{"id":21429,"date":"2018-11-21T10:04:18","date_gmt":"2018-11-21T12:04:18","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21429"},"modified":"2018-11-21T10:04:18","modified_gmt":"2018-11-21T12:04:18","slug":"cartas-de-prestes-e-olga-fazem-parte-de-patrimonio-publico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21429","title":{"rendered":"Cartas de Prestes e Olga fazem parte de patrim\u00f4nio p\u00fablico"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/nocaute.blog.br\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/Captura-de-Tela-2018-11-20-a%CC%80s-13.55.27.png\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Mario Magalh\u00f5es<\/p>\n<p><b><em>Em reportagem exclusiva para o blog The Intercept, o jornalista e escritor M\u00e1rio Magalh\u00e3es descobriu que o lote de cartas de Lu\u00eds Carlos Prestes e sua mulher Olga que ser\u00e3o leiloadas esta semana por R$ 350 mil t\u00eam sinais claros de que foram subtra\u00eddas de arquivos p\u00fablicos. O dono diz que achou o lote no lixo.<\/em><\/b><\/p>\n<p>AS 319 CARTAS endere\u00e7adas ao l\u00edder comunista Luiz Carlos Prestes (1898-1990) que v\u00e3o a leil\u00e3o na quinta-feira pertenceram a acervo p\u00fablico n\u00e3o identificado, de onde teriam sido extraviadas em passado pr\u00f3ximo ou long\u00ednquo. O lance m\u00ednimo para arrematar o lote \u00e9 de R$ 350 mil.<\/p>\n<p>A correspond\u00eancia come\u00e7a em 1936, ano em que Prestes foi preso em mar\u00e7o, e termina em 1945, quando a anistia o libertou em abril (uma missiva de 1946 \u00e9 exce\u00e7\u00e3o). Entre os remetentes est\u00e3o sua companheira, a alem\u00e3 Olga Benario; a m\u00e3e, Leoc\u00e1dia; a irm\u00e3 Lygia; e outros parentes e amigos.<\/p>\n<p>A leiloeira Soraia Cals anunciou que, como se ignora o nome do propriet\u00e1rio original dos documentos, eles ser\u00e3o vendidos \u201csob reserva de direitos\u201d de pessoa ou institui\u00e7\u00e3o que mais tarde venha a reivindicar a posse. O Intercept descobriu ind\u00edcios de que a cole\u00e7\u00e3o epistolar a ser apregoada depois de amanh\u00e3 constitui patrim\u00f4nio p\u00fablico subtra\u00eddo. Logo, n\u00e3o poderia ser leiloada.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 uma carta de 4 de abril de 1936 de Olga para Prestes em que ela informa sua gravidez. A revolucion\u00e1ria alem\u00e3 estava encarcerada numa cadeia da rua Frei Caneca, no Rio. O marido, no quartel da Pol\u00edcia Especial, no morro de Santo Ant\u00f4nio, regi\u00e3o central da cidade. O plano de revolu\u00e7\u00e3o que trouxera os dois ao Brasil malograra em novembro do ano anterior. O casal foi preso no dia 5 de mar\u00e7o, no sub\u00farbio de Todos os Santos. Em setembro, o governo de Getulio Vargas e o STF entregaram Olga para a Gestapo. Ela era comunista e judia. Os nazistas a mataram em 1942, no campo de exterm\u00ednio de Bernburg. A filha dela e de Prestes, Anita Leoc\u00e1dia, nascera em Berlim em novembro de 1936.<\/p>\n<p>As mensagens trocadas por Olga e Prestes enquanto estiveram presos no Rio foram preservadas pela pol\u00edcia pol\u00edtica do antigo Distrito Federal. Na primeira metade da d\u00e9cada de 1990, seu acervo foi encaminhado para o Aperj (Arquivo P\u00fablico do Estado do Rio de Janeiro).<\/p>\n<p>A folha \u00fanica escrita em franc\u00eas em que Olga conta estar gr\u00e1vida n\u00e3o integra, contudo, o prontu\u00e1rio 1.675 da pol\u00edcia, dedicado \u00e0 militante. Essa carta ir\u00e1 a leil\u00e3o. Ela tem uma anota\u00e7\u00e3o a l\u00e1pis, \u201c9-IV\u201d, ou 9 de abril. Deve ser a data em que Prestes a recebeu. \u00c9 a mesma da resposta do \u201cCavaleiro da Esperan\u00e7a\u201d, conservada pelo Arquivo P\u00fablico: \u201cNestas linhas n\u00e3o posso traduzir tudo o que sinto e estou mesmo incapaz de escrever as palavras que digam algo sobre o imenso afeto que nos une\u201d.<\/p>\n<p><strong>Carimbos oficiais<\/strong><br \/>\nO Intercept observou o lote 323, com a correspond\u00eancia, em exposi\u00e7\u00e3o pr\u00e9-leil\u00e3o em Copacabana. S\u00e3o numerosos os sinais de que compunha acervo p\u00fablico policial ou prisional. Muitos envelopes est\u00e3o catalogados com o n\u00famero \u201c13\u201d manuscrito em l\u00e1pis azul. Carimbos de \u201cCensura\u201d, da Casa de Corre\u00e7\u00e3o ou da Penitenci\u00e1ria Central do Distrito Federal, marcam os pap\u00e9is. Mostram que as mensagens, liberadas ou n\u00e3o para o destinat\u00e1rio, eram monitoradas pelas autoridades. Veem-se \u201cvistos\u201d registrados por funcion\u00e1rios p\u00fablicos, id\u00eantico procedimento aplicado \u00e0 papelada sob guarda do Aperj. Com l\u00e1pis grafite, datas foram inscritas sobre os documentos, nos moldes de nota\u00e7\u00f5es arquiv\u00edsticas.<\/p>\n<p>Esse tesouro hist\u00f3rico \u00e9 formado por pe\u00e7as originais. De acordo com o jornal O Globo, que no domingo dedicou tr\u00eas p\u00e1ginas ao assunto, o lote inclui uma carta que Olga escreveu para Prestes, em maio de 1940. Trecho: \u201cComo eu poderia descrever pelo menos uma fra\u00e7\u00e3o dos sentimentos e pensamentos que suas lindas palavras despertaram em mim?\u201d.<\/p>\n<p>O Intercept constatou que essa carta de 14 de maio de 1940 foi publicada num livro de 2002, o \u00faltimo dos tr\u00eas volumes com a correspond\u00eancia enviada e recebida por Prestes de 1936 a 1945. A organiza\u00e7\u00e3o da trilogia foi de Anita Leoc\u00e1dia, historiadora, e sua tia Lygia. A edi\u00e7\u00e3o, do Aperj e da Paz e Terra.<\/p>\n<p>Como a carta original foi parar no leil\u00e3o? Em mensagem a O Globo, Anita Leoc\u00e1dia disse que \u201ca correspond\u00eancia do meu pai durante os nove anos de sua pris\u00e3o no Rio de Janeiro [\u2026] se encontra arquivada no Aperj\u201d. Uma carta redigida em alem\u00e3o por Olga e que ser\u00e1 leiloada tem data de 26 de outubro de 1939. A m\u00e3e de Anita penava no campo de concentra\u00e7\u00e3o de Ravensbr\u00fcck.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi raro, outrora, o sumi\u00e7o de documentos do acervo das pol\u00edcias pol\u00edticas do \u00e0 \u00e9poca DF e de suas sucessoras dos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro. O delegado Cecil Borer foi o principal idealizador e organizador do arquivo. Em 2001, ele me disse ter esvaziado a maior parte do prontu\u00e1rio do governador Carlos Lacerda (esvaziou mesmo). \u00c9 desconhecido o autor do desaparecimento de farto conte\u00fado da pasta do ex-presidente Jo\u00e3o Goulart (nem se isso ocorreu depois ou, mais prov\u00e1vel, antes da transfer\u00eancia para o Aperj). A do governador Leonel Brizola sumiu.<\/p>\n<p>No Arquivo P\u00fablico permanece muita hist\u00f3ria. No prontu\u00e1rio de Olga, descobre-se sua altura, 1,75 metro (bem mais alta do que Prestes). Que ela, mesmo gr\u00e1vida, perdeu 12 quilos na pris\u00e3o (67 para 55). Que no inverno carioca fez um pul\u00f4ver de tric\u00f4 para o marido. \u201cH\u00e1 indica\u00e7\u00f5es de que teremos um menino\u201d, avisou. E que na derradeira carta antes de o navio \u201cLa Corun\u00e3\u201d atracar no porto alem\u00e3o de Hamburgo a prisioneira escreveu: \u201cCarlos, prometo que vou resistir enquanto eu tiver for\u00e7as e me mostrar digna de ti e de nossa causa\u201d.<\/p>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es do par\u00e1grafo acima foram publicadas em 11 de janeiro de 2003 pela Folha de S. Paulo, na reportagem \u201c<strong>O ba\u00fa de Olga<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p><b>Cartas \u2018encontradas no lixo\u2019<\/b><\/p>\n<p>A descoberta das cartas teria sido acaso, conforme O Globo: \u201cUm catador passou pela lixeira antes da equipe da Comlurb e as levou a um negociante de antiguidades da Pra\u00e7a Quinze\u201d. O jornal\u00a0<strong>entrevistou dois vendedores<\/strong>\u00a0da feira de antiguidades que teriam manipulado a correspond\u00eancia depois de resgatada do lixo. Um deles \u00e9 o dono do material.<\/p>\n<p>A leiloeira Soraia Cals disse ao\u00a0<strong>Intercept<\/strong>\u00a0que sua \u201chip\u00f3tese \u00e9 a correspond\u00eancia ter sido guardada na casa de algu\u00e9m. Essa pessoa morreu, e a fam\u00edlia colocou no lixo\u201d. Sobre a possibilidade de comprova\u00e7\u00e3o de que se trata de documenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica, portanto pertencente ao Estado, declarou: \u201cA gente tem que apurar\u201d.<\/p>\n<p>A historiadora Maria Teresa Villela Bandeira de Mello, diretora do Aperj, afirmou que o arquivo \u201ctentar\u00e1 medidas para impedir o leil\u00e3o at\u00e9 que a proced\u00eancia da documenta\u00e7\u00e3o esteja esclarecida\u201d. Levantamento inicial feito ontem n\u00e3o percebeu falta de documentos.<\/p>\n<p>Bi\u00f3grafo de Olga, o jornalista e escritor Fernando Morais prefere que a cole\u00e7\u00e3o permane\u00e7a em arquivo p\u00fablico. \u201cSe isso for parar na m\u00e3o de particulares, n\u00e3o ser\u00e1 um crime apenas contra o Estado, mas contra a sociedade. Quem quiser pesquisar sobre esse per\u00edodo da hist\u00f3ria do Brasil, vai ter que pedir por favor ao dono do acervo\u201d.<\/p>\n<p><b>Fonte: Nocaute<\/b><\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"PxC7Qcptpp\"><p><a href=\"https:\/\/nocaute.blog.br\/2018\/11\/20\/cartas-de-prestes-e-olga-que-vao-a-leilao-fazem-parte-de-patrimonio-publico\/\">Cartas de Prestes e Olga que v\u00e3o a leil\u00e3o fazem parte de patrim\u00f4nio p\u00fablico<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/nocaute.blog.br\/2018\/11\/20\/cartas-de-prestes-e-olga-que-vao-a-leilao-fazem-parte-de-patrimonio-publico\/embed\/#?secret=PxC7Qcptpp\" data-secret=\"PxC7Qcptpp\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Cartas de Prestes e Olga que v\u00e3o a leil\u00e3o fazem parte de patrim\u00f4nio p\u00fablico&#8221; &#8212; Nocaute\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21429\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[221],"class_list":["post-21429","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5zD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21429","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21429"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21429\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21429"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21429"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21429"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}