{"id":2103,"date":"2011-11-23T22:53:30","date_gmt":"2011-11-23T22:53:30","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2103"},"modified":"2011-11-23T22:53:30","modified_gmt":"2011-11-23T22:53:30","slug":"depoimento-de-um-militante-do-pcb-sobre-manifestacao-na-grecia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2103","title":{"rendered":"DEPOIMENTO DE UM MILITANTE DO PCB SOBRE MANIFESTA\u00c7\u00c3O NA GR\u00c9CIA"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"justify\">Por GCR (PCB-RJ)<\/p>\n<p align=\"justify\">Parece haver consenso entre os historiadores da antiguidade grega a respeito do advento de uma nova modalidade de guerra que surgira por volta do s\u00e9culo VII ou VIII A.C. O combate tipicamente her\u00f3ico-aristocr\u00e1tico do per\u00edodo hom\u00e9rico antecedente &#8211; aqueles em que a habilidade pessoal dos grandes pr\u00edncipes e her\u00f3is era o que determinava a vit\u00f3ria ou a derrota em guerra \u2013 perdia lugar para a ascens\u00e3o do ex\u00e9rcito-cidad\u00e3o, sintetizado na imagem do novo tipo de combatente, o guerreiro hoplita. O modelo de luta baseado na virtude excepcional do guerreiro-her\u00f3i individual foi sendo substitu\u00edda, na transi\u00e7\u00e3o para o per\u00edodo arcaico, pela\u00a0 \u201cguerra de massas\u201d que opunha ex\u00e9rcitos de guerreiros bem treinados e disciplinados, mas, sobretudo, dotados da dignidade de cidad\u00e3os. O guerreiro lutava n\u00e3o mais em nome de sua gl\u00f3ria pessoal, mas pelo bem de seus pares, por algo que lhe ultrapassava, a rep\u00fablica.<\/p>\n<p align=\"justify\">O hoplita \u00e9\u00a0o guerreiro de infantaria pesada, protegido pela pan\u00f3plia e armado de grande lan\u00e7a, o que impedia a movimenta\u00e7\u00e3o r\u00e1pida t\u00edpica das guerras narradas por Homero. O desempenho de cada hoplita dependia, necessariamente, do desempenho de toda a falange, composta de outros guerreiros iguais, submetidos a uma mesma rigidez disciplinar e obstina\u00e7\u00e3o intr\u00e9pida. Reunidos sob uma mesma carapa\u00e7a compacta de armaduras e escudos, atuando como uma esp\u00e9cie de estrutura comp\u00f3sita que ultrapassa os indiv\u00edduos, cada guerreiro era o respons\u00e1vel pela prote\u00e7\u00e3o do companheiro ao lado sob seu escudo, atuando uns com os outros em movimento sincr\u00f4nico, plenamente coordenado e planejado. Se nos confrontos her\u00f3icos a virtude guerreira mais valorizada era a\u00a0<em>h\u00fdbris<\/em>, definida como excesso, arrog\u00e2ncia e \u00edmpeto, marcas registradas de uma aristocracia que devia se destacar pela excel\u00eancia b\u00e9lica, no combate de cidad\u00e3os, segundo o modelo da falange hopl\u00edtica, a virtude a se buscar era a\u00a0<em>sophrosyne<\/em>, ou o equil\u00edbrio, disciplina, o dom\u00ednio de si pr\u00f3prio em nome do conjunto.<\/p>\n<p align=\"justify\">Justifico, agora, esta breve digress\u00e3o que n\u00e3o pretende ser, de modo algum, uma refer\u00eancia caricatural \u00e0 Gr\u00e9cia Antiga &#8211; o que penso ser bastante enfadonho para um povo que j\u00e1 construiu mais de dois mil\u00eanios de hist\u00f3ria desde este per\u00edodo pelo qual s\u00e3o constantemente lembrados e a que s\u00e3o t\u00e3o associados. Se fa\u00e7o esta refer\u00eancia ao passado, posso dizer que o objetivo foi melhor descrever uma experi\u00eancia bastante atual. No dia 17 deste m\u00eas, em Atenas, ao lado de camaradas e amigos do KKE (Partido Comunista da Gr\u00e9cia), tive a oportunidade de participar de uma grande passeata organizada pela PAME (Frente Militante de Todos os Trabalhadores) e outros movimentos (como o MAS, frente estudantil).<\/p>\n<p align=\"justify\">A ocasi\u00e3o da passeata era a homenagem anual prestada \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o dos estudantes e trabalhadores da Universidade Polit\u00e9cnica de Atenas, em 1973, contra o governo militar da Junta dos Coron\u00e9is. O movimento foi brutalmente massacrado pelo ex\u00e9rcito, com a entrada de tanques dentro do campus universit\u00e1rio, matando e ferindo os insurretos. O\u00a0 17 de novembro ficou, assim, marcado como dia c\u00edvico em mem\u00f3ria deste epis\u00f3dio tr\u00e1gico. Anualmente, durante a manh\u00e3 e o in\u00edcio da tarde, os port\u00f5es da Universidade ficam abertos e montanhas de flores e objetos s\u00e3o depositados em mem\u00f3ria dos mortos da ditadura. Ao final da tarde costumam ocorrer as grandes manifesta\u00e7\u00f5es. Foi com grande alegria que pude participar\u00a0 da passeata da PAME nesta \u00faltima quinta-feira, numa marcha que saiu do centro de Atenas e terminou em frente \u00e0 embaixada dos Estados Unidos \u2013 aliado e c\u00famplice do governo ditatorial grego, repetindo naquele pa\u00eds sua hist\u00f3ria de coniv\u00eancia com os regimes de exce\u00e7\u00e3o no Brasil e Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p align=\"justify\">Uma caracter\u00edstica do movimento que me saltou aos olhos foi a organiza\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o seria t\u00e3o percept\u00edvel se n\u00e3o fosse associada a uma outra caracter\u00edstica absolutamente marcante do atual momento grego: a enorme quantidade de participantes, algo por mim nunca antes visto em quase 15 anos de milit\u00e2ncia carioca. A quantidade de pessoas concentradas nas proximidades da Pra\u00e7a Omonia era ao mesmo tempo aterradora e revigorante. Al\u00e9m disso, pensar em atos pol\u00edticos bem organizados e planejados n\u00e3o parece veross\u00edmil num contexto de manifesta\u00e7\u00e3o de massas, como foi a que pude presenciar. Entretanto, a rela\u00e7\u00e3o entre \u201cmovimento de massas\u201d e \u201corganiza\u00e7\u00e3o\u201d, que parecia inicialmente contradit\u00f3ria, tornou-se posteriormente plena de sentido na vis\u00e3o de um brasileiro que se esfor\u00e7a por entender o fen\u00f4meno hel\u00eanico da forte ascens\u00e3o organizacional dos trabalhadores e dos movimentos sociais em geral. A coluna de trabalhadores, estudantes, mulheres, crian\u00e7as, idosos, cadeirantes, jovens, etc. estendia-se por quil\u00f4metros de grande densidade humana. O frio, acompanhado de gotas de chuva, n\u00e3o os atemorizava. A pol\u00edcia &#8211; em especial\u00a0 as tropas de choque que espreitavam a cada esquina em pequenos pelot\u00f5es protegidos por m\u00e1scaras anti-g\u00e1s e enormes escudos &#8211; tamb\u00e9m n\u00e3o amedrontava sequer os manifestantes que poder\u00edamos considerar mais vulner\u00e1veis no caso de um ataque.<\/p>\n<p align=\"justify\">O fato \u00e9\u00a0que esta capacidade de se fazer um ato de massas capaz de reunir uma diversidade grande de grupos sociais e faixas et\u00e1rias estaria diretamente associada ao fator organizativo. Confesso que fiquei impressionado com a capacidade do povo para organizar o complexo arranjo da auto-prote\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, que pude presenciar e que pretendo aqui relembrar a partir do que pude observar e deduzir \u2013 muito pouco me foi informado expressamente a respeito.<\/p>\n<p align=\"justify\">Cada setor do mundo do trabalho organiza-se em um bloco espec\u00edfico da passeata. Trabalhadores da sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, setor p\u00fablico, banc\u00e1rios, etc. organizam-se em grupos. A frente de cada um destes, duas ou tr\u00eas filas de prote\u00e7\u00e3o, normalmente compostas por homens, em sua maioria mais jovens, empunhando capacetes de motociclismo em uma m\u00e3o, e uma bandeira vermelha de mastro curto e expesso na outra. Os seus bra\u00e7os entrela\u00e7avam-se de modo a formar uma corrente, numa postura repetida pelas filas de manifestantes \u201ccomuns\u201d, que lhes seguiam atr\u00e1s, compondo fileiras cerradas que se seguiam, linearmente, umas \u00e0s outras. Fui informado que a forma\u00e7\u00e3o em corrente seria para evitar a entrada de provocadores no meio da passeata, de modo a facilitar o controle de entrada e sa\u00edda dos participantes do movimento por parte dos pr\u00f3prios.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os grupos profissionais-setoriais que, juntos, formavam a grande marcha, chegavam na \u00e1rea de concentra\u00e7\u00e3o aos poucos, entoando palavras de ordem e recebendo a sauda\u00e7\u00e3o dos j\u00e1 presentes. Um grupo, contudo, recebeu uma sauda\u00e7\u00e3o mais efusiva: tratava-se de um destacamento de militares, devidamente uniformizados, que marcharia ao lado do povo \u2013 atitude que, ao contr\u00e1rio do que temos Brasil, n\u00e3o parece ser formalmente proibida na Gr\u00e9cia, mas que certamente requer coragem dos que se colocam\u00a0<em>contra <\/em>o Estado ao mesmo tempo em que dele est\u00e3o\u00a0<em>dentro<\/em>, compondo sua estrutura mais repressora.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os estudantes do MAS eram bastante numerosos e pareciam oferecer enormes contingentes de seus bra\u00e7os fortes e juvenis para a prote\u00e7\u00e3o do ato. Era frequente a observa\u00e7\u00e3o de grupamentos do MAS, empunhando as caracter\u00edsticas bandeiras de mastro curto e expesso \u2013 assim concebidos para converterem-se em armas de ataque e defesa -, cruzando a multid\u00e3o ou ultrapassando em fila indiana a marcha principal a fim de, mais a frente, posicionarem-se numa \u00e1rea cr\u00edtica ou vulner\u00e1vel da passeata. A engenharia da prote\u00e7\u00e3o operava em paralelo \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o do movimento principal. Nos momentos em que as avenidas percorridas se abriam para outras ruas largas, que poderiam tornar-se flancos vulner\u00e1veis, a concentra\u00e7\u00e3o de protetores com seus capacetes e bandeiras-armas era impressionante. Filas duplas, triplas, de militantes posicionados lado-a-lado, cobrindo todo o espa\u00e7o poss\u00edvel e impedindo o acesso hipot\u00e9tico de quaisquer elementos estranhos ao movimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">Talvez o leitor deste relato possa achar exagerada a valoriza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a da pr\u00f3pria passeata, mas me parece correto avaliar que esta \u00e9\u00a0condi\u00e7\u00e3o fundamental para sua pr\u00f3pria garantia como movimento de massas. Afirmo n\u00e3o se tratar de exagero, mas da observa\u00e7\u00e3o de uma necessidade do movimento dos trabalhadores que atingiu um patamar determinado de ac\u00famulo e mobiliza\u00e7\u00e3o. O acirramento da luta de classes, em qualquer contexto em que se inscreva, reserva novos perigos e desafios \u00e0queles que pretendem organizar a revolu\u00e7\u00e3o. Vemos, aqui, a maneira pela qual os camaradas gregos v\u00eam enfrentando estas novas adversidades. Recentemente, no site do KKE, foi publicado um v\u00eddeo que retrata um epis\u00f3dio marcante ocorrido uma manifesta\u00e7\u00e3o no final do m\u00eas de outubro. Um enorme ato da PAME foi interceptado por militantes\u00a0<strong>de movimentos que se intitulam ultra-esquerdistas\/anarquistas <\/strong>utilizando capuzes, g\u00e1s e outras armas. As in\u00fameras confus\u00f5es e manifesta\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia provocadas por estes grupos \u2013 h\u00e1 quem diga que com participa\u00e7\u00e3o de policiais infiltrados \u2013 s\u00e3o comumente veiculadas pela m\u00eddia como s\u00edntese de todo o movimento social grego. No caso em espec\u00edfico, a vit\u00f3ria da organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores se deu na capacidade destes em mobilizarem imediatamente um contingente de enfrentamento que conseguiu garantir a integridade da passeata e a continuidade de seu percurso, em seguran\u00e7a. Para proteger o ato pac\u00edfico, trabalhadores da PAME destacados para o enfrentamento tiveram que fazer valer seus capacetes e bast\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">A mesma m\u00eddia que fecha os olhos \u00e0s grandes manifesta\u00e7\u00f5es de massas da PAME \u00e9\u00a0 a que explora em seus notici\u00e1rios as bravatas violentas destes pequenos grupos. Segundo bem definiu recentemente Aleka Papariga (secret\u00e1ria-geral do KKE), trata-se daqueles que acham que fazem a revolu\u00e7\u00e3o quebrando vitrines de lojas e arremessando coquet\u00e9is molotov.<\/p>\n<p align=\"justify\">De um lado, portanto, o movimento dos trabalhadores precisa providenciar seus mecanismos de prote\u00e7\u00e3o contra os ataques violentos destes grupos, seja quando os ataques s\u00e3o voltados para alvos externos \u00e0 passeata, &#8211; mas que pode possivelmente provocar uma repress\u00e3o policial ao pr\u00f3prio movimento pac\u00edfico -, seja quando o alvo \u00e9 a pr\u00f3pria PAME e o KKE. Eu, no n\u00facleo do pac\u00edfico movimento de massas, n\u00e3o vi qualquer tra\u00e7o de conflito, mas escutava sons e sentia o cheiro acre das armas qu\u00edmicas que, ao longe, indicavam a presen\u00e7a do conflito. Fiquei sabendo que estes costumam ocorrer\u00a0 no rastro da passeata, por grupos radicais que s\u00e3o impedidos de a integrarem formalmente. Contra o arrivismo dos que se consideram her\u00f3is capazes de promover, solit\u00e1rios, a mudan\u00e7a da sociedade atual, op\u00f5e-se a proposta dos comunistas, fundada no princ\u00edpio da organiza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e solid\u00e1ria, em que cada um, desempenhando com disciplina sua fun\u00e7\u00e3o, garante o sucesso da batalha. As grandiosas manifesta\u00e7\u00f5es e passeatas organizadas pelos camaradas gregos s\u00e3o a demonstra\u00e7\u00e3o de que, hoje em dia, mais do que de demonstra\u00e7\u00f5es desregradas de de um pretenso hero\u00edsmo, precisamos de unidade de a\u00e7\u00e3o, planejamento cuidadoso e disciplina revolucion\u00e1ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nOrganiza\u00e7\u00e3o e movimento de massas na Gr\u00e9cia \u2013 a experi\u00eancia do dia 17 de novembro.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2103\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[37],"tags":[],"class_list":["post-2103","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c42-comunistas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-xV","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2103","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2103"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2103\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2103"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2103"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2103"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}