{"id":21686,"date":"2018-12-19T05:20:55","date_gmt":"2018-12-19T07:20:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21686"},"modified":"2018-12-19T05:20:56","modified_gmt":"2018-12-19T07:20:56","slug":"crises-cambiais-e-recolonizacao-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21686","title":{"rendered":"Crises cambiais e recoloniza\u00e7\u00e3o do Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" alt=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/181216-Ilan.jpg?w=747&#038;ssl=1\"><!--more-->Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, parece assustado. Mas a poss\u00edvel crise cambial brasileira foi fabricada pelas pol\u00edticas que ele adotou<br \/>\nBanco Central j\u00e1 admite: pa\u00eds pode ser atingido pelo vendaval que derrubou Argentina. Por que as pol\u00edticas econ\u00f4micas p\u00f3s-2014 nos tornaram vulner\u00e1veis<\/p>\n<p>Outras Palavras<br \/>\nPor Jos\u00e9 \u00c1lvaro de Lima Cardoso<\/p>\n<p>Referindo-se aos riscos de uma crise cambial \u2013 que levaram o Banco Central brasileiro, em um m\u00eas, a colocar no mercado, atrav\u00e9s dos chamados swaps cambiais quase US$ 39 bilh\u00f5es, visando conter a disparada da cota\u00e7\u00e3o da moeda norte-americana \u2014 o presidente do BC declarou que pode vir a usar as reservas internacionais brasileiras para resolver o problema. H\u00e1, h\u00e1 meses, sinais de fuga de divisas dos \u201cmercados emergentes\u201d para pa\u00edses considerados mais seguros. Os mais atingidos, at\u00e9 o momento, s\u00e3o Argentina e Turquia, cujas reservas eram reduzidas j\u00e1 antes dos sobressaltos recentes e t\u00eam sofrido fugas em massa de capitais especulativos, que buscam manter seus lucros. Por\u00e9m, outras economias dependentes, como Brasil, Chile e Col\u00f4mbia podem em breve ser afetadas. Inclusive porque o movimento tende a provocar um \u201cefeito manada\u201d \u2014 ou seja, a fuga de capitais leva a desvaloriza\u00e7\u00f5es das moedas desses pa\u00edses, o que por sua vez, leva a mais fuga de capitais.<\/p>\n<p>Essa espiral de especula\u00e7\u00e3o e pavor de perdas, que conduz \u00e0 quebradeira financeira, \u00e9 bastante familiar ao Brasil, que at\u00e9 2002 enfrentou v\u00e1rias e graves crises cambiais. Foi uma crise desse tipo que levou recentemente a Argentina a tomar emprestado US$ 50 bilh\u00f5es do FMI e, para tentar deter a sangria de capitais, elevar a taxa b\u00e1sica de juros para 40% ao ano. Juros nas alturas, como se sabe, inviabilizam o crescimento e colocam a taxa de desemprego nos p\u00edncaros. No caso da Argentina, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais grave porque o pa\u00eds, antes da crise cambial, vinha financiando o d\u00e9ficit no balan\u00e7o de pagamentos em conta corrente (que inclui com\u00e9rcio de bens, servi\u00e7os,juros e outras rendas do capital) com endividamento externo. Prova disso \u00e9 que,entre 2015 e 2017, a d\u00edvida externa da Argentina saltou de 28% para 36% do PIB.<\/p>\n<p>No caso do Brasil, um dos aspectos que deu errado no golpe foi o aprofundamento da crise econ\u00f4mica, que provocou aquela que \u00e9, possivelmente, a maior estagna\u00e7\u00e3o de toda a sua hist\u00f3ria. Muitos incautos entraram na conversa de que, afastada a presidenta Dilma (sem nenhum crime de responsabilidade), a\u201cfada da confian\u00e7a\u201d traria os investimentos de volta e a economia entraria em c\u00e9u de brigadeiro. N\u00e3o apenas a fada n\u00e3o veio, como conduziram o pa\u00eds para uma das maiores crises da sua hist\u00f3ria. Isso afastou muitos apoiadores de primeira hora do golpe, que se sentiram enganados, levando a uma impopularidade de um governo, que nem os piores da ditadura militar de 1964, enfrentaram. Gerou tamb\u00e9m um ambiente que pode conduzir, no m\u00e9dio prazo, a um grande movimento de massas contra as pol\u00edticas atuais.<\/p>\n<p>No processo de retrocesso pol\u00edtico que assistimos em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, seja atrav\u00e9s de golpes de Estado, seja mesmo atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es, um dos aspectos que tem ficado evidente \u00e9 o aumento da fragilidade econ\u00f4mica dos pa\u00edses. Tal fragilidade est\u00e1 muito relacionada com as op\u00e7\u00f5es de pol\u00edticas macroecon\u00f4micas. Sempre que estes pa\u00edses apostaram na amplia\u00e7\u00e3o do mercado interno, na valoriza\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios e no crescimento, a vulnerabilidade diminuiu. Vimos isso recentemente na Am\u00e9rica do Sul. Os pa\u00edses que reduziram sua vulnerabilidade externa na regi\u00e3o tinham assentado suas pol\u00edticas socioecon\u00f4micas em tr\u00eas pilares b\u00e1sicos: 1) Inclus\u00e3o social e combate \u00e0 pobreza; 2) recupera\u00e7\u00e3o do papel do Estado em todos os aspectos; 3) pol\u00edtica externa com relativa independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Ta\u00eds pol\u00edticas, como se sabe, sofreram desde o in\u00edcio, dura oposi\u00e7\u00e3o do governo imperialista dos EUA e de seus bra\u00e7os pol\u00edticos e econ\u00f4micos, como o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI). A experi\u00eancia hist\u00f3rica recente mostra que pa\u00edses que congelam gastos p\u00fablicos, que destroem mercado consumidor interno e achatam sal\u00e1rios enfrentam estagna\u00e7\u00e3o do PIB e crescente depend\u00eancia de capitais externos. Quando n\u00e3o h\u00e1 crescimento nem expans\u00e3o do mercado interno, os capitais ingressam para especular e para adquirir ativos baratos, como estamos assistindo com o desmonte da Petrobras. Afinal, qual seria a racionalidade de um investidor realizar aportes produtivos num pa\u00eds em que o mercado interno est\u00e1 encolhendo?<\/p>\n<p>Na grav\u00edssima crise internacional de 2008 a estrat\u00e9gia do governo brasileiro foi utilizar os bancos p\u00fablicos para irrigar o mercado de cr\u00e9dito, especialmente o cr\u00e9dito produtivo e seguir com as pol\u00edticas de expans\u00e3o do mercado consumidor interno. O restante da Am\u00e9rica do Sul, com suas especificidades, adotou a mesma linha geral. Em decorr\u00eancia dessa pol\u00edtica, o Brasil e os demais pa\u00edses n\u00e3o sofreram tanto os impactos da crise financeira mundial, pelo menos no seu primeiro momento. No caso do Brasil, a economia praticamente n\u00e3o cresceu em 2009 e, em fun\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de \u201cfuga para a frente\u201d, voltou a crescer no ano seguinte.<\/p>\n<p>A atual crise cambial ainda n\u00e3o pegou o Brasil para valer, em boa parte por causadas reservas internacionais de 380 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, uma heran\u00e7a dos governos anteriores. O presidente do Banco Central j\u00e1 sinalizou que ir\u00e1 lan\u00e7ar m\u00e3o delas, se for necess\u00e1rio. As reservas s\u00e3o robustas. Por\u00e9m, se continuarem enfraquecendo o Estado nacional, privatizando estatais estrat\u00e9gicas, desenvolvendo pol\u00edticas de liquida\u00e7\u00e3o do mercado interno, n\u00e3o haver\u00e1 divisas que cheguem. Pol\u00edticas de entrega da soberania e de destrui\u00e7\u00e3o de direitos (levadas \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias pelo governo brasileiro), tornam os pa\u00edses ref\u00e9ns das crises cambiais. Mas n\u00e3o enganem: n\u00e3o \u00e9 incompet\u00eancia e sim pol\u00edtica deliberada para recolonizar o Brasil e aliviar a crise internacional para os pa\u00edses ricos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21686\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[223],"class_list":["post-21686","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5DM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21686","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21686"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21686\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21686"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21686"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21686"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}