{"id":21628,"date":"2018-12-11T22:06:51","date_gmt":"2018-12-12T00:06:51","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21628"},"modified":"2018-12-11T22:06:56","modified_gmt":"2018-12-12T00:06:56","slug":"brasil-um-pais-do-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21628","title":{"rendered":"Brasil, um pa\u00eds do passado"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" alt=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/criticadaeconomia.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Bo%C3%A7alnaro-1.jpg\"><!--more-->Por Philipp Lichterbeck, Alemanha<br \/>\nCR\u00cdTICA DA ECONOMIA<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que viajar educa o indiv\u00edduo, fazendo com que algu\u00e9m contemple algo de perspectivas diferentes. Quem deixa o Brasil nos dias de hoje deve se preocupar. O pa\u00eds est\u00e1 caminhando rumo ao passado.<\/p>\n<p>No Brasil, pode ser que isso seja algo menos percept\u00edvel, porque as pessoas est\u00e3o expostas ao moinho cotidiano de informa\u00e7\u00f5es. Mas, de fora, estas formam um mosaico assustador. Atualmente, estou em viagem pelo Caribe \u2013 e o Brasil que se v\u00ea a partir daqui \u00e9 de dar medo.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria, j\u00e1 houve momentos frequentes de regresso. Jared Diamond os descreve bem em seu livro Colapso: Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Motivos que contribuem para o fracasso s\u00e3o, entre outros, destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente, nega\u00e7\u00e3o de fatos, fanatismo religioso. Assim como nos tempos da Inquisi\u00e7\u00e3o, quando o conhecimento em si j\u00e1 era suficiente para tornar algu\u00e9m suspeito de blasf\u00eamia.<\/p>\n<p>No Brasil atual, n\u00e3o se grita \u201cherege!\u201d, mas \u201ccomunismo!\u201d. \u00c9 a acusa\u00e7\u00e3o com a qual se demoniza a ci\u00eancia e o progresso social. A emancipa\u00e7\u00e3o de minorias e grupos menos favorecidos: comunismo! A liberdade art\u00edstica: comunismo! Direitos humanos: comunismo! Justi\u00e7a social: comunismo! Educa\u00e7\u00e3o sexual: comunismo! O pensamento cr\u00edtico em si: comunismo!<\/p>\n<p>Tudo isso s\u00e3o conquistas que n\u00e3o s\u00e3o questionadas em sociedades progressistas. O Brasil de hoje n\u00e3o as quer mais.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a pr\u00f3pria acusa\u00e7\u00e3o de comunismo \u00e9 um anacronismo. Como se hoje houvesse um forte movimento comunista no Brasil. Mas n\u00e3o se trata disso. O novo brasileiro n\u00e3o deve mais questionar, ele precisa obedecer: \u201cBrasil acima de tudo, Deus acima de todos\u201d.<\/p>\n<p>Est\u00e1 na moda um anti-intelectualismo horrendo, \u201calimentado pela falsa no\u00e7\u00e3o de que a democracia significa que a minha ignor\u00e2ncia \u00e9 t\u00e3o boa quanto o seu conhecimento\u201d, segundo dizia o escritor Isaac Asimov. Ouvi uma anedota de um pai brasileiro que tirou o filho da escola porque n\u00e3o queria que ele aprendesse sobre o cubismo. O pai alegou que o filho n\u00e3o precisa saber nada sobre Cuba, que isso era doutrina\u00e7\u00e3o marxista. N\u00e3o sei se a historia \u00e9 verdade. O pior \u00e9 que bem que poderia ser.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia da ci\u00eancia \u00e9 o discernimento. Mas os novos inquisidores amam v\u00eddeos com t\u00edtulos como \u201cFeliciano destr\u00f3i argumentos e bancada LGBT\u201d. Destruir, acabar, detonar, desmoralizar \u2013 s\u00e3o seus conceitos fundamentais. E, para que ningu\u00e9m se engane, o ataque vale para o pr\u00f3prio esclarecimento.<\/p>\n<p>Os inquisidores n\u00e3o querem mais Immanuel Kant, querem Silas Malafaia. N\u00e3o querem mais Paulo Freire, querem Alexandre Frota. N\u00e3o querem mais Jean-Jacques Rousseau, querem Olavo de Carvalho. N\u00e3o querem Chico Mendes, querem a \u201cmusa do veneno\u201d (imagino que seja para ingerir ainda mais agrot\u00f3xicos).<\/p>\n<p>D\u00e1 para imaginar para onde vai uma sociedade que tem esse tipo de fan\u00e1tico como exemplo: para o nada. Os sinais de alerta est\u00e3o acesos em toda parte.<\/p>\n<p>O desmatamento da Floresta Amaz\u00f4nica teve neste ano o seu maior aumento em uma d\u00e9cada: 8 mil quil\u00f4metros quadrados foram destru\u00eddos entre 2017 e 2018. Mas cons\u00f3rcios de mineradoras e o agroneg\u00f3cio pressionam por uma maior abertura da floresta.<\/p>\n<p>Jair Bolsonaro quer realizar seus desejos. O pr\u00f3ximo presidente n\u00e3o acredita que a seca crescente no Sudeste do Brasil poderia ter algo a ver com a aus\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o de nuvens sobre as \u00e1reas desmatadas. E ele n\u00e3o acredita nas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Para ele, ambientalistas s\u00e3o subversivos.<\/p>\n<p>Existe um consenso entre os cientistas conhecedores do assunto no mundo inteiro: dizem que a Terra est\u00e1 se aquecendo drasticamente por causa das emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono do ser humano e que isso ter\u00e1 consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas. Mas Bolsonaro, igual a Trump, prefere n\u00e3o ouvi-los. Prefere ignorar o problema.<\/p>\n<p>Para o pr\u00f3ximo ministro brasileiro do Exterior, Ernesto Ara\u00fajo, o aquecimento global \u00e9 at\u00e9 um compl\u00f4 marxista internacional. Ele age como se tivesse alguma no\u00e7\u00e3o de pesquisas sobre o clima. \u00c9 exatamente esse o problema: a ignor\u00e2ncia no Brasil de hoje conta mais do que o conhecimento. O Brasil prefere acreditar num diplomata de terceira categoria do que no Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Clim\u00e1tico, que estuda seriamente o tema h\u00e1 trinta anos.<\/p>\n<p>Ara\u00fajo, ali\u00e1s, tamb\u00e9m diz que o sexo entre heterossexuais ou comer carne vermelha s\u00e3o comportamentos que est\u00e3o sendo \u201ccriminalizados\u201d. Ele fala s\u00e9rio. Ao mesmo tempo, o Tinder bomba no Brasil. E, segundo o IBGE, h\u00e1 220 milh\u00f5es de cabe\u00e7as de gado nos pastos do pa\u00eds. Mas n\u00e3o importa. O extremista Ara\u00fajo n\u00e3o se interessa por fatos, mas pela dissemina\u00e7\u00e3o de cren\u00e7as. Para Jared Diamond, isso \u00e9 um comportamento carater\u00edstico de sociedades que fracassam.<\/p>\n<p>Obviamente, est\u00e1 clar\u00edssimo que a restri\u00e7\u00e3o do pensamento come\u00e7a na escola. Por isso, os novos inquisidores se concentram especialmente nela. A \u201cEscola Sem Partido\u201d tenta fazer exatamente isso. Leandro Karnal, uma das cabe\u00e7as mais inteligentes do Brasil, com raz\u00e3o descreve a ideia como \u201casneira sem tamanho\u201d.<\/p>\n<p>A Escola Sem Partido foi idealizada por pessoas sem no\u00e7\u00e3o de pedagogia, forma\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o. Eles querem reprimir o conhecimento e a discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Karl Marx \u00e9 ensinado em qualquer faculdade de economia s\u00e9ria do mundo, porque ele foi um dos primeiros a descrever o funcionamento do capitalismo. E o fez de uma forma genial. Mas os novos inquisidores do Brasil n\u00e3o querem Marx. Acham que o contato com a obra dele transformaria qualquer estudante em marxista convicto. Acreditam que o pr\u00f3prio saber \u00e9 nocivo \u2013 igual aos inquisidores. E, como bons inquisidores, exortam \u00e0 den\u00fancia de mestres e professores. A obra 1984, de George Orwell, est\u00e1 se tornando realidade no Brasil em 2018.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel estender longamente a lista com exemplos do regresso do pa\u00eds: a influ\u00eancia cada vez maior das igrejas evang\u00e9licas, que fazem neg\u00f3cios com a credulidade e a esperan\u00e7a de pessoas pobres. A demoniza\u00e7\u00e3o das artes (exposi\u00e7\u00f5es nunca abrem por medo dos extremistas, e artistas como Wagner Schwartz s\u00e3o amea\u00e7ados de morte por uma performance que foi um sucesso na Europa). H\u00e1 uma nega\u00e7\u00e3o paranoica de modelos alternativos de fam\u00edlia. Existe a tentativa de reescrever a hist\u00f3ria e transformar torturadores em her\u00f3is. H\u00e1 a tentativa de introduzir o criacionismo. Tom\u00e1s de Torquemada em vez de Charles Darwin.<\/p>\n<p>E, como se fosse uma s\u00e1tira, no Brasil de 2018 h\u00e1 a homenagem a um pseudocientista na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, que defende a teoria de que a Terra seria plana, ou \u201cconvexa\u201d, e n\u00e3o redonda. A mo\u00e7\u00e3o de congratula\u00e7\u00e3o concedida ao pesquisador foi proposta pelo presidente da AL e aprovada por unanimidade pelos parlamentares.<\/p>\n<p>Brasil, um pa\u00eds do passado.<\/p>\n<p>Nota sobre o autor: Philipp Lichterbeck queria abrir um novo cap\u00edtulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde ent\u00e3o, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio. O texto acima foi escrito originalmente na revista Deutsche Welle, Alemanha, em 28\/11\/2018.<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Na foto acima, partid\u00e1rios de Bolsonaro comemoram vit\u00f3ria eleitoral no fim de outubro, Rio de Janeiro.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"y8Qbc02fS1\"><p><a href=\"http:\/\/criticadaeconomia.com.br\/brasil-um-pais-do-passado\/\">Brasil, um pa\u00eds do passado<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"http:\/\/criticadaeconomia.com.br\/brasil-um-pais-do-passado\/embed\/#?secret=y8Qbc02fS1\" data-secret=\"y8Qbc02fS1\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Brasil, um pa\u00eds do passado&#8221; &#8212; Cr\u00edtica da Economia\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21628\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,268],"tags":[223],"class_list":["post-21628","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","category-eleicoes-2018","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5CQ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21628","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21628"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21628\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21628"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21628"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21628"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}