{"id":21677,"date":"2018-12-18T01:11:19","date_gmt":"2018-12-18T03:11:19","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21677"},"modified":"2018-12-18T01:11:24","modified_gmt":"2018-12-18T03:11:24","slug":"assassinatos-no-campo-em-dois-tempos-historicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21677","title":{"rendered":"Assassinatos no campo em dois tempos hist\u00f3ricos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" alt=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2018\/12\/mst-assassinatos-boitempo.jpg?w=620&amp;h=349\"><!--more-->A resist\u00eancia social ao governo Bolsonaro precisa entender a nova forma da rela\u00e7\u00e3o entre o Estado e o poder do atraso. \u00c9 isso que possivelmente se manifesta nos assassinatos dos l\u00edderes sem-terra na Para\u00edba.<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>Ap\u00f3s cerim\u00f4nia religiosa na cidade de Mari, militantes do MST carregam corpo de Jos\u00e9 Bernardo da Silva, assassinado junto com Rodrigo Celestino, no \u00faltimo dia 8 de dezembro na Para\u00edba. Foto: Silvia Torres\/TV Cabo Branco<\/p>\n<p>Por Jo\u00e3o Alexandre Peschanski.<\/p>\n<p>Em 8 de dezembro de 2018, foram assassinados os l\u00edderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Rodrigo Celestino e Jos\u00e9 Bernardo da Silva. Coordenavam o Acampamento D. Jos\u00e9 Maria Pires, em Alhambra (PB), onde vivem 450 fam\u00edlias. Foram executados por milicianos encapuzados, enquanto jantavam, no acampamento. Em nota oficial, o MST declarou: \u201cExigimos justi\u00e7a com a puni\u00e7\u00e3o dos culpados e acreditamos que lutar n\u00e3o \u00e9 CRIME. Nestes tempos de ang\u00fastia e de d\u00favidas sobre o futuro do Brasil, n\u00e3o podemos deixar os que det\u00e9m o poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico tra\u00e7ar o nosso destino. Portanto, continuamos reafirmando a luta em defesa da terra como central para garantir dignidade aos trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade.\u201d<\/p>\n<p>Por um lado, os assassinatos na Para\u00edba remetem a um tempo hist\u00f3rico passado, o do alastramento da viol\u00eancia contra sem-terra no governo de Fernando Henrique Cardoso. A express\u00e3o maior dessa viol\u00eancia foi, em 17 de abril de 1996, o Massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s, quando 19 camponeses sem terra foram assassinados pela Pol\u00edcia Militar. Mas a pr\u00e1tica do assassinato era contumaz: houve 197 assassinatos de sem-terra entre 1997 e 2002, de acordo com dados da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT). \u00c0 \u00e9poca, mil\u00edcias financiadas por grandes fazendeiros agiam para tentar impedir ocupa\u00e7\u00f5es de terra, a forma\u00e7\u00e3o de acampamentos, e atacavam quem tentava, principalmente lideran\u00e7as. Nesse contexto, e apesar dos altos \u00edndices de viol\u00eancia no campo, participar do MST era uma forma institucional de resist\u00eancia e sobreviv\u00eancia, pois gerava constrangimento ao governo o assassinato de camponeses usando o bon\u00e9 do movimento dos sem-terra. Estar no MST garantia visibilidade e estrutura na disputa pela reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, a organiza\u00e7\u00e3o e a l\u00f3gica de a\u00e7\u00e3o coletiva do MST consolidaram-se. Tornaram-se um marco entre os movimentos sociais, por sua flexibilidade e criatividade. Sua g\u00eanese deu-se em uma interpreta\u00e7\u00e3o sociorreligiosa, no quadro de um cristianismo pelos pobres, na linha do Conc\u00edlio Vaticano II. Sua estrutura interna foi influenciada por experi\u00eancias comunitaristas, \u00e0s vezes com experimentos de democracia radical. Instaurou um repert\u00f3rio t\u00e1tico inovador e com alta capacidade de press\u00e3o pol\u00edtica. Fundamentou as bases para transforma\u00e7\u00f5es em pr\u00e1ticas educacionais, culturais e interpessoais. Estar no MST era \u2013 apesar de problemas pontuais na realiza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica social que o movimento se colocava \u2013 participar de um processo profundo de emancipa\u00e7\u00e3o. Testemunhou-se aqui, num contexto de acentuada viol\u00eancia no campo, um tempo hist\u00f3rico de oportunidades.<\/p>\n<p>Nesse tempo hist\u00f3rico, as pr\u00e1ticas do MST motivaram uma reflex\u00e3o acad\u00eamica pr\u00f3pria. A literatura sobre os sem-terra mobilizou te\u00f3ricos consagrados como Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros, Michael L\u00f6wy e Boaventura de Sousa Santos. Canalizou tamb\u00e9m o despertar das inquieta\u00e7\u00f5es de uma nova gera\u00e7\u00e3o intelectual; entre outros, Jade Percassi, Alexander Hilsenbeck, Rebecca Tarlau, Tiaraju D\u2019Andrea, Marco Fernandes e Deni Rubbo. A linha geral da reflex\u00e3o cr\u00edtica era entender os desafios e potencialidades da emerg\u00eancia e consolida\u00e7\u00e3o do movimento dos sem-terra.<\/p>\n<p>Por outro lado, os assassinatos na Para\u00edba remetem a um tempo hist\u00f3rico prov\u00e1vel, o do tempo vindouro. Significam-se pelas falas de Jair Bolsonaro e ac\u00f3litos, para quem as a\u00e7\u00f5es do MST devem ser tratadas como terrorismo. O que est\u00e1 pressuposto nessas falas \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o, em que o governo age ou apoia assassinatos no campo, em que as execu\u00e7\u00f5es de Rodrigo Celestino e Jos\u00e9 Bernardo da Silva s\u00e3o normalizadas, atos de seguran\u00e7a nacional. O tempo hist\u00f3rico prov\u00e1vel \u00e9 o da amea\u00e7a permanente, que necessariamente culmina na viol\u00eancia real.<\/p>\n<p>O tempo hist\u00f3rico do bolsonarismo define-se por incertezas, num cont\u00ednuo que vai de cumprir normalmente a lei at\u00e9 a pr\u00e1tica do exterm\u00ednio no campo. A l\u00f3gica da a\u00e7\u00e3o coletiva, para os ruralistas, \u00e9 nesse tempo testar os limites e lealdades do governo.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia social ao governo Bolsonaro precisa entender a nova forma da rela\u00e7\u00e3o entre o Estado e o poder do atraso. \u00c9 isso que possivelmente se manifesta nos assassinatos dos l\u00edderes sem-terra na Para\u00edba. A forma da resist\u00eancia social, em defesa das popula\u00e7\u00f5es espoliadas, num contexto de desativa\u00e7\u00e3o do estado de direito, depende da formula\u00e7\u00e3o do sujeito pol\u00edtico, miliciano e governante, que est\u00e1 por vir.<\/p>\n<hr>\n<p>Jo\u00e3o Alexandre Peschanski \u00e9 soci\u00f3logo, coorganizador da colet\u00e2nea de textos As utopias de Michael L\u00f6wy (Boitempo, 2007) e integrante do comit\u00ea de reda\u00e7\u00e3o da revista Margem Esquerda. Colaborou com os livros de interven\u00e7\u00e3o da Cole\u00e7\u00e3o Tinta Vermelha da Boitempo Occypy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012), Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil (2013) e Bala perdida: a viol\u00eancia policial no Brasil e os desafios para sua supera\u00e7\u00e3o (2015). Colabora para o Blog da Boitempo esporadicamente.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/12\/14\/assassinatos-no-campo-em-dois-tempos-historicos\/\">Assassinatos no campo em dois tempos&nbsp;hist\u00f3ricos<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21677\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[118],"tags":[222],"class_list":["post-21677","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c131-reforma-agraria","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5DD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21677","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21677"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21677\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21677"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21677"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21677"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}