{"id":21656,"date":"2018-12-15T00:41:38","date_gmt":"2018-12-15T02:41:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21656"},"modified":"2018-12-15T00:41:42","modified_gmt":"2018-12-15T02:41:42","slug":"empobrecimento-e-resistencia-as-peculiaridades-da-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21656","title":{"rendered":"Empobrecimento e resist\u00eancia: as peculiaridades da Argentina"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" alt=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resumenlatinoamericano.org\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/12-de-dic-claudio.jpg\"><!--more-->Katz, Viento Sur<br \/>\nResumen LatinoamericanoClaudio<\/p>\n<p>A Argentina \u00e9 um grande enigma para os int\u00e9rpretes do desenvolvimento. Um pa\u00eds favorecido por extraordin\u00e1rias riquezas naturais e com uma popula\u00e7\u00e3o relativamente qualificada enfrenta profundas crises peri\u00f3dicas. Essas convuls\u00f5es convivem com enormes movimentos de protesto em cen\u00e1rios pol\u00edticos convulsivos. Quais s\u00e3o as causas do decl\u00ednio econ\u00f4mico-social? Como operam as for\u00e7as que acentuam e temperam esse retrocesso? Que problemas enfrentam as explica\u00e7\u00f5es mais correntes? (1)<\/p>\n<p>Traum\u00e1ticos desequil\u00edbrios<\/p>\n<p>O pa\u00eds se encontra novamente \u00e0 beira do colapso. Os fechamentos de empresas aprofundam a recess\u00e3o, as assustadoras taxas de juros sufocam a atividade produtiva e os sal\u00e1rios suportam a pior queda das \u00faltimas d\u00e9cadas. A infla\u00e7\u00e3o retomou os picos do passado e sobrevoa o fantasma de outro calote da d\u00edvida.<\/p>\n<p>O primeiro programa neoliberal implementado pelo governo naufragou e o socorro oferecido pelo FMI se extinguiu em 90 dias. O segundo aux\u00edlio do Fundo, inclusive sua manipula\u00e7\u00e3o direta da economia, introduziu uma brutal restri\u00e7\u00e3o de gastos e uma in\u00e9dita aspira\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esse ajuste conduz a um prolongado estancamento ou a incontrol\u00e1veis explos\u00f5es. J\u00e1 existem paralelos com cen\u00e1rios de troca compulsiva de b\u00f4nus e transbordamentos inflacion\u00e1rios (1989) ou de aguda depress\u00e3o (2001).<\/p>\n<p>Esta recorr\u00eancia de grandes convuls\u00f5es ilustra um retrocesso de longo prazo com poucas semelhan\u00e7as internacionais. Em muitos poucos pa\u00edses se verificam oscila\u00e7\u00f5es t\u00e3o abruptas do n\u00edvel de atividade. O PIB argentino registrou contra\u00e7\u00f5es e expans\u00f5es superiores \u00e0 m\u00e9dia internacional em 12 oportunidades durante os \u00faltimos 35 anos. Essas oscila\u00e7\u00f5es obstru\u00edram a acumula\u00e7\u00e3o, retra\u00edram os investimentos e elevaram os custos de financiamento.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 singular a dimens\u00e3o alcan\u00e7ada pela fuga de capitais. Um percentual equivalente a 50% ou 70% do produto bruto est\u00e1 localizado no exterior. Os grupos dominantes protegem nos para\u00edsos fiscais significativas por\u00e7\u00f5es dos lucros que geram no circuito local.<\/p>\n<p>A magnitude da infla\u00e7\u00e3o \u00e9 outro dado peculiar. Superava a m\u00e9dia internacional nos anos de generalizada remarca\u00e7\u00e3o internacional de pre\u00e7os e persiste no atual contexto de estabilidade (ou defla\u00e7\u00e3o). Em contados pa\u00edses se verificam as taxas de dois d\u00edgitos anuais que imperam na Argentina.<\/p>\n<p>Essa deprecia\u00e7\u00e3o da moeda empurrou \u00e0 fuga de divisas e \u00e0 comercializa\u00e7\u00e3o de muitos bens em moeda estrangeira. Pela mesma raz\u00e3o, o volume f\u00edsico de d\u00f3lares em circula\u00e7\u00e3o supera amplamente a m\u00e9dia na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Condicionamentos objetivos<\/p>\n<p>A Argentina sediou uma industrializa\u00e7\u00e3o precoce, com certo desenvolvimento do mercado interno e importantes conquistas sociais. Por\u00e9m, esse distanciamento inicial das adversidades latino-americanas se desvaneceu de forma vertiginosa nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>A economia do Cone Sul ficou muito afetada pelos par\u00e2metros de rentabilidade da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal. Essas refer\u00eancias for\u00e7aram uma reestrutura\u00e7\u00e3o muito regressiva nos pa\u00edses perif\u00e9ricos que alcan\u00e7aram maior desenvolvimento pr\u00e9vio. Opressora sucess\u00e3o de ajustes. A remodela\u00e7\u00e3o come\u00e7ou nos anos 80 e ningu\u00e9m avista sua finaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mesmo desacoplamento afeta outras economias medianas da Am\u00e9rica Latina. Todas sofrem os efeitos do giro invertido para o Oriente. Basta observar o contraste com o Sudeste Asi\u00e1tico para notar a envergadura dessa muta\u00e7\u00e3o. Duas zonas que compartilham o mesmo status econ\u00f4mico relegado seguiram trajet\u00f3rias opostas.<\/p>\n<p>Esta mudan\u00e7a impacta sobre o Brasil, que padece com o estancamento da produtividade, os d\u00e9ficits externos e a obsolesc\u00eancia da infraestrutura. Tamb\u00e9m as maquilas mexicanas perderam gravita\u00e7\u00e3o frente aos competidores asi\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, as adversidades da Argentina s\u00e3o maiores. A economia que inaugurou o modelo substitutivo de importa\u00e7\u00f5es n\u00e3o conseguiu superar as consequ\u00eancias desse avan\u00e7o. Ficou mais descolocada que seus pares frente ao novo padr\u00e3o produtivo das empresas transnacionais.<\/p>\n<p>A Argentina n\u00e3o tem as compensa\u00e7\u00f5es que conserva o M\u00e9xico por sua proximidade com o mercado estadunidense. Tampouco conta com o tamanho do Brasil para ampliar a escala de produ\u00e7\u00e3o. A balan\u00e7a comercial favor\u00e1vel com o s\u00f3cio lim\u00edtrofe ilustra essa adversidade.<\/p>\n<p>As peri\u00f3dicas reativa\u00e7\u00f5es da ind\u00fastria argentina nunca conseguiram conter o decl\u00ednio. Persistiu a alta concentra\u00e7\u00e3o em poucos setores, o predom\u00ednio estrangeiro e a baixa integra\u00e7\u00e3o de componentes locais. No tri\u00eanio de Macri se consumou um verdadeiro \u201cindustric\u00eddio\u201d. Perderam-se 107.000 empregos, a produ\u00e7\u00e3o se localiza em 14% abaixo de 2011 e o n\u00edvel de emprego se equipara com 2018.<\/p>\n<p>Alguns analistas contrap\u00f5em estas dificuldades com a estabilidade do Chile, Peru ou Col\u00f4mbia, apresentando uma vis\u00e3o abrandada dessas economias atrasadas. Aqueles que tradicionalmente emulavam os Estados Unidos, Espanha ou It\u00e1lia, agora se resignam a seguir os modelos situados em um escal\u00e3o inferior.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, n\u00e3o conseguem explicar por que raz\u00e3o a Argentina continua atraindo imigrantes dessas na\u00e7\u00f5es e ignoram a invalidez de sua compara\u00e7\u00e3o. As novas economias referentes evitam a demoli\u00e7\u00e3o fabril da Argentina por sua simples car\u00eancia de parques industriais significativos.<\/p>\n<p>Nosso pa\u00eds perdeu tamb\u00e9m o privilegiado lugar internacional de suas exporta\u00e7\u00f5es de carne e trigo. Ampliou-se o n\u00famero competidores de ambos produtos e a soja n\u00e3o cumpre a mesma fun\u00e7\u00e3o multiplicadora de outras atividades. Ao contr\u00e1rio, acentua a quebra da agricultura integral e complementa a escassa cria\u00e7\u00e3o de postos de trabalho, que geram a minera\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto ou a extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo com shale.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas se acentuou a incapacidade de distintos governos para canalizar a renda da agricultura (a minera\u00e7\u00e3o ou os combust\u00edveis) para o desenvolvimento produtivo. Essa impot\u00eancia refor\u00e7a o contraste com a Austr\u00e1lia, que se especializou na exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias primas, expandindo ao mesmo tempo certos servi\u00e7os e ind\u00fastrias intensivas.<\/p>\n<p>A imita\u00e7\u00e3o desse caminho se encontra atualmente mais obstru\u00edda. A Austr\u00e1lia n\u00e3o enfrenta a complementaridade e rivalidade agr\u00edcola da Argentina com os Estados Unidos e sua proximidade do Sudeste Asi\u00e1tico permitiu uma reconvers\u00e3o, que n\u00e3o est\u00e1 ao alcance da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Turbul\u00eancias pol\u00edticas<\/p>\n<p>O retrocesso econ\u00f4mico \u00e9 a principal causa da instabilidade geral. A aus\u00eancia de crescimento sustent\u00e1vel e a recorr\u00eancia das crises corroem h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas distintos presidentes.<\/p>\n<p>Os governos militares dos anos 60 foram mais vol\u00e1teis que seus equivalentes sul-americanos e nenhuma outra ditadura colapsou por uma incurs\u00e3o militar semelhante \u00e0s Malvinas. Tampouco tem sido t\u00e3o corrente em outros pa\u00edses a ren\u00fancia antecipada dos mandat\u00e1rios ou a ascens\u00e3o de cinco presidentes em uma semana.<\/p>\n<p>O uso da coer\u00e7\u00e3o para responder a essa vulnerabilidade est\u00e1 seriamente limitada. O desprest\u00edgio que sucedeu os crimes da ditadura, a aventura militar contra os brit\u00e2nicos e os levantes dos caras-pintadas anularam o velho protagonismo do ex\u00e9rcito. N\u00e3o exerce o poder expl\u00edcito que exibe na Col\u00f4mbia, M\u00e9xico ou Brasil, nem o papel subjacente que desempenha no Chile ou Peru.<\/p>\n<p>Esse deslocamento priva a classe capitalista de um importante instrumento de domina\u00e7\u00e3o. O papel ativo das for\u00e7as armadas na sustenta\u00e7\u00e3o dos sistemas pol\u00edticos n\u00e3o \u00e9 um v\u00edcio do s\u00e9culo XX. Constitui uma urgente necessidade dos regimes autorit\u00e1rios da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>A restaura\u00e7\u00e3o dessa influ\u00eancia tem sido uma frustrada prioridade de Macri. Forjou um Minist\u00e9rio de Seguran\u00e7a com assessoramento israelense para adestrar repressores e tentou revogar a lei que impede a interven\u00e7\u00e3o dos gendarmes na repress\u00e3o interna.<\/p>\n<p>A instabilidade pol\u00edtica deriva tamb\u00e9m da eros\u00e3o dos partidos tradicionais. A UCR ficou muito deteriorada por seus dois fracassos governamentais. A queda de De la R\u00faa foi mais impactante que a sa\u00edda for\u00e7ada de Alfons\u00edn, por\u00e9m ambos desenlaces quebraram a antiga primazia do radicalismo na classe m\u00e9dia. Esse agrupamento subsiste atualmente como uma forma\u00e7\u00e3o subordinada ao PRO.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o peronismo perdeu uma parte de seu velho sustento popular. Obteve uma sobreviv\u00eancia que n\u00e3o conseguiram seus pares da regi\u00e3o (PRI do M\u00e9xico, APRA do Peru, Varguismo do Brasil, MNR da Bol\u00edvia), por\u00e9m ficou muito erodido como coluna vertebral do movimento oper\u00e1rio. A aguda fragmenta\u00e7\u00e3o entre trabalhadores formais e informais corr\u00f3i a uniformidade social que sustentava o justicialismo. Essa deteriora\u00e7\u00e3o se verifica no plano ideol\u00f3gico. Frente a uma identidade muito debilitada, s\u00f3 uma minoria canta a marcha com a espontaneidade do passado.<\/p>\n<p>A d\u00e9cada kirchnerista consagrou a fratura atual entre os setores direitizados do peronismo (que defendem a gest\u00e3o de Macri) e o espectro progressista (que Cristina lidera). \u00c9 preciso verificar se convergem novamente em uma op\u00e7\u00e3o de governo. Em qualquer variante se enfraqueceu seu velho papel de reserva frente aos vazios de poder. O peronismo acompanha a crise geral de governabilidade.<\/p>\n<p>Empobrecimento e resist\u00eancia<\/p>\n<p>Um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o argentina est\u00e1 imersa na pobreza ou na informalidade laboral. Por esta raz\u00e3o, o assistencialismo se transformou em um item perdur\u00e1vel das contas p\u00fablicas. Os planos de aux\u00edlio surgidos da luta popular se converteram em um gasto indispens\u00e1vel para a reprodu\u00e7\u00e3o do tecido social. O que inicialmente irrompeu como uma resposta provis\u00f3ria \u00e0 emerg\u00eancia se transformou em um dado estrutural.<\/p>\n<p>A fotografia dessa pauperiza\u00e7\u00e3o se assemelha a qualquer retrato da Am\u00e9rica Latina. Por\u00e9m, a degrada\u00e7\u00e3o argentina tem sido mais fulminante e contempor\u00e2nea. Diferente da regi\u00e3o, a porcentagem dos desamparados n\u00e3o superava 5% da popula\u00e7\u00e3o nos anos 70. A vertiginosa expans\u00e3o posterior n\u00e3o tem compara\u00e7\u00e3o e afeta popula\u00e7\u00f5es j\u00e1 urbanizadas e escolarizadas. N\u00e3o repete, por exemplo, a massiva expuls\u00e3o de camponeses mexicanos de suas terras.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, essa impactante regress\u00e3o social n\u00e3o enfraqueceu na Argentina a continuidade da luta popular. Em muitos poucos pa\u00edses se verifica essa perdur\u00e1vel escala de protestos. Especialmente o sindicalismo mant\u00e9m um incomum protagonismo em compara\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Desde o fim da ditadura se realizaram mais de 40 greves gerais com alt\u00edssima ades\u00e3o. Sob a gest\u00e3o de Macri se concretizaram tr\u00eas paralisa\u00e7\u00f5es com o mesmo grau de compromisso. A sindicaliza\u00e7\u00e3o se localiza no topo das m\u00e9dias internacionais, ap\u00f3s a grande recupera\u00e7\u00e3o de filiados registrada durante a d\u00e9cada passada.<\/p>\n<p>Este peso da organiza\u00e7\u00e3o sindical se verifica nos momentos de maior conflito. A hostilidade dos meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o dissuadiu o acompanhamento (expl\u00edcito ou passivo) dos setores n\u00e3o agremiados. O governo s\u00f3 mant\u00e9m o ajuste pela cumplicidade da burocracia sindical. Sua incapacidade para submeter a luta popular erodiu a sustenta\u00e7\u00e3o que recebe da classe capitalista.<\/p>\n<p>Os movimentos sociais fornecem uma segunda frente de grande resposta por baixo. Os piquetes de 2001 desembocaram em organiza\u00e7\u00f5es que re\u00fanem multid\u00f5es. Essas convocat\u00f3rias asseguram a continuidade dos planos, que Macri e Vidal n\u00e3o se atrevem a cortar. Repetem com as organiza\u00e7\u00f5es sociais as mesmas negocia\u00e7\u00f5es de seus antecessores.<\/p>\n<p>As mobiliza\u00e7\u00f5es se estendem tamb\u00e9m \u00e0 juventude, que congregou um in\u00e9dito n\u00famero de manifestantes na batalha pelo aborto. Toda a pol\u00edtica argentina se dirime nas ruas e se processa posteriormente nas institui\u00e7\u00f5es. A remodela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica regressiva que exigem os capitalistas se choca com a grande barreira da resist\u00eancia social.<\/p>\n<p>Essa vitalidade da luta sempre assemelhou a Argentina \u00e0 Fran\u00e7a e na conjuntura atual aparenta Macri com Macron. Dois presidentes a servi\u00e7o expl\u00edcito dos abastados que enfrentam o mesmo rep\u00fadio dos empobrecidos.<\/p>\n<p>Ambival\u00eancias e ide\u00e1rios<\/p>\n<p>A classe m\u00e9dia sempre oscilou entre duas condutas frente \u00e0s tens\u00f5es do pa\u00eds. Em certos momentos defendeu as for\u00e7as truculentas e ditatoriais e, em outras circunst\u00e2ncias, apoiou os l\u00edderes democr\u00e1ticos e radicalizados. Esta pr\u00f3pria flutua\u00e7\u00e3o se verifica em muitos pa\u00edses, por\u00e9m, na Argentina inclui ingredientes mais conflitivos.<\/p>\n<p>Macri canalizou o descontentamento das faixas m\u00e9dias que golpeavam as panelas contra Cristina, depreciando os precarizados e naturalizando a conveni\u00eancia de um governo de milion\u00e1rios. Essa ades\u00e3o ficou corro\u00edda com o desastre econ\u00f4mico do Cambiemos, por\u00e9m, n\u00e3o se dissolveu. \u00c9 uma inc\u00f3gnita como incidir\u00e1 no pa\u00eds a onda ultradireitista que chegou \u00e0 Am\u00e9rica do Sul das m\u00e3os de Bolsonaro. At\u00e9 o momento, prevalecem as diferen\u00e7as que separam a Argentina do Brasil (2).<\/p>\n<p>O n\u00facleo duro da direita se encontra muito afincado em grupos endinheirados e gera\u00e7\u00f5es veteranas. Sua pr\u00e9dica \u00e9 influente, por\u00e9m n\u00e3o calou o grosso da popula\u00e7\u00e3o. Os setores m\u00e9dios habitualmente conservadores glorificam o mercado at\u00e9 que o ajuste os afete. Tamb\u00e9m avalizam a coer\u00e7\u00e3o estatal, por\u00e9m, n\u00e3o a repress\u00e3o em grande escala.<\/p>\n<p>Por sua vez, os segmentos progressistas do mesmo universo participam limitadamente dos protestos. Exibem um grande temor quanto aos efeitos devastadores da crise. O trauma legado por 2001 cont\u00e9m suas rea\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A direita sempre disputou preemin\u00eancia na classe m\u00e9dia, em conflito com a grande tradi\u00e7\u00e3o de direitos humanos e educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. A primeira funda\u00e7\u00e3o inclui vasos comunicantes com as M\u00e3es, as Av\u00f3s e os Familiares de desaparecidos. Essa sintonia cobra visibilidade nas massivas comemora\u00e7\u00f5es do 24 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia democr\u00e1tica se realimenta com a recupera\u00e7\u00e3o dos netos e as batalhas pela identidade ou a mem\u00f3ria. Por isso, naufragaram as tentativas oficiais de indultar os genocidas. O \u201cdois por um\u201d suscitou um contundente rep\u00fadio e o crime de Maldonado desatou uma como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas convic\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas se assentam no perdur\u00e1vel legado da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. A escolariza\u00e7\u00e3o massiva em estabelecimentos laicos forjou um ide\u00e1rio de conviv\u00eancia e progresso que persiste at\u00e9 a atualidade.<\/p>\n<p>O neoliberalismo tenta destruir o ensino estatal para naturalizar a segmenta\u00e7\u00e3o social. Com asfixia de recursos, deteriora\u00e7\u00e3o dos col\u00e9gios e hostilidade para com os docentes, propicia o modelo chileno de privatiza\u00e7\u00e3o escolar.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, n\u00e3o pode generalizar as cren\u00e7as elitistas, nem anular a vitalidade do pensamento cr\u00edtico nas universidades. Os setores m\u00e9dios \u2013 que nos anos 90 acompanharam a resist\u00eancias das Carpas Blancas \u2013 continuam comprometidos com a defesa de suas tradi\u00e7\u00f5es educacionais.<\/p>\n<p>Fal\u00e1cias neoliberais<\/p>\n<p>As tens\u00f5es da Argentina obedecem aos desequil\u00edbrios espec\u00edficos do capitalismo, em cen\u00e1rios de grande resist\u00eancia popular. A direita desconhece os determinantes e situa a origem de todos os problemas no descontrole do gasto p\u00fablico. Estima que esse transbordamento agiganta a incid\u00eancia do Estado, em detrimento do setor privado.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, esses gastos n\u00e3o superam a m\u00e9dia mundial ou regional. A economia argentina n\u00e3o \u00e9 mais estatista que seus pares e os momentos de grande d\u00e9ficit fiscal sempre obedecem a alguma necessidade das classes dominantes. Os recursos do Tesouro se destinam a empresas afetadas por convuls\u00f5es cambiais ou a bancos corro\u00eddos por tremores financeiros.<\/p>\n<p>Com esses aux\u00edlios, o Estado tentou responder \u00e0 conduta improdutiva de uma burguesia que investe pouco, elimina capital e remarca pre\u00e7os. Os problemas do setor p\u00fablico se originam do sustento outorgado aos donos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em lugar de registrar esse favoritismo, os liberais culpam a popula\u00e7\u00e3o. Sem oferecer nenhuma evid\u00eancia, estimam que a sociedade se acostumou ao financiamento estatal do consumismo. Omitem que o poder de compra caiu em sintonia com a deteriora\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o. O consumo excessivo est\u00e1 restrito \u00e0 classe alta e nunca se estende aos empobrecidos.<\/p>\n<p>O gasto p\u00fablico refor\u00e7a essa desigualdade mediante subs\u00eddios e um sistema impositivo regressivo. N\u00e3o \u00e9 certo que a esfor\u00e7ada atividade privada sustente o parasit\u00e1rio setor p\u00fablico. Os grandes capitalistas aumentam seu benef\u00edcio manipulando ambas as esferas.<\/p>\n<p>Os liberais (e seus afilhados \u201cneo\u201d) costumam criticar indiscriminadamente os argentinos que \u201cvivem acima de suas possibilidades\u201d, esgotando as velhas riquezas da na\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, esquecem que a Argentina n\u00e3o se converteu em um deserto, nem perdeu suas extraordin\u00e1rias vantagens naturais. S\u00f3 enfrenta uma maior depreda\u00e7\u00e3o desses ativos. A renda transferida ao exterior n\u00e3o gera empregos e acentua o desinvestimento.<\/p>\n<p>O liberalismo governou em incont\u00e1veis oportunidades e sempre agravou os desequil\u00edbrios que promete erradicar. Por\u00e9m, invariavelmente culpa o resto da sociedade por seu fracasso. Macri repete essa conduta acumulando um recorde de falhas que atribui a outros. Atribui a regress\u00e3o econ\u00f4mica do \u00faltimo tri\u00eanio \u00e0 heran\u00e7a de sete d\u00e9cadas. Com esse artif\u00edcio, dissimula o impacto de seu programa de endividamento, abertura comercial e flexibiliza\u00e7\u00e3o das leis trabalhistas.<\/p>\n<p>Ao destacar a responsabilidade de seus advers\u00e1rios, os liberais omitem sua preemin\u00eancia nas administra\u00e7\u00f5es c\u00edvico-militares, menemistas e aliancistas das \u00faltimas d\u00e9cadas. Especialmente os porta-vozes do Cambiemos ocultam que Macri n\u00e3o inventou o capitalismo de amigos, a agress\u00e3o ao sindicalismo e o deslumbramento pelo capital estrangeiro. Repete o feito por aqueles que propiciaram as mesmas cirurgias econ\u00f4micas e os mesmos abusos sociais, sem conseguir o restabelecimento da taxa de acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O PRO repete os velhos pretextos e busca nas adversidades internacionais as causas dos desajustes que autogera. Por\u00e9m, n\u00e3o explica por que raz\u00e3o nenhum outro pa\u00eds enfrenta um esgar\u00e7amento semelhante. Como j\u00e1 ocorreu com Mart\u00ednez de Hoz, a convertibilidade e Cavallo-De la R\u00faa, o financiamento aventureiro da reconvers\u00e3o neoliberal desemboca em um colapso da economia.<\/p>\n<p>\u00c9 particularmente assombrosa a semelhan\u00e7a com os anos 90. Aprecia\u00e7\u00e3o do tipo de c\u00e2mbio, desmantelamento da produ\u00e7\u00e3o nacional, abertura comercial indiscriminada, desperd\u00edcio de d\u00f3lares em turismo, desregula\u00e7\u00e3o trabalhista e consentidas jogadas financeiras, para solucionar com d\u00edvida a fuga de capital.<\/p>\n<p>Macri s\u00f3 contribui para um descaramento maior na implementa\u00e7\u00e3o das mesmas pol\u00edticas. Essa desfa\u00e7atez \u00e9 congruente com seu pertencimento \u00e0 elite capitalista. Prescinde das velhas media\u00e7\u00f5es e ensaia um formato de neoliberalismo cru, com os mesmos resultados do passado.<\/p>\n<p>Demoniza\u00e7\u00e3o do populismo<\/p>\n<p>A direita atribui a instabilidade pol\u00edtica \u00e0 demagogia dos funcion\u00e1rios. Considera que essa irresponsabilidade potencializa a indisciplina end\u00eamica dos argentinos. Estima que a velha \u201cvivacidade criolla\u201d desembocou em uma falta de respeito \u00e0s institui\u00e7\u00f5es. Defende que essa \u201ccultura da desmesura\u201d esmagava a \u00e9tica do esfor\u00e7o requerido para forjar um \u201cpa\u00eds normal\u201d.<\/p>\n<p>Esse olhar imagina um estere\u00f3tipo de argentino culpado por todas as desventuras nacionais. Mas a que grupo social pertence esse desviante? Compartilha a indol\u00eancia dos financistas? Esbanja as rendas do agroneg\u00f3cio? Perpetra as estafas da \u201cP\u00e1tria Empreiteira\u201d? Os direitistas evitam associar o impugnado personagem com os donos do pa\u00eds. Concentram no povo sua identifica\u00e7\u00e3o da argentinidade com a vagabundagem.<\/p>\n<p>A variante macrista do mesmo relato incorpora os clich\u00eas da nova direita. Repete o serm\u00e3o do di\u00e1rio La Naci\u00f3n com poses de inconformismo e recicla a ideologia violenta com ret\u00f3rica new age.<\/p>\n<p>A principal desgra\u00e7a do pa\u00eds \u00e9 invariavelmente situada no populismo. Por\u00e9m, se esquece que a Argentina perdeu a exclusividade dessa enfermidade. Atualmente essa injuriosa condi\u00e7\u00e3o tem mais peso nos admirados para\u00edsos dos Estados Unidos e Europa. Os liberais nunca definem o significado exato do populismo e simplesmente o desqualificam por sua eventual associa\u00e7\u00e3o a alguma melhoria para os trabalhadores.<\/p>\n<p>As cr\u00edticas mais correntes s\u00e3o descarregadas sobre os pol\u00edticos que utilizam enganosas promessas para ganhar elei\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, essas mentiras costumam alcan\u00e7ar tamb\u00e9m os l\u00edderes do pr\u00f3prio processo. Macri chegou \u00e0 presid\u00eancia anunciando uma chuva de investimentos e gerou a pior jogada financeira da hist\u00f3ria. Essa fraude n\u00e3o ilustra uma t\u00edpica perversidade do populismo? Com seu habitual dois pesos, duas medidas, os direitosos eximem o presidente.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m questionam o \u201cdesapego \u00e0 lei\u201d dos argentinos, excetuando os poderosos. Consideram normal a entrega por moedinhas de empresas do estado ou a legaliza\u00e7\u00e3o da evas\u00e3o por meio de lavagem de dinheiro. Por\u00e9m, exigem duras penalidades contra as demandas dos empobrecidos.<\/p>\n<p>Com a mesma \u00f3tica enviesada, apresentam a corrup\u00e7\u00e3o como um v\u00edcio de governantes anteriores. Esquecem que todas as administra\u00e7\u00f5es do planeta se exculpam com o mesmo argumento. A \u201cpesada heran\u00e7a\u201d n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do PRO.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nas m\u00e3os do Cambiemos o estandarte multiuso da corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 uma brasa quente. Muitos poucos personagens do governo podem justificar suas incalcul\u00e1veis fortunas. Os membros do gabinete exibem surpreendentes aumentos de patrim\u00f4nio, valoriza\u00e7\u00e3o de propriedades e investimentos milion\u00e1rios no exterior. No topo da lista de irregularidades se situa o pr\u00f3prio Macri, que apoia da presid\u00eancia os turvos neg\u00f3cios de seu grupo familiar. Um indiv\u00edduo enriquecido \u00e0s custas do er\u00e1rio p\u00fablico emite da Casa Rosada mensagens de transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00d3dio de classe<\/p>\n<p>Os liberais consideram que a Argentina decaiu por seu div\u00f3rcio do Ocidente. Imaginam o pa\u00eds como um afilhado da Europa casualmente localizado na geografia latino-americana. Sup\u00f5em que o v\u00edrus do populismo o afastou de uma trajet\u00f3ria semelhante dos Estados Unidos ou do Canad\u00e1.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, esquecem que as na\u00e7\u00f5es endeusadas tamb\u00e9m atravessaram etapas de intervencionismo estatal, prote\u00e7\u00e3o aduaneira, lideran\u00e7a personalista e escasso apego \u00e0 limpeza republicana. Tampouco avaliam que tipo de inser\u00e7\u00e3o estampou cada pa\u00eds na divis\u00e3o internacional do trabalho. Ignoram por completo o significado da depend\u00eancia.<\/p>\n<p>Os conservadores situam a origem da decad\u00eancia nacional no abandono do projeto propiciado pela gera\u00e7\u00e3o dos anos 80. Entendem que esse projeto ficou no meio do caminho, quando os pilares da civiliza\u00e7\u00e3o liberal foram erodidos pela barb\u00e1rie local.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, esquecem que o saudoso universo da oligarquia foi constru\u00eddo sobre as sofridas costas de camponeses, arrendat\u00e1rios e assalariados. Os latifundi\u00e1rios resolveram seus desperd\u00edcios com a expropria\u00e7\u00e3o desse esfor\u00e7o. Seus admiradores tampouco registram como o rentismo improdutivo assentou as bases do estancamento posterior.<\/p>\n<p>A idealiza\u00e7\u00e3o dos grandes propriet\u00e1rios de terras impede registrar seus perdur\u00e1veis rastros nas classes dominantes posteriores. Essa continuidade se verifica em um empresariado que reluta em investir e est\u00e1 habituado aos lucros r\u00e1pidos.<\/p>\n<p>Os neoliberais igualmente ponderam a enorme potencialidade dos argentinos para gerar pr\u00f3speros empreendedores. Nunca explicam por que raz\u00e3o essas qualidades permanecem sob a superf\u00edcie. Por\u00e9m, tamb\u00e9m subdividem a encarna\u00e7\u00e3o dessas caracter\u00edsticas em grupos sociais muito diferenciados.<\/p>\n<p>N\u00e3o estendem as virtudes que percebem nas classes altas aos empobrecidos. A elogiada criatividade dos capitalistas se transforma em avivada perniciosa, quando se corporifica em empregados p\u00fablicos. A ast\u00facia do banqueiro se converte em mesquinho proveito entre os trabalhadores e a conveniente mal\u00edcia do endinheirado se torna m\u00e1 pr\u00e1xis nas m\u00e3os do trabalhador aut\u00f4nomo.<\/p>\n<p>Essa hostilidade para com os pauperizados alcan\u00e7a seu auge na avalia\u00e7\u00e3o dos planos sociais. Os neoliberais estimam que seus receptores \u201cn\u00e3o querem trabalhar\u201d porque \u201cvivem do er\u00e1rio p\u00fablico\u201d. Denunciam \u201cas mulheres que engravidam para obter o aux\u00edlio-crian\u00e7a\u201d e os homens que \u201crecusam o emprego\u201d para manter os benef\u00edcios assistenciais.<\/p>\n<p>Utilizam essas cal\u00fanias para fechar os olhos ante a mis\u00e9ria dos mendigos, que sobrevivem vasculhando o lixo. Em lugar de promover a solidariedade com os desamparados, culpam as v\u00edtimas de suas desventuras. N\u00e3o querem registrar que ningu\u00e9m escolhe a marginalidade. Os empobrecidos simplesmente n\u00e3o conseguem trabalho pela retra\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho, que imp\u00f5e a conjuntura recessiva e a desindustrializa\u00e7\u00e3o estrutural.<\/p>\n<p>Inutilidade dos protestos?<\/p>\n<p>Os neoliberais se irritam com os protestos que visibilizam a degrada\u00e7\u00e3o social. Clamam especialmente contra a ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico pelos manifestantes. Por\u00e9m, nunca julgam todas as mobiliza\u00e7\u00f5es com o mesmo par\u00e2metro. Enalteciam a participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 quando as rotas eram cortadas pelos agrossojeiros ou as ruas ficavam sob controle dos \u201cpaneleiros anti-K\u201d.<\/p>\n<p>Habitualmente, reivindicam suas pr\u00f3prias marchas como exemplos de civilidade que n\u00e3o chateiam nenhum transeunte. Pelo contr\u00e1rio, as a\u00e7\u00f5es populares s\u00e3o apresentadas como desordens promovidas pelos indicadores que financia o Estado. Os participantes desses atos s\u00e3o retratados como ignorantes, que v\u00e3o de um lugar para outro em troca de um chorip\u00e1n, para proferir gritos de ocasi\u00e3o. Essa contraposi\u00e7\u00e3o entre cidad\u00e3os civilizados e hordas manipuladas j\u00e1 \u00e9 um cl\u00e1ssico da literatura conservadora.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a demoniza\u00e7\u00e3o dos piquetes se transformou tamb\u00e9m em uma obsess\u00e3o do jornalismo cortes\u00e3o. Estima que a liberdade de circula\u00e7\u00e3o deve primar sobre o direito a reclamar pela sobreviv\u00eancia. Frequentemente convoca a \u201cbuscar outro m\u00e9todo\u201d de protesto sem apresentar sugest\u00f5es sobre essa alternativa.<\/p>\n<p>Outra variante mais elaborada do mesmo discurso assinala que \u201ca d\u00e9cada precedente de direitos\u201d deve ser melhorada com um novo \u201cdec\u00eanio de obriga\u00e7\u00f5es\u201d. Por\u00e9m, divorcia esses complementos abstratos da vida cidad\u00e3 do agravamento da mis\u00e9ria. As propostas mais agressivas retratam os manifestantes como \u201cusurpadores\u201d da popula\u00e7\u00e3o, sugerindo que formam um grupo demogr\u00e1fico distinto. Com essa desqualifica\u00e7\u00e3o ocultam que os \u00fanicos chantagistas s\u00e3o os art\u00edfices do ajuste.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que os piquetes se generalizaram como forma de luta ante a falta de trabalho. A expuls\u00e3o do circuito laboral empurra os exclu\u00eddos a parar o tr\u00e2nsito para fazer valer suas reivindica\u00e7\u00f5es. Obviamente geram insatisfa\u00e7\u00f5es aos que n\u00e3o participam de sua a\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, esses inconvenientes afloram em qualquer luta e n\u00e3o s\u00e3o maiores que os enfrentados cotidianamente pelo grosso da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os direitistas apresentam os piquetes como um esporte de militantes. Complementam essa bobagem com o chamado a pactuar negocia\u00e7\u00f5es antes de cada protesto. Esta descoberta ignora que as marchas sempre est\u00e3o precedidas por frustradas negocia\u00e7\u00f5es. O mais frequente \u00e9 a total omiss\u00e3o quanto aos sofrimentos dos despossu\u00eddos. Se n\u00e3o existe um clamor nas ruas, os altos funcion\u00e1rios nem sequer escutam as demandas. O mesmo ocorre com os meios de comunica\u00e7\u00e3o. S\u00f3 visibilizam as reivindica\u00e7\u00f5es transformadas em exig\u00eancias coletivas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o mais importante \u00e9 o resultado dessas lutas. A mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00fanico ant\u00eddoto efetivo \u00e0 regress\u00e3o social. Longe de constituir uma \u201cresposta in\u00fatil\u201d, introduz um limite ao desmoronamento das rendas populares. Nem tudo \u201csegue igual\u201d ao outro dia. Os protestos t\u00eam resultados imediatos e posteriores. Os planos sociais subsistem pela resist\u00eancia e o corte dos sal\u00e1rios teria sido muito maior sem luta. A a\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00fanico que aterroriza os poderosos.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o das ruas impede, al\u00e9m disso, a amn\u00e9sia de tradi\u00e7\u00f5es populares que ambiciona a direita para consolidar-se. A persist\u00eancia desse legado explica os significativos n\u00edveis de milit\u00e2ncia e politiza\u00e7\u00e3o que imperam no pa\u00eds. Essa participa\u00e7\u00e3o popular obstrui a estabiliza\u00e7\u00e3o de governos tecnocr\u00e1ticos, restringe a prepot\u00eancia imperial estadunidense e limita a penetra\u00e7\u00e3o da ideologia neoliberal.<\/p>\n<p>Livre escolha do modelo capitalista?<\/p>\n<p>Muitas inconsist\u00eancias da vis\u00e3o liberal t\u00eam sido esclarecidas por seus cr\u00edticos desenvolvimentistas. O olhar econ\u00f4mico heterodoxo, a tradi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica nacionalista e as posturas pol\u00edticas progressistas refutaram numerosos mitos de seus advers\u00e1rios, com frequentes ridiculariza\u00e7\u00f5es \u00e0s simplifica\u00e7\u00f5es dessa concep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Descreveram especialmente como os liberais repetidamente restauraram o modelo agroexportador ou o padr\u00e3o de valoriza\u00e7\u00e3o financeira, em detrimento do desenvolvimento industrial. Destacam que a Argentina necessita a interven\u00e7\u00e3o do Estado para apoiar seu crescimento, com prote\u00e7\u00e3o aduaneira, fomento fabril e hierarquiza\u00e7\u00e3o do mercado interno.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o ressalta corretamente a tens\u00e3o hist\u00f3rica entre dois modelos, por\u00e9m ignorando sua base comum no capitalismo dependente. Essa configura\u00e7\u00e3o determina a fragilidade dos distintos esquemas e sua vari\u00e1vel primazia em fun\u00e7\u00e3o do contexto externo.<\/p>\n<p>O modelo agroexportador despontou na primeira metade do s\u00e9culo XX, quando a industrializa\u00e7\u00e3o do centro requeria os insumos promovidos pelo Pampa. A substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es decolou no marco keynesiano de entreguerra (e p\u00f3s-guerra), que favorecia certo desenvolvimento das economias intermedi\u00e1rias. A valoriza\u00e7\u00e3o financeira irrompeu no cen\u00e1rio contempor\u00e2neo da globaliza\u00e7\u00e3o e precipitou a regress\u00e3o latino-americana ao extrativismo exportador.<\/p>\n<p>Caso se analisa o predom\u00ednio destes modelos com estreitos antolhos locais, resulta imposs\u00edvel explicar a mutante supremacia de cada um. A luta entre liberais e desenvolvimentistas sempre esteve condicionada pelo status perif\u00e9rico do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os desenvolvimentistas (e seus disc\u00edpulos \u201cneo\u201d) relativizam essa sujei\u00e7\u00e3o, sugerindo que cada pa\u00eds escolhe livremente o tipo de capitalismo vigente em suas fronteiras. Por\u00e9m, \u00e9 muito ing\u00eanuo supor que a Argentina decidiu esvaziar sua estrutura fabril, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 prefer\u00eancia coreana por um curso industrial.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem sentido postular que eles optaram pela abertura seletiva, incorporaram bens de capital e n\u00f3s pela regress\u00e3o ao monocultivo da soja. O capitalismo global n\u00e3o funciona com essa simples convalida\u00e7\u00e3o de trajet\u00f3rias nacionais. A preemin\u00eancia dessas decis\u00f5es induziria a todos os pa\u00edses a repetir o sendeiro da Su\u00ed\u00e7a e a evitar o rumo do Haiti.<\/p>\n<p>Os neoliberais esquecem que o capitalismo n\u00e3o oferece oportunidades de desenvolvimento a todos seus integrantes. Opera em um marco internacional estratificado, com margens de autonomia muito limitadas e vari\u00e1veis, nas distintas regi\u00f5es que circundam as metr\u00f3poles. O sistema se rege por princ\u00edpios de crua competi\u00e7\u00e3o e outorga pr\u00eamios muito seletivos aos ganhadores que sufocam advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>A Argentina padece com maior dureza das consequ\u00eancias desse sistema e da adversidade econ\u00f4mica atual da Am\u00e9rica Latina. Para piorar, sua velha burguesia nacional foi substitu\u00edda por uma burguesia local com neg\u00f3cios mais diversificados e internacionalizados.<\/p>\n<p>Alguns neodesenvolvimentistas reconhecem estas transforma\u00e7\u00f5es, mas sup\u00f5em que o fomento estatal do consumo igualmente empurrar\u00e1 os empres\u00e1rios a retomar o investimento. Omitem que essa receita n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel quando os capitalistas privilegiam outro curso. Nesse caso, torna-se imposs\u00edvel substitu\u00ed-los com a interven\u00e7\u00e3o estatal mantendo o sistema atual. O capitalismo sem seus protagonistas \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia kirchnerista<\/p>\n<p>O ocorrido durante a d\u00e9cada passada confirma as limita\u00e7\u00f5es de um simples projeto antiliberal para reverter o decl\u00ednio econ\u00f4mico-social do pa\u00eds. O kirchnerismo tentou retomar um rumo neodesenvolvimentista, com menores ambi\u00e7\u00f5es de reindustrializa\u00e7\u00e3o, maiores contempla\u00e7\u00f5es para o agroneg\u00f3cio e crescente timidez frente aos financistas.<\/p>\n<p>Diferente de outras experi\u00eancias, contou com um per\u00edodo prolongado para ensaiar seu modelo. Certamente herdou o descomunal colapso de 2001, por\u00e9m usufruiu do extraordin\u00e1rio in\u00edcio dos lucros, que sucedeu \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o interna de capitais. Tamb\u00e9m aproveitou o vento externo gerado pelo super ciclo das mat\u00e9rias primas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, no lugar de remover as bases do subdesenvolvimento, confiou em s\u00f3cios capitalistas que utilizaram os subs\u00eddios para evadir capital sem tributar investimentos. O resultado foi a preserva\u00e7\u00e3o do perfil econ\u00f4mico extrativista, a estrutura industrial dependente e o sistema financeiro adverso ao investimento.<\/p>\n<p>O kirchnerismo atenuou inicialmente os desequil\u00edbrios da economia, mas ficou sem cartuchos quando o contexto internacional se tornou adverso. Nesse momento, o incentivo ao consumo deixou de funcionar e ressurgiu o d\u00e9ficit fiscal com alta infla\u00e7\u00e3o. Tentou um tardio e ineficaz controle de c\u00e2mbios, eludiu a reforma impositiva progressiva e retomou o endividamento externo.<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica dessa gest\u00e3o \u00e9 atualmente ignorada por seus art\u00edfices. Limitam-se a contrapor a \u201cd\u00e9cada ganha\u201d com o desastre do macrismo. Esse contraste salta \u00e0 vista e resulta especialmente vis\u00edvel na evolu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, no endividamento ou nas tarifas. Por\u00e9m, n\u00e3o resolve as fal\u00eancias do dec\u00eanio anterior.<\/p>\n<p>A omiss\u00e3o do balan\u00e7o conduz a supor que bastar\u00e1 repetir o que foi feito para retomar o crescimento. Nas terr\u00edveis condi\u00e7\u00f5es atuais de endividamento e recess\u00e3o essa expectativa \u00e9 infundada.<\/p>\n<p>A direita macrista n\u00e3o conseguiu supremacia eleitoral s\u00f3 pelos erros pol\u00edticos, culturais ou de comunica\u00e7\u00e3o de seu advers\u00e1rio. O kirchnerismo falhou no plano econ\u00f4mico por manter os privil\u00e9gios dos grupos dominantes e eludir as transforma\u00e7\u00f5es requeridas para erradicar o subdesenvolvimento e desigualdade.<\/p>\n<p>No novo cen\u00e1rio, a conquista dessas metas exige nacionalizar os bancos e o com\u00e9rcio exterior a partir de uma ruptura com o FMI. Essas decis\u00f5es s\u00e3o indispens\u00e1veis para recuperar a soberania monet\u00e1ria e financeira. Os agudos problemas atuais n\u00e3o se resolvem com vagas exorta\u00e7\u00f5es a refor\u00e7ar a regula\u00e7\u00e3o estatal. Esses controles podem, inclusive, multiplicar as adversidades, se sustentarem os interesses dos grupos dominantes. O capitalismo financeirizado e agroexportador \u00e9 uma tormentosa realidade que n\u00e3o se supera com ilus\u00f5es no capitalismo inclusivo.<\/p>\n<p>Encruzilhadas pendentes<\/p>\n<p>Alguns ensa\u00edstas buscaram a explica\u00e7\u00e3o das como\u00e7\u00f5es que afetam o pa\u00eds no DNA dos argentinos. Por\u00e9m, \u00e9 mais simples registrar que essas crises expressam a traum\u00e1tica inadapta\u00e7\u00e3o do capitalismo local aos novos par\u00e2metros globais. Tamb\u00e9m \u00e9 mais esclarecedor notar como as rea\u00e7\u00f5es populares limitam os efeitos desses desajustes e permitem explorar caminhos de reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Duas for\u00e7as em conflito definem o devir da Argentina. O estancamento econ\u00f4mico potencializa a instabilidade pol\u00edtica, acentua a fratura social e empurra \u00e0 resigna\u00e7\u00e3o. Os protestos confrontam com essa passividade e abrem rumos para a recomposi\u00e7\u00e3o da vida nacional.<\/p>\n<p>As crises frequentemente erodem as expectativas de encontrar algum rem\u00e9dio \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o argentina. As lutas populares recriam, em troca, as esperan\u00e7as em encontrar essa solu\u00e7\u00e3o. Nessa tens\u00e3o, a ina\u00e7\u00e3o e o entusiasmo se sucedem \u00e0 medida do grande dilema: tolerar a regress\u00e3o ou forjar outro horizonte a partir da resist\u00eancia. O futuro se constr\u00f3i nessa batalha cotidiana.<\/p>\n<p>Claudio Katz \u00e9 economista, investigador do CONICET, professor da UBA, membro do EDI.<\/p>\n<p>(1) Apresenta\u00e7\u00e3o no Encontro: \u201cLa Argentina hoy: la coyuntura actual en perspectiva hist\u00f3rica\u201d [A Argentina hoje: a conjuntura atual na perspectiva hist\u00f3rica], UESAC, Universidade Nacional de Quilmes, 26-9-2018.<br \/>\n(2) Analisamos esse contraponto em Katz Claudio. Interrogantes de la era Bolsonaro [Perguntas da era Bolsonaro] 17-11-2018, www.lahaine.org\/katz<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2018\/12\/12\/empobrecimiento-y-resistencia-las-peculiaridades-de-argentina\/<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21656\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[57],"tags":[234],"class_list":["post-21656","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c68-argentina","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Di","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21656","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21656"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21656\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21656"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}