{"id":21146,"date":"2018-10-19T20:39:40","date_gmt":"2018-10-19T23:39:40","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21146"},"modified":"2018-10-19T20:39:40","modified_gmt":"2018-10-19T23:39:40","slug":"o-neoliberalismo-esta-de-regresso-as-origens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21146","title":{"rendered":"O neoliberalismo est\u00e1 de regresso \u00e0s origens"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrilabril.pt\/sites\/default\/files\/styles\/node_aberto_vp768\/public\/assets\/img\/8420.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Jos\u00e9 Goul\u00e3o<\/p>\n<p>ABRIL ABRIL<\/p>\n<p>O fascismo \u00e9 o regime pol\u00edtico por excel\u00eancia do neoliberalismo. Pode ter v\u00e1rias caras, mas vive da supress\u00e3o dos direitos sociais e humanos, liberdades pol\u00edticas e garantias da maioria dos cidad\u00e3os<\/p>\n<p>A emerg\u00eancia do fen\u00f4meno Bolsonaro no Brasil arrasta consigo a crueza de uma realidade que h\u00e1 muito se vem desenvolvendo sob os nossos olhos, mas que nem sempre \u00e9 olhada com a aten\u00e7\u00e3o merecida. A vaga populista que dia-a-dia ganha envergadura, principalmente na Europa e nas Am\u00e9ricas, representa a entrada do neoliberalismo econ\u00f4mico na \u00faltima fronteira para tentar garantir a sobreviv\u00eancia, \u00e0 medida que os ventos de crise agravada sopram de todos os quadrantes. Fronteira essa que, uma vez cruzada, determina o reencontro da ditadura do mercado segundo os preceitos da \u00abescola de Chicago\u00bb com o sistema pol\u00edtico onde incubou: o fascismo.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante e significativo o esfor\u00e7o do\u00a0<em>mainstream<\/em>\u00a0para detectar diferen\u00e7as entre as diversas vers\u00f5es da extrema-direita que v\u00e3o chegando aos governos de sucessivos pa\u00edses, como se cada caso tivesse particularidades suscept\u00edveis de tornar abusiva a sua assimila\u00e7\u00e3o no mesmo ficheiro politico-econ\u00f4mico. Este \u00e9 de direita nacionalista, aquele \u00e9 de tend\u00eancia populista, outro \u00e9 nacionalista populista, por sua vez diferente do vizinho que \u00e9 populista nacionalista e n\u00e3o deve confundir-se com aqueloutro que \u00e9 nacional-conservador. O que nenhum deles chega a ser, porque a tanto n\u00e3o permite o pudor, \u00e9 fascista.<\/p>\n<p>Um fascista que tem a seu lado um homem das economias e finan\u00e7as precisamente da escola do neoliberalismo ortodoxo de Chicago, Paulo Guedes de seu nome.\u00a0Com Bolsonaro, o seu culto das metodologias de Goebbels atualizadas em vers\u00e3o WhatsApp, a sua veia discriminat\u00f3ria, racista, mis\u00f3gina, os seus parceiros de caserna saudosos dos tempos em que punham e dispunham das leis a tiro, h\u00e1 j\u00e1 quem se deixe de meticulosidades e admita que estamos perante um fascista.<\/p>\n<p>Jair Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 general, nem est\u00e1 na ativa, mas pretende reproduzir no Brasil de hoje uma r\u00e9plica do Chile de Pinochet a partir de 1973: o casamento entre o fascismo pol\u00edtico e o neoliberalismo econ\u00f4mico \u2013 o que dizem ser imposs\u00edvel porque o mercado \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, democr\u00e1tico \u2013 a tal mentira que nem por ser muitas vezes repetida se torna verdade. Em Bolsonaro o neoliberalismo regressa \u00e0s origens, como est\u00e1 a acontecer de forma cada vez mais generalizada em diferentes regi\u00f5es do mundo, porque as democracias formais se tornaram insuficientes para alimentar a sua gula \u2013 sempre insaci\u00e1vel, haja ou n\u00e3o crise.<\/p>\n<p><b>O estilo e as consequ\u00eancias<\/b><\/p>\n<p>Dir\u00e3o: Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 Kakzynski, n\u00e3o \u00e9 Salvino nem Kurz, nem mesmo Macri ou Orban.<\/p>\n<p>Uns mais polidos, ou dissimulados, menos bo\u00e7ais ou agindo mais pela calada, as diferen\u00e7as s\u00e3o sobretudo de estilo e circunst\u00e2ncias regionais, porque as consequ\u00eancias sociais das suas pr\u00e1ticas pol\u00edticas e econ\u00f4micas ser\u00e3o similares em contextos onde os graus de liberdade poder\u00e3o eventualmente oscilar, mas ser\u00e3o reduzidos ao m\u00ednimo.<\/p>\n<p>O neoliberalismo necessita de abolir quaisquer resqu\u00edcios de direitos sociais, de apagar normas laborais que limitem a arbitrariedade patronal, de controlar os movimentos colectivos, de criar divis\u00f5es entre segmentos da sociedade, de mistificar o que \u00e9 de interesse p\u00fablico, sobretudo de exaltar situa\u00e7\u00f5es irrelevantes que mobilizem massas e as desviem da solidariedade, da consci\u00eancia social, da inclus\u00e3o, da cultura, do esclarecimento, da educa\u00e7\u00e3o humanista.<\/p>\n<p>\u00c9 uma realidade que os pa\u00edses a caminho de ditaduras pol\u00edticas, ou que j\u00e1 l\u00e1 est\u00e3o, chegaram a essa situa\u00e7\u00e3o em circunst\u00e2ncias diferentes mas que t\u00eam ra\u00edzes comuns na incompatibilidade, de facto, entre neoliberalismo e democracia.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia \u00e9 o exemplo mais flagrante deste quadro, sobretudo pela contribui\u00e7\u00e3o que o seu funcionamento autorit\u00e1rio e invasivo das soberanias d\u00e1 para que as respostas, em sucessivos Estados membros, sejam de \u00edndoles nacionalistas.<\/p>\n<p>As medidas tomadas pela Uni\u00e3o Europeia ditas de \u00abcombate \u00e0 crise\u00bb orientam-se pela necessidade de permitir ao neoliberalismo ir recuperando das suas maleitas end\u00eamicas gra\u00e7as ao sacrif\u00edcio da democracia e dos direitos b\u00e1sicos dos cidad\u00e3os. Nada mais natural que, ao compasso de problemas gerados pela deriva da Uni\u00e3o Europeia, como o dos refugiados, o agravamento das condi\u00e7\u00f5es de vida de camadas de marginalizados e exclu\u00eddos, tenham surgido governos que, manipulando a suposta defesa dos cidad\u00e3os \u00abnacionais\u00bb, encontrem maneiras de refor\u00e7ar os poderes das elites econ\u00f4micas internas, eventualmente desconfort\u00e1veis com as intrus\u00f5es de Bruxelas em defesa, no fundo, dos interesses de uma nata de pa\u00edses, ou apenas de um deles.<\/p>\n<p><b>O exemplo da It\u00e1lia<\/b><\/p>\n<p>O caso de It\u00e1lia \u00e9 exemplar, sobretudo atrav\u00e9s do bra\u00e7o de ferro que se trava entre Bruxelas e Roma por causa das quest\u00f5es or\u00e7amentais.<\/p>\n<p>A f\u00e1cil submiss\u00e3o de pa\u00edses como a Gr\u00e9cia e Portugal \u00e0 troika e \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria da democracia e da soberania n\u00e3o se repete perante a barreira levantada pelo populismo italiano, de clara inspira\u00e7\u00e3o mussoliniana.<\/p>\n<p>Manobrando em seu proveito os efeitos das exig\u00eancias or\u00e7amentais e dos limites do d\u00e9ficit que Bruxelas pretende impor, o governo de Roma arvora-se em defensor da popula\u00e7\u00e3o contra os ataques dos tecnocratas da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia \u00e9 v\u00edtima da sua pr\u00f3pria pol\u00edtica intervencionista nas estruturas e decis\u00f5es econ\u00f4micas de Estados membros; por isso, quando est\u00e3o em causa pa\u00edses que s\u00e3o de primeira linha o problema pode tornar-se delicado e mesmo secessionista. E \u00abse a Fran\u00e7a \u00e9 a Fran\u00e7a\u00bb, como alegou Juncker para ilibar Paris das suas responsabilidades com o d\u00e9fice, ent\u00e3o a It\u00e1lia \u00e9 It\u00e1lia, o Reino Unido \u00e9 o Reino Unido \u2013 e por isso h\u00e1 o Brexit.<\/p>\n<p>A It\u00e1lia n\u00e3o vai ceder. Porque a crise, desta feita, \u00e9 manipulada internamente contra Bruxelas e o governo vai-se escudando no crescente apoio interno. E se \u00e9 duvidoso que alguma vez os povos dos Estados membros se tenham identificado com as historietas federalistas transformadas em vers\u00e3o rom\u00e2ntica da Uni\u00e3o Europeia, podemos estar certos de que, hoje em dia, a maioria dos italianos n\u00e3o lamentar\u00e3o uma eventual sa\u00edda.<\/p>\n<p>Segundo as sondagens, os dois grupos nacionalistas que sustentam o governo ampliaram a maioria para dois ter\u00e7os das inten\u00e7\u00f5es de voto. E n\u00e3o se trata de defender o capital nacional, porque isso j\u00e1 n\u00e3o existe, \u00e9 transnacional e global. Trata-se de resistir ao autoritarismo de Bruxelas e de arranjar espa\u00e7o para governar a economia do pa\u00eds, tamb\u00e9m de maneira neoliberal em proveito de castas nacionais, confundidas abusivamente com o interesse nacional.<\/p>\n<p>Na Europa, a Uni\u00e3o Europeia \u00e9 a grande respons\u00e1vel pela ascens\u00e3o dos fascismos. N\u00e3o se limitou a colaborar no golpe ucraniano que levou ao governo os banderistas saudosos de Hitler. Assistiu imp\u00e1vida \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o de regimes de tend\u00eancias nazi-fascistas na Hungria, na Pol\u00f4nia, nos Estados do B\u00e1ltico \u2013 com exce\u00e7\u00e3o da Litu\u00e2nia, certamente por pouco tempo \u2013 na Rep\u00fablica Checa e na Eslov\u00e1quia, na Eslov\u00eania, Cro\u00e1cia, na \u00c1ustria. E n\u00e3o agiu a tempo por uma raz\u00e3o: todos eles transformaram os regimes pol\u00edticos em m\u00e1quinas autorit\u00e1rias para fazer respeitar o neoliberalismo econ\u00f4mico e as imposi\u00e7\u00f5es do globalismo.<\/p>\n<p>O fascismo \u00e9 o regime pol\u00edtico por excel\u00eancia do neoliberalismo. Pode ter mil e uma caras, mas orienta-se, em \u00faltima an\u00e1lise, pela supress\u00e3o dos direitos sociais e humanos, liberdades pol\u00edticas e garantias da maioria dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>No cortejo para os abismos fascistas, caso n\u00e3o haja uni\u00e3o, for\u00e7a e coragem para lhe travar o passo, a Uni\u00e3o Europeia seguir\u00e1 um de dois caminhos: ou dissolve-se, ou adapta-se com o modelo de gest\u00e3o a preceito \u2013 que ali\u00e1s n\u00e3o necessitar\u00e1 de altera\u00e7\u00f5es radicais em rela\u00e7\u00e3o ao que vem aplicando, sobretudo contra os pa\u00edses que n\u00e3o se defendem.<\/p>\n<p><b>O caso da Am\u00e9rica Latina<\/b><\/p>\n<p>Prova insofism\u00e1vel das afinidades entre o fascismo pol\u00edtico e o neoliberalismo econ\u00f4mico \u00e9 o que est\u00e1 a acontecer na Am\u00e9rica Latina, e de que Jair Bolsonaro \u00e9 o fen\u00f4meno mais recente.<\/p>\n<p>Sucedem-se agora em cascata os efeitos das manobras imperiais desenvolvidas pelos Estados Unidos para liquidar todas as tentativas realizadas, sobretudo durante os \u00faltimos 25 anos, para implantar sistemas sociais e pol\u00edticos mais justos e mais livres. Bolsonaro no Brasil, Macri na Argentina, Pi\u00f1era no Chile \u2013 um fiel seguidor de Pinochet \u2013, s\u00e3o as respostas de Washington \u00e0s conquistas populares alcan\u00e7adas. No Paraguai, o golpe \u00ab\u00e0 brasileira\u00bb imp\u00f4s o regresso do fascismo institucional; em Honduras foi \u00e0 \u00abmoda antiga\u00bb, com os militares; no Equador vive-se a primeira fase do golpe atrav\u00e9s da inviabiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Rafael Correa \u2013 Quito encontrou o seu \u00abTemer\u00bb.<\/p>\n<p>Bol\u00edvia, Nicar\u00e1gua e, sobretudo, a Venezuela vivem sob golpe permanente atrav\u00e9s de opera\u00e7\u00f5es conduzidas pelos Estados Unidos recorrendo a grupos e pr\u00e1ticas fascistas. N\u00e3o h\u00e1 meio termo: quando em Washington se fala em \u00abdemocracia\u00bb relativamente a pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina deve entender-se \u00abfascismo\u00bb.<\/p>\n<p>Nada disto \u00e9 surpreendente e il\u00f3gico. Quando chegou a hora de os pupilos de Milton Friedman, em Chicago, passarem da teoria \u00e0 pr\u00e1tica do capitalismo selvagem, a ditadura do mercado no seu esplendor, Henry Kissinger escolheu o Chile e o fascismo de Pinochet. Uma longa crise depois, o neoliberalismo precisa de voltar \u00e0s origens para sobreviver. E o neoliberalismo n\u00e3o \u00e9 mais que o estado supremo do capitalismo, a sua express\u00e3o aut\u00eantica.<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o:\u00a0Cr\u00e9ditosFonte: Brasil Soberano e Livre<\/p>\n<p>https:\/\/www.abrilabril.pt\/internacional\/o-neoliberalismo-esta-de-regresso-origens<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21146\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[268],"tags":[227],"class_list":["post-21146","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eleicoes-2018","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5v4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21146","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21146"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21146\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21146"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21146"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21146"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}