{"id":21583,"date":"2018-12-08T02:29:13","date_gmt":"2018-12-08T04:29:13","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21583"},"modified":"2018-12-08T02:29:13","modified_gmt":"2018-12-08T04:29:13","slug":"governos-prepararam-terreno-para-bolsonaro-atacar-direitos-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21583","title":{"rendered":"Governos prepararam terreno para Bolsonaro atacar direitos ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.correiocidadania.com.br\/images\/Botocudo-Capa.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Gabriel Brito<br \/>\nCorreio da Cidadania<\/p>\n<p>\u201cA saga hist\u00f3rica dos\u00a0\u00edndios botocudos\u00a0se constitui num patrim\u00f4nio da humanidade\u201d. \u00c9 assim que o historiador\u00a0Marco Morel\u00a0define o povo que pesquisou durante anos, sobre o qual publica o livro\u00a0A Saga dos Botocudos\u00a0\u2013\u00a0Guerra, Imagens e Resist\u00eancia Ind\u00edgena, dispon\u00edvel gratuitamente na internet. A etnia, alvo das guerras de conquista e genoc\u00eddio h\u00e1 s\u00e9culos, \u00e9 atualmente conhecida como\u00a0Krenak\u00a0e sua hist\u00f3ria e fama ilustram como poucas a viol\u00eancia do Estado brasileiro, sempre revista e atualizada, frente aos\u00a0povos origin\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u201cO que acho mais not\u00e1vel na trajet\u00f3ria hist\u00f3rica destes\u00a0\u00edndios\u00a0\u00e9 que eles demonstram, na pr\u00e1tica, que a Conquista e a repress\u00e3o n\u00e3o constituem uma linha progressiva e linear que vai aumentando e ser\u00e1 inevitavelmente vencedora. Apesar de muitas perdas, dores e sofrimentos, ao longo de cinco s\u00e9culos, eles sempre conseguiram espa\u00e7os de Reconquista. Foi assim no s\u00e9culo 16, nos seguintes e \u00e9 ainda hoje\u201d, contextualizou.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o poderia deixar de ser, a entrevista estabelece pontes com a atualidade brasileira e suas\u00a0tend\u00eancias pol\u00edticas\u00a0de momento, a anunciar um per\u00edodo de radicaliza\u00e7\u00e3o a partir da entroniza\u00e7\u00e3o de\u00a0Jair Bolsonaro\u00a0na presid\u00eancia da Rep\u00fablica. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 como deixar de lado toda a linha de continuidade que nos trouxe at\u00e9 aqui. O discurso de que a\u00a0demarca\u00e7\u00e3o de terras\u00a0atenderia interesses estrangeiros obscuros \u00e9 um bom exemplo.<\/p>\n<p>\u201cEsta \u00e9 uma das mentiras mais antigas que busca justificar o exterm\u00ednio cultural e f\u00edsico dos\u00a0ind\u00edgenas, e seu \u2018branqueamento\u2019 ou dissolu\u00e7\u00e3o na argamassa da sociedade nacional. E, ao mesmo tempo, destruir as\u00a0florestas\u00a0numa explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria e irrespons\u00e1vel, a que chamam de progresso. As\u00a0terras ind\u00edgenas\u00a0s\u00e3o terras da Uni\u00e3o, portanto, inalien\u00e1veis. Alterar isto \u00e9 beneficiar os que pretendem explorar e se apropriar destas terras, grupos nacionais e transnacionais\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Eis a entrevista.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, como foi o trabalho de pesquisa e elabora\u00e7\u00e3o do livro?<\/p>\n<p>Foi longo. O livro come\u00e7ou a ser elaborado em 1993 e resulta de materiais encontrados em arquivos e bibliotecas da Fran\u00e7a, Rio de Janeiro, Esp\u00edrito Santo, Minas Gerais, S\u00e3o Paulo e Bahia, al\u00e9m de pesquisa de campo com os\u00a0\u00edndios. Encontrava-me em Paris fazendo doutorado sobre outro assunto, mas a viv\u00eancia como estrangeiro, isto \u00e9, como Outro, numa sociedade marcada por tens\u00f5es e preconceitos raciais que atravessavam o cotidiano, remeteram-me para posi\u00e7\u00e3o diversa daquela que vivia em meu pr\u00f3prio pa\u00eds, despertando outro tipo de sensibilidade.<\/p>\n<p>Da\u00ed, ao me deparar ao acaso com uma refer\u00eancia \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de guerra aos\u00a0Botocudos\u00a0em 1808 por\u00a0D.\u00a0Jo\u00e3o\u00a0e, em seguida, ao encontrar nos arquivos do\u00a0Museu do Homem\u00a0(atual\u00a0Museu Quai Branly) os daguerre\u00f3tipos destes\u00a0\u00edndios\u00a0feitos na mesma Paris em 1844, realizei \u201cmergulho\u201d em mares at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o navegados por mim.<\/p>\n<p>O livro foi finalizado (ap\u00f3s v\u00e1rias interrup\u00e7\u00f5es) em 2006, e s\u00f3 agora publicado, doze anos depois. O trabalho \u00e9 fruto de um misto de teimosia, encantamento pela saga de resist\u00eancia dos\u00a0ind\u00edgenas\u00a0e paix\u00e3o intelectual, aliados ao rigor e amplitude detalhada da pesquisa e de leituras sobre o tema. N\u00e3o \u201cpesquisei\u201d apenas pelo\u00a0Google. Foi tamb\u00e9m, para mim, uma redescoberta do Brasil e de sua hist\u00f3ria, ap\u00f3s a temporada europeia de quatro anos.<\/p>\n<p>Qual o resumo da saga dos botocudos que pode ser transmitido ao leitor e como ele dialoga com a atualidade dos povos ind\u00edgenas brasileiros?<\/p>\n<p>Destaquei uma tradi\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia e, tamb\u00e9m, de\u00a0resist\u00eancia\u00a0na hist\u00f3ria brasileira. A guerra foi constante durante cinco s\u00e9culos nos contatos com os\u00a0\u00edndios, o que n\u00e3o significava confronto permanente, pois tais encontros foram marcados tamb\u00e9m por negocia\u00e7\u00f5es e diferentes n\u00edveis de incorpora\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade, ou seja, variadas estrat\u00e9gias de resist\u00eancia. \u00c9 importante que isso seja dito e escrito. Importante real\u00e7ar esta dimens\u00e3o b\u00e9lica e de conflito, embora ela n\u00e3o seja incompat\u00edvel com outras vias de sobreviv\u00eancia e alian\u00e7as e, mesmo, com outras formas de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O potencial destas resist\u00eancias, que rendeu grande notoriedade a tais\u00a0\u00edndios\u00a0e justificou ondas de viol\u00eancia sobre eles, resultou, ao mesmo tempo, em sua persist\u00eancia enquanto grupo \u00e9tnico diferenciado no interior da sociedade nacional. Eles eram cerca de 7 mil indiv\u00edduos em\u00a0Minas Gerais\u00a0e\u00a0Esp\u00edrito Santo, regi\u00e3o dos\u00a0rios Doce e Jequitinhonha, no fim do s\u00e9culo 19 e, algumas d\u00e9cadas depois, nos anos 1950-70, foram dados oficialmente como extintos.<\/p>\n<p>Pareciam totalmente derrotados, mas reapareceram, cresceram, crescem e existem, com dificuldades e esperan\u00e7as. A saga hist\u00f3rica destes\u00a0\u00edndios\u00a0se constitui num patrim\u00f4nio da humanidade.<\/p>\n<p>Como tal grupo ind\u00edgena foi percebido pela sociedade colonial e depois nacional?<\/p>\n<p>Escrevi uma hist\u00f3ria de um determinado\u00a0grupo ind\u00edgena\u00a0desde o s\u00e9culo 16 at\u00e9 o 21, o que n\u00e3o \u00e9 ainda muito comum em nossa historiografia. Tais\u00a0\u00edndios\u00a0estavam entre os que eram chamados de\u00a0Aimor\u00e9s\u00a0no per\u00edodo colonial,\u00a0Botocudos\u00a0no longo s\u00e9culo 19 e\u00a0Krenak\u00a0nos s\u00e9culos 20 e 21. Foi um grupo que ganhou fama, em primeiro lugar, por sua capacidade de guerrear e perseverar, defender suas terras e vidas, recebendo da\u00ed um estigma de ferocidade. Na verdade, a ferocidade maior vinha, e vem, da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, etnocida.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a fama deste grupo surgiu como rea\u00e7\u00e3o perversa e dominadora: transformando-os em modismo intelectual e cultural, tratados como ex\u00f3ticos e, mais estranho ainda, como elo perdido ou perman\u00eancia do homem das cavernas nos tempos da modernidade. Ainda hoje h\u00e1 estudiosos que acreditam nisso!\u00a0Botocudo, nome pejorativo, virou sin\u00f4nimo de tolo embrutecido. Foi gerada uma avalanche de imagens sobre estes\u00a0\u00edndios\u00a0e, por isso, constru\u00ed a narrativa a partir da iconografia.<\/p>\n<p>Quais fatos e din\u00e2micas hist\u00f3ricas presentes no livro seriam de compreens\u00e3o mais urgente da sociedade?<\/p>\n<p>Olha, o que acho mais not\u00e1vel na trajet\u00f3ria hist\u00f3rica destes\u00a0\u00edndios\u00a0\u00e9 que eles demonstram, na pr\u00e1tica, que a Conquista e a repress\u00e3o n\u00e3o constituem uma linha progressiva e linear que vai aumentando e ser\u00e1 inevitavelmente vencedora. Apesar de muitas perdas, dores e sofrimentos, ao longo de cinco s\u00e9culos, eles sempre conseguiram espa\u00e7os de Reconquista. Foi assim no s\u00e9culo 16, nos seguintes e \u00e9 ainda hoje.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria digno da hist\u00f3ria deles trat\u00e1-los de forma vitimizada, assim como n\u00e3o se pode negar a viol\u00eancia sobre eles. No s\u00e9culo 18, por exemplo, tal\u00a0grupo ind\u00edgena\u00a0reconquistou terras que haviam sido tomadas deles pela minera\u00e7\u00e3o nas\u00a0Geraes. No s\u00e9culo 20, retomaram uma parte de terras ancestrais que haviam sido usurpadas pelo Estado nacional, por\u00a0fazendeiros\u00a0e\u00a0grileiros. E atualmente mant\u00eam a perspectiva de ampliar tais Reconquistas em \u00e1reas cont\u00edguas.<\/p>\n<p>O que esperar do futuro governo em rela\u00e7\u00e3o aos povos ind\u00edgenas? Acredita que na pr\u00e1tica seus discursos encontrar\u00e3o freios pol\u00edticos e institucionais, inclusive do ponto de vista internacional?<\/p>\n<p>O governo\u00a0Bolsonaro\u00a0que se avizinha \u00e9 composto de fac\u00ednoras, bandoleiros ou mistificadores de toda esp\u00e9cie. Dilapidadores do patrim\u00f4nio nacional e da qualidade de vida das maiorias e minorias. \u00c9 um governo que j\u00e1 nasce com as m\u00e3os sujas de sangue. O tal personagem indicado como ministro da Sa\u00fade j\u00e1 participou pessoalmente de ataque armado de fazendeiros a \u00edndios\u00a0Guarani, resultando num morto entre estes.<\/p>\n<p>Os futuros governantes, que na realidade j\u00e1 come\u00e7aram a governar, retomam os discursos e as pr\u00e1ticas dos \u201ccolonizadores bravos\u201d, para quem \u00edndio bom \u00e9 \u00edndio morto. Mas est\u00e3o tentando renovar na ret\u00f3rica: afirmam defender a\u00a0autonomia ind\u00edgena, express\u00e3o t\u00e3o cara aos\u00a0povos origin\u00e1rios\u00a0das Am\u00e9ricas, mas para entregar suas terras \u00e0 explora\u00e7\u00e3o indiscriminada. Sob novo uso das palavras, seguem e incentivam a linha dos Bandeirantesmatadores de \u00edndios.<\/p>\n<p>Seguem os passos de intelectuais como o historiador\u00a0Francisco Varnhagen\u00a0(visconde de\u00a0Porto Seguro) e do cientista\u00a0Von Ihering, respectivamente nos s\u00e9culos 19 e 20, que pregavam o exterm\u00ednio das\u00a0popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas\u00a0por consider\u00e1-las empecilho ao progresso. Basta ver a hipocrisia debochada do vice-presidente eleito, general\u00a0Hamilton Mour\u00e3o, de se autodeclarar\u00a0ind\u00edgena. Abandonam assim uma tradi\u00e7\u00e3o conciliadora, de \u201ccoloniza\u00e7\u00e3o mansa\u201d, adotada inclusive por militares como o marechal\u00a0C\u00e2ndido Rondon.<\/p>\n<p>Tal governo se prop\u00f5e a aprofundar e acelerar, dramaticamente, a atitude destrutiva da natureza, dos\u00a0povos da floresta\u00a0e da explora\u00e7\u00e3o desmedida da for\u00e7a de trabalho em geral. \u00c9 um progresso autodestrutivo, que j\u00e1 estava em marcha. Os poss\u00edveis freios pol\u00edticos e institucionais e a press\u00e3o internacional ser\u00e3o decisivos, ser\u00e1 uma batalha dura e sangrenta.<\/p>\n<p>O\u00a0Congresso Nacional\u00a0ser\u00e1 palco central de embates, embora a princ\u00edpio os interesses dos\u00a0\u00edndios\u00a0sejam minorit\u00e1rios ali. N\u00e3o devemos menosprezar a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia dos\u00a0povos origin\u00e1rios, que t\u00eam larga experi\u00eancia de viverem sob genoc\u00eddio de longa dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste sentido, como fazer frente ao discurso de extrema-direita que atribui interesses estrangeiros sobre aquilo que seria uma falsa prote\u00e7\u00e3o ambiental, cultural e humanit\u00e1ria das terras ind\u00edgenas?<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma das mentiras mais antigas que busca justificar o exterm\u00ednio cultural e f\u00edsico dos\u00a0ind\u00edgenas, e seu \u201cbranqueamento\u201d ou dissolu\u00e7\u00e3o na argamassa da sociedade nacional. E, ao mesmo tempo, destruir as\u00a0florestas\u00a0numa explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria e irrespons\u00e1vel, a que chamam de progresso. As\u00a0terras ind\u00edgenas\u00a0s\u00e3o terras da Uni\u00e3o, portanto, inalien\u00e1veis. Alterar isto \u00e9 beneficiar os que pretendem explorar e se apropriar destas terras, grupos nacionais e transnacionais. E que se apresentam como defensores da p\u00e1tria e dos\u00a0ind\u00edgenas! Afirmam defender a autonomia ind\u00edgena.<\/p>\n<p>E h\u00e1 os que continuam argumentando que os\u00a0\u00edndios\u00a0n\u00e3o s\u00e3o brasileiros, ou que seriam mais facilmente manipulados pelos estrangeiros. Mas n\u00e3o dizem que no governo do general\u00a0Ernesto Geisel\u00a0a ent\u00e3o emin\u00eancia parda, o tamb\u00e9m general\u00a0Golbery, articulou pessoalmente a entrega de imensos\u00a0latif\u00fandios\u00a0na\u00a0Amaz\u00f4nia\u00a0a grupos transnacionais, precursores do\u00a0agroneg\u00f3cio, beneficiando-se pessoalmente com isso.<\/p>\n<p>Estamos diante de complexos desafios. Como \u00e9 poss\u00edvel agir e reagir diante de tal quadro?<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil, mas h\u00e1 caminhos. Um deles \u00e9 o trabalho de forma\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, ideol\u00f3gica e cultural. Ainda que a curto, m\u00e9dio ou longo prazo. Despertar sensibilidades e informar esclarecendo. \u00c9 um dos mais urgentes a ser feito hoje em dia pelos setores democr\u00e1ticos e libert\u00e1rios, apesar da insanidade coletiva que parece ter acometido consider\u00e1vel parcela da popula\u00e7\u00e3o. Desmascarar as m\u00e1scaras novas que tentam encobrir a mesma face, antiga e cruel.<\/p>\n<p>Outra ignor\u00e2ncia insistente \u00e9 afirmar que os\u00a0\u00edndios\u00a0n\u00e3o seriam mais\u00a0\u00edndios\u00a0porque usam computador e andam vestidos na rua. Isto \u00e9, porque n\u00e3o aceitam mais ficar cristalizados na vitrine do exotismo. Logo, um brasileiro que fala ingl\u00eas e usa roupas e tecnologia importadas n\u00e3o \u00e9 mais brasileiro?<\/p>\n<p>Os brancos de hoje se comportam e t\u00eam a mesma apar\u00eancia dos que chegaram aqui em 1500? Outro caminho fundamental \u00e9 repensar na atual conjuntura, mas n\u00e3o abandonar, as formas diretas de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social.<\/p>\n<p>Devemos temer a ascens\u00e3o de um poss\u00edvel discurso de cunho negacionista ou diversionista sobre a hist\u00f3ria do exterm\u00ednio de nossos povos origin\u00e1rios, a exemplo do que se tenta empreender a respeito da escravid\u00e3o negra?<\/p>\n<p>O discurso negacionista da viol\u00eancia contra os \u00edndios j\u00e1 existe e sempre existiu, de v\u00e1rias maneiras. A come\u00e7ar pela invisibilidade que cobre a hist\u00f3ria das\u00a0popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas\u00a0no\u00a0Brasil. Ou pela forma\u00e7\u00e3o de um olhar que considera tais seres humanos como ex\u00f3ticos e \u201cdiferentes\u201d do ser humano \u201cnormal\u201d. Uma coisa \u00e9 a especificidade e a pluralidade cultural, outra \u00e9 o pertencimento comum \u00e0 esp\u00e9cie humana. Todos parentes, todos diferentes. J\u00e1 em\u00a0Casa Grande &amp; Senzala,\u00a0Gilberto Freyre\u00a0afirmava com toda tranquilidade que n\u00e3o houve\u00a0resist\u00eancia ind\u00edgena\u00a0na hist\u00f3ria do Brasil, que diante do contato com o colonizador os \u00edndios agiam como vegetais, passivos, se \u201camarfanhavam\u201d por incapacidade de se adaptar a outros modos de vida.<\/p>\n<p>Coloquei esta afirma\u00e7\u00e3o dele como ep\u00edgrafe de meu livro, por contraste. Agora, como tudo que \u00e9 ruim tende a ser potencializado pelo futuro-atual governo, n\u00e3o ser\u00e1 espantoso que este negacionismo se amplie. Mas ele encontrar\u00e1 pela frente o protagonismo dos\u00a0povos ind\u00edgenas\u00a0e das formula\u00e7\u00f5es intelectuais relacionadas, assim como das repercuss\u00f5es institucionais e internacionais.<\/p>\n<p>Os\u00a0povos ind\u00edgenas\u00a0sempre foram protagonistas importantes da hist\u00f3ria do Brasil. As falas diversionistas aparecem agora sob o manto c\u00ednico da defesa da autonomia ind\u00edgena!<\/p>\n<p>Inclusive h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o com outros negacionismos hist\u00f3ricos na atualidade\u2026<\/p>\n<p>Sim, sem d\u00favida, como o da ditadura civil-militar implantada em 1964. Ali\u00e1s, o pr\u00f3prio\u00a0Lula, em seu primeiro mandato como presidente da Rep\u00fablica, afirmou publicamente que no Brasil houve uma \u201cditabranda\u201d. A trajet\u00f3ria hist\u00f3rica dos\u00a0\u00edndios\u00a0que estudei, os atuais\u00a0Krenak, \u00e9 tamb\u00e9m exemplar neste sentido: durante a dura\u00a0ditadura, digamos assim, existiu em seu territ\u00f3rio tradicional um campo de prisioneiros de car\u00e1ter \u00e9tnico e pol\u00edtico, para onde eram enviados ind\u00edgenas considerados rebeldes de v\u00e1rias etnias e de todos cantos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Entrevistei v\u00e1rios destes ex-detentos, mulheres e homens, que relataram assassinatos, torturas e proibi\u00e7\u00e3o de falar na pr\u00f3pria l\u00edngua. Houve tamb\u00e9m l\u00e1 a\u00a0Guarda Rural Ind\u00edgena\u00a0(GRIN), que tentava formar militarmente ind\u00edgenas para reprimirem outros\u00a0ind\u00edgenas. Quando visitei o local no finalzinho do s\u00e9culo 20, o im\u00f3vel do pres\u00eddio estava em ru\u00ednas. Os\u00a0\u00edndios, inclusive, \u201ccanibalizaram\u201d o local, isto \u00e9, pegavam material para construir e melhorar suas pr\u00f3prias casas.<\/p>\n<p>Com ar de triunfo e ironia, os\u00a0\u00edndios\u00a0mostraram-me o destino do centro de repress\u00e3o, destru\u00eddo pelo tempo (em seus v\u00e1rios sentidos) e pela a\u00e7\u00e3o humana. Quanto aos maus usos atuais da hist\u00f3ria da escravid\u00e3o de origem africana, s\u00e3o infames e numerosos. Importante assinalar que a\u00a0escravid\u00e3o de ind\u00edgenas\u00a0foi constante na hist\u00f3ria do Brasil, inclusive durante o s\u00e9culo 19, ap\u00f3s a Independ\u00eancia.<\/p>\n<p>O governador eleito de Minas,\u00a0Romeu Zema, empres\u00e1rio e aprendiz de\u00a0neofascista, comparou os \u201cprivil\u00e9gios\u201d dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos aos dos senhores de escravos. Tal tipo de distor\u00e7\u00e3o se nutre da ignor\u00e2ncia. Historiadores, pesquisadores e educadores t\u00eam um desafio pela frente. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a educa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e os\u00a0povos ind\u00edgenas\u00a0est\u00e3o sob ataque simult\u00e2neo.<\/p>\n<p>Voltando um pouco no tempo, \u00e9 dif\u00edcil considerar que chegamos a este momento de forma casual. No que tange \u00e0s pol\u00edticas indigenistas, como avaliar os governos recentes, em especial os do PT e tamb\u00e9m o de Temer?<\/p>\n<p>\u00c9 uma avalia\u00e7\u00e3o ruim, tr\u00e1gica. Num breve hist\u00f3rico desde o fim da\u00a0ditadura, segundo dados do\u00a0Instituto Socioambiental\u00a0(ISA), os governos do\u00a0PTrepresentaram um n\u00edtido retrocesso na\u00a0demarca\u00e7\u00e3o\u00a0e homologa\u00e7\u00e3o de\u00a0terras ind\u00edgenas. Houve um crescimento destas iniciativas nos governos\u00a0Collor\u00a0e\u00a0FHC. Foram, respectivamente, 112 e 145\u00a0terras ind\u00edgenas\u00a0homologadas. Foi o resultado do protagonismo ind\u00edgena a partir da\u00a0Assembleia Constituinte\u00a0em 1987 e do aumento da press\u00e3o nacional e internacional pela\u00a0preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente, como a\u00a0ECO 92, entre outras iniciativas.<\/p>\n<p>Nos governos\u00a0Lula\u00a0tais homologa\u00e7\u00f5es diminu\u00edram para 87 e no per\u00edodo\u00a0Dilma\u00a0ca\u00edram ainda mais, para 21. A\u00a0Dilma\u00a0tinha uma clara postura\u00a0anti-ind\u00edgena. Tal pol\u00edtica expressa o avan\u00e7o do capitalismo selvagem, do\u00a0agroneg\u00f3cio\u00a0e as tentativas constantes de alian\u00e7as com tais setores da parte dos governos petistas. O desgoverno\u00a0Temer\u00a0zerou as homologa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Existem mais de 800\u00a0terras ind\u00edgenas\u00a0\u00e0 espera da\u00a0demarca\u00e7\u00e3o\u00a0no\u00a0Brasil. Preparou-se, assim, o terreno para o presidente rec\u00e9m-eleito afirmar que, se depender dele, n\u00e3o haver\u00e1 um cent\u00edmetro de\u00a0terra ind\u00edgena.\u00a0Bolsonaro\u00a0fez uma declara\u00e7\u00e3o de guerra ofensiva, ao estilo da tradi\u00e7\u00e3o militarizada no trato com os\u00a0\u00edndios\u00a0na hist\u00f3ria do Brasil. As viol\u00eancias contra os\u00a0povos origin\u00e1rios\u00a0j\u00e1 crescem antes do novo presidente tomar posse. Mas o resultado n\u00e3o depende s\u00f3 da vontade dele.<\/p>\n<p>Como v\u00ea o futuro dos povos origin\u00e1rios no Brasil?<\/p>\n<p>Desde o s\u00e9culo 19 havia uma previs\u00e3o, dita cient\u00edfica ou pelo senso comum, de que os\u00a0\u00edndios\u00a0estavam irremediavelmente destinados a desaparecer. Mas tal n\u00e3o ocorreu, pelo contr\u00e1rio. \u00c9 muito dif\u00edcil conter a\u00a0ressurg\u00eancia ind\u00edgena\u00a0em curso. A campanha de\u00a0Sonia Guajajara\u00a0a vice-presidente da Rep\u00fablica e a elei\u00e7\u00e3o in\u00e9dita de\u00a0Joenia Wapichana\u00a0para o\u00a0Congresso Nacional\u00a0s\u00e3o express\u00f5es de setores crescentes de uma\u00a0popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgenaaguerrida e muito bem preparada, espalhada Brasil afora.<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 pouco, mas s\u00e3o sinais de vitalidade. N\u00e3o tenho d\u00favida de que o futuro de todos n\u00f3s, inclusive dos pat\u00e9ticos\u00a0<em>bolsominions<\/em>, est\u00e1 ligado ao futuro dos\u00a0povos origin\u00e1rios. Estamos no mesmo barco, na mesma arca de\u00a0No\u00e9. A destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do\u00a0meio ambiente, das diversidades biol\u00f3gicas e das culturais, e a explora\u00e7\u00e3o ainda maior da for\u00e7a de trabalho deixam entrever um cen\u00e1rio catastr\u00f3fico.<\/p>\n<p>E tal perspectiva aparece na vida dos \u00edndios retratados em seu livro?<\/p>\n<p>Sim, aparece. Ainda aqui serve de exemplo o caso dos\u00a0Krenak, diretamente afetados pela criminosa trag\u00e9dia ambiental do\u00a0rio Doce, causada pela\u00a0Samarco, j\u00e1 concretizando o cen\u00e1rio de terra arrasada. Depois de lutas dur\u00edssimas, corajosas e eficientes, atrav\u00e9s de gera\u00e7\u00f5es, em que conseguiram reconquistar uma parte \u00ednfima de seus\u00a0territ\u00f3rios tradicionais\u00a0e recriar preservando suas identidades, est\u00e3o agora cercados de lama e privados de sua principal fonte de vida, as \u00e1guas do\u00a0rio Watu, na l\u00edngua\u00a0Borum. Assim como as demais\u00a0popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas. A d\u00edvida hist\u00f3rica da sociedade nacional com estes povos \u00e9 incomensur\u00e1vel. E estamos falando de regi\u00e3o Sudeste.<\/p>\n<p>Considera que ainda h\u00e1 espa\u00e7o para lutas e esperan\u00e7as?<\/p>\n<p>Sim, ainda h\u00e1! O que est\u00e1 em jogo no territ\u00f3rio dos antigos\u00a0Botocudos, por exemplo, \u00e9 o futuro do planeta. Para que o mundo n\u00e3o se transforme num grande rio Doce, com \u00e1gua apodrecida, os historiadores, educadores e pesquisadores em geral podem desempenhar um papel.<\/p>\n<p>Elaborar e difundir uma hist\u00f3ria que seja ao mesmo tempo consistente e resistente, desconstruindo preconceitos e exclus\u00f5es de forma fundamentada, tomando partido sim, ao lado da afirma\u00e7\u00e3o da criatividade, da liberdade e da vida, em suas melhores dimens\u00f5es. Os\u00a0Krenak, dados como mortos e extintos, resistiram, ressurgiram e recriam suas vidas. Quem sabe ser\u00e1 assim com o\u00a0rio Doce? \u00c9 uma esperan\u00e7a que dan\u00e7a na corda bamba de sombrinha.<\/p>\n<p>Temos muito o que aprender com os\u00a0povos ind\u00edgenas\u00a0nas rela\u00e7\u00f5es com o meio ambiente e os demais animais e, sobretudo, na sabedoria das longas resist\u00eancias \u00e0 opress\u00e3o. N\u00e3o se trata de idealiza\u00e7\u00e3o, mas de condi\u00e7\u00f5es culturais e hist\u00f3ricas estabelecidas e por estabelecer. Projetos de sociedade e de civiliza\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 importante caminharmos com os\u00a0povos origin\u00e1rios\u00a0e com as demais for\u00e7as potencialmente libertadoras, ainda que em dire\u00e7\u00e3o a futuros incertos.<\/p>\n<p>http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/34-artigos\/manchete\/13587-ultimos-governos-prepararam-o-terreno-para-bolsonaro-negar-todos-os-direitos-dos-povos-indigenas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21583\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[268,163],"tags":[223],"class_list":["post-21583","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eleicoes-2018","category-movimento-indigena","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5C7","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21583","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21583"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21583\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21583"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21583"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21583"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}