{"id":21476,"date":"2018-11-26T23:46:56","date_gmt":"2018-11-27T01:46:56","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21476"},"modified":"2018-11-26T23:58:45","modified_gmt":"2018-11-27T01:58:45","slug":"hegemonia-e-miseria-do-management","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21476","title":{"rendered":"Hegemonia e mis\u00e9ria do \u201cmanagement\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/weandthecolor.com\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Robots-will-take-our-jobs.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><em>Um pilar oculto do dom\u00ednio neoliberal sustenta: Estado, escola, fam\u00edlia e at\u00e9 a vida pessoal devem orientar-se pelas l\u00f3gicas e \u00e9ticas das corpora\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma pris\u00e3o, mas h\u00e1 rotas de fuga<\/em><\/p>\n<p>Por\u00a0Marco Antonio G. de Oliveira*<br \/>\nOUTRAS PALAVRAS<\/p>\n<p>\u00c9 comum ouvir que o problema do Brasil \u00e9 de gest\u00e3o. No entanto, se h\u00e1 uma \u00e1rea em que grande parte dos seus termos, conceitos e valores foram disseminados a ponto de se incorporarem ao senso comum da sociedade contempor\u00e2nea, essa \u00e1rea \u00e9 a da gest\u00e3o, dos neg\u00f3cios, do\u00a0<em>business<\/em>. H\u00e1 menos de uma semana, em um simp\u00f3sio de in\u00edcio de semestre organizado por uma universidade de renome da capital paulista, com cursos em diversas \u00e1reas como filosofia, direito, fisioterapia, psicologia, entre tantos outros, ouvi, do atual executivo-chefe (n\u00e3o mais reitor), que a educa\u00e7\u00e3o do futuro \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o empreendedora, do aluno empreendedor, polivalente, inovador, de atitude e sem medo de assumir responsabilidades. Em suma, ele recitou o conhecido conceito pregado pelos estudiosos e profissionais de gest\u00e3o de pessoas como determinante para o sucesso dos alunos de todos os cursos da universidade: o famoso conceito CHA (compet\u00eancia, habilidade e atitude).<\/p>\n<p>A Ford Motor Company, no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, j\u00e1 exigia que os trabalhadores e trabalhadoras seguissem um estilo de vida condizente com os valores da empresa e aprovado por um departamento especializado que examinaria a vida privada deles, impondo-lhes valores como estabilidade familiar e emocional, repulsa ao \u00e1lcool, apego \u00e0 religi\u00e3o e ao patriotismo.<\/p>\n<p>Condicionar o comportamento, ou como diriam os profissionais da \u00e1rea de Gest\u00e3o de Pessoas, \u201cdirecionar o comportamento\u201d conforme os interesses das empresas \u00e9 uma pr\u00e1tica muito bem conhecida e estudada. No entanto, a quest\u00e3o \u00e9 que o estilo de vida protagonizado pelas empresas \u2013 o\u00a0<em>management<\/em>\u00a0\u2013 tornou-se muito mais do que \u201cpop\u201d [2], passou a ser hegem\u00f4nico. Ultrapassou as paredes das empresas, como apontam h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas grandes autores e autoras como Ana Paula Paes de Paula, Maria Jos\u00e9 Tonelli, Miguel Pinto Caldas e Thomaz Wood Jr. O management \u00e9 o esp\u00edrito do \u201cnovo\u201d capitalismo, a nova subjetividade capitalista, uma matriz de refer\u00eancia pessoal cujos principais eixos s\u00e3o: uma vis\u00e3o gerencial de qualquer atividade organizada, o culto da excel\u00eancia, um ser aut\u00f4nomo, autocentrado, apol\u00edtico, que cultiva a competi\u00e7\u00e3o e o sucesso pessoal, que valoriza o aprimoramento das t\u00e9cnicas de gerenciamento, que se relaciona com o objetivo de obter vantagens utilit\u00e1rias, uma esp\u00e9cie de empreendedor de si mesmo ou burgu\u00eas de si mesmo [1][2] .<\/p>\n<p>Para explicar esse fen\u00f4meno, caracter\u00edstico das sociedades de classes, o conceito de hegemonia trabalhado por Antonio Gramsci (1891-1937) \u00e9 essencial. A hegemonia comp\u00f5e a cultura e a ideologia como um processo social que constitui a vis\u00e3o de mundo de uma sociedade em uma determinada \u00e9poca. Trata-se de um sistema de representa\u00e7\u00f5es, normas, valores e alinhamento pol\u00edtico das classes dominantes que visa ocultar a sua particularidade, apresentando-se como natural e \u00fanico. Como afirmou recentemente o autor portugu\u00eas Boaventura de Souza Santos, \u201ca ideia de que os pobres s\u00e3o pobres por culpa pr\u00f3pria \u00e9 hegem\u00f4nica quando \u00e9 concebida n\u00e3o apenas pelos ricos, mas tamb\u00e9m pelos pobres\u201d. Os conceitos do\u00a0<em>management<\/em>, fundamentados na l\u00f3gica da (ir)racionalidade econ\u00f4mica, como os da meritocracia, do individualismo, da competi\u00e7\u00e3o, entre outros, tornaram-se hegem\u00f4nicos tamb\u00e9m para grande parte das classes subalternas. S\u00e3o trabalhadores e trabalhadoras imersos na hegemonia articulada pelos intelectuais org\u00e2nicos burgueses.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>management<\/em>\u00a0representa o modelo ideal de comportamento humano e social proposto pelo modelo econ\u00f4mico e social neoliberal. \u00c9 nesse perfil de trabalhador em que o capitalista se apoia h\u00e1 pelo menos 50 anos, em busca de maiores excedentes de trabalho e, consequentemente, de capital. Para tanto, o modelo de gest\u00e3o nip\u00f4nico, a escola da Administra\u00e7\u00e3o Estrat\u00e9gica e o seu conceito de compet\u00eancias essenciais, al\u00e9m da abordagem da Administra\u00e7\u00e3o Empreendedora, promovidas pelas escolas de administra\u00e7\u00e3o, pela m\u00eddia de neg\u00f3cios, pelas empresas de consultoria e pelos gurus da administra\u00e7\u00e3o, intelectuais org\u00e2nicos da classe dominante, estimularam e profissionalizaram uma vasta rede de micro e pequenos neg\u00f3cios, preparando-os para servirem \u00e0s grandes corpora\u00e7\u00f5es. O mundo capitalista precisa legitimar as suas desp\u00f3ticas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e consequentes rela\u00e7\u00f5es sociais, e, sendo assim, amplia a sua capacidade de subjetivar, de dar sentido e influenciar ainda mais as nossas experi\u00eancias sociais e culturais. Dessa maneira, os valores do\u00a0<em>management<\/em>, atrav\u00e9s dos intelectuais org\u00e2nicos, penetram e se naturalizam nos mundos da ci\u00eancia, da pol\u00edtica, da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, da educa\u00e7\u00e3o, da tecnologia, da arte, da religi\u00e3o, da literatura, da fam\u00edlia, entre tantas outras esferas [2] .<\/p>\n<p>Depois de anos de maci\u00e7a propaga\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o, hoje vivemos a hegemonia do\u00a0<em>management<\/em>. O \u201cmanageralismo\u201d tornou-se um dogma que as pessoas levam para todo lugar, definindo o tempo, a linguagem cotidiana e a vida social de tal modo que as pessoas j\u00e1 n\u00e3o vislumbram outras formas de organiza\u00e7\u00e3o social como a gest\u00e3o democr\u00e1tica, participativa, coletiva, colaborativa e a autogest\u00e3o. As pessoas entendem que todas as institui\u00e7\u00f5es sociais devem operar atrav\u00e9s da mesma l\u00f3gica das empresas privadas: escola \u00e9 empresa, creche \u00e9 empresa, hospital \u00e9 empresa, institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas s\u00e3o empresas, fam\u00edlia \u00e9 empresa e pessoas se percebem como empresa. O senso comum equivocadamente entende que essa \u00e9 a maneira mais precisa, mais transparente, pragm\u00e1tica, mensur\u00e1vel e eficiente de organiza\u00e7\u00e3o social. O\u00a0<em>management<\/em>\u00a0tornou-se hegem\u00f4nico.<\/p>\n<p>Observe as atitudes dos seus (nossos) maiores representantes: eleito em 2017 pelos franceses, Emmanuel Macron afirmou diversas vezes em seus discursos de campanha que a sociedade francesa precisava de uma revolu\u00e7\u00e3o e que, para tanto, os franceses deveriam deixar o manique\u00edsmo direita\/esquerda para pensar e fazer da Fran\u00e7a uma\u00a0<em>startup<\/em>\u00a0competitiva deste novo tempo: \u201cA Fran\u00e7a precisa se mover e pensar como uma\u00a0<em>startup<\/em>\u201d, dizia Macron durante os seus com\u00edcios. Donald Trump ficou conhecido atrav\u00e9s da famosa express\u00e3o usada nos campos de batalha, comumente utilizada pelas empresas quando n\u00e3o concordam ou n\u00e3o se interessam mais pelo nosso trabalho: \u201cyou\u2019re fired!\u201d N\u00e3o \u00e0 toa, este senhor virou presidente da maior pot\u00eancia econ\u00f4mica e nuclear do mundo e, mesmo assim, continua se comportando exatamente de forma autorit\u00e1ria como fazia nas suas empresas com os seus subordinados.<\/p>\n<p>Na mesma toada, lembre-se do ex-prefeito da capital paulista, o nosso Trump tropical, o empres\u00e1rio que gosta de se fantasiar de trabalhador e brincar de pol\u00edtica: Jo\u00e3o D\u00f3ria. Este senhor colocou em pr\u00e1tica uma pol\u00edtica higienista de pura barbaridade, sob o nome de \u201cCidade Limpa\u201d, que tratou os dependentes qu\u00edmicos, os moradores e as moradoras de ruas como pragas a serem expurgadas da cidade, acordando-os com jatos de \u00e1gua em pleno inverno, recolhendo os seus cobertores e pertences madrugadas afora. \u00c9 o mesmo que agora promete, como governador, que a sua pol\u00edcia vai atirar para matar e que o estado pagar\u00e1 os melhores advogados para policiais que matarem em servi\u00e7o. Em suma, ele est\u00e1 promovendo e legitimando as chacinas no Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Se reclamamos da baixa intensidade das democracias nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, o que dizer da democracia nas empresas privadas? Ambientes pautados apenas pela l\u00f3gica da racionalidade econ\u00f4mica, do funcionalismo, do utilitarismo, tomados pelo medo, pela instabilidade, pela mentira e dissimula\u00e7\u00e3o, pela competi\u00e7\u00e3o sem limites, pelo individualismo acerbado, nos quais n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a pluralidade e a diversidade: manda quem pode e obedece quem tem ju\u00edzo e contas para pagar. O per\u00edodo neoliberal puro, que vivemos, de autoritarismo estatal, com forte presen\u00e7a policial e militar sob o mote da seguran\u00e7a nacional, seja interna ou externa, de pol\u00edticas antirrevolucion\u00e1rias mesmo sem revolu\u00e7\u00e3o, em diversos pa\u00edses do mundo, encontra no\u00a0<em>management<\/em>\u00a0\u2013 no modelo comportamental do gestor da empresa privada \u2013 o perfil ideal de lideran\u00e7a para impor e legitimar as suas a\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias de caracter\u00edsticas fascistas.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><br \/>\n1- Antunes, Ricardo (2018)\u00a0<em>O privil\u00e9gio da servid\u00e3o: o novo proletariado de servi\u00e7os na era digital<\/em>. S\u00e3o Paulo, Boitempo.<br \/>\n2- Caldas, Miguel Pinto; Tonelli, Maria Jos\u00e9 (2000) O homem camale\u00e3o e os modismos gerenciais: uma discuss\u00e3o sociopsicanal\u00edtica do comportamento modal nas organiza\u00e7\u00f5es. In Motta, Fernando C. P.; Freitas, Maria E.\u00a0<em>Vida ps\u00edquica e organiza\u00e7\u00e3o<\/em>. Rio de Janeiro: FGV. cap.7, pp.130-147.<br \/>\n3- Wood Jr, Thomaz; Paes de Paula, Ana Paula (2002)\u00a0<em>Pop-management: a literatura popular de gest\u00e3o no Brasil<\/em>. EAESP\/FGV\/NPP, Relat\u00f3rio de pesquisa n\u00ba 3.<\/p>\n<p>Imagem:\u00a0Davide Bonazzi<\/p>\n<p><em>*Marco Antonio G. de Oliveira \u00e9 professor da Universidade S\u00e3o Judas Tadeu<\/em><\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"Ok2HSszZTY\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/brasil\/hegemonia-e-miseria-do-management\/\">Hegemonia e mis\u00e9ria do &#8220;management&#8221;<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/brasil\/hegemonia-e-miseria-do-management\/embed\/#?secret=Ok2HSszZTY\" data-secret=\"Ok2HSszZTY\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Hegemonia e mis\u00e9ria do &#8220;management&#8221;&#8221; &#8212; OUTRAS PALAVRAS\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21476\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[221],"class_list":["post-21476","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Ao","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21476","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21476"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21476\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21476"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21476"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21476"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}