{"id":21080,"date":"2018-10-12T16:58:29","date_gmt":"2018-10-12T19:58:29","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21080"},"modified":"2018-10-12T16:58:29","modified_gmt":"2018-10-12T19:58:29","slug":"por-que-o-fascismo-cresce-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21080","title":{"rendered":"Por que o fascismo cresce no Brasil?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/-46kNoHMozXM\/Wup7P_5uujI\/AAAAAAABr3s\/NaYPv11im3EmtIb0yk7SmOeAUyKVS7l8wCLcBGAs\/s1600\/fascismo-vito-teixeira-min.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Carlos Serrano Ferreira<\/p>\n<p>Nestes \u00faltimos dias meus colegas cientistas sociais v\u00eam falando que seria necess\u00e1rio refundar a ci\u00eancia social brasileira para explicar o crescimento do fascismo no Brasil. A surpresa se deve em particular \u00e0 ades\u00e3o de massas empobrecidas, negros, mulheres e homossexuais a este projeto, logo setores que s\u00e3o j\u00e1 atacados discursivamente por esse movimento e que sofreriam mais fortemente com um governo fascista. A surpresa \u00e9 ainda maior por este tsunami eleitoral fascista ocorrer uma semana depois das enormes manifesta\u00e7\u00f5es feministas do \u201cEle N\u00e3o\u201d. Uma an\u00e1lise destas por si s\u00f3 necessitaria um artigo extenso e profundo, mas que esbo\u00e7o alguns coment\u00e1rios, tendo em vista sua import\u00e2ncia para a discuss\u00e3o do tema em tela.<\/p>\n<p>O \u201cEle N\u00e3o\u201d faz parte de sucessivas, explosivas e recorrentes manifesta\u00e7\u00f5es de massas que ocorreram no Brasil desde os anos 80: as \u2018Diretas J\u00e1!\u2019, as greves gerais, o \u2018Fora Collor!\u2019, a Marcha dos Cem Mil em Bras\u00edlia pelo \u2018Fora FHC!\u2019 e as manifesta\u00e7\u00f5es de 2013. Contudo, desde estas \u00faltimas, cinco anos atr\u00e1s, incluindo-as, n\u00e3o h\u00e1 classe trabalhadora organizada e setores populares organizados como participantes expressivos. E se o \u2018Ele N\u00e3o\u2019 foi progressista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o feminista, teve debilidades importantes e que explicam muito sobre o cen\u00e1rio pol\u00edtico-social atual. Foram centradas na luta contra o machismo, mas n\u00e3o se ligaram \u00e0s lutas gerais de classe e mesmo contra o fundo do fascismo. Isto aponta que um fascismo com roupagem mais \u2018moderna\u2019, que ao menos n\u00e3o seja abertamente machista, teria como resultado a inexist\u00eancia de mobiliza\u00e7\u00f5es de massas antifascistas, pois mesmo os demais setores de luta contra opress\u00e3o, como homossexuais e negros, n\u00e3o t\u00eam a capacidade de mobilizar da mesma forma. E isto n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. Pois, como se mostrar\u00e1, o fascismo precisa construir inimigos, mas o \u00fanico obrigat\u00f3rio, pois \u00e9 o central e causa de sua exist\u00eancia, \u00e9 a classe trabalhadora organizada e a esquerda. Exemplos claros desta vers\u00e3o mais \u2018moderninha\u2019 do fascismo j\u00e1 ocorreram na Europa, como a Alice Weidel, l\u00edder l\u00e9sbica do partido fascista alem\u00e3o AfD ou o falecido l\u00edder do partido neofascista austr\u00edaco Partido da Liberdade, J\u00f6rg Haider, gay tamb\u00e9m, para ficar em apenas dois dos mais famosos exemplos. Al\u00e9m disso, as mobiliza\u00e7\u00f5es acabaram por se tornar explos\u00f5es cat\u00e1rticas, n\u00e3o se materializando em organiza\u00e7\u00e3o concreta para o futuro.<\/p>\n<p>N\u00e3o creio no entanto que seja necess\u00e1rio recriarmos nada na ci\u00eancia social brasileira, n\u00e3o mais do que a criatividade normalmente exigida para a tarefa cient\u00edfica. O que \u00e9 preciso \u00e9 aprofundar o estudo do fascismo, entender o seu significado hist\u00f3rico, bem como os fatores estruturais e conjunturais que possibilitam o seu enorme crescimento no Brasil e no mundo todo. N\u00e3o podemos nos restringir \u00e0 espuma do processo pol\u00edtico brasileiro, e devemos procurar inclusive a nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes na sociedade brasileira. Principalmente, \u00e9 preciso sair de an\u00e1lises que se fixam na apar\u00eancia do fascismo, e entender sua natureza, sua ess\u00eancia. \u00c9 como uma primeira contribui\u00e7\u00e3o neste sentido que escrevo este artigo, que precisar\u00e1 ser aprofundado, inclusive pelo debate coletivo. Sempre se pensa melhor coletivamente que isoladamente.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a ess\u00eancia do fascismo? Aqui podemos ter a ajuda das an\u00e1lises marxistas, que j\u00e1 produziram muito material sobre o tema. Uma defini\u00e7\u00e3o que sintetizaria o debate \u00e9 que o\u00a0<em>fascismo \u00e9 o regime dos setores mais reacion\u00e1rios da burguesia, que se utiliza de m\u00e9todos de guerra civil para destruir a democracia oper\u00e1ria e os organismos da classe trabalhadora<\/em>. Se \u00e9 verdade que precisamos distinguir o fascismo-enquanto-movimento do fascismo-enquanto-regime (Dos Santos, 1978; Villaverde Cabral, 1982, entre outros), isto ocorre primordialmente pois o primeiro \u00e9 essencialmente um movimento pequeno-burgu\u00eas, das classes m\u00e9dias, e o segundo \u00e9 um regime burgu\u00eas, do grande capital, em particular o financeiro. Essa passagem de um para o outro \u00e9 produto de duas realidades.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 que a pequena burguesia, ou em sentido mais lato \u2013 pois inclui setores da aristocracia prolet\u00e1ria e setores burgueses de baixo calado \u2013 as classes m\u00e9dias, n\u00e3o s\u00e3o uma classe essencial do capitalismo, n\u00e3o representam os p\u00f3los centrais em luta. Por isso n\u00e3o s\u00e3o capazes nem de dirigir o capitalismo, como a burguesia, nem podem propor uma alternativa social superior, como o proletariado. Consequentemente, podem se juntar em certos momentos ao projeto prolet\u00e1rio, quando este demonstra for\u00e7a e est\u00e1 em avan\u00e7o, ou \u00e0 contra-revolu\u00e7\u00e3o burguesa, quando esta \u00e9 mais forte e afirmativa. Quando tenta elaborar um projeto pr\u00f3prio, produz um pastiche, que amalgama fragmentos dos programas burgueses e prolet\u00e1rios, e mesmo resqu\u00edcios pr\u00e9-capitalistas, formando uma bizarra composi\u00e7\u00e3o. Como o fascismo-enquanto-movimento precisa elaborar um programa, e o m\u00e1ximo que consegue \u00e9 essa bizarrice inconsequente, e enquanto regime baseia-se em m\u00e9todos de guerra civil, ele \u00e9 sempre e essencialmente irracionalista. Faz o culto da for\u00e7a, da morte e da guerra, habita no sobrenatural. O fascismo rejeita os valores racionalistas, iluministas e humanistas, que foram caracter\u00edsticos do capitalismo em ascens\u00e3o e dos per\u00edodos de crescimento \u2013 ainda que estes valores se convertam em realidade cada vez mais no elogio da t\u00e9cnica e da burocracia, bem como a defesa do humanismo se converte em mero discurso hip\u00f3crita a justificar intervencionismos externos e filantropias internas lucrativas. O fascismo nega mesmo conquistas cient\u00edficas que contrariem sua vis\u00e3o de mundo irracionalista, chegando \u00e0s raias da loucura, como a atual defesa de muitos deles da \u201cTeoria\u201d da Terra Plana, a nega\u00e7\u00e3o do Holocausto ou a afirma\u00e7\u00e3o de que o nazismo era de esquerda. As teorias conspirat\u00f3rias tamb\u00e9m s\u00e3o um dos passatempos preferidos dos fascistas.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o fascismo pode assumir um discurso nacionalista econ\u00f4mico e mesmo de defesa da autarquia em um momento, e atualmente defender programas antinacionalistas econ\u00f4micos e ultraliberais; pode usar uma ret\u00f3rica anticapitalista em um momento, e em outro ser o defensor aberto do capitalismo; pode ser racista em generalidade, como era o nazismo, ou admitir negros, inclusive l\u00edderes, como Abdias do Nascimento e Jo\u00e3o C\u00e2ndido, membros do integralismo brasileiro; pode ser antissemita, como muitos foram no passado e alguns ainda o s\u00e3o, ou deixarem de ser e passarem a ser islam\u00f3fobos e mesmo defensores de Israel; podem assumir um discurso imperialista, expansionista, como nos anos 1930 e 1940, ou de Estado de Contra-Insurg\u00eancia, voltado para o inimigo interno, como as ditaduras militares latino-americanas a partir dos anos 1960\u2026 O fascismo assume a forma e se apropria de partes das tend\u00eancias de uma sociedade em uma dada \u00e9poca, inclusive o \u00f3dio a setores que j\u00e1 s\u00e3o tendencialmente oprimidos em cada momento. \u00c9 por isso que os seguidores do candidato fascista brasileiro ficam confusos quando tomam a forma pelo conte\u00fado e, ao verem o nome de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alem\u00e3es, acreditam que o nazismo era de esquerda, quando na verdade o nazismo apenas parasitou a apar\u00eancia do comunismo para poder alcan\u00e7ar trabalhadores em um momento em que o comunismo tinha influ\u00eancia na Alemanha e na Europa em geral. Por\u00e9m, o nazismo, como qualquer estudioso ou mesmo um cidad\u00e3o bem informado saber\u00e1, \u00e9 o oposto do comunismo, \u00e9 seu inimigo mortal. O nazismo, ao utilizar o termo socialismo, utiliza um expediente de propaganda hip\u00f3crita. Na conjuntura das democracias de massas e de ascenso socialista do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, alguns dos regimes contra-revolucion\u00e1rios tiveram de mimetizar as manifesta\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. Por exemplo, \u201co movimento na Alemanha \u00e9 no essencial an\u00e1logo ao italiano. \u00c9 um movimento de massas, cujo dirigentes usam e abusam de demagogia socialista. Tal \u00e9 necess\u00e1rio para a cria\u00e7\u00e3o do movimento de massas\u201d (Mandel, 1976, 1986). Aqui \u00e9 v\u00e1lida a frase de Fran\u00e7ois de La Rochefoucauld: \u201ca hipocrisia \u00e9 uma homenagem que o v\u00edcio presta \u00e0 virtude\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo em sua forma de organiza\u00e7\u00e3o, ela pode variar em rela\u00e7\u00e3o ao componente de mobiliza\u00e7\u00e3o. Em pa\u00edses em que a pol\u00edtica de massas era ou \u00e9 presente, o fascismo enquanto movimento assume formas mobilizadores, como emula\u00e7\u00e3o. Em pa\u00edses onde isto n\u00e3o ocorre, esta caracter\u00edstica \u00e9 menor, como no caso do fascismo portugu\u00eas ou do fascismo espanhol (este por sua origem e suporte militar), em que pode se valer simplesmente do apoio de massa silencioso, em sociedades aonde a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 ativa publicamente. O que n\u00e3o torna o peso desse apoio menos forte e esmagador para os opositores, pois deixa as m\u00e3os livres para o regime ditatorial atuar sem preocupa\u00e7\u00f5es. Lembre-se o caso portugu\u00eas, aonde silenciosamente muitos foram parte da rede de informadores da famigerada PIDE\/DGS.<\/p>\n<p>Talvez seja quando h\u00e1 o elemento mobilizador mais claro \u00e9 que se pode notar a maior diferen\u00e7a entre as duas fases, o fascismo-enquanto-movimento e o fascismo-enquanto-regime. A mobiliza\u00e7\u00e3o em ambos se d\u00e1 sob o dom\u00ednio de uma estrita hierarquia, e n\u00e3o como atividade livre, criativa e participativa, mas como o seu oposto, pois intenciona a supress\u00e3o da liberdade e a desmobiliza\u00e7\u00e3o dos setores ativos da sociedade:<\/p>\n<p>\u201cTrata-se da natureza intensamente mobilizadora do fascismo. Ora, j\u00e1 foi quanto a n\u00f3s convincentemente argumentado, por Organski por exemplo, que tal mobiliza\u00e7\u00e3o, mais epis\u00f3dica e instrumental do que animada de qualquer estrat\u00e9gia a longo-prazo, j\u00e1 antes da tomada do poder se transforma depois da tomada do poder em mero ritual ratificat\u00f3rio, sem qualquer incid\u00eancia sobre o processo de tomada de decis\u00f5es ao n\u00edvel do Estado. Al\u00e9m disso, tal mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 de ordem estritamente pol\u00edtica e tem por objectivo e limite a\u00a0<em>desmobiliza\u00e7\u00e3o social<\/em>\u00a0do proletariado, o qual possu\u00eda, sim, uma estrat\u00e9gia e visava a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade burguesa. Em nossa opini\u00e3o, s\u00e3o estes efectivamente o objectivo e o limite da mobiliza\u00e7\u00e3o fascista. E n\u00e3o resisto a citar as s\u00e1bias palavras de Samuel Barnes a este respeito: \u2018Alguns sistemas de mobiliza\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria surgem como reac\u00e7\u00e3o contra outras estruturas de mobiliza\u00e7\u00e3o. Tais sistemas s\u00e3o, efectivamente, muito mais negativos do que ideol\u00f3gicos e, embora tenham uma pseudo-ideologia formal, esta n\u00e3o \u00e9 um guia para a ac\u00e7\u00e3o, e s\u00f3 \u00e9 levada a s\u00e9rio pelos jovens, pelos ignorantes e pelos universit\u00e1rios\u2019. [Grifos no original.]\u201d (Villaverde Cabral, 1982, p.7-8).<\/p>\n<p>Mesmo estas mobiliza\u00e7\u00f5es se tornam ainda mais ritualizadas. Isto \u00e9 assim pois o objetivo dos fascistas quando no governo \u00e9 restringir a liberdade, desfazer os avan\u00e7os, o que em si significam restri\u00e7\u00f5es. Logo, para estes as restri\u00e7\u00f5es externas \u2013 inclusive externas ao Estado \u2013 ao seu campo de a\u00e7\u00e3o s\u00e3o menores. A hist\u00f3ria demonstra que, ao menos no m\u00e9dio prazo, a redu\u00e7\u00e3o da liberdade \u00e9 sempre mais simples, pois conta principalmente com a apatia generalizada e a in\u00e9rcia, do que \u00e9 a expans\u00e3o da liberdade, que exige a\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o consciente e en\u00e9rgica. As for\u00e7as da in\u00e9rcia atuam para refor\u00e7ar a retra\u00e7\u00e3o da liberdade. Ainda que os condicionantes externos possam determinar a forma como se manifesta essa restri\u00e7\u00e3o da liberdade.<\/p>\n<p>O outro motivo para a passagem de movimento \u00e0 regime \u00e9 a aceita\u00e7\u00e3o a partir de certo momento pela burguesia. Normalmente, a burguesia n\u00e3o adota o fascismo como meio principal. Por\u00e9m, n\u00e3o h\u00e1 lugar aonde o fascismo tenha chegado ao poder sem que para isto contasse com o apoio econ\u00f4mico dos pesos-pesados do grande capital e sem a colabora\u00e7\u00e3o dos partidos burgueses \u2013 fossem conservadores ou liberais. Na verdade, a forma normal, convencional, de passagem para o fascismo, foi a convers\u00e3o interna do regime, a partir de um processo de aprofundamento do Estado de Exce\u00e7\u00e3o, que leva em em certo momento a um salto qualitativo para o fascismo. Foi assim na Alemanha e na It\u00e1lia, por exemplo, por dentro das estruturas democr\u00e1ticas. Em Portugal houve v\u00e1rias crises internas no parlamentarismo da Primeira Rep\u00fablica, o crescimento da centraliza\u00e7\u00e3o com a \u2018Rep\u00fablica Nova\u2019 de Sid\u00f3nio Pais, depois o golpe de 28 de Maio de 1926 e a Ditadura Nacional (1926-1933) e finalmente um regime abertamente fascista, com Salazar e o Estado Novo, a partir de 1933. Entre os casos mais importantes a grande exce\u00e7\u00e3o foi o franquismo, que foi uma ruptura aberta com a institucionalidade vigente desde o in\u00edcio, por um golpe militar, como tamb\u00e9m ocorreu no Chile de Pinochet. Esse caminho regressivo e faseado ao Estado Fascista mostra como n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a classe trabalhadora que aposta em processos sem ruptura: esta, em sua evolu\u00e7\u00e3o, primeiro busca reformas, at\u00e9 que s\u00f3 lhe resta o caminho da revolu\u00e7\u00e3o; j\u00e1 a burguesia aposta primeiro em medidas reacion\u00e1rias, at\u00e9 que adota o regime contra-revolucion\u00e1rio do fascismo. Isto remete ao caso brasileiro, aonde a burguesia apostou inicialmente em um golpe institucional, com a instrumentaliza\u00e7\u00e3o e partidariza\u00e7\u00e3o da luta contra a corrup\u00e7\u00e3o \u2013 o que tamb\u00e9m \u00e9 t\u00edpico do fascismo, o discurso da \u201cregenera\u00e7\u00e3o moral da na\u00e7\u00e3o\u201d, ainda que sejam na pr\u00e1tica corruptos at\u00e9 \u00e0 alma \u2013 e o impeachment de Dilma Rousseff e a imposi\u00e7\u00e3o de Michel Temer, para s\u00f3 \u00e0 frente avan\u00e7ar com o apoio ao candidato fascista, para aprofundar a rea\u00e7\u00e3o. Colabora no processo a incapacidade dos representantes tradicionais da burguesia em se apresentar como agentes capacitados de cumprir essa tarefa, como o falhan\u00e7o pol\u00edtico de Geraldo Alckmin.<\/p>\n<p>Contudo, a burguesia s\u00f3 aposta em \u00faltima inst\u00e2ncia no fascismo n\u00e3o por ser preferencialmente democr\u00e1tica, pois nunca foi e ainda n\u00e3o \u00e9. Cita-se muito a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, mas esta s\u00f3 alcan\u00e7ou a radicalidade que teve pois o processo foi levado aos limites do poss\u00edvel pelas massas populares, n\u00e3o seguindo os desejos da burguesia. Esta preferia um modelo ingl\u00eas moderado e conciliador. A democracia liberal seria atualmente, n\u00e3o fossem as mobiliza\u00e7\u00f5es socialistas e oper\u00e1rias, uma democracia censit\u00e1ria, como era no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. Seria apenas um regime de homens de posse, cidad\u00e3os de bens (note-se o eco com o \u2018cidad\u00e3o de bem\u2019 atual). Seria uma plutocracia (governo dos ricos) escancarada. Ela teve que incluir as mulheres, negros e trabalhadores em geral devido \u00e0s lutas dos de baixo contra os de cima. S\u00f3 por isto a ditadura de classe n\u00e3o assumiu a forma de um regime democr\u00e1tico abertamente dos ricos e uma ditadura aberta contra os trabalhadores. A universaliza\u00e7\u00e3o do sufr\u00e1gio s\u00f3 n\u00e3o realizou os temores da burguesia de perda de controle, pois esta conseguiu trazer para seu campo setores de dire\u00e7\u00e3o das classes populares (a social-democracia). Contudo, se a amea\u00e7a do sufr\u00e1gio fosse concreta, a burguesia buscaria suprimi-lo universalmente, como j\u00e1 o fez em v\u00e1rios pa\u00edses, em muitos momentos. A democracia liberal permite uma circula\u00e7\u00e3o intra-elites, entre as fra\u00e7\u00f5es burguesas, o que acalma as tens\u00f5es entre estas, ao menos em geral, e por isso \u00e9 at\u00e9 certo ponto \u00fatil. Por\u00e9m, mais do que isso: n\u00e3o se recorre \u00e0 m\u00e9todos de guerra aberta permanentemente, pois isto fragilizaria a hegemonia da pr\u00f3pria classe dominante. Por isso o fascismo \u00e9 para ser \u201cconsumido com modera\u00e7\u00e3o\u201d pela burguesia, apenas de tempos em tempos.<\/p>\n<p>E aqui chego \u00e0 outra conclus\u00e3o importante, e que explicar\u00e1 muito do crescimento do fascismo no Brasil e no mundo no \u00faltimo per\u00edodo: o liberalismo e o fascismo n\u00e3o s\u00e3o antag\u00f4nicos. Pelo contr\u00e1rio, o fascismo \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o do liberalismo por outros meios, parafraseando Carl von Clausewitz, que afirmava que \u201ca guerra \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios\u201d. Esta percep\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 indiciada na excelente obra de Jo\u00e3o Bernardo,\u00a0<em>Labirintos do fascismo<\/em>, com o qual n\u00e3o concordo em sua integralidade, mas que traz elementos importantes a serem refletidos. Ele afirma neste livro que<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 a partir daqui que podemos analisar as formas espec\u00edficas de organiza\u00e7\u00e3o que os fascistas implantaram nas suas mil\u00edcias, nos seus partidos e nos seus sindicatos, em que a aus\u00eancia de qualquer capacidade de iniciativa da base correspondia \u00e0 sua fragmenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 sua redu\u00e7\u00e3o aos indiv\u00edduos, assegurando o prevalecimento incontestado das hierarquias. Do mesmo modo, nos festivais e desfiles [\u2026] cada indiv\u00edduo n\u00e3o era mais que um figurante, como que um espelho do modelo geral, multiplicando todos eles, at\u00e9 ao infinito, essa imagem singular, enquanto a coreografia do conjunto se organizava em fun\u00e7\u00e3o da figura central e exclusiva do chefe. Este foi um dos aspectos em que o fascismo esteve mais pr\u00f3ximo dos liberais do que dos conservadores. Com efeito, para os conservadores o povo constitu\u00eda uma totalidade org\u00e2nica, irredut\u00edvel \u00e0 soma de individualidades id\u00eanticas que constitui a massa. Foi o modelo liberal do cidad\u00e3o \u2013 o indiv\u00edduo consumidor da economia ou o indiv\u00edduo eleitor da pol\u00edtica \u2013 que presidiu \u00e0 no\u00e7\u00e3o fascista de massas.\u201d (Bernardo, 2003, p.28-29)<\/p>\n<p>A burguesia, enquanto classe exploradora, precisa defender a hierarquia, como todos os regimes de explora\u00e7\u00e3o do passado o fizeram. Por\u00e9m, devido \u00e0 natureza do regime capitalista, tal qual o mercado que esconde atr\u00e1s de sua apar\u00eancia de espa\u00e7o de livre-competi\u00e7\u00e3o de unidades econ\u00f4micas uma brutal concentra\u00e7\u00e3o de riqueza em enormes e cada vez mais gigantescos monop\u00f3lios, o Estado capitalista esconde a hierarquia real da sociedade, a desigualdade, sob a forma de uma aparente igualdade \u201ccidad\u00e3\u201d. Como j\u00e1 apontava Nicos Poulantzas (2007, p.358-359), \u201cla estructura real de las relaciones de producci\u00f3n \u2014 separaci\u00f3n del productor directo y de los medios de producci\u00f3n \u2014 conduce a una prodigiosa\u00a0<em>socializaci\u00f3n\u00a0<\/em>del proceso del trabajo. Ese aislamiento, efecto sobredeterminado pero\u00a0<em>real<\/em>, lo viven los agentes a la manera de la competencia y lleva a la ocultaci\u00f3n, para esos agentes, de sus relaciones como relaciones de clase\u201d. Isto engendra um processo de individualiza\u00e7\u00e3o que se materializa na dissolu\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da organiza\u00e7\u00e3o de classe e sua substitui\u00e7\u00e3o pelo individualismo da cidadania. O que faz por um lado que se suponha que \u201c[\u2026] ese Estado representa el inter\u00e9s general, la voluntad general y la unidad politica del pueblo y de la naci\u00f3n\u201d (Poulantzas, 2007, p.361). Estamos assim \u201cen presencia del conjunto normativo institucional de la\u00a0<em>democracia pol\u00edtica<\/em>\u00a0[acrescentaria eu, burguesa] [Grifos no original]\u201d (Poulantzas, 2007, p.361).<\/p>\n<p>Normalmente, esta forma pol\u00edtica individualista convive com a exist\u00eancia de organiza\u00e7\u00f5es de classe, econ\u00f4micas e pol\u00edticas. Se as organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora avan\u00e7am, elas podem substituir o Estado Capitalista e construir um novo Estado, Oper\u00e1rio, uma democracia socialista. Isto ocorreu em muitos pa\u00edses ao longo do s\u00e9culo XX, tendo reflu\u00eddo, como parte dessa luta de classes internacional, ao final do s\u00e9culo passado e in\u00edcio deste. Por outro lado, quando se avan\u00e7a a dissolu\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, dos organismos de poder popular, nos aproximamos do fascismo, que visa precisamente a destrui\u00e7\u00e3o de toda a democracia prolet\u00e1ria, incluindo os seus partidos e sindicatos. Nesse processo, a a\u00e7\u00e3o clara, com m\u00e9todos de guerra civil, acaba por romper o inv\u00f3lucro ideol\u00f3gico do regime democr\u00e1tico capitalista, mostrando \u00e0 luz do dia as entranhas do regime capitalista, seu car\u00e1ter plutocr\u00e1tico e hier\u00e1rquico.<\/p>\n<p>O fascismo pretende converter a classe trabalhadora em massa, pois \u201cas massas populares assentam a sua exist\u00eancia, enquanto massas, na desorganiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. A perda de consci\u00eancia sociol\u00f3gica da classe trabalhadora e a sua redu\u00e7\u00e3o a uma entidade meramente econ\u00f3mica \u00e9 caracterizada, no plano pol\u00edtico, por uma convers\u00e3o da classe em massas. Foi este um dos objectivos b\u00e1sicos do fascismo\u201d (Bernardo, 2003, p.28). Essa dilui\u00e7\u00e3o em massas precisa de um anteparo ideol\u00f3gico, que \u00e9 a na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o a na\u00e7\u00e3o em sua subst\u00e2ncia hist\u00f3rica e material, mas em sua abstra\u00e7\u00e3o ideal. Por isso, o fascismo, mesmo quando possui programas antinacionalistas, como o atual fascismo brasileiro, recorre \u00e0 sombra do nacionalismo, para aquela parte de dissolu\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as \u2013 o oposto da realidade de quase todas as na\u00e7\u00f5es \u2013 em particular a dissolu\u00e7\u00e3o do elemento de alteridade que afirma o car\u00e1ter classista, ou seja, o comunismo, ou o substituto imediato de organizador da classe trabalhadora, at\u00e9 mesmo a social-democracia. E, como diluidor, por sua vez, das diferen\u00e7as pr\u00f3pria internas das na\u00e7\u00f5es, apela para um pol\u00edtico \u201cregenerador\u201d, um l\u00edder carism\u00e1tico que seria a personifica\u00e7\u00e3o do modelo de na\u00e7\u00e3o (mesmo que em realidade sejam todos estes exemplares abjetos de deprava\u00e7\u00e3o, sadismo e corrup\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Por isso, o liberalismo, e sua vers\u00e3o radicalizada contempor\u00e2nea, o neoliberalismo, s\u00e3o sempre as antessalas do fascismo, desbravadores do mesmo. Por sua pol\u00edtica econ\u00f4mica e social, destr\u00f3i na pr\u00e1tica o tecido social e econ\u00f4mico dos pa\u00edses, levando \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o brutal da desigualdade social, da mis\u00e9ria popular e da viol\u00eancia generalizada, o que leva \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia e incerteza existencial, o que, por sua vez, abre espa\u00e7o para todas as formas de obscurantismos e irracionalismos. O medo \u00e9 o ber\u00e7o do fascismo, \u00e9 o mar em que navega, \u00e9 o norte de sua b\u00fassola. N\u00e3o \u00e9 por acaso que as pol\u00edticas austerit\u00e1rias vigentes na Europa tem estimulado o avan\u00e7o das for\u00e7as fascistas.<\/p>\n<p>Contudo, \u00e9 por sua ideologia de individualismo extremista que o neoliberalismo prepara o terreno para as hordas fascistas. Como disse uma das maiores ap\u00f3stolas dessa religi\u00e3o laica, Margaret Thatcher, \u201c[\u2026] there\u2019s no such thing as society. There are individual men and women and there are families\u201d [\u2018n\u00e3o existe tal coisa, a sociedade. Existem homens e mulheres individuais e h\u00e1 fam\u00edlias\u2019 em tradu\u00e7\u00e3o livre]. Nessa sociedade individualizada n\u00e3o h\u00e1 solidariedade, mas \u00e9 um mundo da competi\u00e7\u00e3o total, com uma moral que admite qualquer comportamento para ascens\u00e3o e sobreviv\u00eancia, o mundo estadunidense dos vencedores e perdedores. A viol\u00eancia na competi\u00e7\u00e3o social se converte, cada vez mais, no culto da viol\u00eancia como meio de vida. A brutalidade \u00e9 valorizada. \u00c9 o tempo em que a maior divers\u00e3o de massas esportiva \u00e9 o vale tudo, e em que h\u00e1 a generaliza\u00e7\u00e3o universal da brasileira Lei de G\u00e9rson (\u201cGosto de levar vantagem em tudo, certo?\u201d) e do \u201cjeitinho\u201d. N\u00e3o h\u00e1 luta coletiva, mas a luta de indiv\u00edduos contra indiv\u00edduos pela ascens\u00e3o social, com vagas cada vez mais limitadas.<\/p>\n<p>O fascismo \u00e9 a tend\u00eancia radicalizada do neoliberalismo, que por sua vez \u00e9 pr\u00f3prio da natureza da burguesia na etapa atual de decad\u00eancia sist\u00eamica quando n\u00e3o possui freios impostos pelas organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores. Nos termos de Marx, o bonapartismo no s\u00e9culo XIX era um equil\u00edbrio catastr\u00f3fico da luta de classes, pois equil\u00edbrio entre organismos de poder da classe oper\u00e1ria e burguesa paralisados pela incapacidade de lutar, pelo esgotamento (e a impossibilidade naquele momento hist\u00f3rico de ascens\u00e3o do capitalismo da passagem ao socialismo). A verdade \u00e9 que a democracia liberal \u00e9 uma realidade prec\u00e1ria, um equil\u00edbrio pela afirma\u00e7\u00e3o ativa das organiza\u00e7\u00f5es burgueses e prolet\u00e1rias, marcante principalmente nos pa\u00edses centrais nas tr\u00eas d\u00e9cadas posteriores \u00e0 Segunda Guerra Mundial. Isto ocorria principalmente pela presen\u00e7a de um forte campo socialista internacional. N\u00e3o se pode entender a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u00fanica e exclusivamente em n\u00edvel nacional, mas pela influ\u00eancia internacional.<\/p>\n<p>Quando \u00e9 poss\u00edvel \u00e0 burguesia avan\u00e7ar, desorganizando a classe trabalhadora, o que se inicia como um liberalismo ou neoliberalismo ativo acaba por se converter, se n\u00e3o tiver uma forte oposi\u00e7\u00e3o, em\u00a0 fascismo. E a burguesia necessita, devido \u00e0 lei de tend\u00eancia \u00e0 queda da taxa de lucro, derivada do pr\u00f3prio funcionamento capitalista normal, de avan\u00e7ar sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho dos trabalhadores, para ampliar a mais-valia e tentar contrariar esta tend\u00eancia. Para isso precisa exatamente desarticular as resist\u00eancias dos trabalhadores. Isto \u00e9 uma necessidade particularmente severa, quando as margens s\u00e3o ainda mais reduzidas durante as fases B dos ciclos de Kondratiev, de descenso, e \u00e9 exponenciada nos per\u00edodos conturbados de decad\u00eancia do ciclo de uma pot\u00eancia hegem\u00f4nica.<\/p>\n<p>O que assistimos desde o in\u00edcio dos anos oitenta no mundo \u00e9 a imposi\u00e7\u00e3o do neoliberalismo, que serve fundamentalmente para transferir riqueza para o setor financeiro e assim gerar um desemprego massivo e estrutural, que destr\u00f3i com as organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora. Isto, somado ao retrocesso produzido pelo fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e das democracias populares \u2013 irresponsavelmente comemorado por setores da esquerda \u2013, possibilitou um avan\u00e7o descontrolado das tend\u00eancias fascistizantes.<\/p>\n<p>Esta din\u00e2mica ter se instalado ap\u00f3s \u00e0s contra-revolu\u00e7\u00f5es no Leste Europeu contraria o discurso liberal e dos revisionistas hist\u00f3ricos que afirmam que o fascismo \u00e9 uma resposta ao perigo revolucion\u00e1rio. Pelo contr\u00e1rio. O fascismo s\u00f3 foi capaz de surgir e vicejar aonde a revolu\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha sido derrotada, como na Alemanha, ap\u00f3s a derrota do ciclo revolucion\u00e1rio de 1918-1923, ou na It\u00e1lia, ap\u00f3s a derrota do Bi\u00e9nio Rosso de 1919-1920, para quedarmos apenas nos exemplos mais conhecidos. Mesmo nos golpes fascistas contra processos revolucion\u00e1rios, como no caso espanhol e chileno, s\u00f3 foram poss\u00edveis suas vit\u00f3rias devido \u00e0 dubiedade e tibiez de seus dirigentes, que congelaram o avan\u00e7o revolucion\u00e1rio e, por isso, os levaram \u00e0 derrota, o que abriu o caminho para a ofensiva fascista. A Rep\u00fablica Espanhola n\u00e3o avan\u00e7ou para a resolu\u00e7\u00e3o dos problemas das nacionalidades, n\u00e3o fez a reforma agr\u00e1ria generalizada, n\u00e3o libertou o Marrocos, etc; Salvador Allende se prendeu aos limites da institucionalidade burguesa e n\u00e3o avan\u00e7ou ao socialismo, apesar de suas importantes reformas. Aonde a marcha da revolu\u00e7\u00e3o avan\u00e7ava, como na R\u00fassia de 1917, a intentona fascista de Kornilov \u00e9 derrotada, bem como o Ex\u00e9rcito Branco na guerra civil. Uma derrota da Revolu\u00e7\u00e3o Russa teria levado inelutavelmente ao fascismo de imediato ou quase de imediato. Por isso os que afirmam que o fascismo n\u00e3o pode vencer no Brasil atual pois inexiste um perigo revolucion\u00e1rio, ou desconhecem as li\u00e7\u00f5es do passado ou agem ideologicamente orientados, como os historiadores revisionistas ao tratarem dos fascismos do Entreguerras (sobre isto sugiro a leitura da brilhante resposta do recentemente falecido marxista italiano, Domenico Losurdo, em seu livro\u00a0<em>Guerra e Revolu\u00e7\u00e3o<\/em>).<\/p>\n<p>Lembremos tamb\u00e9m que o fascismo tem convivido normalmente com a economia liberal. O nazismo teve \u00e0 frente de sua pol\u00edtica econ\u00f4mica, durante boa parte de seu governo, um liberal ortodoxo, Hjalmar Schacht. Este s\u00f3 contrariou com medidas pr\u00e1ticas os princ\u00edpios econ\u00f4micos que defendia para afastar, como ele afirma em suas mem\u00f3rias, \u2018o perigo comunista\u2019 (Schacht, 1999). Sintomaticamente, seu Plano Helferich ser\u00e1 estudado por Gustavo Franco e ser\u00e1 a inspira\u00e7\u00e3o para o Plano Real, que asfalta o caminho para o choque neoliberal profundo dos anos FHC. Ser\u00e1 Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, ent\u00e3o do PSDB, dirigente do Instituto Millenium (ultraneoliberal) e atual militante do Partido Novo (tamb\u00e9m ultraneoliberal), que prefaciar\u00e1 a edi\u00e7\u00e3o brasileira das mem\u00f3rias do economista de Hitler. Tamb\u00e9m \u00e9 fundador do Instituto Millenium o Paulo Guedes, atual mentor econ\u00f4mico do candidato fascista brasileiro e o seu poss\u00edvel Ministro da Fazenda. Ele tamb\u00e9m \u00e9 a ponte entre o fascismo brasileiro com a experi\u00eancia fascista que, n\u00e3o s\u00f3 melhor se combinou com o neoliberalismo, como inaugurou a ofensiva neoliberal, a ditadura de Pinochet (1974-1990). N\u00e3o \u00e9 de se estranhar, pois para impor o choque neoliberal em uma sociedade altamente mobilizada e em avan\u00e7o progressista s\u00f3 com o recurso ao fascismo. Paulo Guedes lecionou durante um per\u00edodo dessa ditadura na Universidade do Chile. Ele \u00e9 PhD pela Universidade de Chicago, que n\u00e3o s\u00f3 formou importantes ultraneoliberais, como Milton Friedman, como forneceu os assessores econ\u00f4micos \u00e0 Pinochet, os famosos\u00a0<em>Chicago Boys<\/em>.<\/p>\n<p>No Brasil, a fascistiza\u00e7\u00e3o come\u00e7ar\u00e1 a trilhar seu caminho com a derrota da greve dos petroleiros em 1995, no in\u00edcio do governo FHC, que possibilitou o in\u00edcio de um violento programa neoliberal. Nem mesmo os governos social-democratas do PT reverteram esse processo, pois n\u00e3o mexeram com os fundamentos econ\u00f4micos neoliberais, ainda que se beneficiando de uma conjuntura internacional favor\u00e1vel. Sua pol\u00edtica distributiva, ainda que acess\u00f3ria e extremamente importante, como o Bolsa-Fam\u00edlia, n\u00e3o rompeu com a l\u00f3gica liberal, pois n\u00e3o passava pelo fortalecimento das organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora, mas refor\u00e7ava a din\u00e2mica cidad\u00e3, ou seja, centrada no fortalecimento dos direitos dos indiv\u00edduos isolados, ainda que com algumas exig\u00eancias ao n\u00edvel das fam\u00edlias, como o comparecimento das crian\u00e7as nas escolas. Ao abordar isto n\u00e3o significa que desconhe\u00e7amos ou neguemos a import\u00e2ncia do programa. Apesar de limitado em recursos, colaborou para o resgate de milh\u00f5es da indig\u00eancia e gerou um impacto positivo na economia. Ao contr\u00e1rio do \u201cBolsa-Banqueiro\u201d, dos juros da d\u00edvida e das transfer\u00eancias financeiras, que gera o enriquecimento de uma minoria reduzid\u00edssima, e n\u00e3o t\u00eam nenhum retorno positivo para a economia, pelo contr\u00e1rio, tem feitos delet\u00e9rios. Note-se que ao n\u00e3o realizar uma pol\u00edtica governamental que passasse essencialmente pelo fortalecimento das organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora, o PT produziu uma situa\u00e7\u00e3o curiosa: em meio \u00e0 hegemonia ideol\u00f3gica neoliberal, os ganhos que grandes parcelas da popula\u00e7\u00e3o obtiveram em seus governos foram enxergados posteriormente n\u00e3o como produto dessa \u00e9poca, mas do esfor\u00e7o individual desses trabalhadores e pequeno-burgueses. Obviamente, eles se esfor\u00e7aram, mas sem o ambiente criado n\u00e3o teriam conseguido ir t\u00e3o longe.<\/p>\n<p>Contudo, esse processo de constru\u00e7\u00e3o da hegemonia neoliberal e fascistiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi produto apenas de inciativas a partir do Estado, mas contou com o suporte das organiza\u00e7\u00f5es privadas da burguesia e de seus aparelhos ideol\u00f3gicos, como os monop\u00f3lios dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. A principal organiza\u00e7\u00e3o a educar as gera\u00e7\u00f5es de jovens que crescer\u00e3o nos anos noventa ser\u00e1 a Rede Globo. Veja-se o car\u00e1ter dos programas voltados para esses p\u00fablicos, como a s\u00e9rie \u2018Malha\u00e7\u00e3o\u2019, que durante muitos anos apresentou toda uma concep\u00e7\u00e3o neoliberal, individualista e competitiva, imoral. Tamb\u00e9m foi ajudado pelo grupo Abril, que publica entre outros o seman\u00e1rio\u00a0<em>Veja<\/em>, aonde encontramos novamente a sombra de Paulo Guedes, que investiu na Abril Educa\u00e7\u00e3o, dos irm\u00e3os Civita.<\/p>\n<p>Essa fascistiza\u00e7\u00e3o das massas brasileiras \u00e9 um diferencial em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura militar (1964-1985), quando o Estado era ent\u00e3o fascista, de tipo contra-insurgente, mas n\u00e3o conseguiu disseminar uma cultura fascista. E um elemento que facilitou esse processo foi o crescimento das seitas convencionalmente chamadas de evang\u00e9licas, mas que s\u00e3o sobretudo neopentecostais. Estas ocuparam, principalmente, o vazio deixado entre os mais pobres pela quase destrui\u00e7\u00e3o total da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o durante os papados ultrareacion\u00e1rios de Jo\u00e3o Paulo II e Bento XVI. \u00c9 preciso entender o diferencial destas seitas para as igrejas protestantes tradicionais, bem como em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras igrejas e religi\u00f5es, como o juda\u00edsmo, o catolicismo, o cristianismo ortodoxo, o islamismo e o hindu\u00edsmo e as religi\u00f5es de matriz africana, por exemplo. Estas tem origens pr\u00e9-capitalistas ou, no m\u00e1ximo como os protestantes tradicionais, emergiram na transi\u00e7\u00e3o para o capitalismo, por isso possuem contradi\u00e7\u00f5es com o capitalismo, tendo assistido ao longo de tempo a emerg\u00eancia de ramos progressistas. O neopentecostalismo, por\u00e9m, surge j\u00e1 no per\u00edodo de decad\u00eancia capitalista, nos anos 1960 e 1970, na grande pot\u00eancia imperialista de nosso tempo, os Estados Unidos. O neopentecostalismo \u00e9 a religi\u00e3o do imperialismo: congrega ao mesmo tempo uma Teologia da Prosperidade e uma defesa do individualismo econ\u00f4mico e social com movimentos de dilui\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos em grandes massas; possui pr\u00e1ticas marcadamente irracionalistas, como o curandeirismo, a glossolalia (\u201cfalar em l\u00ednguas\u201d), profecias, batalha espiritual, com o \u201cenfrentamento\u201d direto dos dem\u00f4nios, e um mundo repleto e dominado diretamente pela influ\u00eancia de seres sobrenaturais, al\u00e9m de um forte discurso moralista conservador. Como se nota \u00e9, tamb\u00e9m, claramente, a \u00fanica religi\u00e3o intrinsecamente fascista. Sua estrutura organizacional reproduz as estruturas fascistas, como o l\u00edder carism\u00e1tico, a forte hierarquia e o dom\u00ednio total do l\u00edder, e mesmo a forma\u00e7\u00e3o de mil\u00edcias, como a \u201cGladiadores do Altar\u201d, de uma das maiores e mais poderosas seitas, a Igreja Universal do Reino de Deus. Como o fascismo, tamb\u00e9m estabelece rela\u00e7\u00f5es com o lumpenproletariado e h\u00e1 v\u00e1rios ind\u00edcios apontados pela imprensa de conex\u00f5es com o submundo do crime. E \u00e9 no uso dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, e contando com a coniv\u00eancia do Estado, que eles foram penetrando e ocupando governos, criando uma das maiores bancadas parlamentares. Com uma vis\u00e3o fundamentalista do cristianismo, destilam o \u00f3dio contra os homossexuais, feministas e contra qualquer tra\u00e7o de modernidade, em particular contra as organiza\u00e7\u00f5es sindicais e a esquerda (ainda que parte da social-democracia tenha coabitado durante algum tempo com essas seitas). Tendo em vista que ela inicialmente se espraiou entre setores mais empobrecidos \u2013 atualmente chegando at\u00e9 \u00e0 classe m\u00e9dia \u2013 ela incorporou algumas caracter\u00edsticas, realizando um sincretismo doutrin\u00e1rio com as religi\u00f5es de matriz africana, em particular pela incorpora\u00e7\u00e3o de elementos animistas. Contudo, por sua din\u00e2mica fascista, n\u00e3o aceita conviver com a diferen\u00e7a, e passa a satanizar e perseguir, inclusive violentamente, essa religi\u00f5es, e a reboque, ataca toda a cultura popular negra e favelada. Desta forma, assume conota\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m racistas e serve \u00e0 desarticula\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es populares nessas comunidades. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a IURD e sua emissora, a Record, embarcaram na campanha do fascista.<\/p>\n<p>Por outro lado, a hegemonia neoliberal ter\u00e1 resultados inclusive sobre a din\u00e2mica da oposi\u00e7\u00e3o ao neoliberalismo. A partir dos anos noventa, frente ao retrocesso das organiza\u00e7\u00f5es de classe, e apoiado por uma ofensiva ideol\u00f3gica emanada dos Estados Unidos, a esquerda come\u00e7a a migrar do debate de classe, e mesmo do debate classista de luta contra as opress\u00f5es, para uma posi\u00e7\u00e3o identitarista, liberal, de luta contra as opress\u00f5es. Tamb\u00e9m migra da afirma\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o classista de mundo para uma posi\u00e7\u00e3o \u201ccidad\u00e3\u201d (liberal), e como um eco tardio do eurocomunismo, esbate a diferen\u00e7a entre democracia liberal e a democracia oper\u00e1ria, e dilui tudo na defesa de uma democracia \u2013 sem corte de classe ou defini\u00e7\u00e3o \u2013 como valor universal, tentando esconder sua ades\u00e3o enquanto ala esquerda do neoliberalismo e do regime. A forma liberal de debater as opress\u00f5es, al\u00e9m de vender falsas ilus\u00f5es de supera\u00e7\u00e3o das diversas opress\u00f5es dentro do capitalismo, \u00e9 de corte individualista, biologizante, irracionalista em alguns casos, e que se torna um instrumento de desorganiza\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora. Divide os explorados e oprimidos e explode a realidade em m\u00faltiplas e fragmentadas identidades, deixando de lado a identidade que as unificava, exatamente a de explorados e oprimidos, a identidade de classe. \u00c9 a era do p\u00f3s-modernismo, do \u201cfim das grandes narrativas\u201d, tudo se transforma em discurso, em batalhas sem\u00e2nticas. Muitos destes movimentos s\u00e3o claramente contr\u00e1rios \u00e0 esquerda e criam um ambiente irracionalista favor\u00e1vel ao fascismo, pois levam a disputa pol\u00edtica para o campo que o fascismo brasileiro quer disputar, o dos costumes e o da moral. A esquerda liberalizada n\u00e3o consegue oferecer uma identidade unit\u00e1ria que congregue todas as lutas de opress\u00e3o casando-as com a luta anticapitalista, classista, e se v\u00ea desarmada frente \u00e0 identidade nacionalista \u2013 ainda que essencialmente antinacionalista \u2013, de extrema-direita, militarista e fundamentalista crist\u00e3, que unifica todo o fascismo brasileiro.<\/p>\n<p>Tendo em vista todo esse processo, ainda falta responder algumas quest\u00f5es centrais sobre o processo fascista atual: quem na classe dominante brasileira apoia o fascismo e porqu\u00ea? Para isso \u00e9 preciso entender a din\u00e2mica da economia e da composi\u00e7\u00e3o da classe dominante e de suas fra\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas: passamos de uma coaliz\u00e3o liderada pelo setor industrial, suportada pelo setor financeiro e secundada pelo setor do agroneg\u00f3cio (nome \u2018modernoso\u2019 para os velhos coron\u00e9is e latifundi\u00e1rios), para uma coaliz\u00e3o dominada pelos setores financeiro e do agroneg\u00f3cio, secundado pelo setor industrial. Essa composi\u00e7\u00e3o tem como resultado um retrocesso nas for\u00e7as produtivas nacionais e uma inser\u00e7\u00e3o cada vez mais dependente do pa\u00eds no mercado mundial.<\/p>\n<p>O gigante agr\u00edcola se baseia em uma estrutura predat\u00f3ria e superexploradora de car\u00e1ter profundamente desigual, incapaz de gerar renda que sustente a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de consumo das massas e que possa ter efeitos positivos sobre os restantes setores econ\u00f4micos. Um vislumbre do \u00faltimo Censo Agropecu\u00e1rio (2006) revela a continuidade desses padr\u00f5es: a agricultura de pequena escala representava 80% das propriedades, empregava tr\u00eas quartos da m\u00e3o de obra rural, mas representava apenas 25% das terras agr\u00edcolas, enquanto a pecu\u00e1ria ocupava metade da \u00e1rea e as monoculturas da soja, cana e milho representavam 60% das \u00e1reas plantadas. A agricultura tem servido para desperdi\u00e7ar e esgotar nosso potencial h\u00eddrico e reduzir importante fonte de riquezas em tempos de florescimento da biotecnologia, que \u00e9 a nossa biodiversidade, amea\u00e7ada pela expans\u00e3o irracional e criminosa da fronteira agr\u00edcola.<\/p>\n<p>O peso desse setor cresce enquanto o setor industrial tem visto sua participa\u00e7\u00e3o no PIB encolher desde seu auge em 1985 (21,6%), e a desnacionaliza\u00e7\u00e3o dos setores estrat\u00e9gicos se aprofunda, onde a venda da Embraer foi apenas mais um triste cap\u00edtulo (defendida pela equipe do fascista). O peso do setor prim\u00e1rio levou a que o Brasil se associasse \u00e0 pujan\u00e7a chinesa quase que exclusivamente por exporta\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas e de min\u00e9rios, em uma din\u00e2mica tipicamente semicolonial, apesar da enorme demanda de produtos industrializados por parte desse pa\u00eds. Este processo, por sua vez, fragiliza obviamente a classe trabalhadora, pois reduz a sua vanguarda, o operariado industrial.<\/p>\n<p>Um dos bloqueadores ao desenvolvimento \u00e9 a concentra\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria: em 2016, os quatro maiores bancos (Caixa, BB, Bradesco e Ita\u00fa) concentraram 79% do mercado de cr\u00e9dito nacional e dos dep\u00f3sitos e 73% dos ativos do sistema financeiro, segundo o BC. Al\u00e9m disso, a din\u00e2mica de atendimento governamental ao setor financeiro internacional e nacional, que retroalimenta a amplia\u00e7\u00e3o das d\u00edvidas interna e externa para auferir lucros, mina o desenvolvimento nacional e possibilita que em 2015 o gasto com juros e amortiza\u00e7\u00f5es da d\u00edvida p\u00fablica tragasse 42,43% do Or\u00e7amento Geral da Uni\u00e3o. \u00c9 aqui que est\u00e1 o grande quinh\u00e3o do setor financeiro.<\/p>\n<p>Este processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais perverso, pois agrava os j\u00e1 graves limites \u00e0s pol\u00edticas de redistribui\u00e7\u00e3o de renda e de concess\u00f5es. Os governos do PT, sem se enfrentar com os fundamentos econ\u00f4micos desse processo, foram capazes, durante os anos de crescimento, de distribuir uma parte minorit\u00e1ria, mas ainda assim importante, da riqueza. Por\u00e9m, isto n\u00e3o se coaduna com a crise econ\u00f4mica e, principalmente, com os planos do novo (velho) bloco dominante. As reformas progressistas se tornam invi\u00e1veis e a superexplora\u00e7\u00e3o se torna o \u00fanico caminho, em definitivo, para o capitalismo dependente brasileiro, o que a Teoria Marxista da Depend\u00eancia j\u00e1 afirmava, mas \u00e9 necess\u00e1rio dar novos saltos, saltos brutais, no n\u00edvel de superexplora\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds toma fei\u00e7\u00f5es cada vez mais parecidas com o Brasil da Rep\u00fablica Velha (1889-1930). Contudo, fazer a hist\u00f3ria retroceder em um s\u00e9culo necessita um esfor\u00e7o herc\u00faleo. Um ajuste deste s\u00f3 se torna poss\u00edvel com o uso da for\u00e7a, s\u00f3 se torna poss\u00edvel com um m\u00e9todo de guerra civil, s\u00f3 se torna poss\u00edvel com o fascismo. \u00c9 imposs\u00edvel impor esse n\u00edvel de retrocesso aos direitos sociais e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho da classe trabalhadora brasileira sem destruir por completo qualquer tipo de organiza\u00e7\u00e3o desta enquanto classe.<\/p>\n<p>E \u00e9 a\u00ed que vai de rold\u00e3o mesmo o PT, que assumiu ao longo do per\u00edodo de redemocratiza\u00e7\u00e3o, em particular a partir dos anos 1990, o papel de ala esquerda de sustenta\u00e7\u00e3o do regime democr\u00e1tico liberal. Este se sustentava com uma perna esquerda, sindical-pol\u00edtica, o PT, e uma perna direita, industrial-financeira (cada vez mais a segunda), o PSDB. Isto era poss\u00edvel dentro de um equil\u00edbrio ativo de for\u00e7as. Este foi rompido pelo processo de retrocesso econ\u00f4mico estrutural. O PT p\u00f4de, dentro de uma pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o, nos marcos de um ambiente internacional favor\u00e1vel, recuperar a credibilidade da democracia liberal brasileira ap\u00f3s o descr\u00e9dito que esta ca\u00edra ap\u00f3s o nefasto choque neoliberal dos governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Fez inclusive concess\u00f5es \u00e0 burguesia, como a (contra)reforma da previd\u00eancia e a lei de terceiriza\u00e7\u00f5es, pois atingiam no primeiro caso setores organizados perif\u00e9ricos para as bases petistas, o funcionalismo p\u00fablico, e no segundo caso, os setores desorganizados, mais precarizados, que escapam \u00e0 estrutura burocr\u00e1tica tradicional do movimento sindical. Mas, quando exigido pelo novo bloco dominante burgu\u00eas agr\u00e1rio-financeiro que fizesse medidas mais profundas, como a (contra)reforma trabalhista, aprovada por Temer, que retrocedeu a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista ao n\u00edvel pr\u00e9-CLT (1943), n\u00e3o podia realiz\u00e1-las. A essa altura, j\u00e1 tinha perdido o apoio de extensos setores da classe trabalhadora e das classes m\u00e9dias, ao adotar uma pol\u00edtica econ\u00f4mica neoliberal austerit\u00e1ria, e perdeu o suporte dos setores dominantes.<\/p>\n<p>Esse novo bloco foi ent\u00e3o apostando na destrui\u00e7\u00e3o institucional do PT, dentro dos marcos da ordem. Contudo, ao n\u00e3o enfrentar resist\u00eancias \u00e0 sua ofensiva por parte da classe trabalhadora, derivado da confus\u00e3o que se instalou com o golpe de 2016 nas principais lideran\u00e7as da classe, e estando estas j\u00e1 desacostumadas ao papel de mobilizadoras \u2013 tendo atuado no sentido oposto por mais de uma d\u00e9cada \u2013 o bloco dominante continua a avan\u00e7ar contra o PT, a esquerda e o conjunto das organiza\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora. \u00c9 a\u00ed que encontra, ansioso para realizar a tarefa, o candidato fascista e seus seguidores. Com contradi\u00e7\u00f5es, com o passar do tempo, o conjunto dos setores dominantes embarcam em sua candidatura, abandonando os pol\u00edticos mais tradicionais e seus partidos. Nesse processo o PSDB ser\u00e1 reduzido quase \u00e0 p\u00f3, deixando de ser um partido em escala nacional \u2013 ainda que n\u00e3o nacional no sentido pol\u00edtico-program\u00e1tico, pois refletiu sempre interesses do capital internacional \u2013 e sobreviver\u00e1 enquanto um partido de poderes locais, em particular em S\u00e3o Paulo. Mais uma caracter\u00edstica que aproxima o per\u00edodo que vivemos do retorno \u00e0 Rep\u00fablica Velha: guiados pelas m\u00e3os do fascismo o PSDB se converte cada vez mais em um Partido Republicano Paulista (PRP).<\/p>\n<p>A hegemonia desse novo bloco rentista-latifundi\u00e1rio pode ser notada tamb\u00e9m culturalmente, quando o sentido da produ\u00e7\u00e3o cultural, em particular musical, se inverte, e ao inv\u00e9s de partir do Rio de Janeiro e do litoral do pa\u00eds para o interior, passa a ser dominado pelo sertanejo (n\u00e3o nacional, mas uma vers\u00e3o abastardada do country estadunidense) em dire\u00e7\u00e3o ao litoral. V\u00ea-se o culto do agr\u00e1rio, do latif\u00fandio, inclusive na campanha publicit\u00e1ria da Globo, que afirmava que \u201cO Agro \u00e9 POP\u201d, que \u201cO Agro \u00e9 bom\u201d.<\/p>\n<p>O \u00f3dio de classe das elites brasileiras e das classes m\u00e9dias, estas historicamente a base de massas do fascismo, servir\u00e1 a esse processo em curso. \u00c9 um \u00f3dio seletivo, que dois anos atr\u00e1s busquei explicar em artigo (Ferreira, 2016, s.p.):<\/p>\n<p>\u201cPorque a classe m\u00e9dia \u2013 com not\u00e1veis e escassas exce\u00e7\u00f5es \u2013 odeia tanto? Odeia o Lula, odeia o PT, odeia os sindicatos, e odeia a esquerda (ao confundi-la toda com o PT)? O exerc\u00edcio de explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode passar pelo seu discurso, que tal como em 1964, se fantasia da luta anticorrup\u00e7\u00e3o. Afinal, a corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o nasceu com o PT, nem alcan\u00e7ou seus p\u00edncaros sob os governos do mesmo. As panelas que batiam contra a Dilma silenciaram mesmo diante das sucessivas den\u00fancias que atingem, como uma estaca, o cora\u00e7\u00e3o do governo golpista, inclusive a figura sombria que o encabe\u00e7a. Reina o sil\u00eancio [\u2026]. As castigadas panelas e os ouvidos sens\u00edveis agradecem, mas a democracia n\u00e3o. Na verdade, essa parcialidade dos panela\u00e7os \u00e9 hist\u00f3rica. Se contarmos apenas o per\u00edodo de redemocratiza\u00e7\u00e3o e sobre o tema de corrup\u00e7\u00e3o, onde estavam os batedores de panelas quando do esc\u00e2ndalo do contrabando das pedras preciosas ou das concess\u00f5es de r\u00e1dios e TVs no governo Sarney? Onde estavam quando os jovens sa\u00edam \u00e0s ruas contra Collor? Quando os trabalhadores lutavam contra as privatiza\u00e7\u00f5es tucanas, escandalosas e corruptas, que entregaram as riquezas nacionais aos piratas corporativos estrangeiros que, ao inv\u00e9s de canh\u00f5es, usavam moedas podres e contatos privilegiados? Onde estavam no esc\u00e2ndalo do SIVAM? Onde estavam as panelas, que permaneceram inc\u00f3lumes, quando num golpe se mudava as regras no meio do jogo, com a compra da emenda da reelei\u00e7\u00e3o de FHC? Ou na maxidesvaloriza\u00e7\u00e3o, maxi-estelionato eleitoral? Ou no esc\u00e2ndalo do BANESTADO? Onde estava quando do Tremsal\u00e3o ou da M\u00e1fia da Merenda?<\/p>\n<p>O \u00f3dio seletivo precisa ser explicado. E, esta explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 no que \u00e9 a atual classe m\u00e9dia brasileira e sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade brasileira. [\u2026] A sua posi\u00e7\u00e3o se define fundamentalmente por sua posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria entre as classes extremas da sociedade brasileira, estando espremidos entre uma reduzida burguesia monop\u00f3lica de grande riqueza e alt\u00edssima renda e uma massa prolet\u00e1ria, subprolet\u00e1ria e lumpenprolet\u00e1ria, do campo e das cidades, completamente miser\u00e1vel. Mas, afirmar que est\u00e3o numa posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria n\u00e3o significa que est\u00e3o eq\u00fcidistantes entre o topo e a base. N\u00e3o. [\u2026] a desigualdade brasileira \u00e9 t\u00e3o grande que a classe m\u00e9dia, ao n\u00e3o ver a elite acima, se cr\u00ea no topo da pir\u00e2mide, se cr\u00ea ela pr\u00f3pria elite. \u00c9 a \u201cs\u00edndrome da Atl\u00e2ntica\u201d [\u2026 ,] a classe m\u00e9dia v\u00ea como amea\u00e7a a si mesma qualquer amea\u00e7a \u00e0 elite. Como n\u00e3o pode mais se diferenciar das massas pela propriedade, a classe m\u00e9dia passa a se diferenciar, como forma de diminuir seu medo da decad\u00eancia social, pelo consumo. A\u00ed est\u00e1 a raiz da \u201cgoumertiza\u00e7\u00e3o\u201d de tudo, do recha\u00e7o a viajar em avi\u00f5es com setores populares, e do \u00f3dio elitista \u00e0 cultura popular. A\u00ed est\u00e1 a origem de seu reacionarismo feroz e de sua rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o social. A classe m\u00e9dia defender\u00e1 com unhas e dentes a ordem que garante a desigualdade e as diferencia\u00e7\u00f5es. A\u00ed est\u00e1 a raiz do \u00f3dio da classe m\u00e9dia.\u201d<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m engrossam esta base fascista os fi\u00e9is seguidores das seitas evang\u00e9licas fascistas, e mesmo outros setores populares, que enxergam erroneamente o PT como o \u00fanico respons\u00e1vel de todos os males, deslocando seu justo \u00f3dio aos efeitos que a longa hegemonia neoliberal produziu no pa\u00eds, contra a esquerda, contra a sociabilidade moderna, contra os setores progressistas. \u00c9 assim que as massas oprimidas se convertem em seguidores dos opressores e passam, pois desorganizadas enquanto classe e organizadas enquanto massa pelo fascismo, a odiar os outros oprimidos. A m\u00e1scara progressista sob a qual o pa\u00eds profundo e a rea\u00e7\u00e3o foram escondidos em anos recentes caiu e revelou a face mais abjeta fascista.<\/p>\n<p>O processo de fascistiza\u00e7\u00e3o que vemos estar\u00e1 em curso vencendo ou sendo derrotado o candidato fascista. O resultado apenas definir\u00e1 a forma dessa fascistiza\u00e7\u00e3o: no primeiro caso, seguir\u00e1 a via italiana\/alem\u00e3, no segundo caso, a via espanhola\/chilena. O que \u00e9 certo \u00e9 que as expectativas de grande parte da esquerda brasileira de reverter eleitoralmente o fascismo s\u00e3o v\u00e3s. Quando o processo de fascistiza\u00e7\u00e3o entra em curso, por mais que se mantenha a forma democr\u00e1tica aparente, ela ser\u00e1 apenas isso, apar\u00eancia. O que existe \u00e9 de fato uma guerra civil. A trag\u00e9dia brasileira \u00e9 que, at\u00e9 agora, s\u00f3 um lado entrou em campo para lutar: e n\u00e3o \u00e9 o lado dos trabalhadores e do progresso.<\/p>\n<p>Bibliografia:<\/p>\n<p>Bernardo, Jo\u00e3o.\u00a0<em>Labirintos do fascismo. Na encruzilhada da ordem e da revolta<\/em>. Porto: Jo\u00e3o Bernardo e Edi\u00e7\u00f5es Afrontamento, 2003.<\/p>\n<p>Dos Santos, Theotonio.\u00a0<em>Socialismo o fascismo. El nuevo car\u00e1cter de la dependencia y el dilema latinoamericano<\/em>. M\u00e9xico, D.F.: Edicol, 1978.<\/p>\n<p>Ferreira, Carlos Serrano.\u00a0<em>O \u00f3dio e a classe m\u00e9dia<\/em>. 2016. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasil247.com\/pt\/colunistas\/geral\/271244\/O-%C3%B3dio-e-a-classe-m%C3%A9dia.htm\">https:\/\/www.brasil247.com\/pt\/colunistas\/geral\/271244\/O-%C3%B3dio-e-a-classe-m%C3%A9dia.htm<\/a>.<\/p>\n<p>Mandel, Ernest.\u00a0<em>Sobre o fascismo<\/em>. Lisboa: Ant\u00eddoto, 1976.<\/p>\n<p>Poulantzas, Nicos.\u00a0<em>Poder pol\u00edtico y clases sociales en el Estado capitalista<\/em>. M\u00e9xico, D.F.: Siglo XXI, 2007.<\/p>\n<p>Schacht, Hjalmar.\u00a0<em>Setenta e seis anos de minha vida<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 1999.<\/p>\n<p>Villaverde Cabral, Manuel.\u00a0<em>O fascismo portugu\u00eas em perspectiva comparada<\/em>. Lisboa: A regra do Jogo Edi\u00e7\u00f5es, 1982.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21080\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[268],"tags":[221],"class_list":["post-21080","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eleicoes-2018","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5u0","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21080","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21080"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21080\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21080"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21080"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21080"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}