{"id":21375,"date":"2018-11-13T11:24:38","date_gmt":"2018-11-13T13:24:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21375"},"modified":"2018-11-13T11:24:55","modified_gmt":"2018-11-13T13:24:55","slug":"quando-um-colonialismo-oculta-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21375","title":{"rendered":"Quando um colonialismo oculta outro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/franca\/imagens\/iemen_criancas.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Bruno Guigue<\/p>\n<p><i>Que as crian\u00e7as iemenitas morram de fome aos milhares, que os palestinos caiam sob as balas do ocupante, que a S\u00edria seja um campo de ru\u00ednas e que a L\u00edbia mergulhe no caos, isso j\u00e1 quase n\u00e3o nos comove. Manifesta-se, faz-se greve, protesta-se? N\u00e3o realmente. Nem manifesta\u00e7\u00f5es significativas, nem debates dignos deste nome. O crime neocolonial passa como uma carta nos correios. E contudo, se sofr\u00eassemos o que os nossos governos infligem a povos que nada nos fizeram, o que dir\u00edamos n\u00f3s? Se uma alian\u00e7a criminosa nos condenasse a morrer de fome ou de c\u00f3lera, como no I\u00eamen? Se um ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o abatesse nossa juventude porque ela ousa protestar, como na Palestina? Se pot\u00eancias estrangeiras armassem mil\u00edcias para destruir nossa rep\u00fablica, como na S\u00edria? Se uma coliga\u00e7\u00e3o estrangeira houvesse bombardeado nossas cidades e assassinado nossos dirigentes, como na L\u00edbia?<\/i><\/p>\n<p>A tend\u00eancia dos pa\u00edses ditos civilizados de jogar um v\u00e9u pudico sobre suas pr\u00f3prias torpezas n\u00e3o \u00e9 nova. Como \u00e9 caracter\u00edstico, a democracia ocidental v\u00ea mais facilmente a palha no olho do vizinho do que a trave que se aloja no seu. De direita, de esquerda ou do centro, vive-se num mundo ideal, um universo feliz onde a consci\u00eancia est\u00e1 sempre do seu lado. Sarkozy destruiu a L\u00edbia, Hollande a S\u00edria, Macron o I\u00eamen, mas jamais haver\u00e1 tribunal internacional para julg\u00e1-los. Medidos pela vara da nossa bela democracia, estes massacres n\u00e3o s\u00e3o sen\u00e3o insignific\u00e2ncias. Uma aberra\u00e7\u00e3o passageira, a rigor, mas a inten\u00e7\u00e3o era boa. Como democracias poderiam desejar outra coisa sen\u00e3o a felicidade de todos? O discurso oficial dos ocidentais, sobretudo aquele destinado ao eleitor m\u00e9dio, traduz sempre a seguran\u00e7a inquebrant\u00e1vel de pertencer ao campo do bem. &#8220;Sofrem de opress\u00e3o, ditadura, obscurantismo? N\u00e3o se inquietem, enviaremos os bombardeiros!&#8221;.<\/p>\n<p>Acontece entretanto que na volta de uma frase, no segredo das negocia\u00e7\u00f5es internacionais, seja levantado um canto de v\u00e9u, subrepticiamente. Assiste-se ent\u00e3o a uma forma de confiss\u00e3o e eis que um vigarista confessa o crime esbo\u00e7ando um sorriso malicioso. Em 2013, no momento em que a Fran\u00e7a intervinha no Sahel, Laurent Fabius, ministro franc\u00eas dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, apela ao seu hom\u00f3logo russo para obter o apoio da R\u00fassia na ONU. Lavrov espanta-se ent\u00e3o com esta iniciativa francesa contra jihadistas que Paris havia apoiado quando da interven\u00e7\u00e3o na L\u00edbia, em 2011: &#8220;<i>C&#8217;est la vie!&#8221;,\u00a0<\/i>responde-lhe o ministro franc\u00eas. Semear o terror para abater um Estado soberano? \u00c9 &#8220;a vida&#8221;, segundo Fabius. Mas que este criminoso se tranquilize: nenhum juiz lhe pedir\u00e1 contas. O Tribunal Penal Internacional (TPI) \u00e9 um tribunal para os ind\u00edgenas: est\u00e1 reservado aos africanos. As pessoas como Fabius t\u00eam a arte de passar entre as gotas da chuva.<\/p>\n<p>Alimentados por um discurso que lhes diz que o seu pa\u00eds est\u00e1 sempre do lado bom, os franceses parecem a anos-luz do caos que os seus pr\u00f3prios dirigentes contribuem para construir. Os problemas do mundo n\u00e3o os afetam sen\u00e3o quando hordas de miser\u00e1veis se acumulam \u00e0s suas portas. E s\u00e3o numerosos os que concedem seus votos \u2013 como muitos europeus \u2013 \u00e0queles que pretendem poupar-lhes esta invas\u00e3o. Naturalmente, esta defesa da &#8220;sua casa&#8221; deveria logicamente ser acompanhada da recusa de inger\u00eancia na casa dos outros: de que valeria um patriotismo que autorizasse o forte a ingerir-se nos assuntos do fraco? Ora, a experi\u00eancia mostra que estes &#8220;patriotas&#8221; raramente est\u00e3o na linha de frente do combate pela independ\u00eancia nacional fora do mundo pretensamente civilizado. Quais os partidos da direita europeia, por exemplo, apoiam o direito dos palestinos \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o nacional? Manifestamente, eles n\u00e3o t\u00eam pressa de honrar os seus pr\u00f3prios princ\u00edpios.<\/p>\n<p>Mas isto n\u00e3o \u00e9 tudo. Pode-se mesmo perguntar se estes pretensos patriotas o s\u00e3o verdadeiramente para si pr\u00f3prios: quantos deles, com efeito, s\u00e3o favor\u00e1veis \u00e0 sa\u00edda do seu pr\u00f3prio pa\u00eds da OTAN, esta m\u00e1quina de arregimentar as na\u00e7\u00f5es europeias? Tal como para a pergunta anterior, a resposta \u00e9 clara: nenhum. Estes &#8220;nacionalistas&#8221; acusam a Uni\u00e3o Europeia pela sua pol\u00edtica migrat\u00f3ria, mas esta \u00e9 a \u00fanica amostra de seu repert\u00f3rio patri\u00f3tico, verdadeiro disco arranhado com sotaques monoc\u00f3rdicos. Incham os m\u00fasculos diante dos migrantes, mas s\u00e3o muito menos viris frente aos EUA, bancos e multinacionais. Se levassem a sua soberania a s\u00e9rio, questionariam a sua perten\u00e7a ao &#8220;campo ocidental&#8221; e ao &#8220;mundo livre&#8221;. Mas sem d\u00favida ser\u00e1 demasiado pedir-lhes isso.<\/p>\n<p>Nesta incoer\u00eancia generalizada, a Fran\u00e7a \u00e9 um verdadeiro caso exemplar. Uma certa direita \u2013 ou extrema-direita, como se queira \u2013 critica com satisfa\u00e7\u00e3o as interven\u00e7\u00f5es no estrangeiro, mas de maneira seletiva. O Rassemblement National, por exemplo, denuncia a inger\u00eancia francesa na S\u00edria, mas aprova a repress\u00e3o israelense contra os palestinos. O direito dos povos a disporem de si mesmos seria de geometria vari\u00e1vel? De fato, este partido faz exatamente o inverso do que faz uma pretensa esquerda, que apoia os palestinos \u2013 em palavras \u2013 e aprova a interven\u00e7\u00e3o ocidental contra Damasco, considerando mesmo que n\u00e3o se faz o suficiente e que seria preciso bombardear este pa\u00eds mais severamente. O drama \u00e9 que estas duas incoer\u00eancias g\u00eameas \u2013 e em espelho \u2013 cegam o povo franc\u00eas. Mede-se esta cegueira no resultado, quando se veem esquerdistas desejarem a derrubada de um Estado laico por mercen\u00e1rios da CIA (em nome da democracia e dos direitos humanos) e nacionalistas apoiarem a ocupa\u00e7\u00e3o e a repress\u00e3o sionistas na Palestina (em nome da luta contra o terrorismo e o islamismo radical).<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que este cruzamento entre pseudo-patriotas e pseudo-progressistas tamb\u00e9m tem uma dimens\u00e3o hist\u00f3rica. Ele transporta ao seu modo a heran\u00e7a envenenada dos tempos coloniais. Assim, a direita nacionalista critica o neocolonialismo ocidental na S\u00edria, mas considera insuport\u00e1vel mencionar os crimes coloniais passados cometidos pela Fran\u00e7a na Indochina, na Arg\u00e9lia ou em Madag\u00e1scar. Sup\u00f5e-se que isso n\u00e3o \u00e9 volunt\u00e1rio, mas a esquerda universalista contempor\u00e2nea \u2013 em nome dos direitos humanos \u2013 faz exatamente o inverso: ela acusa o velho colonialismo da &#8220;Arg\u00e9lia Francesa&#8221;, mas aprova a interven\u00e7\u00e3o neocolonial na S\u00edria contra um estado soberano que conquistou sua independ\u00eancia ao ocupante franc\u00eas em 1946. Em suma, a direita ama loucamente o colonialismo no passado, a esquerda ama-o apaixonadamente no presente. O c\u00edrculo est\u00e1 fechado e, definitivamente, todos est\u00e3o de acordo. V\u00edtima principal: a lucidez coletiva.<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a \u00e9 um dos raros pa\u00edses em que um colonialismo oculta um outro, o velho, aquele que mergulha suas ra\u00edzes na ideologia pseudo-civilizadora do homem branco, encontrando-se como que regenerado pelo sangue novo do belicismo dos &#8220;direitos do homismo&#8221;. Este colonialismo, por sua vez, \u00e9 um pouco como o antigo colonialismo &#8220;acess\u00edvel aos caniches&#8221;, para parafrasear C\u00e9line. Ele pretende fazer-nos chorar antes de lan\u00e7ar os m\u00edsseis. Em todo o caso, a coniv\u00eancia impl\u00edcita entre os colonialistas de todas as plumagens \u2013 os velhos e os jovens, os arqueo e os neo \u2013 \u00e9 uma das raz\u00f5es da err\u00e2ncia francesa no cen\u00e1rio internacional desde que rompeu com uma dupla tradi\u00e7\u00e3o, gaulista e comunista, que muitas vezes lhe permitiu \u2013 n\u00e3o sem erros \u2013 arrumar a sua pr\u00f3pria casa: a primeira por convic\u00e7\u00e3o anticolonialista, a segunda por intelig\u00eancia pol\u00edtica. Dia vir\u00e1, sem d\u00favida, em que se dir\u00e1, para fazer a s\u00edntese, que se a Fran\u00e7a semeou o caos na L\u00edbia, na S\u00edria e no I\u00eamen era, no fundo, para &#8220;partilhar a sua cultura&#8221;, como afirmou Fran\u00e7ois Fillon a prop\u00f3sito da coloniza\u00e7\u00e3o francesa dos s\u00e9culos passados. No pa\u00eds dos direitos do homem, tudo \u00e9 poss\u00edvel, mesmo atirar areia para os olhos.<\/p>\n<p>05\/Novembro\/2018<\/p>\n<p>O original encontra-se em\u00a0www.legrandsoir.info\/quand-<wbr \/>un-colonialisme-en-cache-un-<wbr \/>autre.html<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em\u00a0https:\/\/resistir.info<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21375\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[252,165,251,38],"tags":[226],"class_list":["post-21375","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arabia-saudita","category-eua","category-iemen","category-c43-imperialismo","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5yL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21375","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21375"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21375\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21375"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}