{"id":21404,"date":"2018-11-18T09:50:53","date_gmt":"2018-11-18T11:50:53","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21404"},"modified":"2018-11-18T09:50:53","modified_gmt":"2018-11-18T11:50:53","slug":"boulos-democracia-nao-e-apertar-um-botao-de-quatro-em-quatro-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21404","title":{"rendered":"Boulos: \u201cDemocracia n\u00e3o \u00e9 apertar um bot\u00e3o de quatro em quatro anos\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/farm5.staticflickr.com\/4882\/44063616750_2da3fdae16_z.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto concedeu entrevista exclusiva ao programa No Jardim da Pol\u00edtica<\/p>\n<p>Leonardo Fernandes e Nina Fideles<br \/>\nBrasil de Fato<\/p>\n<p>Psicanalista de forma\u00e7\u00e3o, Guilherme Boulos \u00e9 militante e coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que luta pelo direito \u00e0\u00a0moradia. Aos 36 anos de idade, foi candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). No segundo turno, apoiou o candidato derrotado do Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad.<\/p>\n<p>Durante sua participa\u00e7\u00e3o no programa\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/10\/25\/acesse-todos-os-programas-no-jardim-da-politica\/\"><strong>No Jardim da Pol\u00edtica<\/strong><\/a>, da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/radioagencia\/\"><strong>R\u00e1dio Brasil de Fato<\/strong><\/a>, Boulos falou sobre a experi\u00eancia de haver participado das elei\u00e7\u00f5es presidenciais, contou sobre sua visita recente ao ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, preso em Curitiba, e abordou as perspectivas para os movimentos populares no pr\u00f3ximo per\u00edodo, sob o governo de Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>Confira a \u00edntegra da entrevista com Guilherme Boulos:<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato: Guilherme, para come\u00e7ar, queria que voc\u00ea nos contasse como foi a experi\u00eancia da participar como candidato presidencial nessas elei\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><em>Guilherme Boulos:<\/em>\u00a0Olha, eu saio dessas elei\u00e7\u00f5es com o sentimento de miss\u00e3o cumprida. N\u00e3o pelo resultado eleitoral, que foi adverso para o nosso campo e, acredito, adverso para os direitos sociais, para a democracia brasileira. Mas porque n\u00f3s fizemos uma campanha que plantou sementes para o futuro. N\u00f3s encaramos os grandes temas, n\u00e3o recuamos de colocar nenhuma das bandeiras necess\u00e1rias, n\u00e3o abrimos m\u00e3o de princ\u00edpio para fazer m\u00e9dia com qualquer setor da sociedade, fizemos uma campanha bonita, uma campanha com esperan\u00e7a. Agora, essa elei\u00e7\u00e3o foi muito marcada, e \u00e9 assim que ela vai ficar para a hist\u00f3ria, pelo \u00f3dio, pelo medo, at\u00e9 pelo p\u00e2nico, na reta final. Uma elei\u00e7\u00e3o em que a esperan\u00e7a e o projeto de futuro tiveram muito pouco espa\u00e7o. Isso, evidentemente, se refletiu no nosso desempenho eleitoral, na vit\u00f3ria do Jair Bolsonaro, que soube explorar politicamente o medo e a desilus\u00e3o do povo em rela\u00e7\u00e3o ao sistema pol\u00edtico e, com isso, conseguiu vencer as elei\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, foi um enorme aprendizado. Al\u00e9m desse sentimento de miss\u00e3o cumprida, eu tinha feito um compromisso com a S\u00f4nia Guajajara, minha companheira de chapa, quando n\u00f3s firmamos essa alian\u00e7a, entre o PSOL, o PCB, com um conjunto de movimentos sociais, de que a \u00fanica coisa que n\u00f3s precis\u00e1vamos ter certeza \u00e9 de que a gente sairia desse processo com mais dignidade do que entrou. Nesse sentido, conseguimos atingir esse resultado t\u00e3o necess\u00e1rio e que n\u00e3o \u00e9 um resultado f\u00e1cil de se atingir no processo eleitoral, marcado por mentiras, por baixaria, por recursos de toda sorte. Agora, al\u00e9m de tudo, \u00e9 um processo em que voc\u00ea conhece o Brasil, o Brasil profundo, as pessoas. Uma campanha eleitoral, quando bem feita, \u00e9 uma oportunidade de se dialogar, se ouvir, se aprender. Eu saio com um aprendizado muito maior nessa campanha do que quando entrei nela.<\/p>\n<p><strong>Em outros processos eleitorais, o PSOL defendeu a neutralidade ou o chamado voto cr\u00edtico no PT. Dessa vez, voc\u00ea entrou de cabe\u00e7a na campanha do segundo turno. O que mudou?<\/strong><\/p>\n<p>Houve toda uma discuss\u00e3o de que o PSOL mudou. O que eu acredito \u00e9 que o Brasil mudou. O PSOL, em todas as elei\u00e7\u00f5es anteriores, concorreu com o PT no governo e sendo oposi\u00e7\u00e3o de esquerda ao governo do PT, colocando temas importantes, apontando erros, limites dos governos do PT durante os 13 anos. Agora, nos \u00faltimos tr\u00eas anos ocorreu um golpe parlamentar no Brasil, assumiu um governo ileg\u00edtimo, prenderam o Lula, principal lideran\u00e7a pol\u00edtica, de maneira injusta, uma pris\u00e3o pol\u00edtica. Tivemos uma mudan\u00e7a na sociedade brasileira, um avan\u00e7o do conservadorismo que veio depois se desdobrar na vit\u00f3ria eleitoral de Jair Bolsonaro, ent\u00e3o o pa\u00eds mudou, e exigiu da esquerda, com responsabilidade com a hist\u00f3ria e com o povo, que tamb\u00e9m adequasse a sua postura com as necessidades do momento. N\u00e3o foi apenas a minha candidatura, foi um movimento que o PSOL fez. Quando escolheu, inclusive, por essa candidatura, por ampla maioria, quando decidiu junto conosco seguir essa alian\u00e7a, quando faz um balan\u00e7o positivo da nossa participa\u00e7\u00e3o nesse processo eleitoral,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/10\/23\/guilherme-boulos-no-nosso-vocabulario-nao-existe-a-palavra-covardia\/\">\u00e9 esse recado que o PSOL e que as for\u00e7as sociais que constru\u00edram a nossa campanha est\u00e3o dando para a sociedade brasileira.\u00a0<\/a><\/p>\n<p><strong>Antes de ser candidato voc\u00ea pesou o risco que havia de expor o Movimento Sem Teto?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s pesamos isso coletivamente, no debate dentro do movimento. E\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/03\/03\/guilherme-boulos-lanca-pre-candidatura-a-presidencia-da-republica\/\">a avalia\u00e7\u00e3o que n\u00f3s fazemos desse processo \u00e9 que a campanha eleitoral permitiu quebrar muitos preconceitos<\/a>. Ao contr\u00e1rio do que seria uma elei\u00e7\u00e3o feita por marqueteiro, eu n\u00e3o neguei a minha participa\u00e7\u00e3o no MTST. A gente sabe o tamanho do preconceito que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2017\/12\/10\/parabens-ao-mtst-pelos-20-anos-diz-caetano-veloso-em-ato-show-de-comemoracao\/\">MTST<\/a>\u00a0sofre, que o MST sofre, que os movimentos sociais sofrem no Brasil. Como a quest\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o de terras ou de terrenos abandonados \u00e9 destorcida no debate da grande m\u00eddia, como se fosse coisa de vagabundo, coisa de tomar o que \u00e9 dos outros, coisa de terrorista, de quem n\u00e3o tem o que fazer, de quem n\u00e3o quer trabalhar. E n\u00f3s decidimos, nessa campanha eleitoral, enfrentar esse tema. Durante os debates, inclusive mais de uma vez, eu tive a oportunidade de fazer a defesa pol\u00edtica do MST, do MTST, da reforma agr\u00e1ria, da reforma urbana, da luta por moradia. Depois, n\u00f3s percebemos que isso ajudou a abrir a mente de muita gente. Muita gente que tinha uma mente preconceituosa nos disse: olha, eu n\u00e3o sabia que era isso. E descobriu, a partir da nossa participa\u00e7\u00e3o no processo eleitoral, que n\u00e3o era um bando de terrorista vermelho, vagabundo que n\u00e3o quer trabalhar e que vai invadir a sua casa e dividir a sala no meio. Esse tipo de mistifica\u00e7\u00e3o oportunista que \u00e9 feita do movimento, a gente ajudou a combater na campanha eleitoral com a visibilidade que a campanha eleitoral proporciona. Ent\u00e3o a nossa avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 que o MTST saiu mais forte desse processo. N\u00e3o s\u00f3 desse ponto de vista da defesa de princ\u00edpio, da quebra de preconceitos, mas tamb\u00e9m o movimento cresceu, passou a existir em estados onde n\u00e3o existia. Por muitos lugares onde a gente passou com a campanha, pessoas das comunidades, de associa\u00e7\u00f5es, nos procuraram para montar o MTST, porque viram que era um movimento s\u00e9rio, porque se identificaram com a pauta que o movimento levava. Ent\u00e3o a nossa campanha acumulou for\u00e7as para o MTST, para o PSOL, para o conjunto das for\u00e7as sociais que constru\u00edram ela.<\/p>\n<p><strong>E voc\u00ea viu de dentro como funciona a campanha eleitoral no Brasil. O que mudou na sua vis\u00e3o sobre esse processo?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Te digo que durante a campanha tive muito mais oportunidade de refor\u00e7ar a avalia\u00e7\u00e3o que tinha do que mudar. O sistema pol\u00edtico brasileiro \u00e9 muito desigual. A gente sabia disso estando fora dele, e agora atuando como candidato a presidente da Rep\u00fablica, eu tive a oportunidade de vivenciar isso na pele. Tempo de televis\u00e3o, recurso de campanha, cobertura da grande m\u00eddia, tudo isso \u00e9 algo impressionante. A grande m\u00eddia escolheu para quais candidatos ela dava aten\u00e7\u00e3o, dava cobertura di\u00e1ria nos telejornais, nos jornais impressos, e a outros n\u00e3o. Ent\u00e3o, o jogo \u00e9 profundamente desigual e reproduz uma distor\u00e7\u00e3o no sistema pol\u00edtico. Agora, esse nosso campo e o PSOL teve uma vit\u00f3ria importante ao atingir a cl\u00e1usula de barreira, dobrando a bancada parlamentar, como parte desse esfor\u00e7o coletivo que foi feito, nadando contra a corrente. Apesar de todas as dificuldades que uma campanha eleitoral traz para quem n\u00e3o est\u00e1 na c\u00fapula do jogo pol\u00edtico-partid\u00e1rio no Brasil.<\/p>\n<p><strong>E agora, o que se coloca para voc\u00ea? Vai atuar mais ativamente no PSOL? Quais s\u00e3o os planos?<\/strong><\/p>\n<p>A decis\u00e3o que n\u00f3s tomamos nesse momento foi de manter a alian\u00e7a que deu origem a essa candidatura. Discutimos isso com o PSOL, que teve uma reuni\u00e3o no \u00faltimo final de semana do seu diret\u00f3rio nacional, corroborou essa posi\u00e7\u00e3o por ampl\u00edssima maioria, essa decis\u00e3o tamb\u00e9m foi tomada a partir do MTST, dos movimentos que tiveram conosco e fizeram esse debate, e a nossa perspectiva \u00e9 de que essa alian\u00e7a cumpriu e cumpre um papel importante. E a gente sempre disse, ao longo do processo, que n\u00e3o era apenas uma elei\u00e7\u00e3o. Que isso n\u00e3o se encerrava no dia 7 de outubro, que o que n\u00f3s estamos construindo \u00e9 um projeto pol\u00edtico para a na\u00e7\u00e3o. N\u00f3s estamos discutindo um projeto de futuro para a sociedade brasileira, de reorganiza\u00e7\u00e3o de um campo e de uma atua\u00e7\u00e3o conjunta. Existem conflu\u00eancias pol\u00edticas importantes nesse campo, que se expressaram na candidatura, mas ap\u00f3s o processo eleitoral v\u00e3o se expressar na luta social, na forma de fazer oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao governo Bolsonaro. Ent\u00e3o essa alian\u00e7a permanece. E n\u00f3s vemos hoje um grande desafio, n\u00e3o s\u00f3 dessa alian\u00e7a, e n\u00e3o apenas da esquerda brasileira, que \u00e9 o desafio de formar uma frente ampla pela democracia no nosso pa\u00eds. Esse desafio est\u00e1 posto. E quando temos feito esse debate democr\u00e1tico nas \u00faltimas semanas, tem gente que diz: mas Bolsonaro ganhou democraticamente, voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o aceitando o resultado das urnas, isso \u00e9 conversa de perdedor, a democracia n\u00e3o est\u00e1 em risco porque houve uma elei\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Primeiro eu digo: \u00e9 verdade, Bolsonaro ganhou as elei\u00e7\u00f5es. Podemos questionar, como questionamos,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/11\/07\/0711-as-eleicoes-ja-foram-mas-a-ameaca-das-fake-news-continua\/\">as fake news<\/a>, o caixa dois que bancou empresas para fazer disparos de Whatsapp, mas ele teve a maioria dos votos. N\u00f3s n\u00e3o somos o A\u00e9cio Neves e n\u00e3o vamos cumprir esse papel rid\u00edculo que o A\u00e9cio Neves cumpriu em 2014 na hist\u00f3ria brasileira. Agora, democracia n\u00e3o \u00e9 a pessoa ir apertar um bot\u00e3o de quatro em quatro anos e ela existe um domingo a cada dois anos na vida do brasileiro. Democracia tem que ser uma pr\u00e1tica cotidiana. Bolsonaro foi eleito presidente da Rep\u00fablica, mas n\u00e3o recebeu mandato para ser ditador, nem imperador, nem para mandar a oposi\u00e7\u00e3o para a ponta da praia, para o ex\u00edlio ou para a cadeia. Ele precisa seguir a Constitui\u00e7\u00e3o, precisa respeitar as liberdades democr\u00e1ticas, as liberdades de manifesta\u00e7\u00e3o, de express\u00e3o, de imprensa. O mandato que ele recebeu inclui que ele cumpra a Constitui\u00e7\u00e3o nesses aspectos. E o que n\u00f3s temos visto com muita preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que ele, ainda como candidato, fez declara\u00e7\u00f5es absurdas, desde o elogio \u00e0 ditadura, elogio a torturador, aquele famoso discurso na Avenida Paulista, por uma live no Facebook, onde ele disse que ia varrer os vermelhos, que a oposi\u00e7\u00e3o teria essas tr\u00eas op\u00e7\u00f5es: ex\u00edlio, pris\u00e3o ou ponta da praia. E para quem n\u00e3o sabe, \u201cponta da praia\u201d \u00e9 em alus\u00e3o a uma base das For\u00e7as Armadas que foi utilizada na ditadura militar como centro de tortura de quem se opunha \u00e0 ditadura. Ent\u00e3o, quando n\u00f3s estamos falando de uma frente pela democracia, quando falamos que a luta pela democracia segue na ordem do dia, mesmo ap\u00f3s o processo eleitoral, n\u00e3o \u00e9 um questionamento do resultado das elei\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 uma defesa das liberdades democr\u00e1ticas que o presidente eleito amea\u00e7a com seu discurso e que n\u00f3s n\u00e3o podemos deixar que ele ameace com sua pr\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Guilherme, voc\u00ea j\u00e1 disse que a \u00fanica forma de acabar com o MTST \u00e9 dar casa para quem n\u00e3o tem. Queria que voc\u00ea explicasse para o nosso leitor e ouvinte qual a situa\u00e7\u00e3o da moradia, ou da falta dela, atualmente no Brasil.<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um tema fundamental e que, em geral, fica embaixo do tapete. As pessoas t\u00eam uma vis\u00e3o de que moradia \u00e9 uma quest\u00e3o de mercado. Se tem dinheiro, compra. As pessoas se esquecem que o artigo 5\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o diz que moradia \u00e9 um direito social. E sendo um direito social, o Estado tem responsabilidade por garantir um teto digno para as pessoas. No Brasil, n\u00f3s temos hoje seis milh\u00f5es e 300 mil fam\u00edlias que n\u00e3o t\u00eam acesso a moradia digna. A maior parte dessas pessoas n\u00e3o est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de rua. Esse \u00e9 um grupo que est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o ainda mais extrema. Mas a maior parte talvez sejam pessoas que est\u00e3o nos ouvindo agora. Algu\u00e9m que paga aluguel sem poder, que compromete a maior parte da sua renda, ou parte expressiva dela, para pagar aluguel no final do m\u00eas. Quantas pessoas eu j\u00e1 ouvi nesses 17 anos que estou no MTST dizendo: eu tenho que fazer uma escolha. Ou eu boto comida na mesa, ou eu compro o leite do meu filho ou eu pago o aluguel. Essa \u00e9 a realidade de milh\u00f5es de brasileiros e brasileiras. Algu\u00e9m que mora de favor na casa de algu\u00e9m, sofrendo as piores humilha\u00e7\u00f5es, morando em um c\u00f4modo de fundo. Algu\u00e9m que mora em uma \u00e1rea de risco, em uma encosta de morro, em zona de alagamento. Esses s\u00e3o os sem teto brasileiros. E \u00e9 preciso ter uma pol\u00edtica para essas pessoas porque elas n\u00e3o t\u00eam casa n\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o queiram. N\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o trabalham ou sejam vagabundas. Essas pessoas trabalham, em sua enorme maioria. Foi feita uma pesquisa pelo Dieese na ocupa\u00e7\u00e3o Povo Sem Medo, em S\u00e3o Bernardo do Campo [SP], organizada pelo MTST no ano passado. 82% dos moradores da ocupa\u00e7\u00e3o era popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa, trabalhando de algum modo. Isso \u00e9 mais do que a m\u00e9dia do estado de S\u00e3o Paulo. S\u00f3 que s\u00e3o pessoas que trabalham com \u201cbico\u201d, recebendo um sal\u00e1rio-m\u00ednimo, e recebe R$900 e deixa R$ 700 no aluguel. Trabalha catando latinha, recebe R$ 600 e deixa R$ 500 no aluguel. Porque algu\u00e9m vai para uma ocupa\u00e7\u00e3o, debaixo de lona preta, pisando no barro, carregando balde de \u00e1gua porque n\u00e3o tem \u00e1gua encanada? Algu\u00e9m faz isso porque quer? Uma m\u00e3e que leva seus filhos para essa situa\u00e7\u00e3o faz isso porque acha bonito? Porque n\u00e3o quer trabalhar? Coisa alguma. As pessoas fazem isso por completa falta de alternativa. Ningu\u00e9m faz isso porque n\u00e3o trabalha. Trabalham. S\u00f3 que apesar de passar uma vida inteira de trabalho, nunca teve a oportunidade de comprar uma casa. Essa \u00e9 a realidade de milh\u00f5es de pessoas no pa\u00eds. \u00c9 por isso que existe o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/10\/25\/mst-e-mtst-voce-realmente-conhece-essas-organizacoes\/\">Movimento Sem Teto<\/a>, por isso que existe ocupa\u00e7\u00f5es, a luta por moradia. E sobre as ocupa\u00e7\u00f5es, \u00e9 importante que a gente diga o seguinte: o movimento n\u00e3o vai ocupar a casa de ningu\u00e9m. As pessoas t\u00eam esse mito e isso \u00e9 refor\u00e7ado pelas mentiras, pelas fake news, outro dia o Bolsonaro usou isso, usando de maneira descarada uma ironia que eu fiz dizendo que \u00edamos invadir a casa dele. E falou isso em uma live, falou no Fant\u00e1stico, em n\u00e3o sei onde mais. E isso refor\u00e7a uma ideia de que o Movimento Sem Teto vai chegar na casa das pessoas, arrombar a porta e invadir. Nada mais falso. Jamais o movimento social fez isso. O movimento ocupa grandes terrenos ou pr\u00e9dios que est\u00e3o abandonados h\u00e1 muito tempo, que devem imposto, alguns deles, grilados, em situa\u00e7\u00e3o completamente ilegal, porque a Constitui\u00e7\u00e3o diz que a propriedade tem que cumprir uma fun\u00e7\u00e3o social. Porque o Estatuto das Cidades regulamenta isso e determina que terrenos ociosos ou pr\u00e9dios abandonados sejam desapropriados para moradia popular ap\u00f3s cinco anos com IPTU progressivo. Isso nunca foi feito no pa\u00eds. Porque no Brasil tem lei que pega e lei que n\u00e3o pega. Quando enfrenta interesse de super ricos, da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, de grande empreiteira, n\u00e3o pega. A atua\u00e7\u00e3o do movimento social \u00e9 para que pegue. \u00c9 pegar esses terrenos que est\u00e3o abandonados, \u00e9 fazer a lei ser cumprida, essa \u00e9 a luta do MTST e \u00e9 a luta do MST no campo, com latif\u00fandios improdutivos, com reforma agr\u00e1ria que est\u00e1 prevista na Constitui\u00e7\u00e3o. Ou algu\u00e9m acha que um trabalhador rural, que \u00e0s vezes foi expulso da sua terra, um trabalhador boia fria vai ficar na beira de uma estrada, debaixo de uma barraca de lona porque quer? Essa \u00e9 a realidade dos movimentos sociais. Essas pessoas n\u00e3o s\u00e3o terroristas, n\u00e3o s\u00e3o vagabundas, e isso que a gente precisa dizer para a popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p><strong>A gente viu recentemente a aprova\u00e7\u00e3o de um aumento para os servidores do judici\u00e1rio quando, do outro lado, o or\u00e7amento para programas como o Minha Casa Minha Vida (MCMV) tem sofrido cortes enormes. Como voc\u00ea avalia isso?<\/strong><\/p>\n<p>A gente sabe da injusti\u00e7a, mas quando a gente v\u00ea a injusti\u00e7a, quando a gente identifica, \u00e9 outra coisa. Esse aumento do Judici\u00e1rio custar\u00e1 quatro bilh\u00f5es para o or\u00e7amento brasileiro no ano que vem. Quatro bilh\u00f5es de reais dava para construir no Brasil 50 mil casas. Quatro bilh\u00f5es de reais dava para iniciar o processo, em um ano, de universaliza\u00e7\u00e3o da internet no Brasil, gratuita. Se a gente for comparar as disparidades que existem, ficamos assustados. O aux\u00edlio-moradia para o Judici\u00e1rio, deputados e senadores custa mais de um bilh\u00e3o de reais. Tem um caso escandaloso de um desembargador aqui de S\u00e3o Paulo que tem sessenta e tantos im\u00f3veis pr\u00f3prios e recebem aux\u00edlio-moradia com dinheiro p\u00fablico. E eles alegam que n\u00e3o tem dinheiro para moradia popular em meio \u00e0 crise. Vamos ser justos, o enxugamento de recursos do<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/06\/05\/movimentos-populares-denunciam-paralisacao-do-minha-casa-minha-vida\/\">\u00a0Minha Casa Minha Vida<\/a>\u00a0come\u00e7ou ainda no governo Dilma. Em 2015, a pol\u00edtica de ajuste fiscal levada a cabo pela Dilma e o Joaquim Levy, que agora, n\u00e3o por acaso, virou presidente do BNDES no governo Bolsonaro fizeram um corte brutal no Minha Casa Minha Vida. O Temer em 2016 e 2017 manteve esse corte, agora em 2018 tamb\u00e9m. As contrata\u00e7\u00f5es n\u00e3o se encerraram, mas foi a conta-gotas, muito aqu\u00e9m da demanda do pa\u00eds, n\u00e3o atendendo sequer o que estava represado desde 2015. 80% do deficit habitacional brasileiro s\u00e3o fam\u00edlias que ganham menos de tr\u00eas sal\u00e1rios-m\u00ednimos, que muitas vezes n\u00e3o t\u00eam como comprovar renda para fazer um financiamento imobili\u00e1rio. Essas pessoas que precisam ser atendidas por um programa habitacional popular. E a faixa do MCMV que atende essas pessoas \u00e9 a chamada faixa 1, que est\u00e1 seca, e que o Paulo Guedes, homem forte da economia do Bolsonaro, j\u00e1 disse que quer acabar com isso. E que vai manter s\u00f3 a faixa 2, que \u00e9, na verdade, uma linha de cr\u00e9dito, uma linha de financiamento imobili\u00e1rio, n\u00e3o um programa social. N\u00e3o atende aqueles que mais precisam. Ent\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o do MCMV hoje \u00e9 de quase uma morte por inani\u00e7\u00e3o, apesar de toda a resist\u00eancia que t\u00eam feito os movimentos sociais de luta pela moradia.<\/p>\n<p><strong>Na quinta-feira, dia 8 de novembro, voc\u00ea esteve em Curitiba, na sede da Superintend\u00eancia da Pol\u00edcia Federal, visitando o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. Como foi esse encontro e sobre o que conversaram?<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/11\/08\/boulos-a-vigilia-lula-livre-democracia-nao-e-so-eleicao\/\">Foi uma visita de solidariedade.<\/a>\u00a0Eu n\u00e3o tinha podido durante esses sete meses visitar o Lula, porque eu estava em campanha eleitoral. E fui levar, mais uma vez, a nossa solidariedade, a nossa compreens\u00e3o de que o Lula \u00e9 um preso pol\u00edtico, algu\u00e9m que est\u00e1 preso injustamente e o nosso compromisso com sua liberdade como uma luta democr\u00e1tica. Foi uma conversa de refor\u00e7o dessa rela\u00e7\u00e3o e desse compromisso. Encontrei o Lula bem, apesar, evidentemente, de ser v\u00edtima dessa situa\u00e7\u00e3o, de estar sofrendo com essa situa\u00e7\u00e3o, preocupado com os destinos do pa\u00eds, mas bem fisicamente, bem psicologicamente e com uma lucidez pol\u00edtica muito importante.<\/p>\n<p><strong>E o respons\u00e1vel pela pris\u00e3o de Lula agora ser\u00e1 o Ministro da Justi\u00e7a do governo Bolsonaro. Como voc\u00ea viu essa indica\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que isso fechou o ciclo. Do ponto de vista imediato, foi uma express\u00e3o da vit\u00f3ria que tiveram nas urnas. Mas do ponto de vista da hist\u00f3ria, foi o maior tiro no p\u00e9 que eles poderiam dar. E a pr\u00f3pria imprensa internacional, que est\u00e1 mais distante da luta pol\u00edtica imediata no Brasil, que n\u00e3o vai tomar um partido mais direto de A ou B, refletiu isso com perplexidade. N\u00e3o lembro qual dos grandes jornais que publicou uma manchete que dizia: juiz que prendeu o presidente Lula \u00e9 contratado para participar do governo do seu advers\u00e1rio pol\u00edtico. Foi isso que aconteceu.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/10\/31\/indicacao-de-moro-a-ministerio-ou-stf-expoe-parcialidade-da-lava-jato\/\">Algu\u00e9m que foi respons\u00e1vel por tirar o Lula das elei\u00e7\u00f5es<\/a>\u00a0no momento em que ele era o l\u00edder nas pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto se beneficiou de maneira direta dessa decis\u00e3o, porque agora vai participar como Ministro da Justi\u00e7a de um governo que foi eleito, em uma medida importante, tamb\u00e9m por essa medida de retirar o Lula do processo eleitoral. Agora, h\u00e1 um agravante nisso que precisa ser investigado. O [General Hamilton] Mour\u00e3o, vice-presidente eleito, e que n\u00e3o cont\u00e9m as suas palavras, \u00e9 um boquirroto contumaz, declarou que o Paulo Guedes teria procurado o S\u00e9rgio Moro ainda durante o processo eleitoral para fazer o convite. O Moro, em uma entrevista recente, disse que foi no segundo turno, tentando corrigir. Precisamos saber se foi. Porque se essa procura foi feita ainda no primeiro turno, antes do Moro soltar aquelas dela\u00e7\u00f5es do [Ant\u00f4nio] Palocci, ou seja, ele teria atuado como juiz para intervir num processo pol\u00edtico do qual ele se beneficiou diretamente. Isso precisa ser investigado.<\/p>\n<p><strong>No \u00faltimo dia 11 de novembro, a reforma trabalhista do governo Temer completou um ano. Como voc\u00ea avalia os resultados dela?<\/strong><\/p>\n<p>Olha, eles disseram que a reforma seria para garantir empregos retirando direitos. Ela retirou direitos e n\u00e3o garantiu empregos.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/09\/19\/ministerio-do-trabalho-confirma-a-reforma-trabalhista-e-um-desastre\/\">Esse \u00e9 o saldo desastroso da reforma do Temer<\/a>. E n\u00f3s diz\u00edamos isso l\u00e1 atr\u00e1s. O Bolsonaro agora insiste nesse discurso e fala em aprofundar a reforma trabalhista com a tal \u201ccarteira de trabalho verde e amarela\u201d, que \u00e9 a formaliza\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o de direitos. \u00c9 incr\u00edvel a que ponto chega o cinismo das pessoas. Eles diziam: retira-se direitos, ent\u00e3o a iniciativa privada vai investir e isso vai gerar empregos. Isso n\u00e3o aconteceu porque o chamado \u201ccusto Brasil\u201d n\u00e3o \u00e9 o maior fator que faz com que o investimento n\u00e3o aconte\u00e7a no Brasil. O que faz com que a taxa de investimento esteja baixa no Brasil hoje \u00e9, sobretudo, uma aus\u00eancia de perspectiva de futuro, uma aus\u00eancia de estabilidade, de saber para onde vai o pa\u00eds. Nenhum pa\u00eds, jamais, saiu de qualquer crise econ\u00f4mica sem investimento p\u00fablico. O Estado \u00e9 o motor da recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, e isso n\u00e3o tem nada a ver com socialismo. Nos Estados Unidos, na crise de 2008 o Estado fez isso. Para sair de crise, o Estado precisa reorganizar a economia e fazer investimento p\u00fablico. Isso \u00e9 o que gera uma perspectiva de longo prazo. Por exemplo: se voc\u00ea tem um plano de investimentos para o Minha Casa Minha Vida para os pr\u00f3ximos cinco anos de R$ 100 bilh\u00f5es ao ano. Isso \u00e9 uma garantia para todos que est\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o civil de que o mercado estar\u00e1 aquecido. Isso estimula investimentos de todas as \u00e1reas econ\u00f4micos do entorno da constru\u00e7\u00e3o civil, desde construtoras at\u00e9 quem produz piso, quem trabalha com ferro, quem trabalha com alimenta\u00e7\u00e3o para servir em obra. \u00c9 isso que d\u00e1 garantia e faz com que o setor privado retome investimentos. Quando o poder p\u00fablico zera investimentos no Brasil, e \u00e9 o que tem acontecido, isso gera total falta de perspectiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Se voc\u00ea \u00e9 um pequeno empres\u00e1rio que quer investir na \u00e1rea de constru\u00e7\u00e3o, voc\u00ea vai se sentir seguro para ampliar os seus neg\u00f3cios e contratar mais gente, ainda que de forma precarizada, se voc\u00ea n\u00e3o tiver clareza se h\u00e1 um mercado consumidor, se voc\u00ea n\u00e3o tiver clareza se o Estado vai resguardar isso, se h\u00e1 seguran\u00e7a jur\u00eddica? A pol\u00edtica de ajuste fiscal que eles prop\u00f5em gera um desajuste fiscal, o que \u00e9 mais grave. Eles est\u00e3o h\u00e1 quatro anos, sem parar, fazendo a pol\u00edtica de tesoura. S\u00f3 cortes. Cortes nas \u00e1reas sociais, cortes nos investimentos p\u00fablicos de forma geral. Quando se corta, a economia movimenta menos dinheiro, contrata menos, gera mais desemprego, as pessoas consomem menos e o Estado arrecada menos imposto no ano seguinte. Ent\u00e3o o ajuste fiscal gera um desajuste porque reduz a arrecada\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso que n\u00f3s temos vivido. Eles cortam, cortam, cortam, e o deficit p\u00fablico continua. E \u00e9 evidente. Vai continuar e vai se aprofundar, jogando o pa\u00eds no buraco e aumentando o desemprego. N\u00e3o \u00e9 cortando direito que vai se resolver isso, pelo contr\u00e1rio, as pessoas tendo mais direitos, mais garantias, tendo 13\u00ba sal\u00e1rio, tendo aquilo que a lei assegura, tendo trabalho com carteira assinada, um sal\u00e1rio digno, isso \u00e9, inclusive, um fator de mobiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. \u00c9 isso que precisa ser feito, esse \u00e9 o nosso projeto. O projeto do Jair Bolsonaro junto com o Paulo Guedes \u00e9 de aprofundamento de toda a desgra\u00e7a econ\u00f4mica que o Temer fez e isso, evidentemente, n\u00e3o tem como n\u00e3o gerar decep\u00e7\u00e3o e desilus\u00e3o em parte da sociedade que votou em Jair Bolsonaro. E n\u00f3s temos que continuar dialogando com esses trabalhadores, com essa parte da sociedade brasileira, mostrando qual \u00e9 o caminho para uma recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de verdade. N\u00e3o \u00e9 com menos direitos, \u00e9 com mais direitos.<\/p>\n<p><strong>E por a\u00ed vem uma reforma da Previd\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p>A reforma trabalhista e a reforma da Previd\u00eancia est\u00e3o ligadas de maneira perversa. Porque veja: quando se faz reforma trabalhista, se retira milh\u00f5es de trabalhadores da formalidade. Os empregos que tem sido gerados no Brasil, no \u00faltimo ano, em sua enorme maioria foram empregos informais, sem carteira assinada. O que acontece quando voc\u00ea tira da formalidade e coloca na informalidade? A Previd\u00eancia arrecada menos. As pessoas contribuem com a Previd\u00eancia atrav\u00e9s de um emprego formal. A Previd\u00eancia arrecadando menos voc\u00ea aprofunda o problema previdenci\u00e1rio que eles usam como justificativa para fazer a reforma. Olha o absurdo da coisa!\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/09\/21\/reforma-da-previdencia-trabalhadores-rurais-serao-os-mais-prejudicados\/\">A quest\u00e3o da Previd\u00eancia precisa ser tocada<\/a>. Evidentemente quando o pa\u00eds envelhece, voc\u00ea tem uma mudan\u00e7a da pir\u00e2mide et\u00e1ria, o sistema de sustenta\u00e7\u00e3o da Previd\u00eancia precisa ser discutido aqui ou em qualquer outro lugar do mundo. Mas n\u00e3o \u00e9 retirando direitos, \u00e9 mexendo em privil\u00e9gios. N\u00f3s queremos fazer um debate sobre Previd\u00eancia, mas fazer um debate sobre Previd\u00eancia acabando com desonera\u00e7\u00f5es em folha de empres\u00e1rios que reduzem a arrecada\u00e7\u00e3o, pondo fim \u00e0 DRU \u2013 Desvincula\u00e7\u00e3o de Receitas da Uni\u00e3o \u2013 que retira um ter\u00e7o de todos os recursos que deveriam ir para a Seguridade Social e para a Previd\u00eancia, muitas vezes para pagar juros da d\u00edvida p\u00fablica, para desviar para outras \u00e1reas. N\u00f3s queremos debater sobre Previd\u00eancia, enfrentando privil\u00e9gios das c\u00fapulas dos poderes, supersal\u00e1rios, aposentadorias especiais, juiz que recebe aux\u00edlio-moradia tendo casa, outros tipos de aux\u00edlios inaceit\u00e1veis, inclusive em setores militares. Imagine que, proporcionalmente, o \u00f4nus da Previd\u00eancia militar \u00e9 muito maior do que a do setor civil. N\u00e3o \u00e9 acabando com a aposentadoria rural. Isso \u00e9 uma covardia. N\u00e3o \u00e9 mexendo com benef\u00edcio de presta\u00e7\u00e3o continuada, outra covardia. Querendo pegar a aposentadoria de um, dois sal\u00e1rios-m\u00ednimos de quem trabalhou a vida inteira, aumentando o tempo de contribui\u00e7\u00e3o, aumentando idade m\u00ednima. Isso \u00e9 um disparate. E olha, o que eles est\u00e3o come\u00e7ando a lan\u00e7a \u00e9 ainda pior. A reforma do Temer pode se tornar fichinha perto da proposta de Paulo Guedes. Eles est\u00e3o falando em sistema de capitaliza\u00e7\u00e3o.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/11\/06\/pinochet-criou-exemplo-a-nao-ser-seguido-no-brasil-diz-historiadora\/\">Procurem saber o que aconteceu depois da reforma previdenci\u00e1ria no Chile.\u00a0<\/a>Centenas de milhares de idosos jogados na mis\u00e9ria, nas ruas de Santiago e de outras cidades do Chile, no sem\u00e1foro, pedindo esmola para poder comer porque acabaram com o regime de reparti\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria, de solidariedade geracional, que \u00e9 o nosso regime e botaram a capitaliza\u00e7\u00e3o completa. O que \u00e9 a capitaliza\u00e7\u00e3o? Voc\u00ea vai ter aposentadoria se voc\u00ea pagar para ter. Se voc\u00ea poupar durante a sua vida labora, voc\u00ea ter\u00e1 aposentadoria. Se voc\u00ea n\u00e3o pagou para ter, meu amigo, se vira, trabalhe at\u00e9 os 110 anos de idade.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o podemos deixar de falar do assassinato da vereadora do PSOL do Rio de Janeiro, Marielle Franco, que completa oito meses sem solu\u00e7\u00e3o. O que voc\u00ea tem a dizer sobre esse caso?<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/03\/15\/marielle-franco-or-ser-mulher-negra-e-resistir-e-sobreviver-o-tempo-todo\/\">O assassinato da Marielle foi um marco da viol\u00eancia pol\u00edtica<\/a>, da barb\u00e1rie tomando conta da discuss\u00e3o pol\u00edtica no Brasil. O assassinato da Marielle anunciou, inclusive, o que foi essa campanha eleitoral. A impunidade em rela\u00e7\u00e3o ao assassinato da Marielle \u00e9 t\u00e3o grave quanto o assassinato. \u00c9 inacredit\u00e1vel que, depois de oito meses, um crime que ganhou propor\u00e7\u00f5es internacionais, um crime pol\u00edtico, continue impune. Esse foi um crime pol\u00edtico, afinal de contas ela era vereadora, porque ela tinha posi\u00e7\u00f5es firmes, tamb\u00e9m porque era uma mulher, negra, l\u00e9sbica. E a pol\u00edtica \u00e9 fechada, cada vez mais, a essas v\u00e1rias express\u00f5es da diversidade no nosso pa\u00eds. E a Marielle, nesse lugar, teve um papel de combatividade incr\u00edvel. Uma das lideran\u00e7as pol\u00edticas mais promissoras do Rio de Janeiro e do Brasil. Foi assassinada de forma brutal, covarde, em um crime pol\u00edtico, e oito meses depois, as investiga\u00e7\u00f5es n\u00e3o levam a resultado algum. \u00c9 inacredit\u00e1vel que a gente esteja em uma situa\u00e7\u00e3o como essa. E sabe qual \u00e9 a senha, a mensagem que isso passa? \u00c9 como se fosse um salvo-conduto, pode tudo. Um crime que ganhou essa repercuss\u00e3o, com uma lideran\u00e7a pol\u00edtica expressiva, n\u00e3o se descobriu e ficou por isso mesmo, ent\u00e3o parece que pode pegar o padre e a freira que atuam no conflito de terras no Par\u00e1 e matar que n\u00e3o vai acontecer nada. Pode pegar a lideran\u00e7a sem terra, a lideran\u00e7a sem teto, o sindicalista, pode tudo. Se o crime contra Marielle n\u00e3o for esclarecido, a mensagem que o Estado brasileiro estar\u00e1 dando para a sociedade \u00e9 que liberou geral.<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Guilherme Henrique<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Guilherme Boulos concedeu entrevista exclusiva ao programa No Jardim da Pol\u00edtica, da R\u00e1dio Brasil de Fato. Jos\u00e9 Eduardo Bernardes<\/p>\n<p>https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/11\/17\/boulos-democracia-nao-e-apertar-um-botao-de-quatro-em-quatro-anos\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21404\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[268],"tags":[219],"class_list":["post-21404","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eleicoes-2018","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5ze","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21404","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21404"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21404\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21404"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21404"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21404"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}