos t\u00eam sido t\u00e3o s\u00f3rdidos que mesmo o advers\u00e1rio mais tenaz do PT dificilmente poderia imaginar a extens\u00e3o da podrid\u00e3o. De uma hora para outra, aqueles dirigentes arrogantes e deslumbrados transformavam-se em esc\u00f3ria da esquerda.<\/p>\n<p>A NATUREZA DA DEGENERA\u00c7\u00c3O IDEOL\u00d3GICA E PESSOAL<\/p>\n<p>Quais os processos que levaram toda uma gera\u00e7\u00e3o de l\u00edderes sindicais e pol\u00edticos a degenerem-se dessa forma? Qual a natureza ideol\u00f3gica da degenera\u00e7\u00e3o? O PT ainda tem futuro na esquerda brasileira? Quais as possibilidades de constru\u00e7\u00e3o de uma nova vanguarda revolucion\u00e1ria no Pa\u00eds? Que ensinamentos os revolucion\u00e1rios brasileiros podem tirar destes dram\u00e1ticos epis\u00f3dios envolvendo os principais dirigentes do Partido dos Trabalhadores? Estas s\u00e3o as quest\u00f5es que procuraremos refletir, ainda no calor dos acontecimentos, sem os desfechos definitivos da crise.<\/p>\n<p>Antes de tudo, \u00e9 necess\u00e1rio recordar que a trag\u00e9dia que se abate sobre o PT, a nossa social-democracia retardat\u00e1ria, n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno exclusivo brasileiro. A social-democracia no mundo inteiro viveu processo semelhante. Come\u00e7ou com a degenera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, expressa no rompimento com o marxismo, com a luta de classes; passou \u00e0 degenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, com a ger\u00eancia do neoliberalismo na Europa e, finalmente, chegou \u00e0 degenera\u00e7\u00e3o pessoal, com a corrup\u00e7\u00e3o envolvendo os principais dirigentes sociais-democratas europeus. Os casos do Partido Socialista da It\u00e1lia, do Partido Socialista Oper\u00e1rio Espanhol, do Partido Socialista Franc\u00eas, do Partido Social-Democrata Alem\u00e3o, entre outros, s\u00e3o emblem\u00e1ticos da postura social-democrata moderna.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio um par\u00eantese para compreendermos o papel que a social-democracia cl\u00e1ssica e a social-democracia retardat\u00e1ria tiveram em suas respectivas \u00e9pocas e pa\u00edses. Ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, a social-democracia cl\u00e1ssica teve uma fun\u00e7\u00e3o importante na constru\u00e7\u00e3o do Welfare State, o Estado do Bem Estar Social. Conquistou condi\u00e7\u00f5es de vida dignas para os trabalhadores, incorporando parte da produtividade aos sal\u00e1rios, e estruturou uma rede de prote\u00e7\u00e3o social expressiva, especialmente na Europa, tudo isso dentro de um pacto social estabelecido no contexto do Capitalismo Monopolista de Estado. Mas esse papel vai se esgotar com as mudan\u00e7as qualitativa que ocorreram entre as fra\u00e7\u00f5es do grande capital mundial.<\/p>\n<p>A partir do final dos anos 70, operaram-se transforma\u00e7\u00f5es de fundo no sistema de poder do capitalismo central, resultando numa uma enorme regressividade econ\u00f4mica e pol\u00edtica. O setor mais reacion\u00e1rio das classes dominantes, ligados ao capital especulativo internacional, ocupou o poder pol\u00edtico nestes pa\u00edses, especialmente nos EUA e Inglaterra, e a partir destes centros geopol\u00edticos do poder mundial, subordinaram os outros segmentos do capital, impuseram a ideologia monetarista-neoliberal para o resto do mundo (fato que correspondeu \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o de uma nova ordem econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social), e lan\u00e7aram uma ofensiva contra direitos e garantias dos trabalhadores, numa esp\u00e9cie de vingan\u00e7a de classe.<\/p>\n<p>Portanto, restou \u00e0 social-democracia cl\u00e1ssica um dilema de Sofia: a) sublevar-se contra a nova ordem, o que seria uma tarefa impens\u00e1vel, pois esta j\u00e1 havia aberto m\u00e3o anteriormente de sua ossatura ideol\u00f3gica, ou b) adaptar-se \u00e0 nova ordem, passando a ser uma gestora com face cor-de-rosa do neoliberalismo. Nesse contexto, a social-democracia cl\u00e1ssica optou por eliminar de vez os \u00faltimos vest\u00edgios que a ligavam aos interesses dos trabalhadores, passando a ser um instrumento especial da nova ordem econ\u00f4mica internacional neoliberal.<\/p>\n<p>No entanto, existe uma diferen\u00e7a especial entre a social-democracia cl\u00e1ssica e a social-democracia retardat\u00e1ria brasileira. O processo de degenera\u00e7\u00e3o da social-democracia cl\u00e1ssica levou mais de cem anos para se completar. Aqui no Brasil, exatamente por ser retardat\u00e1ria, o salto no escuro da social-democracia cabocla foi muito r\u00e1pido: levou apenas 25 anos. Nesse per\u00edodo, a social-democracia retardat\u00e1ria n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o proporcionou vantagens econ\u00f4micas e sociais para os trabalhadores, como ainda aprofundou o modelo neoliberal e anti-popular implantado no governo anterior do presidente Fernando Henrique Cardoso.<\/p>\n<p>Praticou em larga escala a corrup\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas no sentido de construir uma m\u00e1quina eleitoral para se contrapor aos partidos ent\u00e3o considerados tradicionais, mas no governo Lula amealhou parte desses recursos para corromper os partidos e parlamentares conservadores a votar em projetos de interesse das classes dominantes. Em outras palavras, pagou a direita para votar nos seus pr\u00f3prios projetos. Trata-se, evidentemente, de um caso singular de mimetismo \u00e0s avessas.<\/p>\n<p>A social-democracia retardat\u00e1ria brasileira tamb\u00e9m nasceu num espa\u00e7o demogr\u00e1fico errado e num tempo errado. Primeiro, porque foi formada num pa\u00eds dependente, caracterizado pelo fato de que as classes dominantes, pela pr\u00f3pria natureza da depend\u00eancia, serem obrigadas a transferir parte do valor para os pa\u00edses centrais e, portanto, para compensar essa depend\u00eancia, ampliam o processo de explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores [13] . Portanto, mesmo que seu projeto tivesse sido vitorioso nos tempos do pacto social do Welfare State a social-democracia retardat\u00e1ria dificilmente poderia proporcionar as mesmas benesses aos trabalhadores brasileiros que a social-democracia cl\u00e1ssica proporcionou ao proletariado europeu.<\/p>\n<p>Segundo, porque nasceu retardatariamente nos anos 80, quando o grande capital j\u00e1 tinha rompido o pacto social do Capitalismo Monopolista de Estado e avan\u00e7ava contra os direitos e garantias dos trabalhadores. Dessa forma, a social-democracia retardat\u00e1ria brasileira n\u00e3o poderia de forma alguma proporcionar melhores condi\u00e7\u00f5es de vida para os trabalhadores, uma vez que seu limite hist\u00f3rico estava dado pelas novas condi\u00e7\u00f5es do capital. Em outras palavras, a social-democracia retardat\u00e1ria n\u00e3o tinha mais as possibilidades hist\u00f3ricas de amealhar migalhas para os trabalhadores em troca da paz social, porque o grande capital estava agora em outra fase, com outros interesses e, especialmente, em fun\u00e7\u00e3o da queda da \u00e2ncora sovi\u00e9tica, em condi\u00e7\u00f5es de ditar as regras do jogo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a social-democracia brasileira, constitu\u00edda ideologicamente, em sua grande maioria, por lideran\u00e7as oper\u00e1rias despolitizadas ideologicamente, avessa ao estudo (o presidente Lula se orgulhava de nunca ter conseguido ler um livro inteiro) e ao marxismo, n\u00e3o tinha realmente capacidade te\u00f3rica de construir um projeto de Pa\u00eds nem de emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. No fogo da luta de classe, seus l\u00edderes constitu\u00edram o Partido Pol\u00edtico, mas n\u00e3o conseguiram em tempo algum tra\u00e7ar um rumo de classe para esta organiza\u00e7\u00e3o. Enquanto as lutas sociais espontaneistas estavam em ascens\u00e3o, o PT parecia realmente um instrumento dos trabalhadores, mas t\u00e3o logo o movimento social entrou em refluxo o PT come\u00e7ou a dar mostra de sua insufici\u00eancia te\u00f3rica e de perspectiva.<\/p>\n<p>Influenciados pela social-democracia cl\u00e1ssica a partir de dentro, a lideran\u00e7a do Partido dos Trabalhadores come\u00e7ou a perder o seu verniz de classe, elemento que era mascarado anteriormente em fun\u00e7\u00e3o da combatividade no per\u00edodo de ascenso das lutas espont\u00e2neas. Foram se adaptando \u00e0s novas formas de vida dos gabinetes e da burocracia sindical e partid\u00e1ria, moldando o discurso pol\u00edtico e buscando o jogo do poder pelo poder. De passo em passo passaram a reproduzir os mesmos v\u00edcios das elites dominantes, tanto internamente no PT quanto externamente no processo eleitoral. Ora, com uma trajet\u00f3ria dessa ordem, o destino do PT j\u00e1 estava escritos nas estrelas antes mesmo que a estrela come\u00e7asse a se ofuscar.<\/p>\n<p>Com o tempo, a conjuntura de sucessivos \u00eaxitos eleitorais do PT transformou essas lideran\u00e7as em pessoas com enorme arrog\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o aos outros partidos de esquerda, o que os cegava perante a necessidade de constru\u00e7\u00e3o efetiva de um bloco de esquerda para realizar as transforma\u00e7\u00f5es no Pa\u00eds. Enquanto tratava a esquerda como pol\u00edticos de segunda classe, costurava com desenvoltura alian\u00e7as ao centro e \u00e0 direita a cada nova elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Imaginavam-se espertos o suficiente para tramar com a direita na lama e sa\u00edrem limpos do processo. Subestimaram seus novos amigos e foram pegados com a boca na botija, denunciados pelos pr\u00f3prios novos aliados. Essas pr\u00e1ticas, aliadas \u00e0s facilidades do poder e \u00e0 perspectiva de vantagens pessoais, al\u00e9m da falta de uma firmeza ideol\u00f3gica, transformaram-se no caldo de cultura que contribuiu para o apodrecimento desse N\u00facleo Dirigente e de muitos dos quadros m\u00e9dios enfronhados nas v\u00e1rias administra\u00e7\u00f5es pelo Pa\u00eds a fora.<\/p>\n<p>Num ambiente dessa ordem, como ter firmeza ideol\u00f3gica, se os militantes e quadros dirigentes j\u00e1 tinham perdido a perspectiva das transforma\u00e7\u00f5es sociais estavam mais interessados no poder pelo poder, como forma de realiza\u00e7\u00e3o de projetos pessoais? Como resistir aos encantos da burguesia se as facilidades materiais estavam ao alcance da m\u00e3o? Ora, para aqueles representantes da classe oper\u00e1ria rec\u00e9m-chegados ao para\u00edso, foi uma tenta\u00e7\u00e3o avassaladora.<\/p>\n<p>Um aspecto doloroso que deve ser ressaltado \u00e9 o fato de que a crise do PT, quer gostemos ou n\u00e3o, atinge de alguma forma todos os partidos de esquerda, mesmo aqueles que j\u00e1 estavam rompidos com este governo. Ao longo da hist\u00f3ria a esquerda pode ter cometido erros graves, mas nunca se envolveu em atos de corrup\u00e7\u00e3o ou coisa semelhante. Por isso, construiu uma aura de honestidade que era reconhecida at\u00e9 pelos inimigos de classe. Esta crise colocou uma mancha cinza num patrim\u00f4nio que era orgulho de todos os militantes. No imagin\u00e1rio popular poder\u00e1 prosperar a compreens\u00e3o de que todos s\u00e3o iguais, o que pode ser estimulado pela pr\u00f3pria direita para nivelar por baixo todas as for\u00e7as pol\u00edticas.<\/p>\n<p>O dilaceramento do PT \u00e9 o pre\u00e7o que este partido est\u00e1 pagando por ter trocado a ideologia dos trabalhadores e suas bandeiras hist\u00f3ricas pelo pragmatismo; por ter trocado o trabalho militante pelo dinheiro f\u00e1cil dos grandes empres\u00e1rios e pelo marketing pol\u00edtico; por ter trocado o programa hist\u00f3rico de mudan\u00e7as pelo concubinato com os banqueiros nacionais e internacionais; por ter trocado a bandeira hist\u00f3rica da reforma agr\u00e1ria pelo agro-neg\u00f3cio; por ter trocado a for\u00e7a dos movimentos sociais pela demagogia populista, expressa na fraseologia de mau gosto do presidente. Esse \u00e9 o pre\u00e7o que est\u00e1 pago por ter vendido a alma ao diabo.<\/p>\n<p>DILEMAS E PERSPECTIVAS<\/p>\n<p>Que ensinamentos a esquerda revolucion\u00e1ria pode tirar desse epis\u00f3dio? A primeira li\u00e7\u00e3o a tirar da trag\u00e9dia da social-democracia retardat\u00e1ria \u00e9 o fato de que n\u00e3o se constr\u00f3i nenhuma vanguarda oper\u00e1ria fora do campo do marxismo e da ideologia prolet\u00e1ria. Tentar uma constru\u00e7\u00e3o fora desse espa\u00e7o te\u00f3rico \u00e9 apostar na frustra\u00e7\u00e3o e no fracasso pol\u00edtico, como ficou demonstrado no Brasil.<\/p>\n<p>A conseq\u00fc\u00eancia dessa primeira constata\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato de que lideran\u00e7as oper\u00e1rias, sem ideologia oper\u00e1ria, terminam envolvidas pela ideologia das classes dominantes e passam a realizar, na pr\u00e1tica, uma pol\u00edtica contra a sua pr\u00f3pria classe. E quando realizam a pol\u00edtica da classe dominante, fazem-no com a autoridade de representantes dos trabalhadores, o que n\u00e3o s\u00f3 confunde os trabalhadores como torna mais dif\u00edcil a luta contra a pol\u00edtica que desenvolvem.<\/p>\n<p>O dom\u00ednio dos 25 anos da social-democracia retardat\u00e1ria contribuiu enormemente para a despolitiza\u00e7\u00e3o e o descr\u00e9dito dos trabalhadores e da popula\u00e7\u00e3o em geral com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica. Nivelaram por baixo a educa\u00e7\u00e3o popular e rebaixaram o discurso pol\u00edtico aos atos de pragmatismo. Prestaram um grande desservi\u00e7o \u00e0 for\u00e7as de esquerdas, que t\u00eam toda uma hist\u00f3ria ligadas \u00e0 coer\u00eancia e aos valores \u00e9ticos, e contribu\u00edram para que as for\u00e7as de direita pudessem emergir dessa crise como paladinos da moralidade.<\/p>\n<p>Se olharmos do ponto de vista dos milhares e milhares de lutadores sociais e pol\u00edticos que se puseram em movimento com a ascens\u00e3o das lutas oper\u00e1rias de 1978 em diante, o resultado global do desempenho desta social-democracia foi frustrante e pode retirar de cena muitos daqueles militantes menos preparados que acreditaram no PT e que se sentiram tra\u00eddos com a crise atual. No entanto, os que permanecerem sair\u00e3o mais fortalecidos desta crise e mais temperados para a luta pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o desfecho da crise vai gerar uma enorme dispers\u00e3o moment\u00e2nea na milit\u00e2ncia petista, mas tamb\u00e9m haver\u00e1 uma reorganiza\u00e7\u00e3o de for\u00e7as num patamar superior, pois a tr\u00e1gica experi\u00eancia do PT ser\u00e1 por muito tempo um mau exemplo que n\u00e3o dever\u00e1 ser seguido por nenhuma organiza\u00e7\u00e3o que queira realizar as transforma\u00e7\u00f5es no Brasil. O tempo de incerteza tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1 muito longo, pois a conjuntura nacional e os pr\u00f3prios trabalhadores ir\u00e3o reclamar uma nova vanguarda que responda \u00e0s suas necessidades hist\u00f3ricas. Portanto, mais uma vez est\u00e1 colocada no Brasil a quest\u00e3o da vanguarda revolucion\u00e1ria, como aconteceu em 1922 e 1980.<\/p>\n<p>Se observarmos do ponto de vista mais global, poderemos avaliar que o neoliberalismo est\u00e1 em crise em todo mundo, por ter produzido uma regressividade social hist\u00f3rica nas rela\u00e7\u00f5es capital-trabalho. Por isso mesmo, est\u00e1 sendo contestado em v\u00e1rias partes do mundo, especialmente na Am\u00e9rica Latina. Podemos dizer que esta regi\u00e3o vive atualmente uma contra-ofensiva popular, ap\u00f3s duas d\u00e9cadas de hegemonia neoliberal.<\/p>\n<p>Esta contra-ofensiva n\u00e3o se expressa de maneira linear como pretende uma certa esquerda mecanicista. Em alguns momentos, toma a forma de insurrei\u00e7\u00e3o popular, como as duas vezes em que ocorreu na Bol\u00edvia e no Equador e uma vez na Argentina; em outra ocasi\u00e3o se expressa no processo rico da revolu\u00e7\u00e3o bolivariana, que se inicia com uma vit\u00f3ria eleitoral, se aprofunda com a revers\u00e3o do golpe de direita e a derrota do lock out da PDVSA e amplia as possibilidades com o plebiscito revogat\u00f3rio e a radicaliza\u00e7\u00e3o do movimento de massas venezuelano; outras pela via puramente eleitoral, como a vit\u00f3ria de Lula no Brasil, per\u00edodo em que a popula\u00e7\u00e3o acreditara que este faria um governo de mudan\u00e7as. Ou ainda na vit\u00f3ria de Kichner, na Argentina, ou Tabar\u00e9 Vasquez, com a Frente Ampla Uruguaia.<\/p>\n<p>Todos esses movimentos, respeitados os seus devidos graus de organiza\u00e7\u00e3o ou mobiliza\u00e7\u00e3o, fazem parte de um movimento maior de contra-ofensiva popular na regi\u00e3o. A prova mais contundente desse processo \u00e9 o fato de que o neoliberalismo perdeu a iniciativa pol\u00edtica, n\u00e3o consegue mais o envolvimento manipulat\u00f3rio que conseguiu nos seus primeiros anos, quando o mercado se transformou num semideus, tanto para os setores mais pobres at\u00e9 os mais ricos da sociedade e o pensamento \u00fanico ditava as regras de comportamento.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, a crise do PT \u00e9 tamb\u00e9m a crise do modelo neoliberal no Brasil, porque o Partido dos Trabalhadores consolidou e desenvolveu esta pol\u00edtica, especialmente na \u00e1rea econ\u00f4mica. Vale lembrar que as massas votaram em Lula como contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica neoliberal de Fernando Henrique Cardoso. Portanto se posicionaram pelas mudan\u00e7as. Como o PT traiu o programa e o desejo de mudan\u00e7a dos trabalhadores, n\u00e3o resta outra alternativa ao movimento social do que buscar outra alternativa pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Quais as possibilidades de reconstru\u00e7\u00e3o da vanguarda revolucion\u00e1ria no Brasil ap\u00f3s a crise? Primeiro, \u00e9 necess\u00e1rio analisar o destino do principal agente da crise, o Partido dos Trabalhadores. Em nossa opini\u00e3o, o PT perdeu a legitima\u00e7\u00e3o e a autoridade pol\u00edtica, enquanto possibilidade hist\u00f3rica. N\u00e3o conseguir\u00e1 mais representar os movimentos sociais que at\u00e9 ent\u00e3o representara, nem se apresentar como reserva moral e \u00e9tica, que era um patrim\u00f4nio da esquerda, porque a crise lhe usurpou a aura e a alma enquanto organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. Seus dirigentes se nivelaram aos demais pol\u00edticos tradicionais. Poder\u00e1 at\u00e9 sobreviver como partido eleitoral, mas nunca mais como representante do proletariado brasileiro.<\/p>\n<p>Essa an\u00e1lise nos leva \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de que os movimentos sociais ligados ao PT est\u00e3o \u00f3rf\u00e3os e agora tender\u00e3o a buscar novas alternativas pol\u00edticas. Mesmo desorientados num primeiro momento, esses movimentos, que estavam de certa forma paralisados em fun\u00e7\u00e3o da chegada do PT ao governo, podem ganhar novas energias e emergir da letargia pol\u00edtica com mais for\u00e7a e experi\u00eancia de luta. Portanto, ao contr\u00e1rio do que se possa imaginar, est\u00e1-se abrindo uma imensa avenida para o ascenso do movimento social e pol\u00edtico no Brasil.<\/p>\n<p>Vale ressaltar que as crises est\u00e3o configuradas dentro da dial\u00e9tica social e pol\u00edtica. Se por um lado provocam, como no caso do Brasil, um grande estrago no patrim\u00f4nio da esquerda, por outro, abrem tamb\u00e9m enormes possibilidades para os lutadores sociais e pol\u00edticos e para a constru\u00e7\u00e3o de uma perspectiva revolucion\u00e1ria. Afinal, os tempos de calmaria s\u00e3o caracterizados por gerarem poucas novidades, enquanto as crises s\u00e3o as respons\u00e1veis pelas grandes mudan\u00e7as. Todas as grandes transforma\u00e7\u00f5es, todas as grandes mudan\u00e7as foram gestadas nos per\u00edodos grandes crises.<\/p>\n<p>Portanto, o momento est\u00e1 maduro para a reflex\u00e3o e ousadia pol\u00edtica. Torna-se mais do que necess\u00e1rio a elabora\u00e7\u00e3o de um projeto de na\u00e7\u00e3o, a ser constru\u00eddo por um novo bloco hist\u00f3rico de for\u00e7as sociais e para um nova fase da esquerda no Pa\u00eds, de forma a que possa colocar novamente o povo em movimento e resgatar a esperan\u00e7a de milhares e milhares de lutadores sociais e pol\u00edticos, frustrados com o fazer pol\u00edtico do Partido dos Trabalhadores. Esta \u00e9 a tarefa de agora em diante: reagrupar as for\u00e7as revolucion\u00e1rias em torno de um partido que tenha capacidade de cumprir as tarefas da revolu\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA CONSULTADA<\/p>\n<p>ANTUNES, R. A rebeli\u00e3o no Trabalho. S\u00e3o Paulo: Editora da Unicamp, 1992.<\/p>\n<p>BANBIRRA , V. El Capitalismo Dependiente Latinoamericano. M\u00e9xico: Siglo Veinte e Uno, 1976.<\/p>\n<p>BATALHA, C. O movimento Oper\u00e1rio na Primeira Rep\u00fablica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2000.<\/p>\n<p>BOITO JR. A. et alli. O Sindicalismo Brasileiro nos Anos 80. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 1991.<\/p>\n<p>CARDOSO , F. H.; FALETTO , E. Depend\u00eancia e Desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979.<\/p>\n<p>CARONE , E. O PCB \u2013 1922-1943; O PCB \u2013 1943-1964; O PCB \u2013 1964-982. S\u00e3o Paulo: Difel, 1982.<\/p>\n<p>COSTA, E. A Pol\u00edtica Salarial no Brasil. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 1998.<\/p>\n<p>DOS SANTOS, T. Imperialismo e Depend\u00eancia. M\u00e9xico: Edi\u00e7\u00f5es Era, 1978.<\/p>\n<p>______________. Teoria da Depend\u00eancia, Balan\u00e7o e Perspectiva. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2000.<\/p>\n<p>DULLES, J. W. F. Anarquistas e Comunistas no Brasil 1900-1930. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.<\/p>\n<p>FONSECA , P. C. D. Vargas, o Capitalismo em Constru\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>GASPARI , E. A Ditadura Derrotada. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2003.<\/p>\n<p>KOVAL , B. Hist\u00f3ria do Proletariado Brasileiro. S\u00e3o Paulo: Alfa Omega, 1982.<\/p>\n<p>LOPES , C. L. E.; TRIGUEIROS, N. N. Hist\u00f3ria do Movimento Sindical no Brasil. Mimeo, s\/d.<\/p>\n<p>MARINI, R. M. Dial\u00e9tica de la Mercancia e Teoria Del Valor. M\u00e9xico: Editorial Universitaria Centroamericana, 1982.<\/p>\n<p>MAZZEO, A.. C. As Tarefas Hist\u00f3ricas da Esquerda Brasileira e o Partido dos Trabalhadores. Mimeo, 2004.<\/p>\n<p>PARTIDO DOS TRABALHADORES . Resolu\u00e7\u00f5es de Encontros e congressos. S\u00e3o Paulo: Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2000.<\/p>\n<p>PRADO JR. C . A revolu\u00e7\u00e3o Brasileira. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1966.<\/p>\n<p>TELLES , J. O Movimento Sindical no Brasil. S\u00e3o Paulo: Ci\u00eancias Humanas, 1981.<\/p>\n<p>ZAIDAN FILHO , M. Comunistas em C\u00e9u Aberto \u2013 1922-1930. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1989.<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p>1- Para uma melhor compreens\u00e3o do movimento anarquista no Brasil, consultar: DULLES, J. W F. Anarquistas e Comunistas no Brasil \u2013 1900-1930. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977; KOVAL, B. Hist\u00f3ria do Proletariado Brasileiro.S\u00e3o Paulo: Alfa Omega, 1982. BATALHA, C. O Movimento Oper\u00e1rio na Primeira Rep\u00fablica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 200.; LOPES; C. L. E.; TRIGUEIROS, N. N. Hist\u00f3ria do Movimento Sindical no Brasil. S\u00e3o Paulo: Centro da Mem\u00f3ria Sindical. Mimeo s\/d; ZAIDAN FILHO, M. Comunistas em C\u00e9u Aberto \u20131922-1930. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1989.<\/p>\n<p>2- Consultar KOVAL e DULLES, op. cit.<\/p>\n<p>3- Um entendimento do per\u00edodo Vargas pode ser encontrado em: FONSECA, P. C. D. Vargas, o Capitalismo em Constru\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Nova Fronteira, 1987.<\/p>\n<p>4- Um balan\u00e7o geral sobre o movimento sindical e o papel do PCB, entre 1948 e 1962, pode ser encontrado em: TELLES, J. O Movimento Sindical no Brasil. S\u00e3o Paulo: Ci\u00eancias Humanas, 1981.<\/p>\n<p>5- Um balan\u00e7o geral da hist\u00f3ria do PCB e os principais documentos produzidos por esta organiza\u00e7\u00e3o podem ser encontrados na obra mais abrangente sobre o Partid\u00e3o, publicada em 3 volumes, por ocasi\u00e3o do 60\u00ba anivers\u00e1rio de sua funda\u00e7\u00e3o, em: CARONE, Edgar. O PCB \u2013 1922-1943; O PCB-1943-1964; O PCB-1964-1982. S\u00e3o Paulo: Difel, 1982.<\/p>\n<p>6- Um relato bastante detalhado do per\u00edodo Geisel pode ser encontrado em: GASPARI, E. A Ditadura Derrotada. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2003.<\/p>\n<p>7- Depoimento de L\u00facio Belantani, Secret\u00e1rio Pol\u00edtico da Comit\u00ea de Empresa da Volkswagen, em 1995, para tese de doutorado do autor, posteriormente transformada em livro: COSTA, E. A Pol\u00edtica Salarial no Brasil. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 1998. A pol\u00edcia pol\u00edtica prendeu, ao longo de 1974, todos os militantes do PCB na empresa, ap\u00f3s deter um de seus membros respons\u00e1veis e este n\u00e3o resistir \u00e0 tortura e entregar outros companheiros. A partir da primeira deten\u00e7\u00e3o os militantes foram caindo um por um, inclusive o secret\u00e1rio pol\u00edtico do PCB na empresa. Na d\u00e9cada de 80, Balantani seria eleito coordenador da Comiss\u00e3o de F\u00e1brica da Ford-Ipiranga, por\u00e9m n\u00e3o militava mais no PCB.<\/p>\n<p>8- MAZZEO, A. C. As tarefas hist\u00f3ricas da esquerda brasileira e o Partido dos Trabalhadores. S\u00e3o Paulo: mimeo., 2004.<\/p>\n<p>9- A linha pol\u00edtica do PCB, de alian\u00e7a coma burguesia, em fun\u00e7\u00e3o de uma suposta revolu\u00e7\u00e3o nacional democr\u00e1tica, como primeira etapa para o socialismo, estava elaborada a partir de um diagn\u00f3stico de que o Brasil era um pa\u00eds com resqu\u00edcios semi-feudais. Esta linha j\u00e1 vinha sendo contestada por v\u00e1rios militantes e por um dos mais brilhantes intelectuais do PCB: Caio Prado Jr, que em 1966 publicou sua famosa obra: A Revolu\u00e7\u00e3o Brasileira. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1966.<\/p>\n<p>10- Em 1968 o governo derrotou as greves de Contagem e Osasco, esta \u00faltima com enorme repercuss\u00e3o nacional, cujo desenlace foi a invas\u00e3o da Cobrasma pelas for\u00e7as militares. A partir da\u00ed o movimento oper\u00e1rio passou por um grande per\u00edodo de refluxo.<\/p>\n<p>11- Para uma compreens\u00e3o mais abrangente do sindicalismo nos anos 80, consultar: ANTUNES, R. A Rebeli\u00e3o no Trabalho. S\u00e3o Paulo: Editora Unicamp, 1992; BOITO JR. et alli. O Sindicalismo Brasileiro nos anos 80. S\u00e3o Paulo, Paz e Terra, 1991.<\/p>\n<p>12- Para entendermos a processo de transi\u00e7\u00e3o do PT, consultar: Resolu\u00e7\u00f5es de Encontro e Congressos: 1979-1998. S\u00e3o Paulo: Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2000. Ver tamb\u00e9m Carta aos Brasileiros, 2002.<\/p>\n<p>13- Para entender melhor a teoria da depend\u00eancia do ponto de vista marxista, consultar: MARINI, R. M. Dial\u00e9tica de la Mercancia e Teoria del Valor. M\u00e9xico: Editorial Universit\u00e1ria Centroamericana, 1982; DOS SANTOS, T. Imperialismo e Depend\u00eancia. M\u00e9xico: Edi\u00e7\u00f5es Era, 1978; SANTOS, T. Teoria da Depend\u00eancia, Balan\u00e7o e Perspectiva. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2000. BANBIRRA, V. El Capitalismo Dependiente Latinoamericano. M\u00e9xico: Siglo Veinte e Uno Editora1, 976. Para uma abordagem com outra vertente ideol\u00f3gica, ver: CARDOSO, F. H.; FALETTO, E. Depend\u00eancia e Desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979.<\/p>\n<p>[*] Edmilson Costa \u00e9 doutor em Economia pelo Instituto de Economia da Unicamp, com p\u00f3s-doutorado no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da mesma institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 autor de <em>Um Projeto para o Brasil <\/em>(Tecno-Cient\u00edfica), <a href=\"http:\/\/www.boitempo.com\/resenhas\/politica_salarial.htm\" target=\"_blank\"><em>A Pol\u00edtica Salarial no Brasil<\/em><\/a>(Boitempo Editorial), <em>Imperialismo <\/em>(Global Editora), al\u00e9m de v\u00e1rios ensaios publicados em revistas especializadas. \u00c9 tamb\u00e9m membro do Comit\u00ea Central do <a href=\"http:\/\/www.pcb.org.br\/\" target=\"_blank\">Partido Comunista Brasileiro<\/a> (PCB).<\/p>\n<p>O autor agradece as cr\u00edticas e sugest\u00f5es de Sofia Manzano e Ant\u00f4nio Carlos Mazzeo, ressaltando que os mesmos n\u00e3o s\u00e3o respons\u00e1veis por eventuais erros ou omiss\u00f5es contidos neste trabalho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nE agora, Jos\u00e9? A festa acabou a luz apagou a noite esfriou o povo sumiu E agora, Jos\u00e9? Carlos Drumond de Andrad\npor Edmilson Costa [*]\nA crise que o Pa\u00eds e, especialmente, o Partido dos Trabalhadores, vem enfrentando enseja um debate aprofundado sobre o papel da esquerda no s\u00e9culo XX e nestes primeiros anos do s\u00e9culo XXI. Se n\u00e3o avaliarmos as ra\u00edzes mais profundas da crise, n\u00e3o poderemos compreend\u00ea-la em sua plenitude e, muito menos, tirar as li\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para uma retomada da luta social e da esquerda classista como refer\u00eancia revolucion\u00e1ria no Brasil. 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