{"id":21291,"date":"2018-11-03T16:54:03","date_gmt":"2018-11-03T18:54:03","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21291"},"modified":"2018-11-03T16:54:03","modified_gmt":"2018-11-03T18:54:03","slug":"brasil-2018-um-novo-tempo-mas-qual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21291","title":{"rendered":"Brasil, 2018. Um novo tempo. Mas&#8230; qual?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.esquerda.net\/sites\/default\/files\/styles\/480y\/public\/bolsonaro_moro.jpg\" \/><!--more-->Durante o governo Temer, havia quem perguntasse por que raz\u00e3o n\u00e3o havia uma explos\u00e3o das massas populares, diante dos abusos e achincalhes que sofriam, os absurdos que se revelavam. O resultado das elei\u00e7\u00f5es de 2018, foi, quem sabe, uma dessas explos\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Por Reginaldo Moraes<\/p>\n<p>Um clip de propaganda termina com a evidente entroniza\u00e7\u00e3o do anjo salvador \u2013 dois anjos, na verdade, Moro e o capit\u00e3o<\/p>\n<p>Durante o governo Temer, havia quem perguntasse por que raz\u00e3o n\u00e3o havia uma explos\u00e3o das massas populares, diante dos abusos e achincalhes que sofriam, os absurdos que se revelavam. O resultado das elei\u00e7\u00f5es de 2018, foi, quem sabe, uma dessas explos\u00f5es \u2013 n\u00e3o do jeito como alguns esperavam ou desejavam. A seu modo, inesperado e estranho, foi, sim, uma explos\u00e3o de rebeldia, um \u201cbasta!\u201d. E \u00e9 preciso diagnosticar essa atitude, mais do que lament\u00e1-la ou rejeit\u00e1-la.<\/p>\n<p>E, agora sabemos, ela est\u00e1 longe de \u201cespont\u00e2nea\u201d. Tudo indica que ela \u00e9, em primeiro lugar, o resultado da lenta matura\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as socioecon\u00f4micas, da lenta evolu\u00e7\u00e3o de uma crise desagregadora. De outro lado, \u00e9 tamb\u00e9m uma obra de arte no que se costuma chamar de mistifica\u00e7\u00e3o de massas, com o uso de sofisticadas armas de indu\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o e comportamento.<\/p>\n<p>Quando terminou o primeiro turno, ficamos sabendo da ferramenta que, aparentemente, provocou aquela forte onda \u2013 que quase terminou a disputa ali mesmo, como parecia ser a aposta. A t\u00e1tica dos bolsonaristas tinha elementos convencionais e alguns high-tech. O aspecto convencional era a cria\u00e7\u00e3o de um gigantesco financiamento ilegal, o velho e conhecido Caixa 2, organizado por empres\u00e1rios simpatizantes do capit\u00e3o. O lado high-tech era o modo de emprego desses recursos, que muitos associaram a Steven Bannon, \u00e0 Cambridge Analytics e a seu uso em casos precedentes (o plebiscito do Brexit, na Gr\u00e3-Bretanha, e a elei\u00e7\u00e3o de Trump, nos Estados Unidos).<\/p>\n<p>De fato, parece ter havido essa importa\u00e7\u00e3o parcial das t\u00e9cnicas de Bannon, o m\u00e1gico inform\u00e1tico e comunicacional da nova direita. Essa metodologia de controle social, com recursos menos ricos, j\u00e1 era utilizada para fins comerciais \u2013 o tra\u00e7ado dos perfis de consumidores com base nas suas compras. A utiliza\u00e7\u00e3o no \u201cneg\u00f3cio da pol\u00edtica\u201d era quest\u00e3o de tempo, muito pouco tempo. Quem assistiu a s\u00e9rie\u00a0<em>House of Cards<\/em>\u00a0deve lembrar de um epis\u00f3dio em que ela aparece, j\u00e1 com muita tecnologia envolvida. Trata-se da coleta de informa\u00e7\u00f5es de cidad\u00e3os com base em plataformas da internet (Facebook, principalmente) e em bases de dados de consumo (cart\u00e3o de cr\u00e9dito, grandes redes, consultas no Google, etc.). Com essas informa\u00e7\u00f5es \u2013 cruzadas com sua distribui\u00e7\u00e3o nos espa\u00e7os regionais e indicadores de renda, educa\u00e7\u00e3o, etc. \u2013 \u00e9 poss\u00edvel constituir grupos determinados de pessoas e imaginar as mensagens que mais as seduziriam. Quem quiser ver uma exposi\u00e7\u00e3o did\u00e1tica sobre a coisa, acione este link:\u00a0https:\/\/vimeo.com\/295576715\u00a0(link is external)<\/p>\n<p>Um teste relevante dessa maquina\u00e7\u00e3o ocorreu no plebiscito sobre a perman\u00eancia da Gr\u00e3-Bretanha na Uni\u00e3o Europeia (o Brexit). Com surpreendente sucesso. Depois o segundo grande experimento, com Trump e a \u201cdesconstru\u00e7\u00e3o\u201d de Hillary Clinton. Mas o do Brasil, ainda que talvez tecnicamente menos sofisticado, parece mais grave. Efeitos mais amplos e mais s\u00e9rios. N\u00e3o apenas conseguiu influir decisivamente sobre o resultado da elei\u00e7\u00e3o, como nos outros casos. Est\u00e1 promovendo ou aprofundando um fen\u00f4meno social de desintegra\u00e7\u00e3o. E provocando a emerg\u00eancia de verdadeiros tiroteios \u2013 infelizmente, em sentido literal. Guardadas as propor\u00e7\u00f5es, podemos ter diante de n\u00f3s uma balcaniza\u00e7\u00e3o da sociedade, com algo que se aproxima de um cen\u00e1rio hobbesiano, de guerra interna.<\/p>\n<p>H\u00e1 um elemento diferente no caso brasileiro \u2013 ou, talvez, um elemento que \u00e9 mais forte no caso brasileiro do que nos outros. O pa\u00eds foi submetido a quatro anos de dissolu\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7as, desemprego e instabilidade, um campo de semeadura f\u00e9rtil.<\/p>\n<p>O caso do Brexit e mesmo o de Trump mostram que o procedimento de Bannon e seu grupo tem efeitos espantosos, mesmo em pessoas &#8220;normais&#8221;ou &#8220;equilibradas\u201d. Em certos casos \u2013 em que h\u00e1 longos per\u00edodos de incerteza econ\u00f4micas, desagrega\u00e7\u00e3o social, desesperan\u00e7a coletiva &#8211; ele tem efeito multiplicador. \u00c9 mais ou menos como gritar &#8220;fogo!&#8221;em um cinema lotado. Mesmo pessoas &#8220;equilibradas&#8221; e informadas reagem instintivamente (e de modo suicida).<\/p>\n<p>\u00c9 essencial levar em conta n\u00e3o apenas a ferramenta, a tecnologia, mas o campo em que \u00e9 empregada. Vejamos o caso brasileiro. H\u00e1 um percentual dos seguidores do capit\u00e3o que podemos supor como fascistas fan\u00e1ticos, quase doentes. Mas h\u00e1 uma enorme massa, aquela que o fez superar a faixa dos 20%, que \u00e9 outra coisa. N\u00e3o nos esque\u00e7amos e nunca \u00e9 demais repetir- pol\u00edticas de austeridade, de terceiriza\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o, produzem a inseguran\u00e7a coletiva que \u00e9 insuport\u00e1vel quando dura. O cerco de sabotagem ao governo Dilma &#8211; desde o segundo semestre de 2013 &#8211; foi criando uma permanente sensa\u00e7\u00e3o de impasse que congela, impede qualquer previs\u00e3o de vida sadia, de esperan\u00e7a. Alguns podem conviver com isso. Mas apenas alguns. A maior parte das pessoas vai se exasperando com essa possibilidade, com essa ideia de &#8220;sem luz no fim do t\u00fanel&#8221;. Da\u00ed, agarram o que lhes apresentam como &#8220;a mudan\u00e7a que vai regenerar tudo e fazer tudo voltar aos bons tempos&#8221;. \u00c9 essa a sementeira do capit\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o \u201cantipetismo\u201d, \u00e9 o fruto da austeridade e da desagrega\u00e7\u00e3o social e psicossocial dela resultante. As pessoas se tornam dispon\u00edveis para qualquer ideia maluca n\u00e3o por causa da ideia maluca \u2013 a ideia pode ser at\u00e9 mesmo uma grande asneira. A situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica e prolongada engendra multid\u00f5es dispon\u00edveis para bodes expiat\u00f3rios, teorias ex\u00f3ticas, mentiras \u00f3bvias.<\/p>\n<p>&#8220;A condi\u00e7\u00e3o para abandonar as ilus\u00f5es sobre sua condi\u00e7\u00e3o \u00e9 abandonar uma condi\u00e7\u00e3o que necessita dessas ilus\u00f5es&#8221;. O jovem Marx at\u00e9 que acertou&#8230;<\/p>\n<p><strong>A f\u00e1bula educativa da nova direita<\/strong><\/p>\n<p>Comecemos por reconhecer que as explos\u00f5es dos pisoteados nem sempre acontecem do modo como os analistas frios esperam. Ou como a esquerda deseja. As explos\u00f5es dependem da capacidade de lideran\u00e7a e organiza\u00e7\u00e3o de quem canaliza, pauta, dirige a explos\u00e3o. A explos\u00e3o que agora ocorreu, com essa enxurrada de votos e a emerg\u00eancia de atitudes agressivas, de fato vinha sendo orquestrada homeopaticamente, h\u00e1 anos, pelos instrumentos de difus\u00e3o majorit\u00e1rios no pa\u00eds, todos eles alinhados \u00e0 direita. Temas da sinfonia se destacavam \u2013 o tema da corrup\u00e7\u00e3o, do aparelhamento do estado (por parte dos petistas, por suposto), o tema da imposi\u00e7\u00e3o de uma r\u00e9gua moral \u201cpervertida\u201d. Mas a orquestra\u00e7\u00e3o das ideias e sentimentos \u2013 modelando cora\u00e7\u00f5es e mentes \u2013 apenas pontualmente resultava em manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. No geral, ela seguia contida, silente, ou apenas murmurada. Era apenas um mau-humor latente, \u00e0 espera de explodir. O homem providencial \u2013 o Mito \u2013 encarna essa aspira\u00e7\u00e3o de estouro. N\u00e3o por acaso, os homens do poder- aqueles da m\u00eddia e aqueles da toga &#8211; tiraram de cena o\u00a0\u00fanico personagem que podia disputar esse papel, o papel de sinalizar um futuro. Ele foi confinado a uma cela, sua voz e sua imagem foram simplesmente proibidas de aparecer em p\u00fablico. Esse sequestro da esperan\u00e7a era indispens\u00e1vel, para que um impostor aparecesse como o \u201cantissistema\u201d. Antissistema? Sim, \u00e9 essa a imagem que o candidato fardado procura cultivar. Uma das mensagens do grupo fascista, pelas redes \u00e9 esta: o sistema est\u00e1 agonizante, vamos derrot\u00e1-lo. Muito claro. E est\u00e1 claro, tamb\u00e9m, que se trata de um impostor \u2013 \u00e9 t\u00e3o evidente essa caracteriza\u00e7\u00e3o que o candidato-mito precisa evitar uma identidade. Precisa n\u00e3o falar. Precisa \u201cmitar\u201d.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 uma performance nova. J\u00e1 vimos algo assim em um cl\u00e1ssico da fic\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Em\u00a0<em>Metr\u00f3polis<\/em>, o filme de Fritz Lang (1926), os chef\u00f5es da sociedade percebem que os trabalhadores, esfolados, admiram e veneram uma professorinha. Uma ideia luminosa ocorre ao capitalista-mor: que tal sequestrar a professorinha e substitu\u00ed-la por um rob\u00f4 que pregue a obedi\u00eancia, a subordina\u00e7\u00e3o? Tentam. Um cientista do mal constr\u00f3i o engenho. Contudo, o rob\u00f4 se descontrola e come\u00e7a a pregar o \u00f3dio, a falar o que n\u00e3o deve, a estimular a destrui\u00e7\u00e3o de tudo e todos. Quando tudo parece ruir, quando os trabalhadores, sem sonhos e sem perspectivas, amea\u00e7am detonar a cidade, aparece um salvador, um jovem dos segmentos superiores, bem intencionado, caridoso, que quer ser o \u201cIntermediador\u201d, aquele que concilia os dois lados e evita que a sociedade seja mergulhada no caos. Consegue \u2013 o filme celebra o aperto de m\u00e3os do capitalista e do l\u00edder da revolta. O nosso problema, hoje, \u00e9 que o rob\u00f4 est\u00e1 enlouquecido, mas \u00e9 ele que encarna o desejo dos de cima e, por ironia tr\u00e1gica, tamb\u00e9m o desespero dos debaixo. Na situa\u00e7\u00e3o em que vivemos, o rob\u00f4 deu certo. Mas \u00e9 louco.<\/p>\n<p>Dissemos que o candidato-mito precisa esconder o que \u00e9 e apenas insinuar alguns dos seus tra\u00e7os, aqueles que julga mais estimulantes para manter eletrizadas as suas mil\u00edcias. Alguns de seus seguidores, por\u00e9m, acabam por dar forma ao plano. Falam, exp\u00f5em o apocalipse iminente e o evangelho da nova ordem.<\/p>\n<p>\u00c9 o que vemos em um clip de campanha. A pe\u00e7a de propaganda foi contestada pela equipe do capit\u00e3o. Ao que parece, suscitou inc\u00f4modos nessa equipe. Talvez por isso sua campanha tenha entrado com pedido de suspens\u00e3o \u2013 alega ser \u201cfake\u201d, ainda que tenha sido cuidadosamente produzida por apoiadores \u201cbem intencionados\u201d. \u00c9 o h\u00e1bito. Faz parte da estrat\u00e9gia de campanha do capit\u00e3o: \u201ctudo \u00e9 fake, n\u00e3o fomos n\u00f3s, n\u00e3o somos respons\u00e1veis por aquilo que fazem, a viol\u00eancia vem mesmo do outro lado\u201d. O certo \u00e9 que o clip, feito por \u201csimpatizantes\u201d que o candidato \u201cn\u00e3o controla\u201d, j\u00e1 se multiplicou no Youtube e em muitos outros canais de reprodu\u00e7\u00e3o. O pedido do capit\u00e3o ao TSE talvez o livre preventivamente de processos&#8230; De resto, o importante \u00e9 o que essa &#8220;narrativa&#8221; revela. E o que ela revela \u00e9 terr\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>A gesta\u00e7\u00e3o da serpente e suma mensagem encantat\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Se ainda n\u00e3o viu a pe\u00e7a de propaganda, veja. \u00c9 um not\u00e1vel discurso program\u00e1tico, produ\u00e7\u00e3o cuidadosa, alta defini\u00e7\u00e3o, trilha musical esmerada. Not\u00e1vel:\u00a0https:\/\/youtu.be\/dBmR5dl1H1M<\/p>\n<p>O clip come\u00e7a louvando as grandezas do pa\u00eds, sua natureza f\u00e9rtil, seu povo trabalhador e criativo. Seu potencial. Em seguida, enuncia as raz\u00f5es pelas quais esse potencial \u00e9 seguidamente frustrado, esterilizado: aparecem os vil\u00f5es. Importante destacar: o clip n\u00e3o poupa quase ningu\u00e9m, inclusive os antigos aliados do capit\u00e3o (ou atuais, a rigor). Entra em cena o PT, claro, o vil\u00e3o maior. Mas entram tamb\u00e9m os pol\u00edticos dos partidos do golpe&#8230; toda a coaliz\u00e3o que fez o impeachment e comp\u00f5e o governo Temer. Inclui tamb\u00e9m \u2013 importante \u2013 o Supremo (com algumas figuras selecionadas, destaque para Gilmar Mendes). Em suma, um clip de oposi\u00e7\u00e3o, de terra arrasada, de \u201cque se vayan todos\u201d. E n\u00e3o menciono esse \u201cque se vayan todos\u201d sem motivo \u2013 mostra como um lema impreciso e apressado \u201cde esquerda\u201d \u00e9 facilmente apropriado pela direita. E n\u00e3o foi o \u00fanico. O clip termina com a evidente entroniza\u00e7\u00e3o do anjo salvador \u2013 dois anjos, na verdade, Moro e o capit\u00e3o.<\/p>\n<p>O clip sintetiza um conjunto de lemas e temas que t\u00eam circulado em grupos de WhatsApp, em p\u00e1ginas de Facebook, em correntes de email. O tom da coisa \u00e9 esse: o Brasil est\u00e1 desgovernado, destru\u00eddo por gente mal intencionada, corrupta, acomodada. O sistema. Da\u00ed, a conclus\u00e3o parece impositiva: precisamos de algu\u00e9m para botar o pa\u00eds nos trilhos. O recurso ret\u00f3rico \u00e9 incisivo: retrata o desespero e oferta a salva\u00e7\u00e3o. Am\u00e9m.<\/p>\n<p>Em forma sens\u00edvel, sem gr\u00e1ficos ou argumentos rebuscados, com imagens fortes \u2013 a narrativa inserida no clip captura a imagina\u00e7\u00e3o e a vontade de muitos brasileiros inconformados, desesperados, perdidos. Como em outras situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas similares \u2013 a ascens\u00e3o do nazismo \u00e9 a mais \u00f3bvia \u2013 a mensagem enraivecida tem a forma de uma pin\u00e7a. Explora a ojeriza dos de cima pelos de baixo, o nojo de pobre. E explora o ressentimento dos de baixo com os de cima, identificados como os \u201cperfumados\u201d, os educados, os engravatados que roubam e esnobam aqueles que trabalham.<\/p>\n<p>O discurso do capit\u00e3o anima suas SAs, suas tropas de choque mais fi\u00e9is, com muito \u00e2nimo para \u201cderrubar as paredes\u201d, quebrar \u201co sistema\u201d. Algumas dessas tropas s\u00e3o recrutadas nos segmentos mais vulner\u00e1veis e mais angustiados pela incerteza reinante. E, ironia das ironias, essa incerteza insuport\u00e1vel \u00e9 em grande parte aprofundada, precisamente, pelos autores da mensagem, atrav\u00e9s das pol\u00edticas de austeridade. Uma parte dessa incerteza, ali\u00e1s, \u00e9 mais do que realidade, \u00e9 o que se chama de \u201cp\u00f3s-verdade\u201d, uma percep\u00e7\u00e3o da realidade cuidadosamente manufaturada. Um conhecido propagandista das reformas neoliberais costumava dizer que o melhor modo de faz\u00ea-las palat\u00e1veis era criar uma crise ou aprofundar uma crise. Acrescentemos uma outra possibilidade, a de ampliar a\u00a0<em>percep\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0de crise. Esta opera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica \u00e9 uma arma fundamental para implantar solu\u00e7\u00f5es impens\u00e1veis em \u201ctempos normais\u201d. Ou seja, h\u00e1 um movimento pensado e bem articulado de m\u00eddias e outras organiza\u00e7\u00f5es de modelagem de ideias e sentimentos (como igrejas) no sentido de desenhar um mundo em decomposi\u00e7\u00e3o, sob ataque de for\u00e7as do mal, a requerer uma interven\u00e7\u00e3o quase divina, a interven\u00e7\u00e3o do Mito, aquele que vem.<\/p>\n<p>Temos que tomar alguma dist\u00e2ncia e examinar como se formou este caldo. Aquilo que est\u00e1 na rua e nas redes, hoje, \u00e9 parte daquela mesma multid\u00e3o que berrava contra os partidos, na segunda fase das famosas jornadas de junho-2013, manifesta\u00e7\u00f5es que come\u00e7aram de um modo e terminaram bem diferentes. Come\u00e7aram pequenas e \u201cde esquerda\u201d nas demandas. Terminaram massivas e dirigidas pela m\u00eddia de direita, com dire\u00e7\u00e3o e palavras de ordem reacion\u00e1rias. N\u00e3o era apenas pelos 20 centavos, de fato. O gigante acordou&#8230; Os grupos rebeldes \u00e0 esquerda, nos meses seguintes, foram se resumindo a guetos pequenos, mobilizados por campanhas mal sucedidas (o \u201cN\u00e3o vai ter Copa\u201d, por exemplo). Enquanto isso, a direita preparava o seu pr\u00f3prio ex\u00e9rcito \u2013 organizava os \u201c\u2019Vem pra Rua\u201d de seu time.<\/p>\n<p>Paralelos hist\u00f3ricos s\u00e3o sempre perigosos, simplificam, abusam das semelhan\u00e7as sem levar em conta os contextos. Por outro lado, podem evidenciar possibilidades latentes. O paralelo que sugeri acima, quando mencionei as SAs, tem esse objetivo. Provocar o pensamento, n\u00e3o paralisar. No movimento nazi, as SAs eram a agremia\u00e7\u00e3o mais fervorosa, popular e \u201csocialista\u201d. Ou \u201cpopulista\u201d \u2013 encarnavam o ressentimento dos debaixo com os de cima. Serviram bem a Hitler no inicio de sua ascens\u00e3o. Propagavam a ideologia do \u00f3dio, atemorizavam os advers\u00e1rios, vandalizavam sedes de sindicatos e partidos, dissolviam reuni\u00f5es. Mas viraram um risco, no momento em que o poder hitlerista se estabilizava. Quando esse momento chegou, as SAs foram liquidadas sangrentamente, massacradas pelo ex\u00e9rcito e sua SS. N\u00e3o estou descrevendo esse fato gratuitamente. O movimento \u201cirresist\u00edvel\u201d do nazismo \u00e9 constru\u00eddo em torno de um Mito salvador, \u00fanica fonte de certeza e seguran\u00e7a dentro de um mundo apodrecido, em torno de um conjunto de \u201ccertezas\u201d imunes a argumentos, evid\u00eancias, lucidez. Querer mostrar evid\u00eancias a um nazi inflamado \u00e9 quase in\u00fatil \u2013 cada argumento \u00e9 tomado como um insulto. Desperta ainda mais viol\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Para onde v\u00e3o o capit\u00e3o, seu general e seus pastores?<\/strong><\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma hora para as SAs, no momento da subida. E h\u00e1 um momento para enquadr\u00e1-las, quando j\u00e1 cumpriram seu papel. O nazismo mobiliza gente de baixo \u2013 desempregados, subempregados, a classe m\u00e9dia baixa insegura. Mas seu arsenal \u00e9 pago por gente de cima, bem de cima. E, no caso de pa\u00edses quintais, pa\u00edses de interesse de grandes potencias, conta com suporte de gente de fora \u2013 a famosa alian\u00e7a da Casa Grande com a Casa Branca. Passado o momento da conquista \u2013 que precisa de mobiliza\u00e7\u00e3o do \u00f3dio \u2013 vem o momento da ocupa\u00e7\u00e3o para a esfola cotidiana. O nazismo se transforma de movimento ruidoso em bonapartismo organizado, burocratizado, preferencialmente fardado.<\/p>\n<p>Um outro elemento preocupante surge com essa analogia hist\u00f3rica. Depois de \u201cpacificar\u201d o interior do pa\u00eds, algo mais anima o l\u00edder, um celerado, mas racionalmente orientado pelos seus economistas. Ele precisa ativar a sociedade, criar empregos e dirigir as energias para outro inimigo, o externo. Ocupar regi\u00f5es vizinhas, em outros pa\u00edses, onde residem minorias nacionais supostamente oprimidas. Por exemplo, digamos, o leste do Paraguai, onde h\u00e1 empresas e fazendas de brasileiros. Ou esterilizar pa\u00edses perigosos, que criam vermes \u2013 Bol\u00edvia, Venezuela. Um dos filhos do capit\u00e3o j\u00e1 mencionou a necessidade de \u201cdar uma li\u00e7\u00e3o a Maduro\u201d. Uruguai, como sabemos, j\u00e1 foi territ\u00f3rio \u201cbrasileiro\u201d \u2013 nada mal que se junte ao Rio Grande do Sul. Se uma aventura guerreira \u00e9 inventada \u2013 e h\u00e1 loucos para isso \u2013 sabemos quem \u00e9 a bucha de canh\u00e3o. E quem sustentar\u00e1 o esfor\u00e7o de guerra patri\u00f3tica.<\/p>\n<p>O quadro \u00e9 pavoroso. Talvez seja exagerado, n\u00e3o? Nunca vivemos tal pesadelo, ainda mais com o cen\u00e1rio de uma guerra est\u00fapida contra os vizinhos. Sim, pode ser exagerado, mas a guerra \u201cinterna\u201d n\u00e3o tem nada de imagin\u00e1rio. J\u00e1 vivemos coisa assim, durante os chamados anos de chumbo. E j\u00e1 estamos no limiar de outra tentativa. Melhor contar com o pior, se queremos obter o inverso. O monstro ainda est\u00e1 em gesta\u00e7\u00e3o. Avan\u00e7ada, mas ainda pode ser detida.<\/p>\n<p><em>Artigo de Reginaldo Moraes, professor universit\u00e1rio<\/em><\/p>\n<p>https:\/\/www.esquerda.net\/<wbr \/>artigo\/brasil-2018-um-novo-<wbr \/>tempo-mas-qual\/57801<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21291\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,268],"tags":[226],"class_list":["post-21291","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","category-eleicoes-2018","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5xp","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21291","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21291"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21291\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21291"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21291"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21291"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}