{"id":21581,"date":"2018-12-08T02:22:50","date_gmt":"2018-12-08T04:22:50","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21581"},"modified":"2018-12-08T02:22:50","modified_gmt":"2018-12-08T04:22:50","slug":"a-rebeliao-peculiar-dos-coletes-amarelos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21581","title":{"rendered":"A rebeli\u00e3o peculiar dos \u201ccoletes amarelos\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"324\" width=\"485\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/181204-ColetesAmarelos-1-485x324.jpg?resize=485%2C324&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->OUTRAS PALAVRAS<\/p>\n<p><em>O capitalismo tirou-lhes direitos e conforto; a esquerda n\u00e3o lhes oferece sa\u00eddas. Suburbanos, empobrecidos e rebelados, eles param a Fran\u00e7a, contra o pre\u00e7o dos combust\u00edveis e o governo neoliberal.<\/em><\/p>\n<p>Por\u00a0Nuno Ramos de Almeida<\/p>\n<p>Segundo as estat\u00edsticas do Minist\u00e9rio do Interior franc\u00eas, divulgadas no momento em que est\u00e1 convocada para o pr\u00f3ximo s\u00e1bado uma quarta mobiliza\u00e7\u00e3o dos coletes amarelos, 136 mil pessoas manifestaram-se no dia 1 de dezembro, 166 mil em 24 de novembro e 282 mil em 17 de novembro. Mais de 682 pessoas foram interpeladas pela pol\u00edcia, 630 colocadas sob deten\u00e7\u00e3o. Pelo menos 281 pessoas ficaram feridas, entre as quais 81 pol\u00edcias.<\/p>\n<p>Dissipadas as nuvens de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, urge fazer uma pergunta: quem s\u00e3o os coletes amarelos? O fil\u00f3sofo franc\u00eas Jean-Luc Mich\u00e9a ironizava, citando um autor, que s\u00e3o demasiado pobres para interessar \u00e0 direita e demasiado brancos para ser apoiados pela esquerda.<\/p>\n<p>Aparentemente, pertencem a uma parte da Fran\u00e7a a quem o ordenado n\u00e3o chega ao fim do m\u00eas. A uma parte do pa\u00eds invis\u00edvel e espacialmente separado das zonas mais ricas, o centro das grandes cidades habitadas pelos vencedores do processo de globaliza\u00e7\u00e3o e financeiriza\u00e7\u00e3o neoliberal que arrancou nos anos 80. Nesses locais vivem mais de 60% dos franceses, uma \u201cFran\u00e7a perif\u00e9rica\u201d, nas palavras do ge\u00f3grafo Christophe Guilluy. Talvez por isso, as sondagens indiquem que mais de 70% dos franceses concordam com as raz\u00f5es do movimento dos coletes amarelos.<\/p>\n<p>Margaret Thatcher garantia, em 31 de outubro de 1987, \u00e0 revista \u201cWoman\u2019s Own\u201d: \u201cThere is no society\u201d, n\u00e3o havia sociedade, mas apenas pessoas individuais. Consumidores guiados pela maximiza\u00e7\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o e a quem o seu ego\u00edsmo levaria o mundo a progredir.<\/p>\n<p>Tr\u00eas d\u00e9cadas depois destas palavras, a destrui\u00e7\u00e3o do Estado Social e dos mecanismos que configuravam a possibilidade de uma ascens\u00e3o social, como o ensino e a sa\u00fade, e a elimina\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos direitos sociais, em prol de supostos direitos individuais, deixaram um lastro de destrui\u00e7\u00e3o, atomiza\u00e7\u00e3o das pessoas, e terraplanagem dos sindicatos e partidos do movimento oper\u00e1rio que corporizavam e davam voz a muitos sectores da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O caos que vivemos hoje nas ruas de Paris, a expandir-se para todo o mundo, \u00e9 herdeiro deste processo pol\u00edtico que destruiu as pol\u00edticas keynesianas que tinham garantido uma reparti\u00e7\u00e3o mais equitativa do rendimento, nos 30 anos de ouro do p\u00f3s-guerra, e um contrato social que integrava setores importantes das classes populares. Esse consenso social \u2013 numa altura em que havia uma concorr\u00eancia entre o Ocidente e o bloco socialista \u2013 era uma forma de evitar crises, rupturas e revolu\u00e7\u00f5es. O fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica significou em grande parte o fim da necessidade premente de as elites capitalistas pagarem a paz social.<\/p>\n<p>\u201cThere is no alternative\u201d, rezava Thatcher, na sua \u00e9poca, naquilo que ficaria conhecido como TINA. \u201cIl n\u2019y a pas d\u2019alternative\u201d, garantia, ufano, Macron, em 2014. Cortes sociais, privatiza\u00e7\u00f5es e flexibiliza\u00e7\u00e3o das normas laborais tornaram-se panaceias universais. A situa\u00e7\u00e3o atual n\u00e3o \u00e9 fruto da crise da globaliza\u00e7\u00e3o, mas do seu sucesso, garante, no Guardian, o ge\u00f3grafo Christophe Guilluy: \u201cEm d\u00e9cadas recentes, na economia francesa, europeia e dos EUA, continuou a crescer a riqueza para benef\u00edcio dos mais ricos. O problema \u00e9 que ao mesmo tempo o desemprego, a inseguran\u00e7a e a pobreza tamb\u00e9m cresceram\u201d.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o presidente franc\u00eas, fazendo-se arauto de uma modernidade que permite cortar os impostos aos mais ricos, aboliu a taxa de solidariedade, cortando 4 mil milh\u00f5es de euros de impostos aos mais ricos, e aliviou em 41 mil milh\u00f5es por ano os impostos \u00e0s grandes empresas e multinacionais. No \u00faltimo or\u00e7amento de 2018, cortou ainda mais 10 mil milh\u00f5es de euros nos impostos sobre capitais. Tudo isso ao mesmo tempo que faz pagar os custos da \u201ctransi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d aos mais pobres, que entre 2008 e 2016, perderam 14,5 mil milh\u00f5es euros de poder de compra.<\/p>\n<p>Um esfor\u00e7o tanto mais discut\u00edvel, quando se sabe que apenas 19% dos 38 mil milh\u00f5es de euros recolhidos nessas taxas est\u00e3o afetados pela chamada \u201ctransi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d, uma desculpa ecol\u00f3gica que esconde, de fato, os gigantescos cortes de impostos aos ricos e \u00e0s empresas.<\/p>\n<p>A pauperiza\u00e7\u00e3o e a marginaliza\u00e7\u00e3o da maior parte da popula\u00e7\u00e3o, conjugada com a aus\u00eancia de for\u00e7as pol\u00edticas e sociais que deem voz a essas camadas, criou o magma para uma explos\u00e3o violenta e descontrolada. S\u00e3o fatores que multiplicam essa aparente f\u00faria irracional: a pobreza, a atomiza\u00e7\u00e3o social e a passagem da antiga esquerda para a aceita\u00e7\u00e3o impl\u00edcita dos valores liberais que colocam acima dos direitos sociais os chamados direitos individuais.<\/p>\n<p>\u201cTivemos perante n\u00f3s a extrema-direita de manh\u00e3, a extrema-esquerda depois do almo\u00e7o e os jovens dos sub\u00farbios ao cair da noite\u201d, relata um policial que garante nunca ter visto na rua e na porrada quase toda a gente no mesmo dia. Resultado: mais de 9.861 granadas foram lan\u00e7adas, s\u00f3 em Paris, nomeadamente as famosas GLI-F4, que cont\u00eam 25 g de TNT. A Fran\u00e7a tem a duvidosa honra de ser o \u00fanico pa\u00eds na Uni\u00e3o Europeia que usa granadas explosivas contra manifestantes, tendo essa pr\u00e1tica custado a m\u00e3o a um manifestante nos recentes protestos.<\/p>\n<p>Um caos de protestos, com carros de luxo incendiados, carros normais em fogo, o arco do Triunfo grafitado e lojas pilhadas. \u201cVi um tipo fugir com um frigor\u00edfico sobre uma bicicleta, outro levava uma betoneira, n\u00e3o consigo perceber para que \u00e9 que aquilo lhe vai servir\u201d, confessa um policial surpreso.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"IjedjfL3T0\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/uncategorized\/coletes-amarelos-quando-a-politica-explode\/\">A rebeli\u00e3o peculiar dos &#8220;coletes amarelos&#8221;<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/uncategorized\/coletes-amarelos-quando-a-politica-explode\/embed\/#?secret=IjedjfL3T0\" data-secret=\"IjedjfL3T0\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;A rebeli\u00e3o peculiar dos &#8220;coletes amarelos&#8221;&#8221; &#8212; OUTRAS PALAVRAS\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21581\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[109],"tags":[226],"class_list":["post-21581","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c122-franca","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5C5","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21581","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21581"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21581\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21581"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21581"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21581"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}