{"id":21495,"date":"2018-11-28T09:11:09","date_gmt":"2018-11-28T11:11:09","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21495"},"modified":"2018-11-28T09:11:09","modified_gmt":"2018-11-28T11:11:09","slug":"a-feminizacao-do-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21495","title":{"rendered":"A feminiza\u00e7\u00e3o do trabalho"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/8-zAzyarMo24tDh-OpL1tQdutPhPuENdaheaObzun4ku3JT6wdb-OVeG7LsJMIq5rHJWzmkhnB76pTmQX-bbuv1nz5Ze-fWHQG6jM-5kj0dtbDwR9WyTYr-ulu9QW0k8r9j7m0sLqmvS9ozQdT1zZBBIGsf75QOUPnlsXkIIUlWQmlAMF7GPHBSToZjJdYPmC-MkgnXkSeXwCyj5lJKTkXU-4LLiZXpYcvsEXLTO-Yyoxvu_PqT63KCFA7o_w9yeRA5RVjm9DT3Y5D4ePXy5ebltHfEx67iflXFJvYv2TejzC0gSuohxTho1jPu1WRGWYMwAa3CnI9E88vUZnd7VpDj27xZ4AKnJxEWL5wm0-JIwegSB2pM4sqqECL7XnTSRVrCyTqtLKydQr4Ajysj0qa8P47yqFk-_BtNPCKmYsMSxKdcra1G6M46vPCOseLfTWjEDHtCoZAjbYoNrh-CdSqP9CazWZPYfA01oxBkNim-RdIhUwkp6Ay6lbdAWhQLrWyLAL3AyMNfh9nsB6ody-LGw4zJOM35fN7zRbrV2oP_Ym-bp2INteyhyJLDi7MA4hEZa6lLf3eIzOchhQ_V21LloIZJv1Wn6pcXB6OvYBFbQbsCr1Gh_Yd22IJfUbuAu7WvmviTwRr2omWwTB5S0_jz4Pw=w384-h322-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro &#8211; SP<\/p>\n<p>A classe trabalhadora n\u00e3o \u00e9 uma massa homog\u00eanea e, para entender o mundo do trabalho na sociedade capitalista, h\u00e1 a necessidade de se aprofundar sobre as particularidades da explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho da mulher, que \u00e9 superexplorada e se apresenta de forma diferente.\u00a0Ou, conforme Antunes (1999 apud CISNE, 2013):<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es entre g\u00eanero e classe nos permitem constatar que, no universo do mundo produtivo e reprodutivo, vivenciamos tamb\u00e9m a efetiva\u00e7\u00e3o de uma constru\u00e7\u00e3o social sexuada, onde os homens e as mulheres que trabalham s\u00e3o, desde a inf\u00e2ncia e a escola, diferentemente qualificados e capacitados para o ingresso no mercado de trabalho. E o capitalismo tem sabido apropriar-se desigualmente dessa divis\u00e3o sexual do trabalho.<\/p>\n<p>Sabemos que as mulheres, em virtude da divis\u00e3o social do trabalho, aqui entendida de acordo com Karl Marx como parte constitutiva da organiza\u00e7\u00e3o do processo de trabalho, ocupam um lugar no qual sua for\u00e7a de trabalho serve ao capital para a produ\u00e7\u00e3o de riqueza, mas tamb\u00e9m para a manuten\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho, bem como de outros trabalhadores.<\/p>\n<p>Engels (2012), em \u201cA Origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do Estado\u201d, aponta que a fam\u00edlia monog\u00e2mica foi a primeira forma de fam\u00edlia baseada em condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e no triunfo da propriedade privada sobre a coletiva.\u00a0A entrada das mulheres no mercado de\u00a0<strong>trabalho capitalista\u00a0<\/strong>se deu durante a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, j\u00e1 que o uso das m\u00e1quinas e equipamentos possibilitaram substituir a for\u00e7a muscular. Assim, o capitalista come\u00e7ou a utilizar sua for\u00e7a de trabalho, como a das crian\u00e7as, aumentando o contingente de trabalhadores assalariados ou, nas palavras de Marx,\u00a0<em>\u201clan\u00e7ando \u00e0 m\u00e1quina todos os membros da fam\u00edlia do trabalhador no mercado do trabalho, repartindo o valor da for\u00e7a de trabalho do homem adulto pela fam\u00edlia inteira\u201d<\/em>\u00a0(MARX, 1971 apud NOGUEIRA, 2004).<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o e, tendo em vista ainda as etapas de desenvolvimento das for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o capitalistas, podemos dizer que houve uma amplia\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o do trabalho da mulher, erigindo, a\u00ed, uma intensifica\u00e7\u00e3o desse fen\u00f4meno a partir das caracter\u00edsticas tamb\u00e9m da divis\u00e3o sexual do trabalho, que leva em conta as caracter\u00edsticas atribu\u00eddas socialmente \u00e0s mulheres, tais como o cuidado, a paci\u00eancia, a possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias atividades ao mesmo tempo e a resili\u00eancia.\u00a0Ou seja, a feminiza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a feminiza\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho tem determina\u00e7\u00f5es importantes para a produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o do capital. Na esfera p\u00fablica, a for\u00e7a de trabalho da mulher \u00e9 superexplorada, devido aos baixos sal\u00e1rios, desvaloriza\u00e7\u00e3o, subordina\u00e7\u00e3o e, na esfera privada, a mulher \u00e9 respons\u00e1vel pela manuten\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho dos filhos, do marido e de si pr\u00f3pria.\u00a0Claudia Mazzei Nogueira, em seu artigo \u201cA feminiza\u00e7\u00e3o no mundo do trabalho: entre a emancipa\u00e7\u00e3o e a precariza\u00e7\u00e3o\u201d, situa essa etapa da explora\u00e7\u00e3o na crise do taylorismo\/fordismo, o que levou, nos anos 80\/90, o capital a se reorganizar com a desregulamenta\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas e as privatiza\u00e7\u00f5es do Estado, causando uma precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho, que recaiu tamb\u00e9m e principalmente sobre as mulheres trabalhadoras.<\/p>\n<p>Assim, apesar do aumento do n\u00famero de mulheres no mercado de trabalho,\u00a0esse quadro desvalorizou o trabalho feminino e o pauperizou, flexibilizando cada vez mais suas condi\u00e7\u00f5es, sendo um exemplo disso o trabalho em tempo parcial realizado majoritariamente por mulheres. A autora cita ainda que as mulheres foram utilizadas pelo capital como instrumentos para flexibilizar as condi\u00e7\u00f5es e as leis de trabalho, atingindo inclusive a for\u00e7a de trabalho masculina (NOGUEIRA, 2004).<\/p>\n<p>No mundo do trabalho, segundo pesquisa do Dieese (2013 apud Caderno de Resolu\u00e7\u00f5es do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, 2015), as mulheres hoje representam cerca de 50% da for\u00e7a de trabalho, no Brasil. Deste contingente, 40% das mulheres trabalham em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria. Das que trabalham em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, 70% s\u00e3o negras e 15% s\u00e3o trabalhadoras dom\u00e9sticas.\u00a0Al\u00e9m disso, a mulher sofre dentro de seu local de trabalho com o machismo e as rela\u00e7\u00f5es de poder. Estat\u00edsticas do Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego (apud Caderno de Resolu\u00e7\u00f5es do Coletivo Feminista Ana Montenegro, 2015) revelam que 73% dos ass\u00e9dios morais s\u00e3o sofridos por mulheres, na sua maioria negras. E quando se fala dos ass\u00e9dios sexuais, os n\u00fameros s\u00e3o mais assustadores: 99% dos casos denunciados s\u00e3o de mulheres assediadas por homens.<\/p>\n<p>A inser\u00e7\u00e3o das mulheres no mundo do trabalho pode parecer uma grande conquista de emancipa\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 necess\u00e1rio que se v\u00e1 para al\u00e9m das apar\u00eancias para entend\u00ea-la como parte da pr\u00f3pria contradi\u00e7\u00e3o do capital e de que a entrada de uma parcela cada vez maior de mulheres no mundo do trabalho n\u00e3o resolve sua emancipa\u00e7\u00e3o.\u00a0As mulheres t\u00eam de aceitar os sal\u00e1rios mais baixos, as mais prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de trabalho e os diversos tipos de viol\u00eancia que se pode experienciar. Al\u00e9m disso, a mulher continua sendo a mantenedora da esfera privada, na fam\u00edlia nuclear, onde realiza a reprodu\u00e7\u00e3o social da vida, na qual o trabalho dom\u00e9stico, realizado majoritariamente por mulheres trabalhadoras, n\u00e3o \u00e9 reconhecido pelo modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Isso faz com a mulher tenha uma jornada no m\u00ednimo 8 horas maior que o trabalhador m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Isso evidencia que o capital se op\u00f5e ao processo de emancipa\u00e7\u00e3o da mulher: a falta de vagas em creches, a falta de restaurantes e lavanderias p\u00fablicas s\u00e3o algumas provas desse fato, al\u00e9m do retrocesso e da volta da for\u00e7a de ideias como a que diz que mulher deve ser bela, recatada e do lar.\u00a0O movimento para uma emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres surge da condi\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel de expans\u00e3o desse sistema, que tem a necessidade de absorver a for\u00e7a de trabalho da mulher em um numero cada vez maior. Para que essa altera\u00e7\u00e3o se realize \u00e9 necess\u00e1rio que nesse processo se resolvam algumas quest\u00f5es sobre a igualdade da mulher e a extin\u00e7\u00e3o de alguns tabus.<\/p>\n<p><em>\u201cA mulher \u00e9 a prolet\u00e1ria do prolet\u00e1rio\u201d<\/em>. Assim Flora Tristan, em sua obra \u201cUni\u00e3o Oper\u00e1ria\u201d, escrita em 1843, descreve a situa\u00e7\u00e3o da mulher trabalhadora na sociedade na qual reina o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.\u00a0\u00a0Ela ainda completa afirmando que a mulher n\u00e3o conseguir\u00e1 sua emancipa\u00e7\u00e3o se n\u00e3o for pelas m\u00e3os da classe trabalhadora. Tristan, precursora da I Internacional Socialista, \u00e9 uma das lutadoras que nos inspiram a afirmar que, para a luta da emancipa\u00e7\u00e3o da humanidade e da mulher trabalhadora, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio apenas o combate da opress\u00e3o masculina sobre a feminina, mas, tamb\u00e9m, ter como horizonte de luta a supera\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o capital\/trabalho.<\/p>\n<p>Bibliografia:<\/p>\n<p>CISNE, Mirla. Feminismo, luta de classes e consci\u00eancia militante feminista no Brasil. Tese de Doutorado. UERJ. 2013.<\/p>\n<p>ENGELS, Friedrich. A Origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do estado. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2012.<\/p>\n<p>MARX, Karl. O Capital: cr\u00edtica da economia pol\u00edtica: Livro I: o processo de produ\u00e7\u00e3o do capital. 1 ed. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial, 2014.<\/p>\n<p>NOGUEIRA, Cl\u00e1udia M.. A feminiza\u00e7\u00e3o no mundo do trabalho: entre a emancipa\u00e7\u00e3o e a precariza\u00e7\u00e3o. In: ANTUNES, R.; SILVA, M. A. M.\u00a0<strong>O avesso do trabalho<\/strong>. 1 ed. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2004.<\/p>\n<p>Para assistir:<\/p>\n<p>Terra Fria.<\/p>\n<p>Outra ode \u00e1s costureiras.\u00a0https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=UpRd8UfHg7o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21495\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[22,180],"tags":[222],"class_list":["post-21495","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c3-coletivo-ana-montenegro","category-feminista","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5AH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21495","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21495"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21495\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}