{"id":21732,"date":"2018-12-24T04:32:00","date_gmt":"2018-12-24T06:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21732"},"modified":"2018-12-24T04:36:07","modified_gmt":"2018-12-24T06:36:07","slug":"a-implosao-do-sistema-carcerario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21732","title":{"rendered":"A implos\u00e3o do sistema carcer\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" alt=\"imagem\" src=\"https:\/\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/181219-SistemaPrisional.jpg\"><!--more-->A v\u00edtima n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 Lula. Se confirmada, pris\u00e3o ap\u00f3s condena\u00e7\u00e3o em segunda inst\u00e2ncia ferir\u00e1 direito de milhares e superlotar\u00e1 pres\u00eddios. Mais de 40% das penas s\u00e3o revistas em tribunais superiores<\/p>\n<p>Por Lu Sudr\u00e9, no Brasil de Fato<\/p>\n<p>O Brasil ocupa o quarto lugar no ranking de pa\u00edses com maior n\u00famero de pessoas presas, atr\u00e1s apenas de Estados Unidos, China e R\u00fassia. A posi\u00e7\u00e3o do pa\u00eds no ranking global de aprisionamento apresentada em 2015 pelo Levantamento Nacional de Informa\u00e7\u00f5es Penitenci\u00e1rias (Infopen), do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. Em junho de 2016, ainda segundo o Infopen, o n\u00famero de pessoas encarceradas no Brasil superou ao n\u00famero de de 726 mil.<br \/>\nMas a superlota\u00e7\u00e3o do sistema prisional talvez n\u00e3o tenha chegado ao seu limite: ela aumentar\u00e1 ainda mais com a decis\u00e3o do STF que permitiu a pris\u00e3o ap\u00f3s condena\u00e7\u00e3o em segunda inst\u00e2ncia. Esta \u00e9 a avalia\u00e7\u00e3o de Elmir Duclerc, promotor de Justi\u00e7a criminal em Salvador (BA).<br \/>\n\u201cO pr\u00f3prio Supremo j\u00e1 decidiu, h\u00e1 alguns anos [2015], que o sistema carcer\u00e1rio brasileiro constituiu um estado de coisas inconstitucional, porque viola flagrantemente o princ\u00edpio mais importante da Constitui\u00e7\u00e3o: a prote\u00e7\u00e3o da dignidade humana. Mas no momento seguinte, d\u00e1 uma decis\u00e3o que permite que aquilo que j\u00e1 \u00e9 ruim fique ainda pior\u201d, denuncia o promotor e professor de processo penal na Universidade Federal da Bahia (UFBA).<br \/>\nDados da Defensoria P\u00fablica do Estado de S\u00e3o Paulo (DPE-SP) apontam que, desde a decis\u00e3o do STF em 2016, somente o Tribunal de Justi\u00e7a do Estado (TJ-SP) expediu 13.887 mandados de pris\u00e3o com base na nova jurisprud\u00eancia.<br \/>\nCr\u00edtico \u00e0 decis\u00e3o, Thiago Cury, coordenador do n\u00facleo especializado de situa\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria da DPE-SP, relata ser muito comum altera\u00e7\u00f5es de penas e, at\u00e9 mesmo, absolvi\u00e7\u00e3o de condenados nas inst\u00e2ncias superiores. Segundo ele, em 2017, 44% das decis\u00f5es recorridas pela Defensoria de S\u00e3o Paulo ao Supremo Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) foram modificadas positivamente, com redu\u00e7\u00e3o de pena ou absolvi\u00e7\u00e3o dos acusados.<br \/>\nO cen\u00e1rio se repete no Rio de Janeiro. Conforme informa\u00e7\u00f5es da Defensoria P\u00fablica fluminense, 49% dos habeas corpus apresentados \u00e0s inst\u00e2ncias superiores atenuaram, quantitativa ou qualitativamente, a pena imposta por inst\u00e2ncias inferiores.<br \/>\n\u201cAdmitir que as decis\u00f5es sejam executadas sem a possibilidade de acesso aos tribunais superiores \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o temer\u00e1ria, porque leva pessoas a cumprirem penas acima do que seria legalmente admitido\u201d, enfatiza Cury.<\/p>\n<p>Pris\u00f5es indevidas, danos irrepar\u00e1veis<\/p>\n<p>Casos disponibilizados pelas Defensorias exemplificam as consequ\u00eancias danosas da aplica\u00e7\u00e3o do novo entendimento do STF. Um deles \u00e9 o de Marcus Vinicius, condenado em primeira inst\u00e2ncia no Rio de Janeiro por tr\u00e1fico de drogas privilegiado (quando o r\u00e9u n\u00e3o tem antecedentes e n\u00e3o integra uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa, o que s\u00e3o causas para diminui\u00e7\u00e3o de pena) a um ano e oito meses de pris\u00e3o, em regime aberto, substitu\u00edda por presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os \u00e0 comunidade. Contudo, ao aceitar apela\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico, o Tribunal de Justi\u00e7a cassou em segunda inst\u00e2ncia a substitui\u00e7\u00e3o da pena e a aumentou para quatro anos e dois meses, em regime fechado. Somente com o recurso especial, julgado dois anos depois, o STJ restabeleceu a pena original em regime aberto.<br \/>\nSe a decis\u00e3o de segunda inst\u00e2ncia fosse executada de imediato, Marcus Vinicius teria cumprido, indevidamente, a pena em regime fechado, com meses excedentes de priva\u00e7\u00e3o de liberdade, que nunca lhe seriam restitu\u00eddos.<br \/>\nJ\u00e1 em S\u00e3o Paulo, em 2010, o jardineiro Felipe Eduardo e o servente de pedreiro Jorge Carlos, ambos negros, foram condenados em segunda inst\u00e2ncia a oito anos de reclus\u00e3o, em regime fechado, por tr\u00e1fico de drogas e associa\u00e7\u00e3o ao tr\u00e1fico. Sete anos depois, o STJ os absolveu. Caso a pena fosse cumprida ap\u00f3s decis\u00e3o do TJ-SP, os dois trabalhadores teriam cumprido a pena de maneira ilegal.<br \/>\n[A pedido da Defensoria P\u00fablica, os sobrenomes dos envolvidos foram suprimidos.]<\/p>\n<p>Exemplos internacionais<\/p>\n<p>Um dos principais argumentos utilizados por quem apoia a pris\u00e3o em segunda inst\u00e2ncia \u00e9 o de que, na maioria dos pa\u00edses, a execu\u00e7\u00e3o da pena pode ser realizada mesmo antes do tr\u00e2nsito em julgado da senten\u00e7a penal condenat\u00f3ria. Por\u00e9m, segundo Juarez Tavares, subprocurador-geral da Rep\u00fablica aposentado e autor de v\u00e1rias obras de refer\u00eancia na \u00e1rea penal, tais pressupostos est\u00e3o equivocados.<br \/>\n\u201c\u00c9 uma argumenta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade, porque h\u00e1 uma certa ignor\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o aos demais regimes\u201d, critica.<br \/>\nTavares, que tamb\u00e9m \u00e9 professor titular da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), ressalta que \u201cem todos os pa\u00edses, exige-se a senten\u00e7a penal condenat\u00f3ria transitada em julgado para a execu\u00e7\u00e3o da pena\u201d.<br \/>\nNa Alemanha, exemplifica, o par\u00e1grafo 449 do C\u00f3digo de Processo Penal afirma que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel a execu\u00e7\u00e3o da pena quando todos os recursos forem esgotados. Segundo ele, outros artigos do C\u00f3digo alem\u00e3o preveem ainda que, quando h\u00e1 apela\u00e7\u00e3o ou recurso especial, a execu\u00e7\u00e3o da pena deve ser suspensa.<br \/>\nO professor esclarece ainda que o artigo 27 da Constitui\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia tamb\u00e9m imp\u00f5e expressamente a exig\u00eancia do tr\u00e2nsito em julgado para a execu\u00e7\u00e3o da condena\u00e7\u00e3o. O mesmo se repete no artigo 32 do C\u00f3digo de Processo Penal portugu\u00eas, que defende a presun\u00e7\u00e3o da inoc\u00eancia, assim como a Constitui\u00e7\u00e3o brasileira.<br \/>\nUsar os Estados Unidos como modelo favor\u00e1vel \u00e0 pris\u00e3o em segunda inst\u00e2ncia tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 correto, pondera o jurista, uma vez que, em v\u00e1rias decis\u00f5es da Corte Suprema daquele pa\u00eds, s\u00f3 se executa a senten\u00e7a penal condenat\u00f3ria depois do tr\u00e2nsito em julgado.<\/p>\n<p>Campanha<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) lan\u00e7ou, no dia 16 de julho, um abaixo-assinado em defesa da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia. A iniciativa faz parte de uma campanha em torno da garantia deste princ\u00edpio e pretende mobilizar outros setores da sociedade. O resultado da coleta de assinaturas, uma das principais atividades da campanha, ser\u00e1 entregue ao STF em setembro.<br \/>\nA ABJD \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o nacional de juristas criada para reagir e combater a retirada de direitos fundamentais e defender o Estado Democr\u00e1tico de Direito. A associa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma proposta de unidade entre diversas categorias de juristas. Entre eles, est\u00e3o ju\u00edzes,desembargadores, advogados, defensores p\u00fablicos, professores, servidores do sistema de Justi\u00e7a, promotores, procuradores estaduais e municipais e estudantes de Direito.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"xhcOwxRtBL\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/stf-pode-implodir-sistema-penitenciario\/\">A implos\u00e3o do sistema carcer\u00e1rio<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/stf-pode-implodir-sistema-penitenciario\/embed\/#?secret=xhcOwxRtBL\" data-secret=\"xhcOwxRtBL\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;A implos\u00e3o do sistema carcer\u00e1rio&#8221; &#8212; Outras Palavras\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21732\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[244],"tags":[222],"class_list":["post-21732","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-violencia","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Ew","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21732","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21732"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21732\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21732"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21732"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21732"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}