{"id":21710,"date":"2018-12-21T06:20:32","date_gmt":"2018-12-21T08:20:32","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21710"},"modified":"2018-12-21T06:20:36","modified_gmt":"2018-12-21T08:20:36","slug":"um-conto-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21710","title":{"rendered":"Um conto de Natal"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" alt=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2018\/12\/um-conto-de-natal.jpg\"><!--more-->A noite n\u00e3o \u00e9 amiga das esperan\u00e7as. Ela nos corta a carne e a sangra, nos lembrando de que estamos vivos e, portanto, podemos morrer.Por Mauro Luis Iasi.<\/p>\n<p>Blog da Boitempo<\/p>\n<p>\u201cVi el tiempo generoso del minuto,<br \/>\natado locamente al tempo grande.\u201d<br \/>\nC\u00e9sar Vallejo<\/p>\n<p>N\u00e3o era poss\u00edvel ver muito a nossa frente. Nossa vis\u00e3o estava ocupada com o passado, com os passos dados pelos caminhos incertos que percorremos at\u00e9 aqui. Sab\u00edamos onde est\u00e1vamos, alguns de n\u00f3s ainda se recordavam do lugar aonde gostar\u00edamos de ter ido, mas olh\u00e1vamos para nossos p\u00e9s descrentes da caminhada.<\/p>\n<p>O abismo se estendia diante de n\u00f3s no momento em que o sol, do outro lado, escondia-se do mundo deixando o reino de sombras de uma noite covarde tomar conta dos contornos dos montes. Um resto teimoso de dia ainda resistia na copa das \u00e1rvores e tingia de magenta as nuvens mais baixas. Um azul improv\u00e1vel gritava entre as pesadas forma\u00e7\u00f5es negras que carregavam o c\u00e9u com o corpo da noite. Havia pouco o que fazer agora.<\/p>\n<p>Descarregamos as mochilas de nossas costas cansadas e nos preparamos para passar a noite. A comida era pouca, mas foi repartida como cabe \u00e0s ceias fartas de solidariedade. Nada foi dito. As palavras estavam guardadas para outros tempos, como se buscassem no fundo do po\u00e7o de nossas mentes a \u00e1gua que mataria sua sede de dizer o que precisava ser dito. N\u00e3o era hora de discursos.<\/p>\n<p>Quem falava por n\u00f3s eram nossos olhos\u2026 quando desviavam do outro olhar, pedidos no ch\u00e3o a procura de pequenas pedras e folhas secas, quando se escondiam no cenho tenso olhando o c\u00e9u que se fechava. N\u00e3o olh\u00e1vamos as pedras, as folhas ou o c\u00e9u. Era para n\u00f3s que olh\u00e1vamos, e n\u00f3s diz\u00edamos: olhem. \u00c9 dif\u00edcil olhar para n\u00f3s mesmos: precisamos de espelhos para que possamos nos ver, precisamos que o outro nos diga como estamos. Por isso n\u00e3o nos v\u00edamos ali sozinhos \u00e0 beira do abismo.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o chegamos aonde quer\u00edamos, certo, mas caminhamos. Nossos p\u00e9s cansados testemunham, nosso corpo todo grita, extenuado, o tanto que se for\u00e7ou na marcha. Sab\u00edamos para onde and\u00e1vamos e desejamos esta jornada insana. \u201cS\u00f3 se lastima do cansa\u00e7o aquele que n\u00e3o se convenceu da necessidade da viagem\u201d, nos lembr\u00e1vamos da frase que um dia fora dita. \u00c9 na mem\u00f3ria que nos escondemos do frio da noite.<\/p>\n<p>Havia sorrisos, abra\u00e7os, certezas\u2026 luta. As palavras n\u00e3o eram mudas e os ouvidos, surdos. Havia canto e poemas. A estrada apenas se abria \u00e0 nossa frente e nos convidava \u00e0 aventura e \u00e0 descoberta. \u00c9 certo que havia a injusti\u00e7a, a viol\u00eancia, a arrog\u00e2ncia dos poderosos, mas tudo isso nos alimentava e dava for\u00e7as para caminhar.<\/p>\n<p>Agora, \u00e0 beira do imenso abismo, aqueles rostos cansados eram de velhos, ainda que fossemos t\u00e3o jovens como h\u00e1 pouco, quando iniciamos esta jornada. Jovens t\u00e3o velhos como a pr\u00f3pria terra. No escuro da noite, nossas fei\u00e7\u00f5es se confundiam na ampulheta do tempo: \u00e9ramos \u00edndios e seus cantos milenares como um lamento que procura as pedras para n\u00e3o ser levado pelo nada; \u00e9ramos negros acorrentados em navios que singrava um enorme abismo cheio de \u00e1gua salgada de nossas l\u00e1grimas; \u00e9ramos todos aqueles que j\u00e1 se sentaram \u00e0 beira de abismos esperando a noite passar.<\/p>\n<p>O poeta sussurrou em meu ouvido: \u201cSer\u00e1 a opress\u00e3o t\u00e3o antiga quanto o musgo nos lagos? Estarei eu doente por tentar mudar o que n\u00e3o pode ser mudado?\u201d. Doentes est\u00e1vamos todos, n\u00e3o s\u00f3 pela febre e pelos parasitas, est\u00e1vamos doentes de esperan\u00e7a e de raiva, est\u00e1vamos contaminados de certezas e de convic\u00e7\u00f5es. \u201cNada deve parecer imposs\u00edvel de ser mudado\u201d, sussurrou o poeta.<\/p>\n<p>A noite n\u00e3o \u00e9 amiga das esperan\u00e7as. Ela nos corta a carne e a sangra, nos lembrando de que estamos vivos e, portanto, podemos morrer. Muitos n\u00e3o estavam mais ali esperando na noite. Para onde foram suas esperan\u00e7as? Talvez por isso nossas mochilas estavam t\u00e3o pesadas. Carregamos todas as esperan\u00e7as daqueles que se foram lutando por elas. Tudo podia acabar ali mesmo, na beira daquele abismo, naquela noite. Quem carregaria nossas mochilas repletas de sonhos?<\/p>\n<p>Uma dor imensa e gelada tomou conta de nossos est\u00f4magos\u2026 podia ser o fim. Ningu\u00e9m saber\u00e1 de nosso sacrif\u00edcio e da justeza de nossas inten\u00e7\u00f5es. Ningu\u00e9m recolher\u00e1 os tra\u00e7os de nossos rostos para carregar em seu cora\u00e7\u00e3o. Os poderosos pisar\u00e3o sobre nossos cad\u00e1veres, queimar\u00e3o nossas casas e salgar\u00e3o a terra, para que nada possa nascer das cinzas.<\/p>\n<p>A noite percorreu seu pr\u00f3prio abismo. Ainda era noite quando nosso comandante se levantou. Contra o c\u00e9u que clareava no horizonte sua estatura era de um gigante, e a estrela em sua boina brilhava como nenhuma outra no firmamento. Acendeu seu charuto e depois de uma longa baforada nos disse: \u201cVamos, agora falta pouco\u201d.<\/p>\n<p>A noite que morria aos poucos ainda era de um dezembro de tirania, mas os raios de sol que se insinuavam no horizonte anunciavam que j\u00e1 estava muito pr\u00f3ximo o m\u00eas de janeiro. E eles atravessaram o abismo.<\/p>\n<hr>\n<p>Mauro Iasi \u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/12\/20\/um-conto-de-natal\/\">Um conto de&nbsp;Natal<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21710\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[219],"class_list":["post-21710","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Ea","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21710","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21710"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21710\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21710"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21710"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21710"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}