{"id":2125,"date":"2011-11-29T15:15:39","date_gmt":"2011-11-29T15:15:39","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2125"},"modified":"2015-06-09T00:31:22","modified_gmt":"2015-06-09T03:31:22","slug":"brasil-colombia-uma-alianca-imprevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2125","title":{"rendered":"Brasil-Col\u00f4mbia: uma alian\u00e7a imprevista"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal\/images\/stories\/outras-opinioes.png?w=747\" alt=\"\" align=\"right\" border=\"0\" \/><strong>O POVO (Fortaleza-CE) &#8211; 07.01.2012| 15:00 <\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 70 do s\u00e9culo passado, o Brasil desenvolvia secretamente seu programa nuclear para fins militares. Para assegurar-lhe recursos financeiros, estabelecera parceria com o Iraque, que bancava os elevados investimentos necess\u00e1rios em troca de acesso aos conhecimentos tecnol\u00f3gicos brasileiros. O respons\u00e1vel pelo programa na Aeron\u00e1utica era o tenente-coronel aviador Jos\u00e9 Alberto Albano do Amarante, engenheiro eletr\u00f4nico formado pelo ITA.<!--more--><\/p>\n<p>Em outubro de 1981, Amarante foi atacado por uma leucemia arrasadora, que o matou em menos de duas semanas. Sua fam\u00edlia tem como certo que o cientista foi morto pelos servi\u00e7os secretos dos EUA e de Israel, com o objetivo de impedir a capacita\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de armas at\u00f4micas. Dando for\u00e7a \u00e0s suspeitas, foi identificado um agente israelense do Mossad, de nome Samuel Giliad, atuando \u00e0 \u00e9poca em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, e que fugiu do pa\u00eds logo ap\u00f3s a misteriosa morte do oficial brasileiro.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio d\u00e1 bem o tom da virul\u00eancia empregada pelos EUA e Israel para bloquear a entrada de outros pa\u00edses no fechado clube nuclear. N\u00e3o por coincid\u00eancia, apenas quatro meses antes da suposta a\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio brasileiro, Israel desfechara devastador ataque a\u00e9reo ao reator nuclear de Osirak, no Iraque, que vinha sendo constru\u00eddo pelos franceses.<\/p>\n<p>Tais fatos d\u00e3o credibilidade \u00e0s reiteradas den\u00fancias do governo iraniano de que seus cientistas est\u00e3o sendo alvo de atentados por parte dos servi\u00e7os secretos estadunidense, brit\u00e2nico e israelense. Somente em 2010, foram mortos os f\u00edsicos Masud Ali Mohamadi e Majid Shariari, que atuavam no desenvolvimento de reatores nucleares, ambos v\u00edtimas de explos\u00f5es de bombas em seus pr\u00f3prios autom\u00f3veis, enquanto o chefe da Organiza\u00e7\u00e3o de Energia At\u00f4mica do Ir\u00e3, Abbasi-Davanina, escapava por pouco da detona\u00e7\u00e3o de um carro-bomba, conforme ele pr\u00f3prio denunciou durante a confer\u00eancia anual da Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica, em setembro \u00faltimo. Em julho de 2011, o f\u00edsico Daryush Rezaei, 35 anos, foi morto a tiros em frente a sua casa, em ataque que tamb\u00e9m feriu sua esposa. Esses s\u00e3o alguns dos muitos casos de assassinatos e desaparecimentos de cientistas e chefes militares iranianos nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Os crimes se d\u00e3o em paralelo \u00e0s intensas press\u00f5es do governo dos EUA para que a comunidade internacional aplique severas san\u00e7\u00f5es ao Ir\u00e3 sob o argumento de que o pa\u00eds descumpre o Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares (TNP).<\/p>\n<p>Criado pela ONU em 1968, o acordo tem tr\u00eas objetivos principais: coibir o uso de tecnologia nuclear para produ\u00e7\u00e3o de armas, eliminar os armamentos nucleares existentes e regular o uso de energia nuclear para fins pac\u00edficos. Convenientemente, as grandes pot\u00eancias interpretam o acordo segundo seus pr\u00f3prios interesses: bloqueiam o desenvolvimento da pesquisa dos pa\u00edses n\u00e3o detentores de armas at\u00f4micas, mesmo quando para fins pac\u00edficos, e fazem letra morta dos dispositivos do tratado que determinam o desarmamento.<\/p>\n<p>Como previa o embaixador do Brasil na ONU, em 1968, Jos\u00e9 Augusto Ara\u00fajo de Castro, quando atuou para impedir a ades\u00e3o do Brasil ao TNP, o tratado \u00e9 apenas um instrumento para perpetuar o poder das grandes pot\u00eancias.<\/p>\n<p>Documentos divulgados pelo Wikileaks deixam clara a disposi\u00e7\u00e3o dos EUA em n\u00e3o reduzir o n\u00famero de ogivas nucleares instaladas na Europa. Por outro lado, enquanto todos os pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio fazem parte do TNP, Israel, \u00fanico detentor de armas nucleares na regi\u00e3o, nega-se a aderir ao acordo e repudiou as censuras de que foi alvo no relat\u00f3rio final da \u00faltima reuni\u00e3o quinquenal do TNP, em 2010, gerando a amea\u00e7a dos demais governos vizinhos de abandonar o tratado na pr\u00f3xima reuni\u00e3o, marcada para 2012.<\/p>\n<p>As guerras contra o Afeganist\u00e3o, Iraque e L\u00edbia, mais as amea\u00e7as contra a S\u00edria, Coreia e Ir\u00e3, parecem evidenciar que somente a capacidade de retalia\u00e7\u00e3o at\u00f4mica intimida o imp\u00e9rio, j\u00e1 que a assimetria das for\u00e7as alimenta aventuras dos Estados Unidos e de seus s\u00f3cios de rapina, todos em busca de conflitos b\u00e9licos, seja para assegurar dom\u00ednios seja para encobrir seus graves problemas dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>A conjuntura estrat\u00e9gica do Oriente M\u00e9dio indica que, para sua sobreviv\u00eancia, o Ir\u00e3 n\u00e3o tem outra alternativa que a de construir sua bomba e, nesse sentido, corre contra o tempo, dado o cerco que se fecha contra o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Como analisa o cientista pol\u00edtico paquistan\u00eas Tariq Ali, n\u00e3o \u00e9 despropositado considerar que o surgimento de outra pot\u00eancia nuclear no Oriente M\u00e9dio possa propiciar estabilidade pol\u00edtica \u00e0 regi\u00e3o e ao mundo, por contradit\u00f3rio que possa parecer.<\/p>\n<p><em>\u201cQuando me perguntam o que quero ser quando crescer, respondo: eu quero ser como Lula.\u201d (Juan Manuel Santos)<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cHoje n\u00e3o necessitamos da espada de Bol\u00edvar, mas de bancos de investimento e cr\u00e9dito. N\u00e3o devemos ter medo de emprestar aos pobres, porque al\u00e9m de pagarem, tornam-se compradores do que as empresas produzem\u201d (Lula)<\/em><\/p>\n<p>Ra\u00fal Zibechi<\/p>\n<p>Americas Program<\/p>\n<p>Col\u00f4mbia era o melhor aliado de Washington na regi\u00e3o. Agora se aproxima do Brasil, com quem come\u00e7a a ter uma s\u00f3lida rede de v\u00ednculos comerciais, financeiros e pol\u00edticos. Washington est\u00e1 ficando sem aliados como parte do redesenho geopol\u00edtico global e regional em marcha.<\/p>\n<p>\u201cQuando me perguntam o que quero ser quando crescer, respondo: eu quero ser como Lula.\u201d A frase n\u00e3o foi pronunciada por nenhum presidente progressista da regi\u00e3o, mas pelo mais conservador de todos: Juan Manuel Santos. O presidente da Col\u00f4mbia abriu dessa maneira o Primeiro F\u00f3rum de Investimentos Col\u00f4mbia-Brasil, em Bogot\u00e1, em 4 de agosto, organizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, no qual a figura em destaque foi Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.<\/p>\n<p>O ex-presidente brasileiro n\u00e3o ficou atr\u00e1s: \u201cChegou o momento de pensarmos em n\u00f3s mesmos. Onde est\u00e1 nosso potencial de crescimento? Entre n\u00f3s.\u201d \u2013 disse, para mostrar que a regi\u00e3o sul-americana deve deixar de olhar para o Norte.<\/p>\n<p>\u201cHoje n\u00e3o necessitamos da espada de Bol\u00edvar, mas de bancos de investimento e cr\u00e9dito. N\u00e3o devemos ter medo de emprestar aos pobres, porque al\u00e9m de pagarem, tornam-se compradores do que as empresas produzem\u201d, concluiu Lula ao destacar a import\u00e2ncia das pol\u00edticas que reduzem a pobreza [1].<\/p>\n<p>O F\u00f3rum Col\u00f4mbia-Brasil mostra que se est\u00e1 formando um novo eixo entre dois pa\u00edses que at\u00e9 agora desconfiavam um do outro. O ex-presidente \u00c1lvaro Uribe, conservador amigo de George W. Bush, com sua vis\u00e3o ideologizada do mundo, sempre acreditou que o Brasil de Lula era um aliado das FARC. Os brasileiros por sua vez desconfiavam dele pela s\u00f3lida alian\u00e7a que tinha com Washington.<\/p>\n<p>Diante de 500 empres\u00e1rios e autoridades de ambos os pa\u00edses, Lula olhou para Santos e se referiu \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com a presidente Dilma Rousseff: \u201cpodem fazer muito mais do que o presidente Uribe e eu fizemos; t\u00ednhamos uma boa rela\u00e7\u00e3o, mas com muita desconfian\u00e7a, n\u00e3o confi\u00e1vamos um no outro\u201d[2].\u00a0\u00a0Santos assegurou que nunca antes havia chegado a Bogot\u00e1 uma delega\u00e7\u00e3o t\u00e3o numerosa de empres\u00e1rios brasileiros.<\/p>\n<p>Para o Brasil, \u00e9 importante o vinculo com a Col\u00f4mbia. E vice-versa. Cada um tem interesses particulares, mas em absoluto contradit\u00f3rios. Ainda que se tenha falado muito de economia, investimentos e finan\u00e7as, a pol\u00edtica tamb\u00e9m esteve presente, ainda que n\u00e3o se fale em p\u00fablico sobre esse tema.<\/p>\n<p>Santos autonomiza-se<\/p>\n<p>Juan Manuel Santos pertence a uma das mais tradicionais e antigas fam\u00edlias colombianas, cuja fortuna e poder se iniciou com a posse de terras no per\u00edodo das independ\u00eancias h\u00e1 200 anos. O irm\u00e3o de seu av\u00f4 foi presidente (1938-1942) e em sua fam\u00edlia houve pelo menos outro presidente, em 1882. V\u00e1rios membros da fam\u00edlia participaram do processo de independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Durante os oito anos que governou junto a \u00c1lvaro Uribe (2002-2010), n\u00e3o mostrou em p\u00fablico maiores diferen\u00e7as. Foi seu Ministro da Defesa entre 2006 e 2010 e esteve vinculado ao esc\u00e2ndalo dos \u201cfalsos positivos\u201d em 2008 \u2013 o assassinato de milhares de civis inocentes por parte do ex\u00e9rcito para faz\u00ea-los passar como guerrilheiros mortos em combate. Desde a elei\u00e7\u00e3o de Barack Obama, sem deixar de representar as elites do pa\u00eds, Santos come\u00e7ou a tra\u00e7ar uma pol\u00edtica para apartar-se de Uribe com o objetivo de sintonizar com o novo marco internacional e regional.<\/p>\n<p>Elegeu Angelino Garz\u00f3n como seu candidato a vice-presidente. Garz\u00f3n tem uma longa trajet\u00f3ria como sindicalista; foi Secret\u00e1rio Geral da central de trabalhadores CUT, entre 1981 e 1990, foi presidente do partido Uni\u00e3o Patri\u00f3tica (vinculado ao Partido Comunista e \u00e0s FARC) e logo militante da Alian\u00e7a Democr\u00e1tica M-19 at\u00e9 1994. Foi Ministro do Trabalho do governo de Andr\u00e9s Pastrana, e ainda que tenha mudado, Garz\u00f3n tem uma longa trajet\u00f3ria vinculada \u00e0 esquerda, algo que todos os colombianos conhecem.<\/p>\n<p>Mar\u00eda Emma Mej\u00eda foi proposta pelo governo de Santos como Secret\u00e1ria Geral da UNASUR desde mar\u00e7o de 2011. Integrou a dire\u00e7\u00e3o nacional do partido de centro-esquerda P\u00f3lo Democr\u00e1tico Alternativo. Preside a Funda\u00e7\u00e3o P\u00e9s Descal\u00e7os, da cantora Shakira, e dirigiu um programa de televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que Santos, um homem da direita conservadora, elege duas pessoas com perfil de esquerda para cargos que n\u00e3o s\u00e3o decisivos, mas que possuem import\u00e2ncia simb\u00f3lica? Santos continua sendo um homem vinculado \u00e0s altas finan\u00e7as e aos interesses das empresas multinacionais, e continuar\u00e1 sendo um bom aliado de Washington. Mas acredita que deve adaptar-se aos novos tempos.<\/p>\n<p>Por tr\u00eas motivos. Primeiro, porque est\u00e1 \u201crodeado\u201d de governos de esquerda e progressistas e j\u00e1 n\u00e3o tem seu fiel aliado Bush na Casa Branca. Segundo, Estados Unidos e Europa atravessam uma crise muito s\u00e9ria e n\u00e3o poderiam continuar sendo seus principais mercados. Terceiro, porque uma vez neutralizada a guerrilha e tomada a iniciativa no conflito armado, busca desativar o conflito social com pol\u00edticas dirigidas \u00e0 pobreza, procurando cooptar ou neutralizar os movimentos sociais [3].<\/p>\n<p>O correto \u00e9 que essa pol\u00edtica est\u00e1 dando bons resultados. Col\u00f4mbia tem muitas boas rela\u00e7\u00f5es com seus vizinhos, tanto com a Venezuela como com o Equador, e tamb\u00e9m com o resto da regi\u00e3o. Essa \u201cnormaliza\u00e7\u00e3o\u201d das rela\u00e7\u00f5es era um passo obrigat\u00f3rio que seu antecessor n\u00e3o podia dar pela sucess\u00e3o de conflitos e enfrentamentos, inclusive pessoais, que teve com v\u00e1rios pa\u00edses e presidentes.<\/p>\n<p>Quanto aos movimentos sociais, vem tecendo alian\u00e7as importantes. Em outubro de 2010 assistiu ao congresso dos ind\u00edgenas Embera e El Dov\u00edo, no Vale do Cauca. Foi o primeiro presidente a assistir a essa popula\u00e7\u00e3o. Tomou caf\u00e9 da manh\u00e3 com eles, esteve no ritual de ben\u00e7\u00e3o e falou em l\u00edngua embera [4]. Disse que respeitar\u00e1 as autonomias ind\u00edgenas e anunciou a cria\u00e7\u00e3o de uma Comiss\u00e3o de Alto N\u00edvel integrada por acad\u00eamicos, setores sociais, pol\u00edticos e ind\u00edgenas para que elabore recomenda\u00e7\u00f5es ao Estado para cumprir seus compromissos com povos ind\u00edgenas e afro-descendentes.<\/p>\n<p>Este ano assinou um acordo com a Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho (CGT), uma das tr\u00eas centrais sindicais, com o ausp\u00edcio do vice-presidente Garz\u00f3n, para estabelecer marcos de negocia\u00e7\u00e3o, garantir o exerc\u00edcio da atividade sindical e estabelecer o direito dos empregados p\u00fablicos \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o coletiva, que v\u00eam demandando h\u00e1 40 anos [5].<\/p>\n<p>Esse relativo processo de autonomia da Col\u00f4mbia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica estadunidense e sua necessidade de inserir-se com maior vigor na regi\u00e3o t\u00eam sido interpretados pela diplomacia brasileira como uma oportunidade que deve ser aproveitada. No plano econ\u00f4mico, com investimentos e presen\u00e7a empresarial; no plano geopol\u00edtico, porque pode ganhar um aliado e construir outra sa\u00edda ao Pac\u00edfico e ao Caribe.<\/p>\n<p>Lula falou de grandes investimentos estrat\u00e9gicos: represas hidroel\u00e9tricas, rodovias, gasodutos, biocombust\u00edveis, ind\u00fastria automotora. Setores nos quais o Brasil tem enorme experi\u00eancia. O ex-embaixador da Col\u00f4mbia no Brasil, Mario Galofre Cano, foi transparente ao falar aos brasileiros: aqui podem instalar suas f\u00e1bricas visando o mercado caribenho e do Pac\u00edfico, sobretudo considerando nossa vantagem energ\u00e9tica [6]\u201d. Luis Carlos Sarmiento \u00c2ngulo, o homem mais rico da Col\u00f4mbia, solicitou no f\u00f3rum um Tratado de Livre Com\u00e9rcio com Brasil e pediu a associa\u00e7\u00e3o entre as bolsas de valores de ambos os pa\u00edses [7].<\/p>\n<p>Economia e infra-estrutura<\/p>\n<p>O governo da Col\u00f4mbia iniciado h\u00e1 um ano, definiu cinco locomotivas da economia: o investimento em infra-estrutura, a terra e a agricultura, habita\u00e7\u00e3o, minera\u00e7\u00e3o e energia e a inova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica. De todos esses o mais din\u00e2mico \u00e9 a minera\u00e7\u00e3o e os hidrocarbonetos, que est\u00e3o crescendo a uma taxa de aproximadamente 9% ao ano. No caso do petr\u00f3leo, a produ\u00e7\u00e3o di\u00e1ria passou de uma m\u00e9dia de 788 mil barris em agosto de 2010 a 930 mil em julho de 2011 [8].<\/p>\n<p>O informe do BID apresentado no f\u00f3rum tem como t\u00edtulo \u201cDerrubando a parede\u201d, numa alus\u00e3o a uma frase de Uribe que disse que entre ambos pa\u00edses \u201cparece que n\u00e3o existe uma fronteira, mas uma parede\u201d. Mesmo com os 1.950 quil\u00f4metros de fronteira comum h\u00e1 uns anos atr\u00e1s quase n\u00e3o havia com\u00e9rcio nem investimentos. O grande problema, segundo o ponto de vista do BID, \u00e9 que falta infra-estrutura que facilite o com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>At\u00e9 o ano 2000 o com\u00e9rcio bilateral n\u00e3o superava 1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares. Em 2010 o Brasil exportou para a Col\u00f4mbia 2 bilh\u00f5es e importou 350 milh\u00f5es de d\u00f3lares. O Brasil representa 4,2% do com\u00e9rcio exterior colombiano, muito longe dos Estados Unidos, seu principal s\u00f3cio, com 34%, seguido da China com 9% [9].<\/p>\n<p>Este \u00e9 justamente o ponto. A Col\u00f4mbia necessita do Brasil, como sinaliza o informe do BID, porque sua sobre-exposi\u00e7\u00e3o ao com\u00e9rcio com os Estados Unidos a coloca em p\u00e9ssima posi\u00e7\u00e3o em curto prazo. Uma vantagem adicional \u00e9 que o com\u00e9rcio binacional \u00e9 majoritariamente de manufaturas, enquanto o com\u00e9rcio Sul-Norte segue sendo de mat\u00e9rias primas. 60% das exporta\u00e7\u00f5es da Col\u00f4mbia ao Brasil s\u00e3o manufaturas, enquanto somente 22% de suas exporta\u00e7\u00f5es totais pertencem a essa modalidade [10].<\/p>\n<p>PVC, aeronaves, pneus, laminas de ferro e a\u00e7o somam 35% das exporta\u00e7\u00f5es da Col\u00f4mbia para o Brasil. Mas 80% do que a Col\u00f4mbia importa do Brasil tamb\u00e9m s\u00e3o manufaturas: propileno, carros, alimentos processados, laminados planos de a\u00e7o, motores, alum\u00ednio e pneus entre os mais destacados. Em s\u00edntese, ambos ganham j\u00e1 que conseguem um padr\u00e3o comercial melhor superior \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es de commodities.<\/p>\n<p>Os investimentos tamb\u00e9m deram um salto importante. Entre 2005 e 2010 os investimentos brasileiros na Col\u00f4mbia subiram de 93 a 775 milh\u00f5es de d\u00f3lares, concentrados em manufaturas, minera\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o. Petrobr\u00e1s, Vale, Gerdau, Votorantim, Camargo Correa e Marcopolo s\u00e3o as principais. A Petrobr\u00e1s anunciou o investimento de 430 milh\u00f5es de d\u00f3lares para abrir po\u00e7os off shore no Caribe. At\u00e9 agora explora 16 blocos, oito deles off shore (costa afora), e produz 40 mil barris di\u00e1rios na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Os investimentos colombianos no Brasil somam 605 milh\u00f5es de d\u00f3lares em energia el\u00e9trica, petr\u00f3leo, pl\u00e1stico, servi\u00e7os financeiros e resinas [11]. A crescente presen\u00e7a de empresas privadas em cada um dos pa\u00edses indica que as exporta\u00e7\u00f5es seguir\u00e3o crescendo num bom ritmo. Em 2010 a Col\u00f4mbia se associou ao projeto do avi\u00e3o de transporte militar KC-390 que desenvolve a Embraer para competir com o H\u00e9rcules, o que pode resultar na instala\u00e7\u00e3o de uma f\u00e1brica de pe\u00e7as na Col\u00f4mbia e na compra de doze avi\u00f5es.<\/p>\n<p>Entretanto, a parte medular do documento do BID e do f\u00f3rum realizado em Bogot\u00e1, gira em torno da intensifica\u00e7\u00e3o da infra-estrutura para facilitar o com\u00e9rcio. O BID assegura que os dois pa\u00edses est\u00e3o \u201cmuito mais distantes do que sua vizinhan\u00e7a sugere\u201d [12]. A dist\u00e2ncia entre as principais cidades de ambos \u00e9 de 4.157 km, enquanto a mesma distancia entre Brasil e Argentina \u00e9 de 2.391 e entre Col\u00f4mbia e Venezuela \u00e9 de 961 km.<\/p>\n<p>98% das exporta\u00e7\u00f5es colombianas ao Brasil v\u00e3o por via mar\u00edtima e 1,9% por via a\u00e9rea. Em contraste, 45% do com\u00e9rcio entre Brasil e Argentina \u00e9 por estrada. Isso faz com que o frete chegue a representar 33% do valor final das exporta\u00e7\u00f5es, porcentagem maior que no com\u00e9rcio entre Col\u00f4mbia e Canad\u00e1, deixando enormemente mais caros os produtos. As conclus\u00f5es a que chega o BID s\u00e3o muito claras: faz falta um plano de obras de infra-estrutura para reduzir os custos e impulsionar o com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 estranho que o BID diga isso, j\u00e1 que \u00e9 o inspirador da IIRSA (Iniciativa para a Infra-estrutura da Regi\u00e3o Sul Americana ), o maior investimento jamais realizado na regi\u00e3o para impulsionar o com\u00e9rcio, ou seja, a r\u00e1pida sa\u00edda de mat\u00e9rias primas aos mercados mundiais. Para o Brasil \u00e9 uma excelente oportunidade para ter outra sa\u00edda mais ao Pac\u00edfico e agora tamb\u00e9m ao Caribe. O Banco do Brasil anunciou a abertura de sua primeira sede na Col\u00f4mbia [13].<\/p>\n<p>Novas e velhas alian\u00e7as<\/p>\n<p>Em poucos semanas a estrat\u00e9gia estadunidense sofreu v\u00e1rios reveses. O triunfo eleitoral de Ollanta Humala no Peru \u00e9 uma derrota para a Alian\u00e7a do Pac\u00edfico que recentemente havia estreado. No dia 28 de abril, M\u00e9xico, Peru, Col\u00f4mbia e Chile assinaram um acordo para promover o livre com\u00e9rcio como alternativa ao MERCOSUL e \u00e0 UNASUL, onde Brasil e Argentina t\u00eam um peso decisivo.<\/p>\n<p>Tr\u00eas destes pa\u00edses t\u00eam vigentes TLCs com os EUA. Falta a Col\u00f4mbia que est\u00e1 na espera de o tratado ser ratificado pelo Congresso. Tratavam-se dos mais firmes aliados de Washington na regi\u00e3o. Mas com a crise mundial e o avan\u00e7o das for\u00e7as progressistas e de esquerda segue restringindo seu poder, sobretudo na Am\u00e9rica do Sul. No cen\u00e1rio regional o grande vencedor com o triunfo de Humala \u00e9 o Brasil, que consolida a sa\u00edda pelo pac\u00edfico de sua enorme produ\u00e7\u00e3o de soja com destino \u00e0 \u00c1sia.<\/p>\n<p>A Col\u00f4mbia \u00e9 muito mais que geopol\u00edtica e obras de infra-estrutura. \u00c9 um dos pa\u00edses mais din\u00e2micos da regi\u00e3o. Aproxima-se dos 50 milh\u00f5es de habitantes, \u00e9 o terceiro produto bruto da regi\u00e3o somente superado pelo Brasil e Argentina, sua produ\u00e7\u00e3o de hidrocarbonetos pode crescer consideravelmente e tem uma ind\u00fastria importante quando se compara com os pa\u00edses andinos. Capta mais investimento estrangeiro direto que a Argentina e seus investimentos diretos no exterior s\u00e3o os que mais cresceram nesta d\u00e9cada: de 16 milh\u00f5es em 2001 para 6,5 bilh\u00f5es em 2010 [14].<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o conservadora \u00e0 visita de Lula n\u00e3o demorou. Tr\u00eas dias depois do F\u00f3rum de Bogot\u00e1, a imprensa difundiu um documento da embaixada dos Estados Unidos no Brasil que sinalizava que \u201cficaram d\u00favidas sobre a forma como ficou refugiado o chefe das FARC, Francisco Cadena, por press\u00e3o do governo Lula\u201d [15]. Trata-se de um fato sucedido em 2006 quando o Brasil outorgou asilo a Cadena descartando a extradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No dia que finalizou o f\u00f3rum bilateral, a imprensa informou que seguem existindo santu\u00e1rios da FARC em solo venezuelano. O ministro da defesa, Rodrigo Rivera, disse que \u201choje n\u00e3o existem santu\u00e1rios para que os criminosos e terroristas da FARC se escondam em nenhuma parte da vizinhan\u00e7a colombiana\u201d [16]. Hugo Ch\u00e1vez disse que Washington est\u00e1 por atr\u00e1s dessas den\u00fancias e assegurou que as rela\u00e7\u00f5es com a Col\u00f4mbia s\u00e3o excelentes.<\/p>\n<p>Santos, por sua parte, tem tudo a ganhar. Sem romper os la\u00e7os com Washington, seguindo com a pol\u00edtica de \u201cseguran\u00e7a democr\u00e1tica\u201d e o Plano Col\u00f4mbia, consegue estabelecer la\u00e7os s\u00f3lidos com o novo hegemonismo regional. Os movimentos ind\u00edgenas, afro-descendentes e sociais t\u00eam tudo para perceber porque a repress\u00e3o e a usurpa\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios pelas multinacionais seguem sendo o eixo da pol\u00edtica do governo de Santos [17].<\/p>\n<p>*Ra\u00fal Zibechi \u00e9 analista internacional do seman\u00e1rio Brecha de Montevid\u00e9u, docente e pesquisador sobre os movimentos sociais na Multiversidade Franciscana da Am\u00e9rica latina, e assessor de v\u00e1rios grupos sociais. Escreve todo m\u00eas para o Programa das Am\u00e9ricas (<a href=\"about:blank\">www.cipamericas.org\/es<\/a>).<\/p>\n<p>Traduzido do espanhol pelo Coletivo Paulo Petry, n\u00facleo da UJC\/PCB formado por estudantes de medicina em Cuba.<\/p>\n<p>[1] &#8220;Empez\u00f3 el Primer Foro de Inversi\u00f3n Colombia-Brasil en Bogot\u00e1&#8221;, 3 de agosto de 2011 en <a href=\"about:blank\">www.portafolio.co<\/a><\/p>\n<p>[2] &#8220;Colombia y Brasil deben invertir juntas: Lula da Silva&#8221;, 4 de agosto de 2011 en <a href=\"about:blank\">www.portafolio.co<\/a><\/p>\n<p>[3] V\u00e9ase la introducci\u00f3n de mi libro &#8220;Contrainsurgencia y pobreza&#8221;, Desdeabajo, Bogot\u00e1, 2010.<\/p>\n<p>[4] &#8220;Gobierno crear\u00e1 programa presidencial para ind\u00edgenas y afrocolombianos&#8221;, El Tiempo, 13 de octubre de 2010.<\/p>\n<p>[5] &#8220;Gobierno, empresarios y trabajadores firman hist\u00f3rico acuerdo laboral&#8221;, El Tiempo, 26 de mayo de 2011.<\/p>\n<p>[6] &#8220;Colombia y Brasil deben invertir juntas: Lula da Silva&#8221;, 4 de agosto de 2011 en <a href=\"about:blank\">www.portafolio.co<\/a><\/p>\n<p>[7] Idem.<\/p>\n<p>[8] &#8220;Sector minas e hidrocarburos lidera crecimiento econ\u00f3mico&#8221;, 5 de agosto de 2011 en <a href=\"about:blank\">www.portafolio.co<\/a><\/p>\n<p>[9] Banco Interamericano de Desarrollo, ob cit p. 8.<\/p>\n<p>[10] Idem p. 9.<\/p>\n<p>[11] Idem p. 11.<\/p>\n<p>[12] Idem p. 18.<\/p>\n<p>[13] Semana, 5 de agosto de 2011.<\/p>\n<p>[14] CEPAL, &#8220;La inversi\u00f3n extranjera directa en Am\u00e9rica Latina y el Caribe&#8221;, 2009.<\/p>\n<p>[15] &#8220;El refugio a un l\u00edder de las FARC&#8221;, El Espectador, 7 de agosto de 2011.<\/p>\n<p>[16] &#8220;Ch\u00e1vez acusa a EEUU de amparar intentos de da\u00f1ar lazos con Colombia&#8221;, Semana, 5 de agosto de 2011.<\/p>\n<p>[17] V\u00e9ase la p\u00e1gina de la Asociaci\u00f3n de Cabildos Ind\u00edgenas del Norte del Cauca (ACIN): <a href=\"about:blank\">www.nasaacin.org<\/a><\/p>\n<p>Recursos<\/p>\n<p>Banco Interamericano de Desarrollo (BID): &#8220;Tumbando la pared.\u00a0Comercio e integraci\u00f3n entre Brasil y Colombia, 2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 4.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nRa\u00fal Zibechi\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2125\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[104],"tags":[],"class_list":["post-2125","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c117-outras-opinioes"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-yh","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2125","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2125"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2125\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2125"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2125"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2125"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}