{"id":21684,"date":"2018-12-19T05:18:33","date_gmt":"2018-12-19T07:18:33","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21684"},"modified":"2018-12-19T05:18:37","modified_gmt":"2018-12-19T07:18:37","slug":"a-casa-de-papel-em-versao-latino-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21684","title":{"rendered":"A \u00abCasa de Papel\u00bb * em vers\u00e3o latino-americana"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" alt=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resumenlatinoamericano.org\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/12-de-dic-la-casa-de-papel-en-version-latinoamericana-1200x640-620x400.jpg\"><!--more-->Alfredo Serrano Mancilla<\/p>\n<p>A impress\u00e3o massiva de dinheiro pelos bancos centrais dos EUA, UE, Jap\u00e3o e Gr\u00e3-Bretanha funciona como mais um mecanismo de domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica sobre pa\u00edses que n\u00e3o t\u00eam esse privil\u00e9gio, amarrando-os a um endividamento sem fim \u00e0 vista.<\/p>\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, Estados Unidos, Uni\u00e3o Europeia, Inglaterra e Jap\u00e3o imprimiram o equivalente a dez bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Os seus respectivos bancos centrais puseram a maquineta de imprimir notas a toda a velocidade. O Federal Reserve dos Estados Unidos duplicou o seu volume entre 2008 e 2014 e depois continuou a imprimir, embora a um ritmo algo inferior. O Banco Central Europeu duplicou o seu entre 2015 e 2017. O Banco do Jap\u00e3o come\u00e7ou a incrementar o ritmo de impress\u00e3o a partir de 2013 e hoje em dia o seu volume impresso tem quase o mesmo tamanho que a sua economia. No caso do Banco da Inglaterra, o seu volume multiplicou por 15 em termos de Produto Interno Bruto.<\/p>\n<p>E com tanto dinheiro pelo mundo, com este excesso de liquidez global, faz sentido fazer-se esta dupla pergunta a partir de uma perspectiva latino-americana: 1) isto serviu para melhorar a economia? 2) quem foram os afortunados que ficaram com boa parte dessa quantidade desmedida de notas impressas? Neste caso, na realidade, ao contr\u00e1rio do que ocorre na famosa serie \u201cLa Casa de Papel\u201d, os ganhadores n\u00e3o s\u00e3o os cidad\u00e3os da rua. Tampouco h\u00e1 tiros ou ref\u00e9ns. Mas h\u00e1 sim um outro m\u00e9todo, n\u00e3o baseado num roubo como tal, mas sim numa vigarice milimetricamente planificada.<\/p>\n<p>A sequ\u00eancia \u00e9 a seguinte. Primeiro, o j\u00e1 referido: imprimem-se notas aos montes que, de imediato, s\u00e3o emprestadas na sua maioria \u00e0 grande banca a uma taxa de juro rid\u00edcula, em muitas ocasi\u00f5es pr\u00f3xima de 0%, ou inclusivamente com taxa de juro real negativa. A justifica\u00e7\u00e3o foi que havia que \u201csalvar\u201d a banca, considerada \u201cdemasiado grande para cair\u201d. De modo que lhes foi oferecido dinheiro. Literalmente a custo zero.<\/p>\n<p>Segundo, a banca demasiado grande para cair, j\u00e1 salva, e com o saco cheio, tinha o grande objetivo de emprestar esse dinheiro sobrante a economias perif\u00e9ricas, como as latino-americanas, desejosas de nutrir-se de novo capital. Este empr\u00e9stimo em segunda inst\u00e2ncia n\u00e3o seria j\u00e1 a taxa zero ou a um juro muito baixo, mas era feito a uma taxa de juro mais elevada, garantindo-se assim um neg\u00f3cio redondo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um terceiro passo: identificar aonde foi parar este dinheiro que recentemente aterrou em algumas economias latino-americanas. Chegados a este ponto, o importante antes de tudo \u00e9 reter um dado claro: este \u201cnovo dinheiro\u201d n\u00e3o se orientou para atividades econ\u00f4micas produtivas nem para a economia real. De cada 10 d\u00f3lares novos, 9 terminaram em atividades financeiras, especulativas e ociosas. Ent\u00e3o, qual foi o destino do dinheiro conseguido atrav\u00e9s destes novos empr\u00e9stimos? Em muitos pa\u00edses, como s\u00e3o os casos de Col\u00f4mbia e M\u00e9xico, foi empregue em pagar d\u00edvidas anteriores. Na Argentina a situa\u00e7\u00e3o foi outra devido a que Macri recebeu um pa\u00eds desendividado. De modo que os d\u00f3lares novos se colocaram em modo de livre oferta \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de quem pudesse compra-los. E assim foi: os d\u00f3lares acabaram na sua grande maioria nas m\u00e3os de uns poucos fundos de investimento e da mesma banca que havia previamente emprestado os d\u00f3lares; houve tamb\u00e9m d\u00f3lares para bancos locais e para outros atores econ\u00f4micos de alto escal\u00e3o (especialmente, o que na Argentina se chama o \u201ccampo\u201d); e o resto, uma percentagem rid\u00edcula, para uma maioria que n\u00e3o tinha pesos suficientes para os comprar ao novo tipo de cambio depois das desvaloriza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E \u00e9 assim que chegamos ao quarto cap\u00edtulo desta serie. Agora \u00e9 a altura em que o mundo financeiro esfrega as m\u00e3os. Por qu\u00ea? Porque ainda restam muitos mais d\u00f3lares para emprestar. Dez bilh\u00f5es de d\u00f3lares s\u00e3o muitos d\u00f3lares e n\u00e3o foram todos gastos na primeira fase. Com tudo o que resta por colocar, agora \u00e9 o turno do FMI, que chega com os bolsos cheios de dinheiro impresso pelas maquinetas dos seus bancos centrais com uma \u00fanica miss\u00e3o: emprestar de novo para que o pa\u00eds cancele a sua d\u00edvida, quer dizer, devolva o que pediu anteriormente emprestado. E assim a d\u00edvida externa vai-se constituindo em divida eterna.<\/p>\n<p>Dado o dom\u00ednio atual do capitalismo neoliberal, impede-se que o dinheiro novo, o que se consegue por empr\u00e9stimo, seja usado para a economia real. Isto provoca que as economias latino-americanas, que se inserem no mundo pelos canais regulares, acabem sumamente endividadas, com uma economia real cada vez mais raqu\u00edtica e ineficiente. O grande boom global de impress\u00e3o monet\u00e1ria \u00e9 um fator condicionante do crescente endividamento externo latino-americano, que determina para o futuro um modelo de desenvolvimento dependente, financeirizado e improdutivo e, em consequ\u00eancia, com uma procura interna cada vez mais d\u00e9bil.<\/p>\n<p>\u00abLa Casa de Papel\u00bb em vers\u00e3o latino-americana tem um final diametralmente oposto ao que ocorre na s\u00e9rie. Na fic\u00e7\u00e3o, o dinheiro fica com um grupo de gente an\u00f4nima, mas na realidade o caudal impresso vai parar na conta dos resultados de uns quantos bancos \u00e0 custa das economias da regi\u00e3o. Veremos o que sucede na pr\u00f3xima temporada.<\/p>\n<p>*\u00abLa Casa de Papel\u00bb \u00e9 uma s\u00e9rie espanhola de televis\u00e3o, cujo enredo se centra num grupo de ladr\u00f5es que se encerram na Casa Nacional da Moeda de Espanha. Presume-se que no decurso dos epis\u00f3dios imprimem papel moeda.<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2018\/12\/12\/economia-la-casa-de-papel-en-version-latinoamericana\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21684\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8,165],"tags":[225],"class_list":["post-21684","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-eua","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5DK","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21684","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21684"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21684\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21684"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21684"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21684"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}