{"id":21458,"date":"2018-11-25T22:59:08","date_gmt":"2018-11-26T00:59:08","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21458"},"modified":"2018-11-25T22:59:08","modified_gmt":"2018-11-26T00:59:08","slug":"a-mobilizacao-dos-coletes-amarelos-na-franca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21458","title":{"rendered":"A mobiliza\u00e7\u00e3o dos &#8220;coletes amarelos&#8221; na Fran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/franca\/imagens\/gilets_jaunes_19nov18_60pc.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por R\u00e9my Herrera<\/p>\n<p><i>\u00c9 uma mobiliza\u00e7\u00e3o de massa profundamente nova a que surgiu nestas \u00faltimas semanas em Fran\u00e7a: a dos &#8220;coletes amarelos&#8221;. O vestu\u00e1rio de alta visibilidade (todo motorista deve ter um a bordo do ve\u00edculo, por seguran\u00e7a) \u00e9 usado como sinal unificador. Centenas de milhares de franceses manifestam assim a sua desaprova\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do presidente Emmanuel Macron.<\/i><\/p>\n<p>Trata-se de uma mobiliza\u00e7\u00e3o nova pela sua origem, sua amplitude e suas formas de rebeli\u00e3o popular. Tudo come\u00e7ou em pequena escala no fim de outubro atrav\u00e9s de uma simples peti\u00e7\u00e3o c\u00edvica, sem etiqueta partid\u00e1ria nem sindical, sem l\u00edderes nem organiza\u00e7\u00f5es, difundida nas redes sociais. Ela reclamava a anula\u00e7\u00e3o do aumento do imposto sobre o combust\u00edvel decidido recentemente pelo governo. Alguns dias mais tarde, cerca de um milh\u00e3o de pessoas o haviam assinado e palavras de ordem come\u00e7avam a apelar ao &#8220;bloqueio do pa\u00eds&#8221;. O movimento de protesto, que se referia inicialmente ao pre\u00e7o da gasolina e o peso dos impostos, estendeu-se muito rapidamente &#8220;\u00e0 vida cara&#8221;, ao &#8220;fraco poder de compra&#8221;, \u00e0s &#8220;grandes lojas a boicotar&#8221;, para se concentrar finalmente numa palavra de ordem clara:\u00a0<i>&#8220;Macron d\u00e9mission!&#8221;.\u00a0<\/i>O ponto comum destas contesta\u00e7\u00f5es, fundindo todos os protestos, era exprimir um mal estar generalizado, uma insatisfa\u00e7\u00e3o de fundo da popula\u00e7\u00e3o, uma recusa das desigualdades sociais causadas pela aplica\u00e7\u00e3o do projeto neoliberal.<\/p>\n<p><i>O paroxismo foi atingido no s\u00e1bado 17 de novembro: cerca de 280 mil &#8220;coletes amarelos&#8221; (segundo os n\u00fameros da pol\u00edcia), espalhados em mais de 2000 com\u00edcios no conjunto do territ\u00f3rio franc\u00eas, bloqueavam o acesso a eixos rodovi\u00e1rios nevr\u00e1lgicos, esta\u00e7\u00f5es rodovi\u00e1rias ou supermercados. Inexperientes na maior parte, sa\u00eddos espontaneamente \u00e0 rua, eles muitas vezes estavam participando da sua primeira a\u00e7\u00e3o \u2013 menos de 10% das manifesta\u00e7\u00f5es foram declaradas \u00e0s prefeituras. Em muitas aldeias das zonas rurais foi mesmo a primeir\u00edssima vez que houve uma manifesta\u00e7\u00e3o. O balan\u00e7o da jornada salda-se por uma morte (uma infeliz mulher de colete amarelo atropelada por uma condutora que perdeu o controle do seu ve\u00edculo), cerca de 500 feridos, dos quais uma dezena gravemente (e 93 policiais), mais de 280 interpela\u00e7\u00f5es por &#8220;atos de viol\u00eancia&#8221; (na maioria motoristas que for\u00e7aram as barreiras nas ruas)&#8230;<\/i><\/p>\n<p>Em Paris, numa bagun\u00e7a indescrit\u00edvel \u2013 e incontrol\u00e1vel pelas for\u00e7as da ordem \u2013 uma multid\u00e3o de v\u00e1rias dezenas de milhares de &#8220;coletes amarelos&#8221;, extremamente heterog\u00eanea e absolutamente inclassific\u00e1vel, reunindo adultos jovens (por vezes com os seus filhos), aposentados (inclusive av\u00f3s exasperadas pela baixa das suas pens\u00f5es), empregados de escrit\u00f3rio, oper\u00e1rios, artes\u00e3os, motociclistas, empregados de servi\u00e7os de entrega, motoristas de t\u00e1xi, funcion\u00e1rios, assistentes de cuidados de sa\u00fade, alunos do liceu, jovens empres\u00e1rios, mulheres de v\u00e9u, jovens da periferia, rastaf\u00e1ris com seus penteados, pessoas de todas as cores e religi\u00f5es, de todas as camadas populares, desfilavam numa desordem incr\u00edvel nos Campos El\u00edseos cantando\u00a0<i>A Marselhesa, &#8220;Paris, de p\u00e9, levanta-te&#8221;\u00a0<\/i>e, naturalmente&#8230;\u00a0<i>&#8220;Macron d\u00e9mission!&#8221;.\u00a0<\/i><\/p>\n<p>M\u00faltiplos pequenos grupos de &#8220;coletes amarelos&#8221;, improvisados, chegando de toda a parte, muitos motorizados, conseguiam for\u00e7ar uma passagem e contornar \u2013 sem viol\u00eancia \u2013 as linhas de pol\u00edcias e gendarmes, ultrapassados por toda a parte. Barricadas eram improvisadas em diversos lugares da capital, feitas de barreiras de seguran\u00e7a, paletes de madeira, bicicletas, de tudo aquilo que havia nos passeios. Latas de lixo eram incendiadas. As boutiques de luxo dos quarteir\u00f5es elegantes preferiam fechar as suas portas \u2013 se bem que nenhuma vitrine houvesse sido partida e nenhum roubo assinalado. Aqui, lia-se numa etiqueta:\u00a0<i>&#8220;Aux armes!&#8221;\u00a0<\/i>(palavras do hino nacional); ali via-se a bandeirola: &#8220;Nem Macron nem fachos, Black Blocage Total&#8221; (Total \u00e9 a multinacional petrol\u00edfera francesa que, parece, n\u00e3o teria pago aquilo que deve ao fisco). Acol\u00e1, uma guilhotina desenhada, sem coment\u00e1rio. Alhures, ouvia-se &#8220;Isto \u00e9 como em Maio de 1968&#8221;, &#8220;C\u00f3lera&#8221;, &#8220;\u00c9 a guerra&#8221;, ou ainda &#8220;Macron \u00e0 fogueira!&#8221;. Apesar dos cord\u00f5es da CRS, v\u00e1rios milhares de manifestantes pac\u00edficos, mas resolvidos a fazerem-se ouvir, conseguiam enfiar-se na rua que leva ao Pal\u00e1cio do Eliseu, tendo de ser repelidos por escudos, bast\u00f5es e gases lacrimog\u00eaneos das for\u00e7as da ordem, acabando por se dispersar na calma. Todo o mundo estava estupefato \u2013 &#8220;coletes amarelos&#8221; e policiais inclusive. Nunca se viu algo assim &#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte, os protestos prosseguiam em toda a Fran\u00e7a e dois dias depois, segunda-feira 19 de novembro, os acessos a duas dezenas de refinarias de petr\u00f3leo encontravam-se bloqueados. No dia 20, em Paris, as vias do caminho de ferro da esta\u00e7\u00e3o do Norte eram invadidas e os trajetos para o aeroporto Roissy Charles-de-Gaulle dificultados. Em quase todas as regi\u00f5es da Fran\u00e7a, muitas a\u00e7\u00f5es dos bloqueios continuavam igualmente a ser efetuadas: em Toulouse, em torno de Lyon, em Bord\u00e9us, na \u00cele-de-France, no Vaucluse, na Normadia, na Bretanha, no Norte, na C\u00f3rsega e at\u00e9 em Departamentos do Ultramar&#8230; Na ilha da Reuni\u00e3o (a mais de 9300 km de Paris), onde as desigualdades sociais s\u00e3o gritantes, as manifesta\u00e7\u00f5es transformaram-se em grande conflito. O ex\u00e9rcito foi chamado como refor\u00e7o e o cessar-fogo instaurado nas comunas mais agitadas. Nas redes sociais, os &#8220;coletes amarelos&#8221; j\u00e1 preveniram: pr\u00f3ximo encontro no s\u00e1bado, 24 de novembro&#8230;<\/p>\n<p>Ator sem par, sorriso de esc\u00e1rnio e cheio de desprezo, o presidente Macron finge ignorar o levantamento de massa, t\u00e3o in\u00e9dito quanto heterodoxo, mas motivado e determinado a prosseguir a luta. Quanto tempo poder\u00e1 assim fazer quando as sondagens revelam que entre 75 e 85% dos franceses dizem apoiar os &#8220;coletes amarelos&#8221;? Por enquanto, o presidente contentou-se em prevenir que se mostrar\u00e1 &#8220;intrat\u00e1vel&#8221; face ao &#8220;caos&#8221;&#8230; da ilha Reuni\u00e3o. Habitualmente t\u00e3o seguro de si, o primeiro-ministro \u00c9douard Philippe apareceu na defensiva afirmando que &#8220;o governo n\u00e3o mudar\u00e1 de rumo&#8221; e &#8220;n\u00e3o tolerar\u00e1 a anarquia&#8221;. O ministro do Interior, Chritophe Castaner, procurou aparentar firmeza. Convocado em socorro, o ministro da Ecologia e da Energia, Fran\u00e7ois de Rugy, declara, sem rir, que o impostos sobre os combust\u00edveis deveriam servir para financiar a &#8220;transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica&#8221; \u2013 em quantos c\u00eantimos de euro, se a Fran\u00e7a n\u00e3o tem pol\u00edtica ambiental? A inquieta\u00e7\u00e3o do poder \u00e9 palp\u00e1vel.<\/p>\n<p>Que a direita e a extrema-direita tentam &#8220;sequestrar&#8221; a mobiliza\u00e7\u00e3o dos &#8220;coletes amarelos&#8221;, desprovida de l\u00edderes vis\u00edveis, \u00e9 evidente. Que os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o insistam insidiosamente, para desacreditar o movimento e jogar \u00f3leo no fogo, sobre (rar\u00edssimas) propostas xen\u00f3fobas ou homof\u00f3bicas efetuadas nestas a\u00e7\u00f5es por alguns manifestantes (ali\u00e1s imediatamente travadas pelos seus pr\u00f3prios amigos no local), \u00e9 igualmente evidente. Na hora do capitalismo selvagem e de uma ideologia dominante que ati\u00e7a os \u00f3dios e lan\u00e7a uns contra os outros para tentar salvar as elites, o povo que sofre \u00e9 feito igualmente destas contradi\u00e7\u00f5es, infelizmente. Mas \u00e9 justamente o papel dos militantes progressistas e dos esclarecidos estar ao seu lado nas lutas para mostrar \u00e0quelas e \u00e0queles que est\u00e3o se afastando do caminho da solidariedade e da fraternidade. Ser\u00e1 preciso que o rosto dos explorados seja sempre sorridente? Desejar-se-ia ainda por cima que os pobres que lutam pela sua sobreviv\u00eancia e sua dignidade fossem fotog\u00eanicos?<\/p>\n<p>Muito mais preocupante \u00e9 o fato de que as dire\u00e7\u00f5es dos partidos e dos sindicatos de esquerda se mantenham \u2013 ainda por enquanto, e muito generalizadamente \u2013 \u00e0 dist\u00e2ncia desta rebeli\u00e3o popular. Ser\u00e1 que n\u00e3o compreendem que se abre, com a revolta dos &#8220;coletes amarelos&#8221;, a segunda etapa das lutas do povo franc\u00eas contra a tirania neoliberal e pela justi\u00e7a social? Ser\u00e1 que n\u00e3o apreendem que se trata da continua\u00e7\u00e3o, de um modo inovador, combativo, vivo e numa escala extraordinariamente ampliada, do mesmo processo de generaliza\u00e7\u00e3o das mobiliza\u00e7\u00f5es que lan\u00e7ou nas greves e manifesta\u00e7\u00f5es milhares de camaradas sindicalizados na \u00faltima Primavera? Ser\u00e1 que n\u00e3o veem que os &#8220;coletes amarelos&#8221;, a seu modo (n\u00e3o sem coragem, nem risco e perigo) est\u00e3o decididos a ocupar o enorme vazio deixado pelo abandono da esquerda institucionalizada, desde h\u00e1 d\u00e9cadas, da defesa dos interesses de classe de todos os trabalhadores e do internacionalismo em rela\u00e7\u00e3o aos povos do mundo? Ser\u00e1 que n\u00e3o sabem que \u00e9 a luta das classes que faz a hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>Felizmente, as coisas podem mudar. E aquilo que parece esquecido nas altas esferas, as baixas se encarregar\u00e3o de o recordar. Ter\u00e7a-feira 20 de novembro, um primeiro sindicato de transportadores anunciava seu apoio aos &#8220;coletes amarelos&#8221;. No dia 21 \u00e0 noite, as a\u00e7\u00f5es dos eletricit\u00e1rios e gasistas recome\u00e7avam (se \u00e9 que elas realmente cessaram desde junho), intensificando-se: v\u00e1rias refinarias e reservat\u00f3rios petrol\u00edferos (em Gonfreville-L&#8217;Orcher e Oudalle na proximidade do Havre, Feyzin nos arrabaldes de Lyon, La M\u00e8de, perto de Marselha, mas tamb\u00e9m em outros locais, nomeadamente os que alimentam os aeroportos de Blagnac [Toulouse] e Saint Exup\u00e9ry [Lyon]\u2026) declaravam-se em greve. Ao mesmo tempo, sabia-se que o &#8220;capit\u00e3o da ind\u00fastria&#8221; Carlos Ghosn, presidente-diretor-geral do grupo automobilista franc\u00eas Renault e presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o da Nissan, era preso e ouvido pela justi\u00e7a japonesa por suspeita de fraude fiscal e desvio de fundos da empresa para fins pessoais. A revolta de um povo contra este mundo ser\u00e1 t\u00e3o dif\u00edcil de entender?<\/p>\n<p>22\/Novembro\/2018<\/p>\n<p>https:\/\/www.resistir.info\/franca\/remy_22nov18.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21458\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[109],"tags":[227],"class_list":["post-21458","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c122-franca","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5A6","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21458","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21458"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21458\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21458"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21458"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21458"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}