{"id":2147,"date":"2011-12-05T22:05:25","date_gmt":"2011-12-05T22:05:25","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2147"},"modified":"2017-08-25T00:55:00","modified_gmt":"2017-08-25T03:55:00","slug":"qhistoria-sumaria-do-racismo-no-brasilq","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2147","title":{"rendered":"&#8220;Hist\u00f3ria Sum\u00e1ria do Racismo no Brasil&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>1. Constitui\u00e7\u00e3o e Racionaliza\u00e7\u00e3o da Escravid\u00e3o Cl\u00e1ssica<\/strong><\/p>\n<p>A desqualifica\u00e7\u00e3o dos oprimidos \u00e9 recurso hist\u00f3rico, consciente e inconsciente, dos opressores para racionalizar e consolidar a explora\u00e7\u00e3o. Nas formas de produ\u00e7\u00e3o pr\u00e9-capitalistas, essa desqualifica\u00e7\u00e3o centrou-se fortemente na\u00a0<em>natureza<\/em> dos explorados. No cl\u00e1ssico\u00a0<em>A origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado<\/em>, de 1884, Frederico Engels assinalou a domina\u00e7\u00e3o da mulher pelo homem, no contexto da primitiva divis\u00e3o sexual do trabalho, como a primeira forma geral de explora\u00e7\u00e3o. &#8220;[&#8230;] o primeiro antagonismo de classes que apareceu na hist\u00f3ria coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; e a primeira opress\u00e3o de classes, com a opress\u00e3o do sexo feminino pelo masculino.&#8221; A opress\u00e3o da mulher ensejou e apoiou-se tradicionalmente na defesa de sua inferioridade, fortemente ancorada na sua diversidade fisiol\u00f3gica em rela\u00e7\u00e3o ao homem. O magn\u00edfico Arist\u00f3teles apontava como exemplo da inferioridade feminina o fato de que a mulher teria menos dentes que os homens!<\/p>\n<p>Base da produ\u00e7\u00e3o na Gr\u00e9cia hom\u00e9rica, a escravid\u00e3o patriarcal surgiu quando o produtor superou sistematicamente suas necessidades de subsist\u00eancia, produzindo sistematicamente excedente capaz de ser apropriado pelo explorador. A orienta\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o para o consumo do n\u00facleo familiar da pequena propriedade grega, de uns cinco ou pouco mais hectares [<em>oikos<\/em>], p\u00f4s<em>relativamente<\/em> travas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do homem e da mulher escravizados. N\u00e3o havia sentido em produzir acima do consumido pelos propriet\u00e1rios, familiares, dependentes e cativos. No escravismo patriarcal, o propriet\u00e1rio, sua fam\u00edlia e dependentes trabalhavam comumente ao lado do cativo, em proximidade que apenas minimizava o car\u00e1ter desp\u00f3tico daquela rela\u00e7\u00e3o social de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a consolida\u00e7\u00e3o da propriedade privada sobre a terra e seus frutos e a expans\u00e3o do mercado, a escravid\u00e3o patriarcal desenvolveu-se e superou-se qualitativamente. Ainda que fossem numerosas as pequenas propriedades escravistas de subsist\u00eancia, nos dois s\u00e9culos finais da Rep\u00fablica e nos dois primeiros do Imp\u00e9rio, dominou social e economicamente a pequena propriedade escravista pequeno-mercantil especializada. Orientada essencialmente para o mercado, a\u00a0<em>villa<\/em> tinha em torno de uns dez a trezentos hectares e trabalhava com algumas poucas dezenas de cativos. A dimens\u00e3o reativamente restrita e o car\u00e1ter dos seus produtos, que exigiam comumente trabalho intensivo, especializado e sazonal, impediram tendencialmente a degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es do trabalho conhecida s\u00e9culos mais tarde na escravid\u00e3o colonial americana. Era mon\u00f3tona e dura a exist\u00eancia do produtor escravizado nessas propriedades..<\/p>\n<p>Por variadas raz\u00f5es, fracassou a evolu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o pequeno-mercantil em escravismo mercantil, ou seja, em grandes propriedades trabalhadas por dezenas e centenas de cativos, voltada essencialmente para o mercado, tentada em diversas regi\u00f5es, com destaque para as propriedades triticultoras da Sic\u00edlia. Sob a forte press\u00e3o dos produtores escravizados, abriram-se as portas \u00e0 longa transi\u00e7\u00e3o ao\u00a0<em>colonato<\/em> e, a seguir, \u00e0<em>produ\u00e7\u00e3o feudal<\/em>. Nesta \u00faltima, o produtor n\u00e3o era mais, como anteriormente, propriedade plena do explorador. Sob a obriga\u00e7\u00e3o de pagamento de rendas delimitadas, ele passou a controlar sua fam\u00edlia e seus instrumentos de trabalho e a gerir relativamente a gleba \u00e0 qual era adstrito. Essa importante evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica n\u00e3o o emancipou imediatamente da servid\u00e3o pessoal parcial [servid\u00e3o da gleba]. A escravid\u00e3o plena, menos produtiva e mais custosa, manteve-se como rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o subordinada na Europa, em alguns casos, at\u00e9 o s\u00e9culo 18.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia foi sempre a principal forma de submiss\u00e3o do trabalhador na escravid\u00e3o patriarcal e pequeno mercantil. Os cativos e cativas tidos como\u00a0<em>relapsos<\/em> e\u00a0<em>desobedientes<\/em> eram forte e exemplarmente castigados. Os atos de rebeli\u00e3o contra os propriet\u00e1rios e seus familiares e os feitores eram punidos com a tortura e a morte. N\u00e3o raro, os cativos rebeldes eram queimados vivos. No Imp\u00e9rio, quando a escravaria urbana dos romanos mais ricos podia superar os cem membros, o receio dos propriet\u00e1rios \u00e0 resist\u00eancia do cativo chegou ao paroxismo. Lei romana dos primeiros anos de nossa era determinou que, se um propriet\u00e1rio escravista [<em>pater fam\u00edlias<\/em>] ou seu familiar fossem assassinados, todo cativo que, encontrando-se a uma dist\u00e2ncia em que pudesse ouvir seu pedido de ajuda, n\u00e3o o socorresse, seria torturado e executado. Nos tempos de Nero, Pad\u00e2nio Secondo, prefeito de Roma, foi justi\u00e7ado por cativo que lhe pagara e n\u00e3o recebera a manumiss\u00e3o. Todos seus quatrocentos cativos, de ambos os sexos e das mais variadas idades, foram executados, apesar da agita\u00e7\u00e3o que a terr\u00edvel medida causou entre a plebe romana formada em boa parte por libertos.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o apoiou-se tamb\u00e9m na submiss\u00e3o ideol\u00f3gica dos cativos. Entre os m\u00faltiplos mecanismos utilizados, destacava-se o convencimento do cativo \u2013 de dos escravizadores \u2212 da natureza diversa e inferior do subordinado, proposta que racionalizava e consolidava a ditadura dos escravizadores sobre os escravizados.<\/p>\n<p><strong>2. A Racionaliza\u00e7\u00e3o da Explora\u00e7\u00e3o Escravista na Antiguidade<\/strong><\/p>\n<p>Na Gr\u00e9cia hom\u00e9rica, a escravid\u00e3o era vista inicialmente como decorr\u00eancia dos azares da sorte \u2013 guerra, captura, d\u00edvida, etc. A vis\u00e3o plat\u00f4nica expressava j\u00e1 uma \u00e9poca em que a escravid\u00e3o tornara-se institui\u00e7\u00e3o importante. Para Plat\u00e3o, a servid\u00e3o de um indiv\u00edduo ou de um povo devia-se \u00e0 incapacidade de se autogovernar, por falta de discernimento intelectual, cultural ou moral, qualidades exclusivas ao mundo, cultura e homem hel\u00eanicos. Por\u00e9m, para ele, era a lei que determinava quem era\u00a0<em>escravo<\/em> e\u00a0<em>senhor<\/em>. Entretanto, sua teoria da superioridade da alma sobre o corpo consubstanciava j\u00e1 a vis\u00e3o da submiss\u00e3o necess\u00e1ria do s\u00fadito ao soberano, da mulher ao homem, do escravizado ao escravizador.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o aristot\u00e9lica da escravid\u00e3o nasceu em sociedade solidamente escravista. Para Arist\u00f3teles, era inaceit\u00e1vel que um homem fosse submetido e mantido na escravid\u00e3o apenas pela for\u00e7a, sancionada pela lei. O que apontava igualmente ao cativo a for\u00e7a, como forma de emancipa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Arist\u00f3teles superou a tese plat\u00f4nica, ao defender raiz\u00a0<em>natural<\/em> e, portanto,\u00a0<em>gen\u00e9tico<\/em>&#8211;<em>racial<\/em> \u00e0 servid\u00e3o. Para ele, a reuni\u00e3o de diversas fam\u00edlias formava o burgo e a associa\u00e7\u00e3o de diversos burgos, a cidade, ou seja, a sociedade pol\u00edtica. Um processo determinado pela natureza que compelia &#8220;os homens a se associarem&#8221; na procura do &#8220;fim das coisas&#8221;, a felicidade de todos.<\/p>\n<p>Para Arist\u00f3teles, a\u00a0<em>fam\u00edlia<\/em> &#8220;completa&#8221;, unidade de base da sociedade, forma-se por homens livres e escravizados. Para ele, a natureza criara as coisas diferentes, na procura da especializa\u00e7\u00e3o, pois o melhor &#8220;instrumento&#8221; era o que serve para &#8220;apenas&#8221; um &#8220;mister&#8221;, e n\u00e3o para muitos. Essa vis\u00e3o expressava uma consci\u00eancia, ainda que limitada e alienada, do avan\u00e7o da produ\u00e7\u00e3o social atrav\u00e9s da divis\u00e3o e especializa\u00e7\u00e3o do trabalho e de seus instrumentos. Assim, na consecu\u00e7\u00e3o de fins comuns, seres de ess\u00eancia diversa complementavam-se, cada qual realizando a fun\u00e7\u00e3o para que fora criado pela natureza, na consecu\u00e7\u00e3o do bem comum. Os mais elevados comandavam os menos perfeitos. &#8220;A autoridade e a obedi\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 s\u00e3o cousas necess\u00e1rias, mas ainda [&#8230;] \u00fateis. Alguns seres, ao nascer, se v\u00eaem destinados a obedecer; outros, a mandar.&#8221;<\/p>\n<p>A natureza determinava que o pai dominasse o\u00a0<em>filho<\/em>, o\u00a0<em>homem<\/em> a\u00a0<em>mulher<\/em>, o\u00a0<em>senhor<\/em> o\u00a0<em>escravo<\/em>.<\/p>\n<p>&#8220;[&#8230;] a todos os animais \u00e9 \u00fatil viver sob a depend\u00eancia do homem. Os animais s\u00e3o machos e f\u00eameas. O macho \u00e9 mais perfeito e governa; a f\u00eamea o \u00e9 menos, e obedece. A mesma lei se aplica naturalmente a todos os homens.&#8221; &#8220;H\u00e1 tamb\u00e9m, por obra da natureza e para a conserva\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, um ser que ordena e um ser que obedece. Porque aquele que possui intelig\u00eancia capaz de previs\u00e3o tem naturalmente autoridade e poder de chefe; o que nada mais possui al\u00e9m da for\u00e7a f\u00edsica para executar, deve, for\u00e7osamente obedecer e servir \u2013 e, pois, o interesse do senhor \u00e9 o mesmo que o do escravo.&#8221;<\/p>\n<p>Fundando o direito da servid\u00e3o na inferioridade\u00a0<em>natural<\/em> e n\u00e3o na for\u00e7a, Arist\u00f3teles consolidava ideologicamente a ordem escravista grega, impugnando a escraviza\u00e7\u00e3o do heleno, por um lado, e a validade-direito do\u00a0<em>b\u00e1rbaro<\/em>de emancipar-se pela for\u00e7a, por outro. Propunha que oprimidos e opressores se associariam na consecu\u00e7\u00e3o de objetivos comum, pois, sendo a opress\u00e3o algo pr\u00f3pria da ordem natural, n\u00e3o haveria civiliza\u00e7\u00e3o \u00e0 margem da mesma. Foi sempre estrat\u00e9gia recorrente dos opressores defender n\u00e3o apenas a justi\u00e7a mas tamb\u00e9m a bondade social de opress\u00e3o.<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles foi mais longe, ao propor que a especializa\u00e7\u00e3o natural, ou seja, a inferioridade e superioridade, se expressasse na pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o dos seres. A inferioridade dos &#8220;animais dom\u00e9sticos&#8221;, que serviam com a &#8220;for\u00e7a f\u00edsica&#8221; ao dono nas suas &#8220;necessidades quotidianas&#8221;, como o boi, o asno, etc., registrava-se nos seus corpos de brutos, especializados para tais fun\u00e7\u00f5es. O mesmo ocorria entre os homens, pois a &#8220;natureza&#8221; pareceria &#8220;querer dotar de caracter\u00edsticas diferentes os corpos dos homens livres e dos escravos.&#8221; &#8220;H\u00e1 na esp\u00e9cie humana indiv\u00edduos t\u00e3o inferiores a outros como o corpo o \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 alma, ou a fera ao homem&#8221;. Os homens incapazes de outra fun\u00e7\u00e3o que as relacionadas \u00e0 &#8220;for\u00e7a f\u00edsica&#8221; eram &#8220;destinados \u00e0 escravid\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>A proposta de registro material da superioridade ou da inferioridade naturais dos homens constitu\u00eda elemento central na racionaliza\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica da explora\u00e7\u00e3o escravista, retomada plenamente no mundo romano, e, mais tarde, na Idade M\u00e9dia e Moderna. A for\u00e7a desta proposta encontrava-se no registro,\u00a0<em>indiscut\u00edvel<\/em>, nos corpos, da inferioridade da alma. O que tornava materialmente vis\u00edvel a comprova\u00e7\u00e3o de hierarquiza\u00e7\u00e3o social natural, com homens superiores, destinados a mandar e serem servidos, e homens inferiores, destinados a obedecer e a servir. Por\u00e9m, tal proposta materializou-se em forma limitada no mundo grego, por falta de condi\u00e7\u00f5es objetivas nas quais pudessem se apoiar as fantasmagorias dos escravizadores.<\/p>\n<p>Mesmo no mundo grego tardio, os cativos provinham sobretudo das prov\u00edncias e regi\u00f5es perif\u00e9ricas do mundo hel\u00eanico. Portanto, havia forte identidade \u00e9tnica entre os grupos \u00e9tnicos dos\u00a0<em>amos<\/em> e o dos\u00a0<em>cativos<\/em>. O que dificultou a tentativa permanente de apontar tra\u00e7os som\u00e1ticos que expressassem as naturezas diferenciais, superiores e inferior, dos escravizadores e dos escravizados. Ainda que condi\u00e7\u00f5es de vida diversas tendam a<em>diferenciar<\/em> fisicamente, em forma relativa, explorados e exploradores, mesmo de mesma origem \u00e9tnica.<\/p>\n<p>Inicialmente, a escravid\u00e3o romana apoiou-se na escraviza\u00e7\u00e3o de povos it\u00e1licos, de forte semelhan\u00e7a \u00e9tnico-som\u00e1tica, o que impedia a plena realiza\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio aristot\u00e9lico da express\u00e3o f\u00edsica da inferioridade natural do cativo. Com a extens\u00e3o da escravid\u00e3o, foram feitorizados infinidade de povos da bacia do Mediterr\u00e2neo e da Europa Ocidental, Central e Oriental. A diversidade \u00e9tnico-lingu\u00edstica dessa popula\u00e7\u00e3o escravizada dificultou, tamb\u00e9m, o procurado registro fen\u00f3tipo da pretensa natureza humana inferior do escravizado. No Imp\u00e9rio, a ret\u00f3rica aristot\u00e9lica foi igualmente debilitada pela expans\u00e3o da cidadania e da classe dos grandes escravistas para al\u00e9m do n\u00facleo \u00e9tnico romano.<\/p>\n<p>A sociedade romana enfatizou a cultura e a l\u00edngua como elementos diferenciadores, ainda que os m\u00faltiplos tra\u00e7os fen\u00f3tipos dos cativos fossem apontados como registro de inferioridade. \u00c9 de geral conhecimento a descri\u00e7\u00e3o de escravista romano, com propriedade na Magna Gr\u00e9cia \u2013 um\u00a0<em>italiano meridional<\/em>, nos dias de hoje \u2013, dos tra\u00e7os\u00a0<em>semi-bestializados<\/em> de seu cativo germ\u00e2nico. Ou seja, um alem\u00e3o atual. Sequer renascimento ib\u00e9rico da escravid\u00e3o, com a Reconquista, produziu identifica\u00e7\u00e3o cabal e duradoura entre etnia e escravid\u00e3o. Tal fen\u00f4meno materializou-se plenamente quando do renascimento do escravismo, nas Am\u00e9ricas, dando origem \u00e0 desqualifica\u00e7\u00e3o essencial do africano subsaariano, base das vis\u00f5es racistas antinegro contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p><strong>3. A Escravid\u00e3o de Mouros e Pretos em Portugal<\/strong><\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas e concep\u00e7\u00f5es escravistas foram introduzidas na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica pelas legi\u00f5es romanas vitoriosas e, mais tarde, mantidas pelos dominadores visigodos como forma de domina\u00e7\u00e3o subordinada. Em 711, os mu\u00e7ulmanos atravessaram o estreito de Gibraltar, mantendo-se na Ib\u00e9ria at\u00e9 a perda definitiva de Granada, em 1492. A luta \u00e0 morte entre\u00a0<em>crist\u00e3os<\/em> e\u00a0<em>mu\u00e7ulmanos<\/em> pela pen\u00ednsula enfatizaria fortemente a escravid\u00e3o. Inicialmente, os conquistadores crist\u00e3os passavam no fio da espada as popula\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas derrotadas. Logo, apenas os guerreiros eram eliminados, reduzindo-se \u00e0 escravid\u00e3o os restantes. As necessidades da explora\u00e7\u00e3o das terras conquistadas, em boa parte despovoadas pela guerra, ensejaram que razias fossem lan\u00e7adas sobre os territ\u00f3rios mu\u00e7ulmanos para capturar trabalhadores a serem explorados nas cidades e campos. Difundiu-se tamb\u00e9m a captura e venda de mu\u00e7ulmanos assaltados no Mediterr\u00e2neo e nas costas da \u00c1frica do Norte. Os mu\u00e7ulmanos procediam do mesmo modo com os\u00a0<em>crist\u00e3os<\/em>.<\/p>\n<p>A Reconquista teria melhorado a sorte dos servos pessoais originais, metamorfoseados em servos da gleba e a seguir em colonos livres. Decaiu igualmente a import\u00e2ncia dos antigos cativos e fortaleceu-se a dos cativos islamitas. A ret\u00f3rica justificadora da feitoriza\u00e7\u00e3o do mu\u00e7ulmano rompeu radicalmente com a racionaliza\u00e7\u00e3o aristot\u00e9lica da escravid\u00e3o. A escravid\u00e3o do mu\u00e7ulmano n\u00e3o se devia mais a uma pretensa inferioridade natural. A excel\u00eancia da civiliza\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica mediterr\u00e2nica e a forte identidade \u00e9tnica, sobretudo entre o mu\u00e7ulmano ib\u00e9rico e o\u00a0<em>mo\u00e7\u00e1rabe<\/em>, ou seja, crist\u00e3o arabizado pela vida na Ib\u00e9ria isl\u00e2mica, impediam propostas de inferioridade natural do cativo mu\u00e7ulmano. Agora, a escravid\u00e3o era justificada pela ades\u00e3o a uma cren\u00e7a que ofendia gravemente o verdadeiro deus, nos c\u00e9us, e devia, portanto, ser castigada, na terra. Era a\u00a0<em>guerra justa<\/em> contra o inimigo da f\u00e9 divina, determinada pelo Estado e pela Igreja, que justificava a escravid\u00e3o, em proveito dos\u00a0<em>homens pios<\/em>, \u00e9 claro. No fundamental, o mesmo crit\u00e9rio apoiava a escravid\u00e3o de crist\u00e3os pelos mu\u00e7ulmanos. Entretanto, no mundo ib\u00e9rico, cativos crist\u00e3os seguiam sendo escravizados por senhores crist\u00e3os, ainda que em n\u00famero decrescente.<\/p>\n<p>No mundo romano, o trabalhador escravizado era denominado sobretudo de servus. A dissolu\u00e7\u00e3o e a metamorfose das rela\u00e7\u00f5es escravistas foram t\u00e3o lentas e impercept\u00edveis que o produtor direto emergiu no mundo feudal sendo tratado do mesmo modo que os antigos cativos nas l\u00ednguas europ\u00e9ias\u2013\u00a0<em>servus<\/em>,\u00a0<em>servo<\/em>,<em>serf<\/em>, etc. No s\u00e9culo 10, quando da retomada relativa do escravismo na Europa Ocidental, foi necess\u00e1rio uma nova designa\u00e7\u00e3o para o trabalhador escravizado. As guerras de Ot\u00e3o I [912-973], o Grande, duque da Sax\u00f4nia, inundaram a Europa com cativos trazidos da Esclav\u00f4nia, nos B\u00e1lc\u00e3s. Com o passar dos anos, o termo<em>escravo<\/em> perdeu o sentido \u00e9tnico-nacional, ou seja, origin\u00e1rio da Esclav\u00f4nia, para descrever o homem escravizado. Ou seja, o\u00a0<em>servus<\/em> da Antiguidade. Na Lusit\u00e2nia, o uso do designativo escravo foi tardio.<\/p>\n<p>At\u00e9 meados do s\u00e9culo 15, a domin\u00e2ncia da escravid\u00e3o de mu\u00e7ulmanos levou a que o termo portugu\u00eas substitutivo de\u00a0<em>servus<\/em> fosse\u00a0<em>mouro<\/em>, pois os mu\u00e7ulmanos que invadiram e colonizaram a pen\u00ednsula Ib\u00e9rica provinham da Maurit\u00e2nia [Saara Ocidental]. Logo, em Portugal, o mu\u00e7ulmano feitorizado era designado de &#8220;mouro&#8221;, n\u00e3o importando de onde viesse, na bacia do Mediterr\u00e2neo. Em 1444, come\u00e7aram a chegar a Portugal as primeiras partidas de negro-africanos, capturados quando do avan\u00e7o mar\u00edtimo lusitano ao longo do litoral atl\u00e2ntico da \u00c1frica. Por longas d\u00e9cadas, mouros e negro-africanos trabalhariam como cativos, lado a lado, em Portugal, nas cidades e nos campos. O neologismo portugu\u00eas\u00a0<em>mourejar<\/em> designaria o trabalho duro como cativo<em>mouro<\/em> ou, mais tarde, como cativo\u00a0<em>negro<\/em>.<\/p>\n<p>Em Portugal, a palavra negro era usada para designar o homem de pele mais escura, livre e escravizado. Como o negro-africano era ainda mais escuro, foi designado diferencialmente de &#8220;preto&#8221;. Da\u00ed, ser chamado de &#8220;mouro preto&#8221;, sem ser proveniente da Maurit\u00e2nia e mu\u00e7ulmano. Em in\u00edcios do s\u00e9culo 16, quando a escravid\u00e3o do negro-africano se sobrepunha j\u00e1 claramente \u00e0 feitoriza\u00e7\u00e3o do mu\u00e7ulmano, o uso da palavra\u00a0<em>escravo<\/em> difundiu-se em Portugal, j\u00e1 sem qualquer refer\u00eancia \u00e0 religi\u00e3o e \u00e0 origem nacional. Ent\u00e3o, t\u00ednhamos &#8220;escravo mouro&#8221;, &#8220;escravo negro&#8221;, &#8220;escravo preto&#8221;, &#8220;escravo branco&#8221;. Em Portugal, com a forte domin\u00e2ncia da escravid\u00e3o do negro-africano, &#8220;preto&#8221; tornou-se sin\u00f4nimo de cativo e de escravo. Nesse novo contexto, a vis\u00e3o aristot\u00e9lica da escravid\u00e3o, como consequ\u00eancia de pretensa inferioridade natural, foi retomada e enfatizada como jamais, como a principal justificativa daquela institui\u00e7\u00e3o. A pele branca seria sinal de excel\u00eancia, a negra, de inferioridade. Nascia o racismo anti-negro.<\/p>\n<p><strong>Ler a segunda parte deste trabalho:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.diarioliberdade.org\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=9225:historia-sumaria-do-racismo-no-brasil-segunda-parte&amp;catid=306:aqui-e-agora&amp;Itemid=21\">AQUI<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>Ler terceira Parte deste trabalho:<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.diarioliberdade.org\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=9916:historia-sumaria-do-racismo-no-brasil-terceira-parte&amp;catid=306:aqui-e-agora&amp;Itemid=21\"><strong>AQUI<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.diarioliberdade.org\/index.php\"><strong>DI\u00c1RIO LIBERDADE<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 1.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nM\u00e1rio Maestri\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2147\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-2147","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-yD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2147","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2147"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2147\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}