{"id":21532,"date":"2018-12-04T12:55:16","date_gmt":"2018-12-04T14:55:16","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21532"},"modified":"2018-12-04T12:55:16","modified_gmt":"2018-12-04T14:55:16","slug":"o-pesadelo-de-polanyi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21532","title":{"rendered":"O pesadelo de Polanyi"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/crise\/imagens\/karl_polanyi.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Alejandro Nadal*<\/p>\n<p>Para entender o dano que o neoliberalismo provocou nas nossas sociedades \u00e9 preciso tomar alguma dist\u00e2ncia hist\u00f3rica. A perspectiva a partir de horizontes temporais longos permite questionar os mitos e lendas que impedem uma cr\u00edtica correta da economia de mercado e do capitalismo. Um olhar sobre o passado ajuda a compreender que as feridas no tecido social n\u00e3o s\u00e3o superficiais e s\u00e3o acompanhadas por uma perigosa muta\u00e7\u00e3o at\u00e9 na pr\u00f3pria forma de pensarmos.<\/p>\n<p>A primeira coisa que a perspectiva hist\u00f3rica ensina \u00e9 que a sociedade de mercado nem sempre existiu. Este \u00e9 o achado fundamental de\u00a0Karl Polanyi, autor da obra magistral\u00a0<i>A grande transforma\u00e7\u00e3o.<\/i>\u00a0Apesar de os mercados serem conhecidos desde os fins da chamada idade da pedra, as rela\u00e7\u00f5es puramente mercantis estavam balizadas por outro tipo de rela\u00e7\u00f5es sociais que nada tinham a ver com pre\u00e7os e muito menos com uma finalidade de lucro. Para diz\u00ea-lo nas palavras de Polanyi, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa uma sociedade com mercados e uma sociedade de mercado.<\/p>\n<p>Nenhuma sociedade pode sobreviver sem um sistema econ\u00f4mico. Mas o sistema econ\u00f4mico baseado na ideia de um mercado auto-regulado \u00e9 uma novidade na hist\u00f3ria. Na antiguidade existiram mercados de todo tipo de bens, desde tecidos e sand\u00e1lias at\u00e9 utens\u00edlios e alimentos. Havia pre\u00e7os e moedas. Mas as rela\u00e7\u00f5es mercantis estavam submersas numa matriz de rela\u00e7\u00f5es sociais cuja racionalidade n\u00e3o era obter lucro ou benef\u00edcio econ\u00f4mico. Como diz Polanyi, aquelas rela\u00e7\u00f5es mercantis estavam encapsuladas em outro tipo de rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>As coisas mudaram h\u00e1 uns 200 anos. A sociedade do s\u00e9culo XVIII foi testemunha desta mudan\u00e7a portentosa e saudou-a como se se houvesse alcan\u00e7ado o \u00e1pice da civiliza\u00e7\u00e3o. A admira\u00e7\u00e3o cresceu com o mito de que essa transforma\u00e7\u00e3o culminava num processo cujo motor era uma suposta propens\u00e3o natural dos seres humanas \u00e0 troca, para utilizar as palavras de Adam Smith. Essa cren\u00e7a \u00e9 o que anima a mitologia sobre uma evolu\u00e7\u00e3o natural que conduziu \u00e0 sociedade de mercado.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 nada\u00a0<i>natural\u00a0<\/i>na expans\u00e3o do tecido mercantil. Nos povoados e cidades da Europa medieval o com\u00e9rcio era visto com receio e como amea\u00e7a \u00e0s institui\u00e7\u00f5es sociais. Por isso era regulado de maneira estrita, com a obriga\u00e7\u00e3o de tornar p\u00fablicos os pormenores de pre\u00e7os e prazo para qualquer transa\u00e7\u00e3o mercantil e a proibi\u00e7\u00e3o de utilizar intermedi\u00e1rios. Al\u00e9m disso, manteve-se uma separa\u00e7\u00e3o rigorosa entre o com\u00e9rcio local e o de longas dist\u00e2ncias. Os comerciantes dedicados a estas \u00faltimas atividades estavam impedidos de exercer o com\u00e9rcio a retalho. Os mercados foram sempre uma dimens\u00e3o acess\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>O surgimento de estados unificados territorialmente impulsionou a destrui\u00e7\u00e3o das barreiras protecionistas dos povoados e primeiras aglomera\u00e7\u00f5es urbanas, al\u00e9m de projetar a pol\u00edtica do mercantilismo a um primeiro plano. Assim foi aberta a porta para a cria\u00e7\u00e3o de mercados nacionais. Se as rela\u00e7\u00f5es de mercado chegaram a cobrir com o seu manto toda a trama de rela\u00e7\u00f5es sociais, isso resultou da a\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico ou do que Polanyi chamou est\u00edmulos artificiais, n\u00e3o de uma pretensa evolu\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<p>A sociedade de mercado que se imp\u00f4s em fins do s\u00e9culo XVIII tinha na sua l\u00f3gica a necessidade de converter tudo o que tocava numa mercadoria. Entre outras coisas precisou da mercantiliza\u00e7\u00e3o de bens (como a terra), que anteriormente n\u00e3o haviam sido objecto de transa\u00e7\u00f5es num mercado. S\u00f3 assim podia pretender o t\u00edtulo de mercado auto-regulado. Quando chegou a revolu\u00e7\u00e3o industrial, a sociedade de mercado j\u00e1 havia transformado a estrutura das rela\u00e7\u00f5es sociais que havia imperado na Europa. O capitalismo nascido nas rela\u00e7\u00f5es agr\u00e1rias na Inglaterra completou o processo ao converter o trabalho em mercadoria e em outro espa\u00e7o de rentabilidade.<\/p>\n<p>O neoliberalismo e a globaliza\u00e7\u00e3o das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas tamb\u00e9m foram impostos pela a\u00e7\u00e3o do Estado. E o que antes fora visto como uma amea\u00e7a para as institui\u00e7\u00f5es converteu-se numa realidade t\u00f3xica para o tecido social. Tudo o que nos rodeia e at\u00e9 o nosso pr\u00f3prio corpo foi transformado em espa\u00e7o de rentabilidade para as rela\u00e7\u00f5es mercantis. O pior pesadelo de Polanyi tornou-se realidade.<\/p>\n<p>Nas costas de uma teoria econ\u00f4mica requentada e refuncionalizada para servir de sustento ideol\u00f3gico, o neoliberalismo dependeu da ast\u00facia do capital para criar novos espa\u00e7o de rentabilidade. As for\u00e7as do mercado geral deformaram as institui\u00e7\u00f5es sociais e criaram uma cultura do\u00a0<i>sentido comum\u00a0<\/i>que a cada dia nos afasta mais da humanidade e do universo. Forjaram uma cultura popular que gira em torno da competi\u00e7\u00e3o e do individualismo possessivo, com consequ\u00eancias nefastas para os grupos mais vulner\u00e1veis. A hist\u00f3ria do neoliberalismo \u00e9 um pesadelo do qual urge despertar.<\/p>\n<p>30\/Novembro\/2018<\/p>\n<p><b>*Economista, mexicano.\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>O original encontra-se em\u00a0www.lahaine.org\/mundo.php\/<wbr \/>la-pesadilla-de-polanyi\u00a0<\/b><\/p>\n<p>https:\/\/www.resistir.info\/crise\/nadal_30nov18.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21532\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[228],"class_list":["post-21532","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Bi","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21532","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21532"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21532\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21532"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21532"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21532"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}