{"id":2148,"date":"2011-12-05T22:14:01","date_gmt":"2011-12-05T22:14:01","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2148"},"modified":"2011-12-05T22:14:01","modified_gmt":"2011-12-05T22:14:01","slug":"com-a-marca-da-rebeldia-ha-cem-anos-nasciam-marighella-e-mario-lago-criativos-e-contestadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2148","title":{"rendered":"Com a marca da rebeldia-H\u00e1 cem anos nasciam Marighella e M\u00e1rio Lago, criativos e contestadores"},"content":{"rendered":"\n<p>Duas guerras mundiais e <strong>tr\u00eas revolu\u00e7\u00f5es \u2013 a russa, a chinesa e a cubana<\/strong> \u2013 deixaram no s\u00e9culo 20 as marcas de profundos e sangrentos confrontos entre pa\u00edses e classes sociais. Foi um tempo de partido e de homens partidos, como definiu Carlos Drummond de Andrade. Apesar disso \u2013 ou por isso mesmo \u2013 <strong>foi tamb\u00e9m um tempo em que era imposs\u00edvel ser revolucion\u00e1rio sem uma certa dose de romantismo, como afirmou o mais famoso deles, Vladimir Ilitch Ulianov, o L\u00eanin.<\/strong> A revolu\u00e7\u00e3o estava presente nas barricadas e nas diferentes formas de express\u00e3o art\u00edstica. \u201cSou mais afiado que uma navalha, mais inc\u00f4modo que um ouri\u00e7o, mais estridente que uma bomba\u201d, advertia o poeta russo Vladimir Maiak\u00f3vski.<\/p>\n<p>Nascidos h\u00e1 cem anos, dois brasileiros percorreram essas veredas da milit\u00e2ncia pol\u00edtica e est\u00e9tica, consagrando suas vidas ao projeto de humanismo revolucion\u00e1rio, plasmado por Che Guevara na f\u00f3rmula da ternura que tempera a dureza do combate.<\/p>\n<p><strong>O baiano Carlos Marighella (1911-1969),<\/strong> assassinado pela ditadura militar em uma emboscada comandada pelo delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury, passou na cadeia ou na clandestinidade a maior parte dos seus 57 anos. De 1932, quando ainda estudante de engenharia aderiu ao\u00a0<strong>Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/strong> e sofreu sua primeira pris\u00e3o, at\u00e9 tornar-se o guerrilheiro mais c\u00e9lebre e procurado do pa\u00eds durante os anos de chumbo, desfrutou de curto intervalo com plena liberdade, entre 1945 e 1947, antes de a Guerra Fria chegar ao Brasil\u00a0<strong>e alijar os simpatizantes da ent\u00e3o Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica do jogo pol\u00edtico<\/strong>. Reconhecido pela coragem com que enfrentou os torturadores do Estado Novo, pela atua\u00e7\u00e3o destacada como deputado na Constituinte de 1946 e pela ousadia de lan\u00e7ar-se \u00e0 frente de um punhado de jovens em luta desigual contra um advers\u00e1rio muito mais armado e assessorado pela CIA (a central de intelig\u00eancia dos EUA), deixou tamb\u00e9m uma obra po\u00e9tica (<strong>reunida no livro\u00a0<em>Rond\u00f3 da Liberdade<\/em>, Editora Brasiliense, 1994)<\/strong> com versos \u201cde ternura e ira, simples, claros, brasileiros\u201d, de acordo com a avalia\u00e7\u00e3o de Jorge Amado.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 o carioca M\u00e1rio Lago (1911-2002)<\/strong>, advogado por forma\u00e7\u00e3o e artista de m\u00faltiplos talentos \u2013 poeta, autor teatral, compositor de m\u00fasica popular brasileira, radialista e ator de cinema, teatro e televis\u00e3o \u2013, publicou na imprensa seu primeiro poema aos 15 anos e nunca mais saiu do gosto do p\u00fablico: da revista teatral\u00a0<em>Flores \u00e0 Cunha<\/em>, escrita por ele em 1933, at\u00e9 a derradeira apari\u00e7\u00e3o em\u00a0<em>O Clone<\/em>, da Rede Globo, aos 90 anos, em 2001, foram mais de 30 filmes (como\u00a0<em>Terra em Transe<\/em>, de Glauber Rocha), 53 telenovelas e miniss\u00e9ries e uma centena de can\u00e7\u00f5es, dentre as quais o samba\u00a0<em>Ai, que Saudade da Am\u00e9lia<\/em> e a marchinha de carnaval\u00a0<em>Aurora<\/em>s\u00e3o sucessos cantados e gravados at\u00e9 hoje. Por\u00e9m, mesmo a maioria de seus f\u00e3s ignora a trajet\u00f3ria do militante preso sete vezes entre 1932 e 1969, que mantinha sempre ao alcance uma maleta com escova de dentes e muda de roupa, como ele mesmo conta no livro\u00a0<em>Reminisc\u00eancias do Sol Quadrado<\/em> (Cosac &amp; Naify, 2001). A seguir,\u00a0<em>Problemas Brasileiros<\/em> resgata essas facetas menos conhecidas de duas figuras emblem\u00e1ticas da pol\u00edtica e da cultura brasileiras no s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p><strong>Prova em verso<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEi, Brasil \u2013 africano! Minha av\u00f3 era nega hau\u00e7\u00e1, ela veio foi da \u00c1frica, num navio negreiro. Meu pai veio foi da It\u00e1lia, oper\u00e1rio imigrante. O Brasil \u00e9 mesti\u00e7o, mistura de \u00edndio, de negro, de branco.\u201d Com esses versos do poema\u00a0<em>Canto para Atabaque<\/em>, o primog\u00eanito de numerosa prole, fruto da uni\u00e3o entre Augusto Marighella e Maria Rita \u2013 nascido na Baixa do Sapateiro, em Salvador (BA) \u2013, revela as pr\u00f3prias origens e o DNA da rebeldia futura. Do lado paterno, olhos claros e a heran\u00e7a combativa dos anarquistas do norte da It\u00e1lia, resumida numa quest\u00e3o: por que os pobres trabalham toda a vida e nunca t\u00eam nada? Na vertente materna, a tradi\u00e7\u00e3o dos negros islamizados trazidos da Nig\u00e9ria e do Sud\u00e3o, protagonistas de revoltas de escravos como a dos mal\u00eas.<\/p>\n<p>A voca\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de Carlos Marighella se manifesta aos 18 anos, nos bancos escolares. Sorteado para responder ao ponto \u201cCat\u00f3ptrica, leis de reflex\u00e3o e sua demonstra\u00e7\u00e3o, espelhos, constru\u00e7\u00f5es de imagens e equa\u00e7\u00f5es cat\u00f3ptricas\u201d da prova de f\u00edsica, realizada em 23 de agosto de 1929, come\u00e7a assim: \u201cGin\u00e1sio da Bahia aos 23\/ De 29 deste oitavo m\u00eas.\/ Doutor, a s\u00e9rio falo, me permita\/ Em versos rabiscar a prova escrita.\/ Espelho \u00e9 a superf\u00edcie que produz,\/ Quando polida a reflex\u00e3o da luz\u201d. Ao final de 40 versos, a prova lhe rendeu nota dez, foi por ele utilizada como propaganda eleitoral na vitoriosa campanha de 1946 e ficou exposta at\u00e9 1965, protegida por moldura envidra\u00e7ada, no corredor do col\u00e9gio, como exemplo para novas gera\u00e7\u00f5es de estudantes.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois,\u00a0<strong>j\u00e1 integrante da juventude comunista do PCB<\/strong>, Marighella participava de uma manifesta\u00e7\u00e3o estudantil quando foi espancado e preso pelas for\u00e7as repressivas do interventor Juracy Magalh\u00e3es. Do c\u00e1rcere, irreverente e c\u00e1ustico como outrora fora o conterr\u00e2neo Greg\u00f3rio de Matos (apelidado de Boca do Inferno), ele desafia o algoz com uma par\u00f3dia de\u00a0<em>Vozes d\u2019\u00c1frica<\/em>, de Castro Alves, intitulada\u00a0<em>Vozes da Mocidade Acad\u00eamica<\/em>:\u00a0<em>\u201cJuracy! Onde est\u00e1s que n\u00e3o respondes?\/ Em que escuso recanto tu te escondes,\/ quando zombam de ti?\/ H\u00e1 duas noites te mandei meu brado,\/ que embalde desde ent\u00e3o corre alarmado&#8230;\/ Onde est\u00e1s, Juracy?\u201d A essa quadra inicial seguem-se 17 outras no mesmo tom, at\u00e9 o golpe final: \u201cBasta, senhor tenente! De teu bucho\/ Jorre atrav\u00e9s das tripas um repuxo\/ De Judas e sandeus!\/ H\u00e1 duas noites&#8230; eu solu\u00e7o um grito&#8230;\/ Escuta-o conclamando do infinito\/ \u00c0 morte os crimes teus!\u201d<\/em><\/p>\n<p>Amplamente divulgados, esses versos transformam-se no passaporte de ingresso de Marighella \u00e0 pol\u00edtica baiana\u00a0<strong>e garantem ao autor o \u00f3dio n\u00e3o apenas ideol\u00f3gico e de classe, mas tamb\u00e9m pessoal de Juracy Magalh\u00e3es.<\/strong> Ridicularizado como numa peleja entre repentistas nordestinos, o pr\u00f3cer da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional (UDN) se vingar\u00e1 articulando, nos bastidores, a cassa\u00e7\u00e3o do PCB e do mandato de seus parlamentares.<\/p>\n<p><strong>Companheiro P\u00e1dua<\/strong><\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m influenciado pelo anarquismo italiano na pessoa de seu av\u00f4 materno, Giuseppe Croccia, contraponto para o conservadorismo de seus pais, M\u00e1rio Lago tem uma ins\u00f3lita e cruel introdu\u00e7\u00e3o ao mundo da pol\u00edtica: aos 12 anos assiste pela janela de sua casa, na Rua da Rela\u00e7\u00e3o, no centro do Rio de Janeiro, ao espancamento do engenheiro Conrado Niemeyer, no pr\u00e9dio da Pol\u00edcia Central, que ficava em frente. Estarrecido, viu em seguida estendido na cal\u00e7ada o corpo inerte daquele opositor do governo de Arthur Bernardes, que governou sob estado de s\u00edtio de 1922 a 1926.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que estudava piano com a professora Luc\u00edlia, primeira mulher do compositor Heitor Villa-Lobos, por insist\u00eancia do pai, maestro Ant\u00f4nio Lago do teatro de revista, o adolescente M\u00e1rio j\u00e1 liderava uma greve estudantil no Col\u00e9gio Pedro II contra a obriga\u00e7\u00e3o rec\u00e9m-institu\u00edda de levar canecas de casa. Nessa institui\u00e7\u00e3o modelar de ensino teve a influ\u00eancia de outro anarquista, o professor de portugu\u00eas Jos\u00e9 Oiticica, que volta e meia ia preso, enquanto seus alunos vibravam com as perip\u00e9cias da Coluna Prestes, express\u00e3o maior da rebeldia militar tenentista.<\/p>\n<p>Quando eclode a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, o jovem que tenta ganhar a vida como rep\u00f3rter \u00e9 designado para cobrir a liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos.\u00a0<strong>Ao ouvir o vibrante discurso do l\u00edder sindical comunista Roberto Morena,<\/strong> esquece a incumb\u00eancia, perde o emprego, mas inicia-se na milit\u00e2ncia que o levar\u00e1, seis d\u00e9cadas depois, em 1989, a fazer estes versos para a primeira campanha presidencial de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva: \u201cPor mais que matem os sonhos\/ Os sonhos ningu\u00e9m anula\/ Eles caminham no vento\/ Gritando o nome de Lula!\u201d<\/p>\n<p>Ainda em 1930, M\u00e1rio Lago entra para a Faculdade de Direito e, ao mesmo tempo, para a Juventude Comunista do PCB, onde, por quest\u00f5es de seguran\u00e7a, assume o codinome de\u00a0<strong>\u201ccompanheiro P\u00e1dua\u201d<\/strong>. Em janeiro de 1932, ao participar na porta de uma f\u00e1brica de com\u00edcio comemorativo da semana dos Tr\u00eas Ls<strong>(L\u00eanin, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht)<\/strong> enfrenta sua primeira pris\u00e3o, de dois dias, encerrada por este vatic\u00ednio certeiro do delegado:\u00a0<strong>\u201cComunista \u00e9 feito puta e bicheiro, a gente solta e eles voltam\u201d<\/strong>. M\u00e1rio volta no mesmo ano, preso durante uma picha\u00e7\u00e3o. De sua primeira cadeia guardaria na lembran\u00e7a um gesto de solidariedade, que se repete em outras: \u201cEstava apavorado, numa saleta do Hospital Central do Ex\u00e9rcito. De repente um sargento parou na porta, olhou para o p\u00e1tio, examinando-o com cuidado, e disse em tom conspirativo: \u2018Se voc\u00ea tem algum papel que comprometa, rasgue e jogue na latrina. Eu fico tomando conta\u2019. Foi como se, num instante, aquela sala se enchesse de gente me batendo no ombro em gesto amigo. E o medo sumiu por encanto\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u201cSess\u00f5es esp\u00edritas\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O embate direto entre comunismo e fascismo come\u00e7a na Guerra Civil Espanhola, em 1936. No Brasil, no dia 1\u00ba de maio desse ano, Carlos Marighella \u00e9 preso no Rio de Janeiro,\u00a0<strong>quando tentava reorganizar a dire\u00e7\u00e3o do PCB, golpeada pela repress\u00e3o desencadeada ap\u00f3s a derrota do levante militar de novembro de 1935.<\/strong> \u00c9 barbaramente torturado, dias a fio, nas \u201csess\u00f5es esp\u00edritas\u201d ordenadas pelo chefe de pol\u00edcia Filinto M\u00fcller, que na mesma \u00e9poca conduziram \u00e0 loucura o alem\u00e3o Arthur Ewert, integrante da Internacional Comunista enviado ao pa\u00eds com o nome de Harry Berger. Dessa experi\u00eancia Marighella aprende uma li\u00e7\u00e3o:\u00a0<strong>\u201cEnsinaram-me que \u00e9 melhor mil vezes morrer lutando com os policiais do que lhes permitir que supliciem o preso imobilizado\u201d. <\/strong><\/p>\n<p>Entre 1939 e 1945 permanece seis anos nos pres\u00eddios de Fernando de Noronha (PE) e da Ilha Grande (RJ), onde comp\u00f5e, entre outros, dois poemas em homenagem a Lu\u00eds Carlos Prestes e um dedicado \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, intitulado\u00a0<em>Muralha<\/em>, enaltecendo a resist\u00eancia contra a invas\u00e3o nazista. Os poemas pol\u00edticos, por\u00e9m, s\u00e3o minoria na obra de Marighella, que do ponto de vista formal varia do verso livre aos sonetos rimados e metrificados, esbanjando lirismo e sensualidade, como se depreende de alguns t\u00edtulos:\u00a0<em>Balada do Amor, A Lenda da Flor, Seios, \u00cdm\u00e3, A P\u00e9rola<\/em> e\u00a0<em>O Perfume<\/em>.<\/p>\n<p>Na Constituinte de 1946, o jovem deputado de 35 anos n\u00e3o se bate apenas pelas bandeiras do\u00a0<strong>PCB em defesa dos trabalhadores e da soberania nacional, mas tamb\u00e9m em prol do div\u00f3rcio, da liberdade religiosa e do ensino laico, com posi\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas e ainda atuais.<\/strong> Ao questionar em discurso o dogma do casamento indissol\u00favel, vinculando em perspectiva hist\u00f3rica a fam\u00edlia \u00e0 propriedade privada, afirma: \u201cA Igreja Cat\u00f3lica nega o div\u00f3rcio precisamente porque sabe que o adult\u00e9rio \u00e9 t\u00e3o inevit\u00e1vel quanto a morte. Como \u00fanica vingan\u00e7a ao seu alcance, as mulheres escravizadas pelo homem enfeitam as respeit\u00e1veis cabe\u00e7as de seus maridos\u201d. \u00c9 tamb\u00e9m nessa \u00e9poca que se torna o respons\u00e1vel pela revista te\u00f3rica\u00a0<em>Problemas<\/em>, do PCB, e conhece a aeromo\u00e7a Clara Charf, sua companheira at\u00e9 a morte.<\/p>\n<p>Contrariando a imagem sisuda de dirigentes como Prestes, diante do qual o militante comum se perfilava ao dirigir-lhe a palavra, Marighella ria, dan\u00e7ava e cantava m\u00fasicas de Jackson do Pandeiro no cord\u00e3o carnavalesco carioca do Bola Preta. Esse homem alegre, por\u00e9m, um dia chorou, compulsivamente, na reuni\u00e3o clandestina de 1956 do Comit\u00ea Central do PCB, quando viu a imagem de Josef St\u00e1lin, endeusada pelos comunistas do mundo todo, ser desconstru\u00edda pelo relat\u00f3rio de Nikita Kruschev. Mas n\u00e3o abandonou o partido, como muitos fizeram naquele momento. At\u00e9 a op\u00e7\u00e3o pela luta armada, em 1967, continuaria a ser a \u00fanica sombra a Prestes nas vota\u00e7\u00f5es internas do PCB.<\/p>\n<p><strong>Grandes parcerias<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s tr\u00eas meses atuando como advogado, M\u00e1rio Lago se rende \u00e0s suas verdadeiras voca\u00e7\u00f5es, expressas no t\u00edtulo da biografia que a historiadora M\u00f4nica Velloso lhe dedicou:\u00a0<em>M\u00e1rio Lago: Boemia e Pol\u00edtica<\/em> (Editora FGV, 1997). Como bo\u00eamio, torna-se parceiro de Ataulfo Alves \u2013 com quem faz\u00a0<em>Atire a Primeira Pedra<\/em> (al\u00e9m de\u00a0<em>Am\u00e9lia<\/em>) \u2013 e de Cust\u00f3dio Mesquita (coautor de\u00a0<em>Nada Al\u00e9m<\/em>, can\u00e7\u00e3o imortalizada por Orlando Silva). Tamb\u00e9m divide com Noel Rosa o amor da bailarina Ceci (<em><a href=\"http:\/\/www.sescsp.org.br\/sesc\/revistas_sesc\/pb\/artigo.cfm?Edicao_Id=376&amp;breadcrumb=1&amp;Artigo_ID=5795&amp;IDCategoria=6663&amp;reftype=1\" target=\"blank\" rel=\"nofollow\">ver<\/a><\/em> <a href=\"http:\/\/www.sescsp.org.br\/sesc\/revistas_sesc\/pb\/artigo.cfm?Edicao_Id=376&amp;breadcrumb=1&amp;Artigo_ID=5795&amp;IDCategoria=6663&amp;reftype=1\" target=\"blank\" rel=\"nofollow\">PB\u00a0<em>n\u00ba 400<\/em><\/a>).<\/p>\n<p>Para a campanha eleitoral do PCB, em 1946, M\u00e1rio Lago parodia suas pr\u00f3prias m\u00fasicas.\u00a0<em>Fracasso<\/em> fica assim:\u00a0<em>\u201cT\u00f4 fraco de trabalhar e n\u00e3o ter tost\u00e3o,\/ T\u00f4 fraco de ouvir promessa e tapea\u00e7\u00e3o,\/ T\u00f4 fraco, t\u00f4 fraco, t\u00f4 fraco&#8230; mas vai melhorar.\/ Basta pra isso acabar,\/ o povo se organizar,\/ votar na chapa popular\u201d. E Am\u00e9lia, que ele sempre garantiu n\u00e3o ser a exalta\u00e7\u00e3o da submiss\u00e3o feminina, mas da solidariedade da mulher em rela\u00e7\u00e3o ao companheiro, ganha estes versos: \u201cNunca vi fazer tanta promessa,\/ como em v\u00e9spera de elei\u00e7\u00e3o.\/ At\u00e9 a banha que \u00e9 escassa anda \u00e0 be\u00e7a,\/ em troca de votos pra rea\u00e7\u00e3o.\/ Mas hoje o povo n\u00e3o \u00e9 mais Am\u00e9lia,\/ que achava bonito n\u00e3o ter o que comer.\/ \u00c9 in\u00fatil a banha dos oportunistas,\/ o voto do povo \u00e9 dos comunistas!\u201d<\/em><\/p>\n<p>Em um com\u00edcio no Largo da Carioca, em 1947, conhece Zeli Cordeiro, filha do dirigente comunista Henrique Cordeiro, esposa que lhe daria cinco filhos e sempre recebia a pol\u00edcia com calma e ironia. Ia para a cozinha e voltava com uma bandeja: \u201cM\u00e1rio, meu bem, cafezinho pra voc\u00ea!\u201d<\/p>\n<p>Preso no ano seguinte, ao ser identificado, um carcereiro lhe pergunta: \u201cO M\u00e1rio Lago do samba?\u201d Diante da resposta positiva, um castigo extra: ouvir mais de 40 sambas do tira metido a compositor, cada um pior que o outro. Durante o interrogat\u00f3rio, ao fazer um invent\u00e1rio de seus ganhos com direito autoral, \u00e9 interrompido pelo irritado delegado:\u00a0<strong>\u201cTudo isso fazendo samba?\u201d \u201cE com a consci\u00eancia tranquila!\u201d \u00e9 a resposta que lhe custa um soco, na \u00fanica vez em que apanhou na cadeia. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Dois tempos<\/strong><\/p>\n<p>A partir dos anos 1950 os destinos dos dois militantes se aproximam e se cruzam diretamente. Radialista desde meados da d\u00e9cada anterior, M\u00e1rio Lago \u00e9 indicado por Marighella, em 1957, para viajar \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, onde participa de programas na R\u00e1dio Moscou.<\/p>\n<p>Dois dias ap\u00f3s o golpe militar de 1964, o ent\u00e3o secret\u00e1rio-geral do Sindicato dos Radialistas e l\u00edder de tr\u00eas greves do setor tem a casa invadida por dez policiais armados de metralhadoras. Enquanto revistam gavetas, um deles sussurra ao ouvido de M\u00e1rio: \u201cEu nem vou contar pra patroa que vim prender o senhor, sen\u00e3o vai ser briga pra muito tempo. Ela \u00e9 f\u00e3 de suas novelas, n\u00e3o perde uma\u201d.<\/p>\n<p>Durante os quase dois meses que M\u00e1rio Lago passa na Ilha das Flores e no pres\u00eddio Fernandes Viana, na Rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro, Marighella \u00e9 baleado, no dia 9 de maio, em um cinema no bairro da Tijuca. No relato desse epis\u00f3dio, publicado na forma de livro no ano seguinte, sob o t\u00edtulo\u00a0<em>Por Que Resisti \u00e0 Pris\u00e3o<\/em>, ele adverte sobre \u201co grau de viol\u00eancia a que se elevar\u00e1 o pre\u00e7o de nossa liberta\u00e7\u00e3o\u201d. Em dezembro de 1968, ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o do AI-5, Marighella conclama os revolucion\u00e1rios \u00e0 luta armada de modo peculiar: \u201cQuem Samba Fica, Quem N\u00e3o Samba Vai Embora\u201d, \u00e9 o t\u00edtulo do documento que divulga.<\/p>\n<p>Enterrado no cemit\u00e9rio da Vila Formosa, em S\u00e3o Paulo, em 1969, na presen\u00e7a apenas dos coveiros e de 15 agentes da repress\u00e3o, seu corpo \u00e9 levado dez anos depois para Salvador, onde em t\u00famulo projetado por Oscar Niemeyer est\u00e1 gravado: \u201cN\u00e3o tive tempo para ter medo\u201d.<\/p>\n<p>Com M\u00e1rio Lago, ao contr\u00e1rio, o tempo fez um acordo: \u201cNem ele me persegue, nem eu fujo dele\u201d, dizia, ao completar 90 anos. O bastante para ver restaurada a democracia, ser anistiado e reintegrado \u00e0 R\u00e1dio Nacional, onde encabe\u00e7ara a lista dos demitidos por raz\u00f5es pol\u00edticas em 1964. N\u00e3o chegou a escrever a pr\u00f3pria biografia, como pretendia, mas deixou, entre as hist\u00f3rias do per\u00edodo de trevas, mais duas. Preso ap\u00f3s o AI-5, encontra na cadeia o l\u00edder anticomunista Carlos Lacerda, a quem pergunta se o coletivo da cela j\u00e1 estava organizado e ouve como resposta: \u201cVoc\u00ea fica sendo o secret\u00e1rio. J\u00e1 est\u00e1 tarimbado nisso!\u201d Ao ser transferido, trava o seguinte di\u00e1logo com um sargento:\u00a0<strong>\u201cO senhor n\u00e3o muda, hein, seu M\u00e1rio? Virou, mexeu, t\u00e1 preso.\u201d<\/strong> <strong>\u201cNem o senhor. Virou, mexeu, t\u00e1 prendendo.\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>O relato final \u00e9 sobre a pris\u00e3o de sua filha Gra\u00e7a, em 1969.<\/strong> Isolada numa cela da Marinha, ela escuta o refr\u00e3o de uma can\u00e7\u00e3o de Chico Buarque:\u00a0<strong>\u201cQuem \u00e9 voc\u00ea? Me responda que eu quero saber\u201d<\/strong>. Ao ouvir pela segunda vez, compreende que companheiros de infort\u00fanio tentam identific\u00e1-la. Quando, tomada pela emo\u00e7\u00e3o, ela come\u00e7a a cantar os compassos iniciais de\u00a0<strong><em>Ai, que Saudade da Am\u00e9lia<\/em><\/strong>, espalha-se a informa\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 a filha do branco\u201d. Que dali por diante n\u00e3o estaria mais sozinha.<\/p>\n<p>FONTE:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.sescsp.org.br\/sesc\/revistas_sesc\/pb\/artigo.cfm?Edicao_Id=411&amp;Artigo_ID=6289&amp;IDCategoria=7271&amp;reftype=1&amp;BreadCrumb=1\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\"><strong>AQUI (<\/strong><\/a><a href=\"http:\/\/www.sescsp.org.br\/sesc\/revistas_sesc\/pb\/artigo.cfm?Edicao_Id=411&amp;Artigo_ID=6289&amp;IDCategoria=7271&amp;reftype=1&amp;BreadCrumb=1\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\">&#8220;Revista Problemas Brasileiros&#8221;, n\u00ba 407 (set\/out\/2011).)<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: sescsp\n\n\n\n\n\n\n\n\nHERBERT CARVALHO\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2148\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-2148","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-yE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2148","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2148"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2148\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2148"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2148"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2148"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}