{"id":21388,"date":"2018-11-14T00:58:43","date_gmt":"2018-11-14T02:58:43","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21388"},"modified":"2018-11-14T00:58:43","modified_gmt":"2018-11-14T02:58:43","slug":"manter-os-pobres-no-seu-lugar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21388","title":{"rendered":"Manter os pobres &#8220;no seu lugar&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/brasil\/imagens\/bolsonaro_parlamento.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Elaine Tavares*<\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o \u00e9 simples: se o capitalismo entra em crise significa que o lucro dos empres\u00e1rios diminui. Isso \u00e9 inaceit\u00e1vel para eles. Qual a sa\u00edda? Explorar o mais que puder os trabalhadores para manter o lucro no mesmo n\u00edvel apesar da crise. Sendo assim, quando se fala em crise, \u00e9 bom que se tenha claro que ela \u00e9 s\u00f3 para os mais pobres. Os ricos pouco sofrem com crise. J\u00e1 as camadas m\u00e9dias se arrebentam porque seus neg\u00f3cios n\u00e3o conseguem aguentar o roj\u00e3o e v\u00e3o \u00e0 breca. Apenas os mais ricos conseguem se manter por cima da carne seca.<\/p>\n<p>Basta estudar um pouco a hist\u00f3ria dos povos e j\u00e1 se pode comprovar essa verdade insofism\u00e1vel. A chamada crise de 1929, conhecida como a grande depress\u00e3o, durou longos anos s\u00f3 terminando depois da segunda guerra mundial. Quem sofreu com ela: os pobres. Entre a elite muita gente enriqueceu naqueles anos e a pr\u00f3pria guerra ajudou a aquecer a economia, alavancando a ind\u00fastria das armas e uma s\u00e9rie de outras que serviam para dar suporte ao conflito. Assim, enquanto massas de gente morriam de fome ou pela guerra, uma pequena porcentagem de empres\u00e1rios enchia as burras de dinheiro.<\/p>\n<p>Outro momento de crise profunda foi agora, nesse s\u00e9culo, em 2008, com a explos\u00e3o da d\u00edvida imobili\u00e1ria nos Estados Unidos, que levou a uma quebra geral nos bancos, todos devidamente salvos com dinheiro p\u00fablico, \u00e9 claro. E, para salvar os bancos foi tirado tudo dos pobres. Esses perderam suas casas e seus investimentos. Tudo comido sem d\u00f3. Os bancos se reergueram, os grandes investidores seguiram lucrando e tudo acabou bem para eles. Para eles, apenas. Os sem-casa nos EUA seguiram sem poder recuperar seus im\u00f3veis e at\u00e9 hoje engrossam as fileiras dos desesperados.<\/p>\n<p>Enfim, repetimos: a crise nunca \u00e9 crise para os ricos. N\u00e3o, para eles \u00e9 sempre oportunidade de novos neg\u00f3cios e novos investimentos. Os pobres que se lasquem, essa sempre foi a palavra de ordem. Que fiquem no &#8220;seu lugar&#8221;, que, para os capitalistas, \u00e9 o de sustentar com seu trabalho o luxo de poucos.<\/p>\n<p>Agora, o mundo vive nova crise do capital. Ela surge em ciclos porque justamente os capitalistas conseguem maquiar os efeitos por algum tempo, gerando novas crises, cada vez mais profundas e graves. \u00c9 uma esp\u00e9cie de respiro para que os trabalhadores se recomponham minimamente e possam ser novamente arrochados at\u00e9 o osso. \u00c9 um c\u00edrculo vicioso, sem fim. A conta sempre vai parar na porta do trabalhador.<\/p>\n<p>No Brasil, vamos presenciar mais um longo momento de arrocho e sofrimento para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. Desde o segundo governo de Dilma Rousseff as coisas v\u00eam se preparando para que o capital recupere seus lucros e se mantenha a salvo, pois estamos em mais uma onda de crise. Por isso as chamadas reformas. Elas v\u00eam para legitimar legalmente o saqueio dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Durante o governo Temer j\u00e1 vieram a reforma do ensino m\u00e9dio, preparando o terreno para a mercantiliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o de segundo grau, e a reforma trabalhista, que retirou direitos dos trabalhadores deixando-os totalmente vulner\u00e1veis ao longo processo de expropria\u00e7\u00e3o que dever\u00e1 vir. O pr\u00f3ximo passo agora \u00e9 a reforma da Previd\u00eancia, que vai liberar ainda mais o patronato e o estado capturado pelo capital, das obriga\u00e7\u00f5es com os trabalhadores. A l\u00f3gica seguir\u00e1 sendo a mesma da do s\u00e9culo XVII: \u00a0 manter os trabalhadores minimamente vivos para que possam ser explorados. Por isso a &#8220;ideia brilhante&#8221; de Arm\u00ednio Fraga \u2013 brasileiro naturalizado estadunidense que j\u00e1 dirigiu o Banco Central \u2013 de uma aposentadoria universal. Igual para todos.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, essa ideia de igualdade pode parecer legal. Mas, n\u00e3o se pode tratar de maneira igual os desiguais. A proposta \u00e9 garantir 70% de um sal\u00e1rio m\u00ednimo a todas as pessoas que passarem dos 65 anos. &#8220;Muito bom&#8221;, dizem os incautos, acreditando que isso \u00e9 justi\u00e7a. N\u00e3o \u00e9! Justi\u00e7a seria garantir a cada um conforme sua necessidade. Se fosse assim, um trabalhador, ao fim da vida laboral, teria que ter garantida uma moradia digna, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, seguran\u00e7a, alimenta\u00e7\u00e3o de qualidade. Mas, sabemos que essa n\u00e3o \u00e9 a realidade. Pelo menos n\u00e3o no mundo capitalista onde todas essas coisas precisam ser compradas a peso de ouro.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o caso de Cuba, por exemplo, onde o sal\u00e1rio \u00e9 baixo, mas em compensa\u00e7\u00e3o a pessoa n\u00e3o precisa pagar por sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia, seguran\u00e7a e ainda tem uma cesta b\u00e1sica garantida. Mas, l\u00e1, \u00e9 outro sistema. N\u00e3o h\u00e1 compara\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Voltemos ao nosso mundo.<\/p>\n<p>O novo governo eleito n\u00e3o chegou ao poder sem propostas. Isso \u00e9 falso. Sempre foram muito claras as propostas do candidato. Ao referenciar suas falas nos exemplos dos Estados Unidos e Israel o candidato apontava claramente qual seria a linha de seu governo: tudo para os mais ricos, e os mais pobres pagando a conta. \u00c9 por isso que a reforma da Previd\u00eancia vir\u00e1 avassaladora, travestida de &#8220;igualdade&#8221;. E, a considerar a campanha cheia de not\u00edcias falsas, nada dever\u00e1 mudar. O bombardeio de mentiras continuar\u00e1 sem freio. At\u00e9 que a grande ficha comece a cair muita coisa ser\u00e1 destru\u00edda.<\/p>\n<p>O novo governo nem come\u00e7ou e o desenho do arrocho j\u00e1 est\u00e1 dado. A fus\u00e3o dos minist\u00e9rios da Agricultura e Meio Ambiente \u00e9 a c\u00f3pia mal acabada do recha\u00e7o ambiental promovido por Donald Trump, um dos modelos do presidente eleito. A terra especulada at\u00e9 o \u00faltimo naco, aumentando ainda mais a proletariza\u00e7\u00e3o no campo. A retirada das universidades do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, jogando-as para o de Ci\u00eancia e Tecnologia \u00e9 outra medida contra os mais pobres. O ensino superior j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 mais educa\u00e7\u00e3o e sim neg\u00f3cio, e nos dois sentidos: sendo neg\u00f3cio e produzindo neg\u00f3cio. Acabar\u00e1 com aquilo que os remediados, racistas e intolerantes jamais suportaram: os pobres na universidade. Os centros de produ\u00e7\u00e3o de inova\u00e7\u00e3o ou formadores da elite ser\u00e3o apenas para os que podem pagar.<\/p>\n<p>No campo da seguran\u00e7a o modelo \u00e9 Israel, com a reprodu\u00e7\u00e3o de todo o arcabou\u00e7o racista e eug\u00eanico. A tal ponto de o governador eleito do Rio de Janeiro, da mesma turma dos racistas e antipobres, ter sugerido em p\u00fablico e sem pejo a elimina\u00e7\u00e3o de pessoas com o uso de &#8220;snipers&#8221;, atiradores de elite.<\/p>\n<p>Ou seja. Bastar\u00e1 ser negro e carregar um guarda-chuva para o sujeito ser atingido sem d\u00f3, e com a alegre aprova\u00e7\u00e3o da comunidade que prefere um inocente morto a correr riscos.<\/p>\n<p>Soma-se a isso a proposta de persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e f\u00edsica dos vermelhos, comunistas e afins, sugerida pelo pr\u00f3prio presidente eleito em n\u00edvel nacional, e temos armado um triste cen\u00e1rio que vai cobrar bem caro \u00e0 na\u00e7\u00e3o, ainda que boa parte dela esteja justamente esperando por isso, para gozar de prazer, assistindo pela televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim que aos trabalhadores restar\u00e1 a reorganiza\u00e7\u00e3o e a luta, como sempre foi ao longo da hist\u00f3ria humana. N\u00e3o h\u00e1 novas receitas nem novas f\u00f3rmulas. Agora, terminado o frisson da elei\u00e7\u00e3o e da derrota cabe um profundo processo de avalia\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise. Enfrentar o que vir\u00e1 vai demandar boas estrat\u00e9gias que s\u00f3 poder\u00e3o se armar com pensamento cr\u00edtico, conhecimento e compreens\u00e3o certeira do que levou o pa\u00eds a esse momento dram\u00e1tico. Errar na an\u00e1lise leva ao erro na a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, enquanto o presidente eleito arma seu grupo para governar o Brasil, os trabalhadores tamb\u00e9m precisam armar os seus para o enfrentamento que vir\u00e1. \u00c9 tempo de pensar e reorganizar. Os poderosos querem os pobres &#8220;no seu lugar&#8221;, ou seja, na senzala, fora da casa grande, no ch\u00e3o das f\u00e1bricas, nas sarjetas. Mas, como sempre foi, os empobrecidos se levantar\u00e3o e dar\u00e3o suas respostas.<\/p>\n<p>06\/Novembro\/2018<\/p>\n<p>*Jornalista e colaboradora do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.iela.ufsc.br\/noticia\/manter-os-pobres-no-seu-lugar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Instituto de Estudos Latino-Americanos<\/a>\u00a0da UFSC.<\/p>\n<p>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/2-uncategorised\/13553-manter-os-pobres-no-seu-lugar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.correiocidadania.com.<wbr \/>br\/<\/a><\/p>\n<p>https:\/\/www.resistir.info\/brasil\/elaine_06nov18.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21388\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[268],"tags":[221],"class_list":["post-21388","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eleicoes-2018","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5yY","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21388","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21388"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21388\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21388"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21388"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21388"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}