{"id":21313,"date":"2018-11-05T23:15:37","date_gmt":"2018-11-06T01:15:37","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21313"},"modified":"2018-11-05T23:15:37","modified_gmt":"2018-11-06T01:15:37","slug":"o-sujeito-oculto-ao-vencedor-as-batatas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21313","title":{"rendered":"O sujeito oculto: ao vencedor as batatas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2018\/11\/mauro-iasi-bolsonaro.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><strong>Uma pergunta assombra os c\u00e9rebros inquietos que procuram compreender o cen\u00e1rio que se abre com a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro: como isso foi poss\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi.<\/p>\n<p>Blog da Boitempo<\/p>\n<p>Uma pergunta assombra os c\u00e9rebros inquietos que procuram compreender o cen\u00e1rio que se abre com a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro: como isso foi poss\u00edvel? \u00c9 compreens\u00edvel, uma vez que essas pessoas se pautam pela raz\u00e3o e o bom senso e imaginam que os acontecimentos se definem por uma certa razoabilidade. Infelizmente, o que a hist\u00f3ria nos comprova \u00e9 que na luta de classes, como na guerra, a primeira v\u00edtima \u00e9 a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um importante document\u00e1rio de 2003, dirigido por Errol Morris, chamado Sob a n\u00e9voa da guerra, o ex-Secret\u00e1rio de Defesa dos EUA, McNamara, afirma exatamente isso: \u201ca racionalidade n\u00e3o nos salvar\u00e1\u201d. \u00c9 evidente que qualquer pessoa sensata, diante das alternativas apresentadas, n\u00e3o escolheria algu\u00e9m que revelasse o despreparo, a barb\u00e1rie expl\u00edcita e a evidente idiotia do candidato em quest\u00e3o. Mas n\u00e3o se trata de escolhas movidas pela raz\u00e3o e, por mais que doa constatar, n\u00e3o se trata de pessoas sensatas.<\/p>\n<p>Neste ponto, a busca por respostas se refugia na no\u00e7\u00e3o de manipula\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9, estar\u00edamos diante de pessoas sensatas, mas que estariam sendo manipuladas por uma eficiente enxurrada de mentiras, eufemisticamente denominadas fake news. Ciro Gomes parece apontar na dire\u00e7\u00e3o dessa interpreta\u00e7\u00e3o ao afirmar em entrevista recente que n\u00e3o pode acreditar que quase 60% o eleitorado seja fascista. Tendo a concordar, mas a pergunta persiste: ent\u00e3o porque foram receptivos \u00e0 proposta do fascismo?<\/p>\n<p>Outros procuram consolo em um racioc\u00ednio matem\u00e1tico pouco convincente. O eleitorado estaria dividido em tr\u00eas partes: a primeira votou no candidato da extrema direita (39% ou 57 milh\u00f5es), a segunda em Haddad (32% ou 47 milh\u00f5es) e uma terceira formada pelas absten\u00e7\u00f5es, votos brancos e nulos (29% ou 42 milh\u00f5es). Por este racioc\u00ednio, a maioria n\u00e3o teria votado em Bolsonaro, isto \u00e9, 61% ou 89 milh\u00f5es), querendo com isso acreditar que a maioria n\u00e3o o apoia.<\/p>\n<p>Creio que esse argumento \u00e9 falho por alguns motivos. Primeiro porque insiste que a maioria sempre tende ao bom senso, o que n\u00e3o \u00e9 verdade de forma alguma. Rousseau acreditava nisso, mas ningu\u00e9m leva muito a s\u00e9rio essa esperan\u00e7a. Segundo porque esse argumento agrupa coisas de subst\u00e2ncias distintas (absten\u00e7\u00f5es, brancos e nulos) como se fossem votos contr\u00e1rios \u00e0 extrema direita, e n\u00e3o creio que seja verdade.<\/p>\n<p>S\u00e3o express\u00f5es de quem n\u00e3o votou e s\u00f3 isso. Pessoas n\u00e3o votam por muitos e diferentes motivos, desde ao poss\u00edvel erro de cadastramento, casualidades fortuitas at\u00e9 o desencanto com as elei\u00e7\u00f5es e cr\u00edticas variadas ao sistema. Caso desprezemos os acidentes, ainda assim esse desencanto \u00e9 combust\u00edvel para a posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica expressa na candidatura de Bolsonaro e para aqueles que ainda defendem alternativas \u00e0 esquerda. Estatisticamente \u00e9 mais prov\u00e1vel que esses n\u00e3o-votos se distribu\u00edssem na mesma propor\u00e7\u00e3o dos votos. Isto \u00e9, algo em torno de 39% para o candidato eleito e 32% para seu opositor.<\/p>\n<p>Acredito que esse deslocamento de uma maioria eleitoral para a direita e para a extrema direita tem outra explica\u00e7\u00e3o. Defenderei aqui que uma pista para compreender as determina\u00e7\u00f5es mais profundas desse processo remete nossa an\u00e1lise para um \u201csujeito oculto\u201d. Mas comecemos pelos sujeitos vis\u00edveis. Claramente o espectro pol\u00edtico brasileiro se dividiu em segmentos de direita e extrema direta, de centro esquerda, de centro, de esquerda e de extrema esquerda. Esses segmentos ganham suas personifica\u00e7\u00f5es em indiv\u00edduos: Alckmin, Meirelles e Amoedo (direita), Bolsonaro (extrema direita), Haddad e Ciro (centro esquerda), Marina (centro ou centro direita, com ela a gente nunca sabe), Boulos (esquerda), Vera (extrema esquerda) e assim por diante. N\u00e3o me pe\u00e7am para localizar um ex-bombeiro, grevista, crente, deputado raivoso contra o risco do comunismo na Am\u00e9rica Latina e contra os poderosos, porque francamente essa tarefa foge \u00e0 minha \u00e1rea de especialidade.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o de import\u00e2ncia decisiva do ponto de vista eleitoral \u00e9 determinar a capacidade dessas express\u00f5es pol\u00edticas mobilizarem massas eleitorais significativas. Sigamos por elimina\u00e7\u00e3o. Por motivos diferentes, a direita, o centro e a esquerda n\u00e3o tinham como mobilizar contingentes significativos. De um lado pelo desgaste do governo Temer, a vis\u00edvel piora das condi\u00e7\u00f5es de vida e a inseguran\u00e7a; de outro o prolongado per\u00edodo de concilia\u00e7\u00e3o de classes e sabotagem da capacidade de resist\u00eancia e autonomia dos trabalhadores que limita a possibilidade de um discurso de esquerda. Restam, num quadro de acirramento da crise, a polaridade entre a extrema direita e o centro esquerda, materializada nas tr\u00eas candidaturas que despontaram \u00e0 frente no primeiro turno. Com m\u00e9todos eficientes, ainda que n\u00e3o muito louv\u00e1veis, a centro esquerda pendeu para o candidato petista e a polariza\u00e7\u00e3o encontrou seu termo: antipetismo e petismo.<\/p>\n<p>Como a direita e a extrema direita se uniram taticamente contra o petismo e, desde o golpe parlamentar, midi\u00e1tico e institucional de 2016, operaram para eliminar a maior chance de vit\u00f3ria da centro esquerda (Lula), o jogo se desequilibrou a favor dos conservadores e depois, diante da fal\u00eancia da alternativa Alckmin, para os reacion\u00e1rios.<\/p>\n<p>O combust\u00edvel principal da extrema direita sempre foi o antipetismo. Estou convencido de que a maioria daqueles que se dispuseram a votar num fanfarr\u00e3o autorit\u00e1rio e despreparado foi a clara convic\u00e7\u00e3o de que era necess\u00e1rio evitar que o PT voltasse a governar. Todos nossos alertas sobre o risco de medidas fascistas, da viol\u00eancia, do retrocesso democr\u00e1tico, das propostas tresloucadas na \u00e1rea econ\u00f4mica, da flagrante prepot\u00eancia amoral e c\u00ednica, do preconceito machista, homof\u00f3bico e racista, n\u00e3o faziam diferen\u00e7a diante da prioridade de se livrar do PT.<\/p>\n<p>Para dar um toque de perversidade ao j\u00e1 tr\u00e1gico cen\u00e1rio, muitos dos que se beneficiaram das limitad\u00edssimas pol\u00edticas compensat\u00f3rias na \u00e1rea social e das condi\u00e7\u00f5es de inser\u00e7\u00e3o via consumo, votaram contra o PT.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que h\u00e1 um componente de manipula\u00e7\u00e3o. Isso tudo n\u00e3o teria a intensidade que teve n\u00e3o fora o massivo ataque dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, a a\u00e7\u00e3o judicial que priorizou o ataque aos petistas envolvidos nos esquemas de corrup\u00e7\u00e3o, \u00e0 insistente vincula\u00e7\u00e3o da prega\u00e7\u00e3o moral de um certo fundamentalismo religioso \u00e0s posturas minimamente progressistas no campo dos costumes como deprava\u00e7\u00e3o e uma amea\u00e7a \u00e0 fam\u00edlia e aos bons costumes. Da mesma forma, ficou comprovado um poderoso e milion\u00e1rio esquema de organiza\u00e7\u00f5es que difundem uma esp\u00e9cie de liberalismo raivoso de extrema direita na cria\u00e7\u00e3o de movimentos e personalidades para agir na propaganda e contra informa\u00e7\u00e3o como armas de guerra e de desestabiliza\u00e7\u00e3o, como as iniciativas dos bilion\u00e1rios irm\u00e3os Charles e David Koch, da ultradireitista John Birch Society, da organiza\u00e7\u00e3o Students for Liberty, al\u00e9m de recursos vindos de partidos (PSDB, DEM, etc.) e empres\u00e1rios.<\/p>\n<p>Se somarmos a isso a doutrina\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica operada por um conjunto de segmentos ditos religiosos, mais precisamente envolvidos em empresas altamente lucrativas de explora\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e do obscurantismo, temos uma boa explica\u00e7\u00e3o da imensa capacidade de manipula\u00e7\u00e3o de massa operada.<\/p>\n<p>Caso o petismo dependesse de si mesmo teria sido derrotado de forma ainda mais fragorosa. Para muitos, isso \u00e9 um mist\u00e9rio. As pessoas deviam reconhecer o que foi afirmado como o melhor governo de nossa hist\u00f3ria, a aten\u00e7\u00e3o aos que se encontram abaixo da mis\u00e9ria absoluta, o Bolsa Fam\u00edlia, o acesso \u00e0 universidade, a valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, as oportunidades de consumo e cr\u00e9dito, e tudo isso fazendo com que os empres\u00e1rios, o agroneg\u00f3cio e os bancos ganhassem muito dinheiro, como o ex-presidente adora lembrar.<\/p>\n<p>O pragmatismo petista, \u00e9 verdade, colheu os frutos de seus governos. Estes foram, comparativamente, governos \u201cbons\u201d \u2013 foram gestores bons e respons\u00e1veis, aceitaram e trabalharam dentro das regras e das posturas vigentes (o que inclui, ainda que alguns finjam n\u00e3o saber, praticas declaradas de corrup\u00e7\u00e3o direta e indireta). A surpresa \u00e9 compreens\u00edvel: por que uma experi\u00eancia de governo que abre m\u00e3o de qualquer perspectiva revolucion\u00e1ria e aceita se ater aos limites da institucionalidade burguesa foi v\u00edtima de tanto \u00f3dio, preconceito e viol\u00eancia?<\/p>\n<p>Uma parte do reconhecimento aos seus feitos deu uma sobrevida ao PT, em grande parte pelo contraste com a cat\u00e1strofe do desgoverno Temer, em parte pela lideran\u00e7a carism\u00e1tica de seu principal l\u00edder. Isso, somado a algumas manobras, colocou seu candidato no segundo turno, mas n\u00e3o foi suficiente para equilibrar ou pretender virar o jogo contra a extrema direita. A balan\u00e7a eleitoral s\u00f3 se equilibrou porque para o PT confluiu o antifascismo, o que \u00e9 uma conforma\u00e7\u00e3o para l\u00e1 de heterog\u00eanea \u2013 vai desde a esquerda (interessante notar, toda ela, o que inclui a extrema esquerda), passando por segmentos m\u00e9dios progressistas mas que tinham se desiludido com o PT, e at\u00e9 segmentos do centro direita e da direita, como \u00e9 o caso da Marina e de determinadas figuras e setores do pr\u00f3prio PSDB.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, trabalhamos apenas no descritor do movimento dos segmentos e sua polariza\u00e7\u00e3o entre a extrema direita e o centro esquerda. Uma quest\u00e3o segue sem resposta: por que a classe trabalhadora n\u00e3o saiu em defesa, primeiro do governo do PT e depois da democracia contra o fascismo? Ou pelo menos, por que n\u00e3o o fez na dimens\u00e3o e for\u00e7a que poderia?<\/p>\n<p>Eis que aparece nosso sujeito oculto: a classe trabalhadora. Lembram dela? Aquela que teria deixado de existir em tempos agora \u201cp\u00f3s-industriais\u201d, numa sociedade do \u201cfim do trabalho\u201d; aquela cuja identidade de classe a multiplicidade de identidades secundarizou e cuja centralidade na luta pol\u00edtica se diluiu em \u201cnovos sujeitos\u201d e \u201cnovas formas de luta\u201d\u2026 Pois ent\u00e3o, este sujeito que ningu\u00e9m mais via, que havia deixado de existir e ter import\u00e2ncia nas disputas pol\u00edticas, este sujeito decidiu a elei\u00e7\u00e3o a favor do fascismo.<\/p>\n<p>H\u00e1 bastante tempo, algumas vozes destoantes insistem que a classe trabalhadora passou por um processo de mudan\u00e7a de forma gra\u00e7as a uma nova configura\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho. Ela teria assumido uma nova morfologia, mas n\u00e3o somente continuaria existindo como mant\u00e9m uma centralidade na configura\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. N\u00e3o quero ser injusto esquecendo contribui\u00e7\u00f5es essenciais nesta dire\u00e7\u00e3o, mas bastaria citar a consistente obra de Ricardo Antunes, as contribui\u00e7\u00f5es valorosas de Ruy Braga, Giovanni Alves, Edv\u00e2nia Louren\u00e7o, Maria Orlanda Pinassi, Marilda Iamamoto, s\u00f3 para citar algumas das pessoas que ficaram na linha de frente desta resist\u00eancia contra a ideologia do \u201cfim do mundo do trabalho\u201d.<\/p>\n<p>Queria, aqui, somar minha modesta contribui\u00e7\u00e3o no que diz respeito \u00e0 configura\u00e7\u00e3o de classe e da consci\u00eancia de classe. J\u00e1 faz tempo que temos alertado para o fato de que a mudan\u00e7a da morfologia da classe trabalhadora, apesar de n\u00e3o alterar (concordando com os autores acima citados) a sua centralidade na ordem capitalista contempor\u00e2nea, n\u00e3o deixar de produzir importantes altera\u00e7\u00f5es no que diz respeito \u00e0 consci\u00eancia de classe.<\/p>\n<p>Resumidamente, sabemos que n\u00e3o h\u00e1 uma correspond\u00eancia mec\u00e2nica entre o ser da classe e sua consci\u00eancia, de forma que os trabalhadores, pela posi\u00e7\u00e3o que ocupam nas rela\u00e7\u00f5es sociais, possam adquirir uma consci\u00eancia correspondente. Os trabalhadores, na forma imediata de sua manifesta\u00e7\u00e3o, s\u00e3o apenas indiv\u00edduos inseridos na divis\u00e3o social do trabalho e na concorr\u00eancia, se apresentando portanto como advers\u00e1rios imediatos uns dos outros. Nesta forma imediata, configuram aquilo que Sartre chama de \u201cserialidade\u201d. Isto \u00e9: est\u00e3o no mesmo espa\u00e7o, fazendo a mesma coisa, mas n\u00e3o se conformam como um grupo ou uma forma mais org\u00e2nica de unidade pol\u00edtica. \u00c9 no enfrentamento contra as contradi\u00e7\u00f5es da ordem capitalista, primeiro de forma isolada e casual, depois de maneira mais sistem\u00e1tica, que esses indiv\u00edduos encontram pontos de fus\u00e3o que podem lev\u00e1-los \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de classe, primeiramente como mera oposi\u00e7\u00e3o aos capitalistas (como classe em si), depois, em certas condi\u00e7\u00f5es, como possibilidade de se constituir como sujeitos de um projeto hist\u00f3rico contra e para al\u00e9m do capital (classe para si).<\/p>\n<p>Como vemos, para a teoria marxista, a classe e a consci\u00eancia de classe se inserem em um movimento de continua constitui\u00e7\u00e3o e desconstru\u00e7\u00e3o, determinado pela luta de classes, como bem captou E. P. Thompson. Ora, quando analisamos o movimento objeto da classe trabalhadora desde a crise da autocracia burguesa nos anos 1970 at\u00e9 hoje, vemos claramente um processo no interior do qual se tornou poss\u00edvel a fus\u00e3o de classe e a passagem para uma classe em si nos anos 1980, seguida de uma interrup\u00e7\u00e3o nesse caminho e sua desconstru\u00e7\u00e3o como classe que culmina no per\u00edodo de concilia\u00e7\u00e3o de classes dos governos petistas e sua revers\u00e3o \u00e0 serialidade no per\u00edodo recente.<\/p>\n<p>Caso agreguemos a isso as transforma\u00e7\u00f5es no mundo do trabalho, compreenderemos a base material que, somada aos desvios pol\u00edticos, leva a uma configura\u00e7\u00e3o da classe em novo e brutal momento de serialidade. O que nos interessa neste momento \u00e9 entender como isso se manifesta em um particular comportamento pol\u00edtico. Para tanto, temos que remeter nossa an\u00e1lise para uma passagem do famoso O 18 de brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte em que Marx trata dos camponeses, naquela oportunidade procurando responder qual seria a base de massa para a aventura golpista de Lu\u00eds Bonaparte.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, Marx afirma que os camponeses, pela posi\u00e7\u00e3o que ocupavam nas rela\u00e7\u00f5es sociais e diante das formas de propriedade, formavam um certo agrupamento de classe mas no entanto n\u00e3o constitu\u00edam uma classe propriamente dita. Por viverem do mesmo modo, partilharem de uma determinada cultura e manifestarem certos interesses, formavam uma classe; mas, n\u00e3o formavam uma comunidade mais ampla do que aquela dos interesses e situa\u00e7\u00f5es mais imediatas, n\u00e3o formavam qualquer uni\u00e3o nacional, n\u00e3o podiam se representar, tinham que ser representados, por isso, n\u00e3o eram ainda uma classe. Seriam, na met\u00e1fora do autor, como \u201cbatatas que somadas, constituem um saco de batatas\u201d.<\/p>\n<p>Muita gente considera que isso n\u00e3o passava de um preconceito de Marx em rela\u00e7\u00e3o aos camponeses. Mas na minha avalia\u00e7\u00e3o essa observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o vale apenas para as condi\u00e7\u00f5es objetivas do campesinato na Fran\u00e7a daquela \u00e9poca, e pode servir para qualquer classe em seu processo de forma\u00e7\u00e3o \u2013 inclusive para o proletariado urbano e, mais do que isso, cabe perfeitamente para a condi\u00e7\u00e3o se serialidade que estamos descrevendo.<\/p>\n<p>Os trabalhadores se fragmentaram: romperam-se os la\u00e7os que os uniam, eles se dispersaram geograficamente, foram derrotados politicamente (em parte, tra\u00eddos), serializaram-se. Mas, uma vez fragmentados, invis\u00edveis e desprezados, ainda existem e em seu conjunto s\u00e3o os respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de tudo que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e0 exist\u00eancia, desde produtos, servi\u00e7os, manuten\u00e7\u00e3o e tudo que faz a materialidade da economia girar em favor do capital. Uma vez quebrados em sua unidade pol\u00edtica de classe, voltam-se a outras formas de pertencimento e grupaliza\u00e7\u00e3o, na qual expressam seus interesses imediatos e os elementos constitutivos de sua cultura.<\/p>\n<p>No caso presente, o que os uniu foi o \u00f3dio. Vejam, n\u00e3o \u00e9 um \u00f3dio ao PT, \u00e9 um profundo descontentamento com a vida, com a viol\u00eancia di\u00e1ria vinda da criminalidade, das condi\u00e7\u00f5es de moradia, um \u00f3dio diante de uma sociedade hip\u00f3crita que valoriza a meritocracia e retira as condi\u00e7\u00f5es para que se desenvolvam suas potencialidades, um \u00f3dio contra uma corja de sangue sugas que controlam as institui\u00e7\u00f5es de governo para saquear os recursos e enriquecer ilicitamente, um \u00f3dio contra uma democracia representativa que n\u00e3o representa ningu\u00e9m al\u00e9m daqueles que dela se apropriaram como instrumento de garantia de privil\u00e9gios, com ju\u00edzes que se colocam sob a capa da lei para ser injustos, contra a desigualdade gritante, contra a opul\u00eancia de poucos que s\u00e3o sempre os maus\u2026 Enfim, ressentimento e \u00f3dio contra um mundo que os despreza.<\/p>\n<p>A centro esquerda viu nesse \u00f3dio, por vezes, apenas um recurso eleitoral, como quando tentou se valer dele no segundo turno de Dilma contra A\u00e9cio em 2014, para depois das elei\u00e7\u00f5es voltar ao discurso pragm\u00e1tico da governabilidade aliando-se aos seus algozes. O fato \u00e9 que essa for\u00e7a foi desprezada no sentido de dar forma a uma consci\u00eancia de classe, anticapitalista e socialista.<\/p>\n<p>Coube \u00e0 direita dar forma a esse \u00f3dio, colando nele a m\u00e1scara de seu advers\u00e1rio. O PT \u00e9 o culpado da crise, das filas no atendimento na sa\u00fade, da precariedade da educa\u00e7\u00e3o, da corrup\u00e7\u00e3o, da desagrega\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias, da explos\u00e3o de uma sexualidade aberrante que amea\u00e7a, de mulheres que levantam a voz e colocam o dedo na cara de quem as oprime, de \u00edndios (meu deus, ainda tinham \u00edndios neste pa\u00eds) querendo as terras t\u00e3o bem ocupadas por mineradoras, madeireiras e o agroneg\u00f3cio. A mensagem da extrema direita encontra o \u00f3dio de uma boa parte dos trabalhadores e os representa: essa democracia \u00e9 uma farsa (pode fechar o Congresso e o STF), este Estado \u00e9 um cabide de emprego, privatiza tudo, manda a pol\u00edcia atirar para matar, tirem os doutrinadores das escolas, matem viados, negros, \u00edndios, feministas, petistas, comunistas\u2026<\/p>\n<p>Esse \u00f3dio e esse enorme ressentimento n\u00e3o nasce dos trabalhadores, como \u00e9 poss\u00edvel perceber. Ele vem de fora, contrabandeando coisas que os trabalhadores n\u00e3o teriam porque temer. Por que um trabalhador deveria se preocupar com uma maior ou menor presen\u00e7a do Estado na economia, ou defender privatiza\u00e7\u00f5es, ou destruir sua possibilidade de se aposentar um dia? Esse ressentimento nasce dos setores m\u00e9dios, que v\u00eam acumulando \u00f3dio h\u00e1 anos. A extrema direita, que como sempre nasce dos segmentos m\u00e9dios e pequeno-burgueses, logrou colar seu \u00f3dio e ressentimento no \u00f3dio dos trabalhadores e, assim, ganhar base de massas para seu projeto reacion\u00e1rio.<\/p>\n<p>A chave do enigma est\u00e1 em uma frase do Marx que citamos acima: n\u00e3o podem se representar, tem que ser representados. A impossibilidade de se conformar como uma classe encontra a unidade fora de si, em tempos de crise e acirramento da luta de classes, numa figura salvadora, aparentemente acima dos interesses em luta, que se sobrep\u00f5e \u00e0 imagem abstrata de Na\u00e7\u00e3o e Ordem e as personifica: Lu\u00eds Bonaparte na Fran\u00e7a do Segundo Imp\u00e9rio, Get\u00falio Vargas na d\u00e9cada de 1930, Per\u00f3n na Argentina, ou em outras situa\u00e7\u00f5es mais agudas em que se somam outras determina\u00e7\u00f5es, Mussolini na It\u00e1lia, Hitler na Alemanha\u2026 Mais recentemente, Tump nos EUA, e agora Bolsonaro no Brasil.<\/p>\n<p>A guerra, assim como a luta de classes, n\u00e3o \u00e9 racional. Como dizia Weber, trata-se da manipula\u00e7\u00e3o de paix\u00f5es irracionais para fins racionalmente calculados. Machado de Assis, em seu magistral Quincas Borba, dizia que era como uma disputa de duas tribos por um campo de batatas que n\u00e3o podia ser dividido, pois se isso fizessem os dois lados morreriam de inani\u00e7\u00e3o. Por isso, conclui o literato, \u00e9 compreens\u00edvel que pessoas sensatas festejem um vit\u00f3ria que custou o assassinato de seus advers\u00e1rios, \u201cpelo motivo real de que o homem s\u00f3 comemora e ama o que lhe \u00e9 apraz\u00edvel ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma a\u00e7\u00e3o que virtualmente a destr\u00f3i. Ao vencido, \u00f3dio ou compaix\u00e3o; ao vencedor, as batatas\u201d.<\/p>\n<p>No nosso triste cen\u00e1rio, n\u00e3o creio em compaix\u00e3o. Quem ganhou as elei\u00e7\u00f5es foram as batatas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/11\/05\/o-sujeito-oculto-ao-vencedor-as-batatas\/\">O sujeito oculto: ao vencedor as&nbsp;batatas<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21313\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[268],"tags":[221],"class_list":["post-21313","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eleicoes-2018","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5xL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21313","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21313"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21313\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21313"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21313"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21313"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}