{"id":21295,"date":"2018-11-03T16:58:36","date_gmt":"2018-11-03T18:58:36","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21295"},"modified":"2018-11-03T16:58:36","modified_gmt":"2018-11-03T18:58:36","slug":"o-18-brumario-de-jair-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21295","title":{"rendered":"O 18 Brum\u00e1rio de Jair Bolsonaro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jornalistaslivres.org\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Bozo-Foto-oficial-Pelicano.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Jornalistas Livres<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Perez Oliveira, professor de Teoria da Hist\u00f3ria na Universidade Federal da Bahia, com ilustra\u00e7\u00e3o de Pelicano<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u201cDemonstro nesse livro como a luta de classes na Fran\u00e7a criou circunst\u00e2ncias e condi\u00e7\u00f5es que possibilitaram a um personagem med\u00edocre e grotesco desempenhar um papel de her\u00f3i.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Assim, com essas palavras, Karl Marx inicia o livro \u201cO 18 Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Napole\u00e3o Bonaparte\u201d, publicado em 1852. No texto, Marx se pergunta como um sujeito med\u00edocre e grotesco conseguiu se tornar o l\u00edder m\u00e1ximo da sociedade que meio s\u00e9culo antes havia experimentado a mais importante revolu\u00e7\u00e3o social da hist\u00f3ria moderna.<\/p>\n<p>Aqui, neste ensaio, me inspiro em Marx para formular minha pr\u00f3pria pergunta:<\/p>\n<p>Por que Jair Bolsonaro, at\u00e9 ent\u00e3o um deputado med\u00edocre, inexpressivo, foi eleito presidente da quarta maior democracia do mundo?<\/p>\n<p>Meu esfor\u00e7o aqui \u00e9 o de entender o capital pol\u00edtico que impulsionou o bolsonarismo. Esse capital pol\u00edtico \u00e9 subst\u00e2ncia composta e heterog\u00eanea. Neste texto, pretendo decompor essa subst\u00e2ncia, trazendo \u00e0 luz cada um dos seus elementos.<\/p>\n<p><strong>1\u00b0) O antipetismo<\/strong><\/p>\n<p>Desde o final da d\u00e9cada de 1980 que o antipetismo \u00e9 fator decisivo nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais brasileiras. At\u00e9 aqui nenhuma novidade. Por\u00e9m, dessa vez algo mudou. Ao velho macarthismo, que durante tanto tempo inviabilizou Lula, somou-se uma dupla interdi\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n<p>A primeira camada de moralidade refere-se ao sentimento anticorrup\u00e7\u00e3o. Desde 2005, existe o esfor\u00e7o articulado pela grande m\u00eddia e por \u00f3rg\u00e3os do aparato policial e judicial do Estado (Pol\u00edcia Federal e Minist\u00e9rio P\u00fablico) de colar no Partido dos Trabalhadores a pecha de partido mais corrupto do sistema pol\u00edtico brasileiro. Essa frente antipetista sempre teve um modus operandi muito claro: a espetaculariza\u00e7\u00e3o seletiva dos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o. \u00c9 imposs\u00edvel compreender a ascens\u00e3o de Bolsonaro sem a atua\u00e7\u00e3o dessa frente antipetista.<\/p>\n<p>A segunda camada de moralidade refere-se ao plano do comportamento.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 30 anos, vimos no Brasil e no mundo o fortalecimento dos direitos civis das minorias (mulheres, pretos e pretas e LGBTs). Essa discuss\u00e3o j\u00e1 estava presente na cena brasileira desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, nos anos 1980, tendo sido contemplada parcialmente pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Avan\u00e7amos nessa agenda tanto nos governos de Fernando Henrique Cardoso como nos governos petistas. Poder\u00edamos ter avan\u00e7ado mais, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>\u00c9 uma obviedade dizer que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds conservador e que, por isso, a pauta dos direitos civis das minorias tem grande impacto ofensor na moralidade dominante. Essa moralidade dominante foi ainda mais radicalizada com a ascens\u00e3o do cristianismo neopentencostal, do qual a Igreja Universal do Reino de Deus \u00e9 a principal representante.<\/p>\n<p>Hoje, a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de parcela consider\u00e1vel da sociedade brasileira n\u00e3o acontece na universidade, tampouco na escola, muito menos nos sindicatos e associa\u00e7\u00e3o de moradores. As igrejas evang\u00e9licas neopentencostais est\u00e3o formando a consci\u00eancia pol\u00edtica de milh\u00f5es de brasileiros e brasileiras, de todas as classes sociais.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, a alian\u00e7a costurada entre a candidatura de Jair Bolsonaro e a Igreja Universal do Reino de Deus foi elemento decisivo para o desfecho da corrida eleitoral. No Brasil inteiro, as igrejas se transformaram em verdadeiros n\u00facleos de campanha. A campanha de Bolsonaro conseguiu convencer as pessoas que os direitos civis das minorias representam um ataque \u00e0 fam\u00edlia brasileira e que o PT seria o principal promotor desse ataque.<\/p>\n<p>Resumindo: O velho antipetismo foi turbinado e caiu no colo de Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>Mas por que Bolsonaro e n\u00e3o outro antipetista qualquer?<\/p>\n<p><strong>2\u00b0) A sensa\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a p\u00fablica<\/strong><\/p>\n<p>Nas grandes cidades brasileiras, as pessoas est\u00e3o assustadas. Os \u00edndices de viol\u00eancia urbana s\u00e3o similares aos observados em pa\u00edses em situa\u00e7\u00e3o de guerra.<\/p>\n<p>Como bem lembrou Marcelo Freixo, as esquerdas brasileiras sempre tiveram dificuldade em discutir o tema da seguran\u00e7a p\u00fablica, pois costumam enfrentar o assunto com ideias abstratas como \u201cdireitos humanos\u201d, ou com projetos que ofendem a tal moralidade da qual falei h\u00e1 pouco, como a \u201cdescriminaliza\u00e7\u00e3o do consumo de drogas\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Jair Bolsonaro evocou a velha m\u00e1xima do \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d. Foi o bastante para que as pessoas, assustadas, fossem tomadas por certo sentimento hobbesiano, aceitando de boa vontade abrir m\u00e3o de algumas liberdades em nome de um Estado autorit\u00e1rio e violento, capaz de trazer a sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a. O medo \u00e9 afeto pol\u00edtico muito poderoso.<\/p>\n<p><strong>3\u00b0) A narrativa da inefici\u00eancia da democracia<\/strong><\/p>\n<p>Foram muitos os desdobramentos dos eventos que aprendemos a chamar de \u201cjornadas de junho de 2013\u201d. Ainda n\u00e3o entendemos bem o que aconteceu naquele momento e o pr\u00f3prio significado de \u201c2013\u201d est\u00e1 sendo disputado.<\/p>\n<p>Mesmo diante de tantas incertezas e caminhando em terreno ainda pouco s\u00f3lido, estou muito convencido de que junho de 2013 passou uma mensagem para a sociedade brasileira: a democracia representativa criada nos anos da redemocratiza\u00e7\u00e3o seria corrupta e ineficiente na gest\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos e na promo\u00e7\u00e3o do Bem-Estar Social.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros mostram outra realidade. Desde a d\u00e9cada de 1990, o Brasil vem caminhando relativamente bem no que se refere \u00e0 qualidade e a efici\u00eancia dos servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>N\u00e3o, leitor e leitora, n\u00e3o estou louco!<\/p>\n<p>Todos os dados apontam para a evolu\u00e7\u00e3o no acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade, no combate \u00e0 mortalidade infantil, no aumento da rede de atendimento na sa\u00fade b\u00e1sica.<\/p>\n<p>Mas como o que importa \u00e9 a tal da \u201cpercep\u00e7\u00e3o\u201d, os dados estat\u00edsticos s\u00e3o pouco relevantes. As \u201cjornadas de 2013\u201d, t\u00e3o bem exploradas e cooptadas pela m\u00eddia hegem\u00f4nica, pintaram para a sociedade brasileira um quadro de total colapso e inefici\u00eancia na gest\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos. Se o quadro n\u00e3o \u00e9 totalmente falso, est\u00e1 longe de ser completamente verdadeiro.<\/p>\n<p>A mensagem foi transmitida com sucesso e continuou a alimentar a revolta social em 2015 e 2016. O saldo desse ativismo da sociedade civil pode ser resumido por um sentimento de \u201cfora todos\u201d, de \u201ctudo est\u00e1 errado\u201d, \u201ctem que mudar tudo isso a\u00ed\u201d. Temos aqui terreno f\u00e9rtil para o surgimento de lideran\u00e7as que se apresentam como antissistemas, como \u201coutsiders\u201d. Jair Bolsonaro era um dos poucos pol\u00edticos que conseguiam caminhar com tranquilidade entre a multid\u00e3o, justamente porque foi capaz de se apresentar como um cr\u00edtico ao sistema vigente (a democracia) e um defensor da ordem pol\u00edtica superada (a ditatura), que passou a ser objeto de toda tipo de saudosismo.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o geral da inefici\u00eancia da democracia alimentou a utopia autorit\u00e1ria representada por Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p><strong>4\u00b0) A falta de compromisso do capitalismo com a civiliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Uma das principais motiva\u00e7\u00f5es para o golpe parlamentar que destituiu Dilma Rousseff em agosto de 2016 foi sua recusa em adotar a agenda de desmonte do Estado que na \u00e9poca foi chamada de \u201cPonte para o Futuro\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhum voo interpretativo aqui. O pr\u00f3prio Michel Temer disse, em palavras cristalinas: \u201cDilma caiu porque n\u00e3o quis adotar a Ponte para o Futuro\u201d. Essa \u00e9 uma novidade do golpe brasileiro: os golpistas assumem que foi golpe, sem nenhum constrangimento.<\/p>\n<p>\u00c9 antigo o projeto de desmonte do Estado brasileiro. Podemos encontrar sua origem l\u00e1 na d\u00e9cada de 1950, com o udenismo. Por\u00e9m, esse projeto sempre teve dificuldades para se transformar em realidade. Nem mesmo a Ditadura militar o fez. Na d\u00e9cada de 1990, os tucanos avan\u00e7aram, mas nem tanto.<\/p>\n<p>Os governos petistas interromperam a marcha, que foi acelerada com Temer. Em dois anos, Michel Temer conseguiu o que tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de pol\u00edticos e economistas liberais n\u00e3o foram capazes de fazer: tirar do controle do Estado o planejamento do desenvolvimento nacional, entregando-o ao mercado. A famosa \u201cPEC dos Gastos\u201d \u00e9 o grande s\u00edmbolo desse sucesso.<\/p>\n<p>As for\u00e7as do mercado sabiam muito bem que as elei\u00e7\u00f5es de 2018 representavam um risco para continuidade desse projeto.\u00a0O primeiro movimento foi garantir que Lula ficasse de fora da corrida presidencial. Depois, foi colocada em movimento uma campanha negativa, visando a destrui\u00e7\u00e3o do Partido dos Trabalhadores. O objetivo era fortalecer o outro polo do sistema pol\u00edtico, aquele que at\u00e9 ent\u00e3o era o dono do antipetistmo: o PSDB.<\/p>\n<p>Jair Bolsonaro atravessou o processo e as for\u00e7as do capital n\u00e3o hesitaram em abandonar o antigo aliado e firmar matrim\u00f4nio com um novo amor. A popularidade de Bolsonaro se tornou a garantia da legitima\u00e7\u00e3o eleitoral da agenda econ\u00f4mica do golpe parlamentar. N\u00e3o houve debate econ\u00f4mico, projetos de desenvolvimento nacional n\u00e3o foram discutidos. Jair Bolsonaro foi eleito, exclusivamente, na base do antipetismo repaginado e do sentimento hobbesiano alimentado por uma popula\u00e7\u00e3o assustada. Paulo Guedes foi silenciado durante toda a campanha.<\/p>\n<p>As for\u00e7as do mercado comemoraram a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro. O ideal mesmo seria Alckmin, mas Bolsonaro, com a chancela de Paulo Guedes, serve tamb\u00e9m. Machista, autorit\u00e1rio, violento,\u00a0homof\u00f3bico? Sim, n\u00e3o importa. O capitalismo n\u00e3o tem o menor compromisso com a civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro inquieta e assusta o mundo inteiro. Dentro e fora do pa\u00eds, aqueles que t\u00eam um m\u00ednimo compromisso com os valores que fundam a civiliza\u00e7\u00e3o se perguntam: como isso aconteceu? Como foi poss\u00edvel?<\/p>\n<p>Ainda vamos nos debater muito com essas perguntas. Historiadores, soci\u00f3logos e cientistas pol\u00edticos v\u00e3o propor in\u00fameras hip\u00f3tese explicativas.<\/p>\n<p>Fato mesmo \u00e9 que Bolsonaro n\u00e3o surgiu ontem. Ele est\u00e1 a\u00ed h\u00e1 muito tempo, no submundo da pol\u00edtica brasileira. Ignoramos, n\u00e3o prestamos aten\u00e7\u00e3o, subestimamos, debochamos. Acreditamos que o Brasil n\u00e3o se rebaixaria tanto assim. No fundo, bem no fundo, nos iludimos, achando que o Brasil tinha melhorado. Melhorou n\u00e3o. \u00c9 isso a\u00ed mesmo. Sempre foi.<\/p>\n<p>https:\/\/jornalistaslivres.org\/o-18-brumario-de-jair-bolsonaro\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21295\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[224],"class_list":["post-21295","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5xt","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21295","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21295"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21295\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21295"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21295"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21295"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}