{"id":21618,"date":"2018-12-11T06:23:04","date_gmt":"2018-12-11T08:23:04","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21618"},"modified":"2018-12-12T22:50:54","modified_gmt":"2018-12-13T00:50:54","slug":"a-concentracao-do-proletariado-nas-grandes-cidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21618","title":{"rendered":"A concentra\u00e7\u00e3o do proletariado nas grandes cidades"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" alt=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/bloglavrapalavra.files.wordpress.com\/2018\/10\/fila-emprego.jpg\"><!--more-->A concentra\u00e7\u00e3o do proletariado nas grandes cidades<\/p>\n<p>Por Gabriel Landi Fazzio<br \/>\nLavra Palavra<\/p>\n<p>\u201c[A revolu\u00e7\u00e3o industrial] desenvolveu por toda a parte o proletariado na mesma medida em que desenvolveu a burguesia. Na propor\u00e7\u00e3o em que os burgueses se tornavam mais ricos, tornavam-se os prolet\u00e1rios mais numerosos. Uma vez que os prolet\u00e1rios somente por meio do capital podem ter emprego e o capital s\u00f3 se multiplica quando emprega trabalho, a multiplica\u00e7\u00e3o do proletariado avan\u00e7a precisamente ao mesmo passo que a multiplica\u00e7\u00e3o do capital. Ao mesmo tempo, concentra tanto os burgueses como os prolet\u00e1rios em grandes cidades, nas quais se torna mais vantajoso explorar a ind\u00fastria, e com esta concentra\u00e7\u00e3o de grandes massas num mesmo lugar d\u00e1 ao proletariado a consci\u00eancia da sua for\u00e7a.\u201d Engels, em \u201cPrinc\u00edpios B\u00e1sicos do Comunismo\u201d.<\/p>\n<p>Nos anos 90, uma onda ideol\u00f3gica burguesa avan\u00e7ou audaciosamente mesmo sobre as organiza\u00e7\u00f5es mais combativas do movimento prolet\u00e1rio e campon\u00eas, erguendo como suas palavras de ordem: chega de Hist\u00f3ria; morte \u00e0 luta de classes; longa vida aos \u201cnovos sujeitos\u201d hist\u00f3ricos da sociedade-cidad\u00e3! Segundo o mantra dos especuladores financeiros e dos monop\u00f3lios tecnol\u00f3gicos, em breve todos n\u00f3s viveremos em um mundo em que o trabalho humano se tornar\u00e1 obsoleto, sendo realizado por completo pelas m\u00e1quinas. H\u00e1 inclusive quem, na \u201cesquerda\u201d, se deixe enganar por esses contos de carochinha burgueses.<\/p>\n<p>O Partido Comunista em particular e os marxistas em geral travam, ainda hoje, uma dura luta ideol\u00f3gica contra tais mistifica\u00e7\u00f5es. Toda essa fraseologia come\u00e7a aos poucos a mostrar seus limites pr\u00e1ticos, como resultado da crise capitalista mundial declarada em 2008 e a consequente intensifica\u00e7\u00e3o das lutas de classes. Ainda h\u00e1, no entanto, um longo caminho a percorrer para a organiza\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia e de uma pr\u00e1tica revolucion\u00e1rias da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Sabemos que o coro orgulhoso das classes dominantes est\u00e1 embalado por uma harmonia de mentiras. No entanto, tamb\u00e9m sabemos que nenhuma concep\u00e7\u00e3o de mundo pode se generalizar se n\u00e3o contar com ao menos alguma base material. A pr\u00f3pria subordina\u00e7\u00e3o material da classe trabalhadora \u00e0 classe burguesa \u00e9 um desses elementos de base, evidentemente \u2013 mas, como em toda ideologia, \u00e9 o elemento obsceno e velado.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a tese do \u201cfim da centralidade do trabalho\u201d para a economia tem seu alicerce em um conjunto de verdades parciais sobre a mais recente reorganiza\u00e7\u00e3o produtiva do capitalismo, verdades estas que s\u00e3o sempre apresentadas de forma desordenada e desconexa.<\/p>\n<p>Uma das teses marxistas que sofre mais ataques, inclusive dentro da esquerda, \u00e9 a tese de que a produ\u00e7\u00e3o capitalista, em seu processo de socializa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, tende a concentrar cada vez mais o proletariado. Valeria a pena nos debru\u00e7armos sobre esta afirma\u00e7\u00e3o, da qual podemos desdobrar conclus\u00f5es importantes.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, esses ataques te\u00f3ricos tentam pintar os comunistas de algo como uns \u201coportunistas caducos\u201d. O racioc\u00ednio \u00e9 mais ou menos o seguinte: a \u201cvelha esquerda\u201d existia em uma \u00e9poca que o capitalismo concentrava os trabalhadores nas grandes linhas de montagem, facilitando a organiza\u00e7\u00e3o do proletariado. Os comunistas teriam se aproveitado disso para difundir suas ideias. Como essa \u00e9poca est\u00e1 superada, por conta da descentraliza\u00e7\u00e3o global da produ\u00e7\u00e3o fabril, ent\u00e3o essa \u201cconveni\u00eancia\u201d n\u00e3o mais existe, e seria apenas por algum tipo de apego \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es que os comunistas ainda dariam tanta import\u00e2ncia para a classe trabalhadora \u2026<\/p>\n<p>Mas, na verdade, quem raciocinasse assim confundiria duas quest\u00f5es distintas. Uma coisa que o marxismo h\u00e1 muito tempo constatou \u00e9 que o proletariado ocupa uma posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica na sociedade capitalista por conta da centralidade de seu trabalho no processo produtivo (al\u00e9m da pr\u00f3pria centralidade da divis\u00e3o social do trabalho na vida social humana). Outra coisa diferente \u00e9 a conveni\u00eancia organizativa de sua concentra\u00e7\u00e3o em grandes f\u00e1bricas. De fato, ambas as coisas se relacionam, al\u00e9m da semelhan\u00e7a nas palavras \u201cconcentra\u00e7\u00e3o\u201d e \u201ccentralidade\u201d. Mas a concentra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, de modo algum, a quest\u00e3o determinante: o proletariado da \u00e9poca das manufaturas, por exemplo, deu mais exemplos de explos\u00f5es insurrecionais do que o proletariado do per\u00edodo fordista, ainda que aquele primeiro contasse com organiza\u00e7\u00f5es menos \u201cprofissionais\u201d do que os contempor\u00e2neos sindicatos pelegos.<\/p>\n<p>Esse tema sobre o per\u00edodo chamado p\u00f3s-fordista \u00e9 complexo, e n\u00e3o podemos esgot\u00e1-lo aqui. A quest\u00e3o, contudo, \u00e9 que os comunistas n\u00e3o escolhem desenvolver seu trabalho pol\u00edtico prioritariamente entre as camadas prolet\u00e1rias apenas porque sua concentra\u00e7\u00e3o facilite o trabalho de organiza\u00e7\u00e3o. S\u00e3o os oportunistas que, como sempre (alheios ao m\u00e9todo revolucion\u00e1rio, que demanda uma rigorosa an\u00e1lise da realidade para sua transforma\u00e7\u00e3o radical) e pouco firmes em mat\u00e9ria de princ\u00edpios), debandam do mundo do trabalho rumo \u00e0 apologia de cada nova forma espont\u00e2nea de luta que surja, cada vez que uma nova dificuldade surge diante da tarefa de organizar politicamente e de modo independente a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Lenin nos oferece uma brilhante s\u00edntese, a esse respeito, em sua brochura \u201c\u201dQuem s\u00e3o os \u2018Amigos do Povo\u2019 e como eles combatem os social-democratas\u201d.*<\/p>\n<p>Levando em conta esta exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso, em segundo lugar, estabelecer uma autocr\u00edtica de uma compreens\u00e3o limitada que se enraizou na tradi\u00e7\u00e3o comunista; uma compreens\u00e3o que tamb\u00e9m foi amplamente difundida pela social-democracia ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo: a compreens\u00e3o de que a tese da crescente concentra\u00e7\u00e3o do proletariado est\u00e1 ligada fundamentalmente ao local imediato do trabalho. Ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo, o advento do fordismo (no curso do desenvolvimento do chamado est\u00e1gio monopolista do capitalismo), associado a uma elevada taxa de adensamento fabril, permitiu que muitos intelectuais e militantes da classe trabalhadora reduzissem a tese da crescente concentra\u00e7\u00e3o a uma caricatura, a tese da crescente concentra\u00e7\u00e3o no ch\u00e3o de f\u00e1brica. As \u00faltimas d\u00e9cadas reverteram nitidamente tal tend\u00eancia, por in\u00fameros fatores, e s\u00e3o parte da base material em cima da quase se ergue a cr\u00edtica \u00e0 tese marxista mal-apreendida.<\/p>\n<p>Na verdade, n\u00e3o seria o caso de rever a validade de tal tese, e sim de apreend\u00ea-la corretamente. Por um lado porque mesmo nesse aspecto sua validade se confirma, de modo totalmente novo: ter\u00e1 havido momento na hist\u00f3ria onde a ind\u00fastria estivesse mais concentrada em meia d\u00fazia de pa\u00edses, reduzindo os maiores contingentes do operariado, o proletariado fabril, a uma meia d\u00fazia de nacionalidades aparentes? O caso da China \u00e9 emblem\u00e1tico a esse respeito, com um contingente de mais de 200 milh\u00f5es de oper\u00e1rios concentrado no pa\u00eds! Por outro lado, como lidar com tal tese nos pa\u00edses que, em franca desindustrializa\u00e7\u00e3o, veem crescer seus setores de servi\u00e7os ou, mesmo nos setores industriais, percebem uma crescente descentraliza\u00e7\u00e3o e pulveriza\u00e7\u00e3o do proletariado (fabril ou n\u00e3o) ao longo do territ\u00f3rio geogr\u00e1fico?<\/p>\n<p>Nesse \u00faltimo caso, precisamos recobrar a compreens\u00e3o exposta j\u00e1 em Marx e Engels, como mencionado j\u00e1 na abertura do texto: a concentra\u00e7\u00e3o do proletariado nas grandes cidades. Se pegarmos apenas o exemplo brasileiro, teremos elementos suficientes para essa constata\u00e7\u00e3o: em 1940, 30% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds habitava as cidades, propor\u00e7\u00e3o que atingiria 55,9% em 1970, e 82,2% nos anos 2000! Segundo a ONU, no ano de 2005 o Brasil tinha uma taxa de urbaniza\u00e7\u00e3o de 84,2% e, de acordo com algumas proje\u00e7\u00f5es, at\u00e9 2050, a porcentagem da popula\u00e7\u00e3o brasileira que habitar\u00e1 centros urbanos deve pular para 93,6%.<\/p>\n<p>Atualmente, mais de metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira vive em apenas 5% dos munic\u00edpios. Com 21 milh\u00f5es de habitantes, a regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo re\u00fane 10% da popula\u00e7\u00e3o nacional. No mundo todo essa \u00e9 a tend\u00eancia, em ritmos diversos \u2013 em 2014, segundo a ONU, 54% da popula\u00e7\u00e3o mundial passou a viver em cidades. \u00c9 desnecess\u00e1rio dizer a que classe pertence a ampla maioria dessa popula\u00e7\u00e3o urbana: ainda que essas grandes cidades possuam uma gigantesca \u201ccamada m\u00e9dia\u201d de pequenos propriet\u00e1rios, podemos tomar o exemplo da cidade de S\u00e3o Paulo, que conta com um contingente de, pelo menos, mais de 60% de assalariados. [1]<\/p>\n<p>De que modo poder\u00edamos falar tanto em \u201c\u00eaxodo rural\u201d ou em \u201curbaniza\u00e7\u00e3o\u201d e, ao mesmo tempo, querer refutar a tese da crescente concentra\u00e7\u00e3o do proletariado? N\u00e3o podemos nos confundir sobre o significado disso tudo. N\u00e3o \u00e9 que a luta de classes tenha sido substitu\u00edda por uma \u201cluta pelo direito \u00e0 cidade\u201d ou coisa que o valha. Mas \u00e9 nosso papel, justamente, as formas que a luta de classes assume ao longo do espa\u00e7o urbano e buscar formas de melhorar nossa organiza\u00e7\u00e3o, agita\u00e7\u00e3o e propaganda levando em conta as transforma\u00e7\u00f5es do processo produtivo e da composi\u00e7\u00e3o do proletariado brasileiro, diante do fen\u00f4meno da crescente desindustrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se \u00e9 verdade que esse processo de concentra\u00e7\u00e3o ocorre na medida em que cada vez mais o proletariado se concentra nas grandes cidades; essa mesma din\u00e2mica tamb\u00e9m \u00e9 verdade no que diz respeito \u00e0 din\u00e2mica centro-periferia nestas cidades.<\/p>\n<p>O chamado \u201cCentro Expandido\u201d de S\u00e3o Paulo \u00e9 um \u00f3timo exemplo. Segundo o censo de 2010, 17% dos habitantes de S\u00e3o Paulo (2.102.851 pessoas em 2012) residem no chamado Centro Expandido. Por outro lado, a regi\u00e3o concentra o absurdo \u00edndice de 64,1% dos postos de trabalho da cidade! Significa que mesmo se todos habitantes da regi\u00e3o trabalharem efetivamente nela, ainda haver\u00e1 47,1% dos postos de trabalho de S\u00e3o Paulo concentrados ali, requerendo para seu preenchimento o deslocamento di\u00e1rio de imensas massas populacionais, vindas de todos os cantos da cidade \u2013 sen\u00e3o mesmo de cidades no entorno, como Franco da Rocha, Francisco Morato, Mairipor\u00e3, Itaquaquecetuba, Aruj\u00e1, Po\u00e1, Santana do Parna\u00edba, Osasco, Cotia, Barueri, etc.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a concentra\u00e7\u00e3o em uma mesma f\u00e1brica facilitava em boa medida o trabalho de organiza\u00e7\u00e3o da classe prolet\u00e1ria. Por outro lado, ser\u00e1 \u00e0 toa que as organiza\u00e7\u00f5es sindicais desse per\u00edodo fordista tivessem tra\u00e7os t\u00e3o fortes de corporativismo, de estreiteza profissional? Trabalhar pela organiza\u00e7\u00e3o de um proletariado que, apesar de estar concentrado imensamente em alguns poucos quil\u00f4metros quadrados, apresenta uma diversidade imensa em termos profissionais, de quem s\u00e3o seus empregadores, de suas origens geogr\u00e1ficas, etc\u2026 isso coloca diante de n\u00f3s imensos desafios \u2013 e, ao mesmo tempo, um grande potencial pol\u00edtico de que essa organiza\u00e7\u00e3o, caso bem-sucedida, n\u00e3o se limite ao sindicalismo economicista, \u00e0 luta imediata e adquira contornos de uma luta de classes cada vez mais pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Na aus\u00eancia de \u201clocais de trabalho\u201d diretos que concentrem vastas quantidades de trabalhadores, n\u00e3o seria o caso de concebermos a pr\u00f3pria cidade, e notadamente seu centro, como um amplo \u201clocal de trabalho\u201d indireto, onde se concentra toda sorte de assalariados?<\/p>\n<p>\u201cPara a porta das f\u00e1bricas!\u201d, foi o imperativo que guiou a agita\u00e7\u00e3o comunista ao longo de quase um s\u00e9culo. \u201cPara as periferias onde moram as massas trabalhadoras!\u201d, dizem hoje grandes parcelas da esquerda, buscando oferecer uma alternativa aos impasses da desindustrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o que esse novo mote esteja equivocado. Mas ser\u00e1 que nossa tentativa de deitar ra\u00edzes nessa massa prolet\u00e1ria ser\u00e1 mais eficiente de que modo? Se dividimos nossas for\u00e7as em dezenas de frentes, baseando todos os nossos esfor\u00e7os em pequenos grupos esparsos em dezenas de bairros, ou se concentramos parte significativa de nossas for\u00e7as em uma atua\u00e7\u00e3o nas regi\u00f5es urbanas centrais, pela qual transitam diariamente imensas parcelas dos trabalhadores e trabalhadoras que moram nas periferias? Uma tal atua\u00e7\u00e3o, em conjunto com as iniciativas j\u00e1 existentes na periferia, poderia oferecer maiores resultados do que nossa cont\u00ednua pulveriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Queremos uma revolu\u00e7\u00e3o social, que ponha fim \u00e0 opress\u00e3o e \u00e0 explora\u00e7\u00e3o, e que reorganize a sociedade n\u00e3o em torno do lucro privado de uns poucos, mas em torno das necessidades efetivas da grande maioria do povo. Se verdadeiramente queremos isso, \u00e9 imposs\u00edvel renunciar ao trabalho pol\u00edtico nesse setor estrat\u00e9gico do povo, a classe prolet\u00e1ria. Apenas soldando o movimento comunista revolucion\u00e1rio \u00e0 classe trabalhadora, atrav\u00e9s de um longo e paciente trabalho de agita\u00e7\u00e3o, propaganda e organiza\u00e7\u00e3o; apenas assim ser\u00e1 poss\u00edvel transformar a sociedade radicalmente, deste os seus alicerces.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] Os dados mais recentes que obtivemos, em uma r\u00e1pida pesquisa, dizem respeito ao ano de 2012: S\u00e3o Paulo possu\u00eda cerca de 5 milh\u00f5es de prolet\u00e1rios com carteira de trabalho assinada, cerca 53,1% da popula\u00e7\u00e3o (vale ressaltar: contra 42% dez anos antes, em 2003). Al\u00e9m disso, 6,5% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 composta por empregadas dom\u00e9sticas. At\u00e9 aqui tratamos de uma camada assalariada. Independentemente das formas de consci\u00eancia hegem\u00f4nicas em tal ou qual fra\u00e7\u00e3o dessa camada, em cada ramo da economia, tratamos aqui de uma imensa maioria prolet\u00e1ria. O dado se complica quando tratamos dos 11% de trabalhadores sem carteira assinada no setor privado, prolet\u00e1rios exclu\u00eddos da regulamenta\u00e7\u00e3o trabalhista fordista e alijados das organiza\u00e7\u00f5es sindicais \u2013 ou seja, sujeitos a toda sorte de rela\u00e7\u00f5es de trabalho informais ou mesmo familiares que dificultam a constru\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e consci\u00eancia classistas. De resto, 15,7% da popula\u00e7\u00e3o paulistana trabalha por conta pr\u00f3pria, seja como camadas mais est\u00e1veis da pequena burguesia, seja como as mais prec\u00e1rias camadas advindas da massa prolet\u00e1ria desempregada (ambulantes, camel\u00f4s, etc); 6,2% s\u00e3o militares ou servidores p\u00fablicos estatut\u00e1rios; e apenas 4,5% s\u00e3o empregadores, sejam burgueses ou pequeno-burgueses.<\/p>\n<p>* \u201cA socializa\u00e7\u00e3o do trabalho pela produ\u00e7\u00e3o capitalista n\u00e3o consiste, em absoluto, em pessoas trabalhando sob um mesmo teto (isso \u00e9 apenas uma pequena parte do processo), mas na concentra\u00e7\u00e3o do capital sendo acompanhada pela especializa\u00e7\u00e3o do trabalho social, por uma diminui\u00e7\u00e3o no n\u00famero de capitalistas em cada dado ramo da ind\u00fastria e um aumento no n\u00famero de distintos ramos da ind\u00fastria \u2013 em muitos processos produtivos separados sendo fundidos em um s\u00f3 processo social de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando, nos dias de tecelagem artesanal, por exemplo, os pr\u00f3prios pequenos produtores teciam o fio e o transformavam em tecido, t\u00ednhamos alguns poucos ramos da ind\u00fastria (a fia\u00e7\u00e3o e a tecelagem eram fundidas).<\/p>\n<p>Mas quando a produ\u00e7\u00e3o se torna socializada pelo capitalismo, o n\u00famero de ramos separados da ind\u00fastria aumenta: a fia\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o \u00e9 feita separadamente e assim tamb\u00e9m a tecelagem; essa divis\u00e3o e a concentra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o d\u00e3o origem a novos ramos \u2013 constru\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas, minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o e assim por diante. Em cada ramo da ind\u00fastria, que agora se tornou mais especializado, o n\u00famero de capitalistas diminui constantemente. Isso significa que o la\u00e7o social entre os produtores se torna cada vez mais forte, os produtores est\u00e3o atados em um \u00fanico conjunto.<\/p>\n<p>Os pequenos produtores isolados realizavam v\u00e1rias opera\u00e7\u00f5es simultaneamente e, portanto, eram relativamente independentes uns dos outros: quando, por exemplo, o pr\u00f3prio artes\u00e3o semeou o linho, e ele pr\u00f3prio o cozeu e o teceu, ele era quase independente dos outros. Foi esse (e s\u00f3 esse) regime de produtores de mercadorias pequenos e dispersos que justificavam o ditado: \u201cCada um por si e Deus por todos\u201d, isto \u00e9, uma anarquia das flutua\u00e7\u00f5es do mercado.<\/p>\n<p>O caso \u00e9 completamente diferente sob a socializa\u00e7\u00e3o do trabalho que foi alcan\u00e7ado devido ao capitalismo. O fabricante que produz tecidos depende do fabricante do fio de algod\u00e3o; o segundo depende do plantador capitalista que cultiva o algod\u00e3o, do dono das obras de engenharia, da mina de carv\u00e3o, e assim por diante. O resultado \u00e9 que nenhum capitalista pode se realizar sem os outros. \u00c9 claro que o ditado \u201ccada um por si\u201d \u00e9 completamente inaplic\u00e1vel a tal regime: aqui cada um trabalha para todos e todos para cada um (e nenhum espa\u00e7o \u00e9 deixado para Deus \u2013 seja como uma fantasia super-mundana ou como um mundano \u201cbezerro de ouro\u201d).<\/p>\n<p>O car\u00e1ter do regime muda completamente. Quando, durante o regime de pequenas empresas isoladas, o trabalho chegou a um impasse em qualquer um deles, isso afetou apenas alguns membros da sociedade, n\u00e3o causou qualquer confus\u00e3o geral e, portanto, n\u00e3o atraiu a aten\u00e7\u00e3o geral e n\u00e3o provocou interfer\u00eancia p\u00fablica. Mas quando o trabalho chega a um impasse em uma grande empresa, que se dedica a um ramo altamente especializado da ind\u00fastria e, portanto, trabalha quase para toda a sociedade e, por sua vez, depende de toda a sociedade (para simplificar, um caso em que a socializa\u00e7\u00e3o chegou ao ponto culminante), o trabalho est\u00e1 fadado a parar em todos os outros empreendimentos da sociedade, porque eles s\u00f3 podem obter os produtos de que precisam a partir deste empreendimento, eles s\u00f3 podem dispor de todas as suas pr\u00f3prias mercadorias se as mercadorias deste est\u00e3o dispon\u00edveis. Todos os processos de produ\u00e7\u00e3o, portanto, se fundem em um \u00fanico processo de produ\u00e7\u00e3o social; no entanto, cada ramo \u00e9 conduzido por um capitalista separado, depende dele e os produtos sociais s\u00e3o sua propriedade privada.<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 claro que a forma da produ\u00e7\u00e3o entra em contradi\u00e7\u00e3o irreconcili\u00e1vel com a forma de apropria\u00e7\u00e3o? N\u00e3o \u00e9 evidente que esta \u00faltima deve adaptar-se \u00e0 primeira e deve tornar-se social, isto \u00e9, socialista? Mas o inteligente filisteu de reduz a coisa toda para trabalhar sob o mesmo teto. Poderia algo ser mais equivocado!? (Eu descrevi apenas o processo material, apenas a mudan\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, sem tocar no aspecto social do processo, o fato de que os trabalhadores se tornam unidos, atados e organizados, j\u00e1 que isso \u00e9 um fen\u00f4meno derivado e secund\u00e1rio.)\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/lavrapalavra.com\/2018\/12\/10\/a-concentracao-do-proletariado-nas-grandes-cidades\/\">A concentra\u00e7\u00e3o do proletariado nas grandes&nbsp;cidades<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21618\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9,31],"tags":[219],"class_list":["post-21618","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","category-c31-unidade-classista","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5CG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21618"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21618\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}