{"id":21186,"date":"2018-10-25T05:53:28","date_gmt":"2018-10-25T07:53:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21186"},"modified":"2018-10-25T06:17:11","modified_gmt":"2018-10-25T08:17:11","slug":"herzog-vive-ditadura-nunca-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21186","title":{"rendered":"Herzog vive! Ditadura nunca mais!"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.zonacurva.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/24-de-outubro-Vladimir_Herzog-foto-destacada.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->O PODER POPULAR<\/p>\n<p>A Opera\u00e7\u00e3o Radar, criada pelos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o durante a ditadura implantada no Brasil atrav\u00e9s do golpe de 1964, objetivava localizar e desarticular, em todo territ\u00f3rio nacional, a resist\u00eancia exercida pelo Partido Comunista Brasileiro e a infraestrutura do jornal Voz Oper\u00e1ria, mantido a duras penas pelos comunistas do PCB, na d\u00e9cada de 1970. A opera\u00e7\u00e3o, por um tempo desativada, foi retomada no final de 1973 pelo DOI (Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es) de S\u00e3o Paulo, em colabora\u00e7\u00e3o com outros DOIs e com o CIE (Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito), desencadeando pris\u00f5es e persegui\u00e7\u00f5es por todo o Brasil, em estados como S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Paran\u00e1 e Santa Catarina.<\/p>\n<p>Foi pr\u00e1tica comum o desaparecimento for\u00e7ado de corpos em locais clandestinos, ap\u00f3s sess\u00f5es de torturas e execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias. Nos anos de 1974 e 1975, foram sequestrados, torturados e assassinados 10 membros do Comit\u00ea Central e 3 camaradas com tarefas nacionais, ligadas centralmente \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do jornal, \u00e0s finan\u00e7as e \u00e0s rela\u00e7\u00f5es internacionais: C\u00e9lio Guedes, David Capistrano da Costa, Walter Ribeiro, Jos\u00e9 Roman, Luiz In\u00e1cio Maranh\u00e3o Filho, Jo\u00e3o Massena de Melo, \u00c9lson Costa, Hiram de Lima Pereira, Jayme Amorim de Miranda, Itair Jos\u00e9 Veloso, Nestor Vera, Orlando Bonfim J\u00fanior e Jos\u00e9 Montenegro de Lima. O plano, aplicado durante o governo de Ernesto Geisel, que cinicamente falava em \u201cdistens\u00e3o lenta, segura e gradual\u201d do regime, era desestruturar totalmente a organiza\u00e7\u00e3o do PCB.<\/p>\n<p>C\u00e9lulas importantes do Partido foram alvo do ataque sanguin\u00e1rio da ditadura, com destaque para as bases comunistas, em S\u00e3o Paulo, dos metal\u00fargicos, estudantes e jornalistas. Foi no DOI-CODI paulista que aconteceu, em outubro de 1975, um dos casos mais emblem\u00e1ticos de pris\u00e3o, tortura e assassinato promovidos pelo regime ditatorial: o de Vladimir Herzog, cuja morte foi apresentada \u00e0 imprensa sob a farsa segundo a qual o jornalista teria se enforcado ap\u00f3s o interrogat\u00f3rio, quando, de fato, seu corpo tinha marcas de tortura e n\u00e3o havia altura suficiente para que ele cometesse suic\u00eddio da forma como foi pendurado, conforme demonstra uma das fotos mais impactantes divulgadas pelos agentes da repress\u00e3o.<\/p>\n<p>O menino Vlado Herzog nasceu em 27 de junho de 1937, na cidade de Osijek, na regi\u00e3o da S\u00e9rvia, ex-Iugosl\u00e1via. De fam\u00edlia judia, teve a casa em Banja Luka tomada pelos nazistas em 1941, obrigando a que seus pais, Zigmund e Zora, com Vlado a tiracolo, fugissem para a It\u00e1lia. Com o fim da guerra, em 1946, vieram para o Brasil e se instalaram no bairro oper\u00e1rio da Mooca, em S\u00e3o Paulo. Ao se naturalizar brasileiro, Vlado virou Vladimir. Cursou o gin\u00e1sio no Col\u00e9gio Presidente Roosevelt e estudou teatro no Instituto Cultural \u00cdtalo-Brasileiro, interessando-se ainda por cinema, m\u00fasica e literatura. Entrou para a Faculdade de Filosofia da USP, mas inclinou-se para o jornalismo, iniciando a carreira, em abril de 1959, na reda\u00e7\u00e3o de O Estado de S\u00e3o Paulo. Cobriu a visita de Jean-Paul Sartre ao Brasil, em 1960, fil\u00f3sofo que admirava profundamente, respons\u00e1vel por seu engajamento pol\u00edtico. Aproximou-se dos movimentos culturais influenciados pelo PCB, como o teatro popular de Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Vianna Filho e o cinema novo de Nelson Pereira dos Santos. Conheceu Clarice, ent\u00e3o estudante de Ci\u00eancias Sociais da USP, e com ela se casou em fevereiro de 1964.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s o golpe de 1964, o nome de Vladimir Herzog passou a constar das listas do DOPS, entre jornalistas considerados inimigos do regime, pois assinara, em 1965, um manifesto de intelectuais contra as persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Contratado por tr\u00eas anos pela BBC, em junho de 1966, deixou o pa\u00eds rumo \u00e0 Inglaterra, seguido por Clarice em dezembro do mesmo ano. L\u00e1, onde Vlado trabalhou at\u00e9 o final de 1968, nasceram os filhos Ivo e Andr\u00e9. Mesmo com a decreta\u00e7\u00e3o do AI-5, decidiu por retornar ao Brasil quando seu contrato com a TV estatal inglesa terminou. Foi trabalhar na produ\u00e7\u00e3o de comerciais em uma ag\u00eancia de publicidade e, em 1970, virou freelancer na Revista Vis\u00e3o, tornando-se depois seu editor de cultura. Em 1973, Vlado foi convidado a integrar a equipe de jornalismo da TV Cultura de S\u00e3o Paulo, mas a experi\u00eancia terminou em dezembro de 1974, ap\u00f3s muitas press\u00f5es contra o \u201cbando de subversivos\u201d que buscavam renovar o formato dos notici\u00e1rios, apesar de toda censura.<\/p>\n<p>Vlado dedicou-se a roteiros de cinema (um document\u00e1rio sobre Canudos e o filme Doramundo, de Geraldo Ferraz), deu aulas na Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Artes da USP, teve passagem rel\u00e2mpago pelo jornal Opini\u00e3o e decidiu entrar para o PCB, na c\u00e9lula dos jornalistas da revista Vis\u00e3o. Dizia, com certo grau de humor, ter optado pelo Partido Comunista por entender que somente duas organiza\u00e7\u00f5es nacionais tinham condi\u00e7\u00f5es de derrotar a ditadura: a Igreja Cat\u00f3lica e o PCB. Refor\u00e7ou sua op\u00e7\u00e3o pelo PCB o fato de o partido n\u00e3o ter optado \u00e0 \u00e9poca pela luta armada. Entretanto, a t\u00e1tica adotada pelos comunistas n\u00e3o impediu o massacre que veio a seguir, do qual o pr\u00f3prio Vlado seria v\u00edtima, ao aceitar o convite para retornar \u00e0 TV Cultura, assumindo a dire\u00e7\u00e3o do Departamento de Jornalismo.<\/p>\n<p>No mesmo ano em que jornalistas de esquerda lideraram o Movimento de Fortalecimento do Sindicato (MFS) e venceram as elei\u00e7\u00f5es sindicais, v\u00e1rios profissionais foram alvo de persegui\u00e7\u00f5es. No dia 24 de outubro de 1975, Rodolfo Konder e George Duque Estrada, militantes comunistas, eram os 10\u00ba e 11\u00ba jornalistas presos desde o dia 5 daquele m\u00eas. Horas depois, seriam testemunhas do assassinato de Herzog nas depend\u00eancias do DOI-CODI. Na noite do mesmo dia, Vlado foi procurado por militares na TV Cultura e prometeu se entregar na manh\u00e3 seguinte, acreditando n\u00e3o haver contra ele provas de liga\u00e7\u00e3o com o Partido. Violentamente torturado, negou o quanto p\u00f4de pertencer \u00e0 c\u00e9lula comunista e n\u00e3o entregou ningu\u00e9m, mas n\u00e3o aguentou a sess\u00e3o de choques e pancadas. A morte de Vlado Herzog desencadeou uma onda de protestos contra a ditadura, liderada pelo Sindicato dos Jornalistas, contribuindo para o in\u00edcio de um longo processo de desgaste do regime.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica hegemonizada por setores liberais burgueses n\u00e3o teve interesse em desmontar o conjunto do aparato repressivo criado pela ditadura. A tortura continua sendo uma pr\u00e1tica corriqueira adotada por policiais civis e militares e funcion\u00e1rios de pres\u00eddios, uma viol\u00eancia institucional que atinge principalmente homens, jovens, negros e pobres com baixo n\u00edvel de escolaridade. Trata-se de um expediente \u00fatil ao Estado burgu\u00eas, ainda mais num quadro de acirramento da crise do capitalismo, em que a criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza e dos movimentos sociais faz parte do receitu\u00e1rio das classes dominantes para conter o explosivo descontentamento das massas. Algo que corre o risco de se tornar ainda mais dram\u00e1tico para trabalhadores e trabalhadoras, lutadores sociais e militantes de organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, em especial, os comunistas, caso o candidato fascista Jair Bolsonaro saia vitorioso no pleito do pr\u00f3ximo domingo.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 tempo de virar! DITADURA NUNCA MAIS! FASCISMO N\u00c3O! HADDAD 13.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21186\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53,268,140],"tags":[228],"class_list":["post-21186","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura","category-eleicoes-2018","category-c140-jornal-o-poder-popular","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5vI","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21186","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21186"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21186\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21186"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21186"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21186"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}