{"id":21765,"date":"2018-12-29T00:45:44","date_gmt":"2018-12-29T02:45:44","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21765"},"modified":"2018-12-29T00:45:47","modified_gmt":"2018-12-29T02:45:47","slug":"a-teoria-pos-colonial-e-o-espectro-do-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21765","title":{"rendered":"A Teoria P\u00f3s-Colonial e o Espectro do Capital"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" alt=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/bloglavrapalavra.files.wordpress.com\/2015\/12\/haitian_revolution.jpg\"><!--more-->Por Joan Birch, via Jacobin Magazine, traduzido por Gabriel Landi Fazzio<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas recentes, a teoria p\u00f3s-colonial amplamente substituiu o marxismo como perspectiva dominante entre intelectuais engajados no projeto de examinar criticamente a rela\u00e7\u00e3o entre o mundo ocidental e o mundo n\u00e3o-ocidental. Originada nas ci\u00eancias humanas, a teoria p\u00f3s-colonial subsequentemente se tornou crescentemente influente na hist\u00f3ria, antropologia e ci\u00eancias sociais. Sua rejei\u00e7\u00e3o do universalismo e meta-narrativas associadas com o pensamento Iluminista se concatenou com uma virada mais ampla da esquerda intelectual durante os anos de 1980 e 1990.<\/p>\n<p>O novo livro de Vivek Chibber, A Teoria P\u00f3s-Colonial e o Espectro do Capital, representa um desafio de grande alcance aos princ\u00edpios centrais da teoria p\u00f3s-colonial. Focando particularmente na vertente da teoria p\u00f3s-colonial conhecido como estudos subalternos, Chibber advoga vigorosamente que podemos \u2013 devemos \u2013 conceituar o mundo n\u00e3o-ocidental atrav\u00e9s das mesmas lentes anal\u00edticas que usamos para entender o desenrolar no ocidente. Ele oferece uma defesa sustentada de abordagens te\u00f3ricas que enfatizam categorias universais como capitalismo e classe. Seu trabalho constitui uma argumenta\u00e7\u00e3o da continuidade da relev\u00e2ncia do marxismo em face de alguns de seus mais severos cr\u00edticos.<\/p>\n<p>Chibber foi entrevistado pela Jacobin por Jonah Birch, um estudante de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em sociologia pela Universidade de Nova York.<\/p>\n<p>Jonah Birch: Na base da teoria p\u00f3s-colonial est\u00e1 a no\u00e7\u00e3o que as categorias ocidentais n\u00e3o podem ser aplicadas a sociedade p\u00f3s-coloniais como a \u00cdndia. No que se baseia tal alega\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Vivek Chibber: Esse \u00e9 provavelmente o argumento isolado mais importante dos estudos p\u00f3s-coloniais, e \u00e9 inclusive o que torna t\u00e3o importante se defrontar com eles. N\u00e3o houve nenhum conjunto realmente proeminente de ideias associadas \u00e0 esquerda nos \u00faltimos 150 anos que tenha insistido em negar o ethos cient\u00edfico e a aplicabilidade de categorias provenientes do iluminismo liberal e do iluminismo radical \u2013 categorias como capital, democracia, liberalismo, racionalidade e objetividade. Houve fil\u00f3sofos que criticaram tais orienta\u00e7\u00f5es, mas eles raramente conquistaram qualquer atra\u00e7\u00e3o relevante sobre a esquerda. Os te\u00f3ricos p\u00f3s-coloniais s\u00e3o os primeiros a faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Tal discurso vem, na verdade, sobre uma premissa sociol\u00f3gica de fundo: para que as categorias da economia pol\u00edtica e do iluminismo tenham qualquer utilidade, o capitalismo deve se espalhar pelo mundo todo. Isso \u00e9 chamado de \u201cuniversaliza\u00e7\u00e3o do capital\u201d.<\/p>\n<p>O argumento segue assim: as categorias universalizantes associadas com o pensamento iluminista s\u00e3o apenas t\u00e3o leg\u00edtimas quanto as tend\u00eancias universalizantes do capital. E os te\u00f3ricos p\u00f3s-coloniais negam que o capital tenha de fato se universalizado \u2013 ou, mais importante, que sequer fosse poss\u00edvel sua universaliza\u00e7\u00e3o ao redor do globo. Uma vez que o capitalismo n\u00e3o se universalizou e nem pode faz\u00ea-lo, as categorias que pessoas como Marx desenvolveram para entender o capitalismo tamb\u00e9m n\u00e3o podem ser universalizadas.<\/p>\n<p>O que isso significa para a teoria p\u00f3s-colonial \u00e9 que as partes do globo onde a universaliza\u00e7\u00e3o do capital falhou precisam geral suas pr\u00f3prias categorias locais. E mais importante, significa que teorias como o marxismo, que tenta utilizar as categorias da economia pol\u00edtica, n\u00e3o est\u00e3o apenas erradas, mas s\u00e3o euroc\u00eantricas, e n\u00e3o apenas euroc\u00eantricas, mas s\u00e3o parte do impulso colonial e imperial do ocidente. Est\u00e3o, portanto, implicadas no imperialismo. Novamente, esse \u00e9 um argumento bastante inovador para a esquerda.<\/p>\n<p>Jonah Birch: O que te fez decidir focar nos estudos subalternos como um caminho para a cr\u00edtica da teoria p\u00f3s-colonial de maneira mais geral?<\/p>\n<p>Vivek Chibber: A teoria p\u00f3s-colonial \u00e9 um conjunto de ideias bem difuso. Na verdade, prov\u00e9m dos estudos liter\u00e1rios e culturais, e teve neles sua influ\u00eancia inicial. Ent\u00e3o se espalhou para outras \u00e1reas de estudo, a hist\u00f3ria e a antropologia. Espalhou-se para tais campos por causa da influ\u00eancia da cultura e da teoria cultural de 1980 em diante. Ent\u00e3o, ao fim de 1980 e no come\u00e7o de 1990, disciplinas tais como a hist\u00f3ria, a antropologia, os estudos do oriente m\u00e9dio e os estudos do sul asi\u00e1tico foram infundidos com um giro brusco em dire\u00e7\u00e3o ao que agora conhecemos como teoria p\u00f3s-colonial.<\/p>\n<p>Para atingir a teoria se enfrentam alguns problemas b\u00e1sicos: porque \u00e9 t\u00e3o difusa, \u00e9 dif\u00edcil definir quais s\u00e3o suas proposi\u00e7\u00f5es centrais, ent\u00e3o antes de tudo \u00e9 dif\u00edcil saber exatamente o que criticar. Inclusive, seus defensores s\u00e3o capazes de facilmente refutar qualquer cr\u00edtica apontando outros aspectos que voc\u00ea pode ter deixado passar na teoria, dizendo que voc\u00ea focou nos aspectos errados. Por conta disso, eu tive que encontrar alguns componentes centrais da teoria \u2013 algum fluxo de teoriza\u00e7\u00e3o no interior dos estudos p\u00f3s-coloniais \u2013 que fossem consistentes, coerentes e altamente influentes.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m queria focar naquelas dimens\u00f5es da teoria centradas na hist\u00f3ria, desenvolvimento hist\u00f3rico e estruturas sociais, e n\u00e3o na cr\u00edtica liter\u00e1ria. Os estudos subalternos encaixaram em todos esses tr\u00eas moldes: t\u00eam sido extremamente influentes nos estudos da \u00e1rea; \u00e9, sendo justo, consistente internamente e se foca sobre a hist\u00f3ria e a estrutura social. Como uma vertente da teoria, t\u00eam sido bastante influente em parte por conta de sua consist\u00eancia interna, mas tamb\u00e9m parcialmente por seus maiores proponentes virem de uma base marxista e estarem todos baseados na \u00cdndia ou em partes do Terceiro Mundo. Isso os deu uma grande legitimidade e credibilidade, tanto como cr\u00edticos do marxismo como expoente de um novo modo de entender o Sul Global. \u00c9 atrav\u00e9s dos estudos dos subalternistas que essas no\u00e7\u00f5es sobre a falha na universaliza\u00e7\u00e3o do capital e a necessidade de categorias nativas tornaram-se respeit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Jonah Birch: De acordo com os te\u00f3ricos dos estudos subalternos, porque a tend\u00eancia universalizante do capitalismo se rompeu no mundo p\u00f3s-colonial? O que h\u00e1 nessas sociedades que impediu o progresso do capitalismo?<\/p>\n<p>Vivek Chibber: Os estudos subalternos oferecem dois argumentos distintos para como e quando a universaliza\u00e7\u00e3o impulsionada pelo capital foi bloqueada. Um argumento vem de Ranajit Guha. Guha localiza o impulso universalizante do capital na habilidade de um agente particular \u2013 nomeadamente, a burguesia, a classe capitalista \u2013 de derrubar a ordem feudal e construir uma coaliza\u00e7\u00e3o de classes que inclui n\u00e3o apenas capitalistas e comerciantes, mas inclusive trabalhadores e camponeses. A atrav\u00e9s da alian\u00e7a pavimentada, o capital deveria erigir uma nova ordem pol\u00edtica, que n\u00e3o \u00e9 apenas pr\u00f3-capitalista nos termos da defesa dos direitos de propriedade dos capitalistas, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma ordem liberal, abrangente e consensual.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para que o impulso universalizante do capital seja real, diz Guha, ele deve se expressar na emerg\u00eancia de uma classe capitalista que construa uma ordem consensual e liberal. Essa ordem substituiu o antigo regime, e em tal universaliza\u00e7\u00e3o ela expressa os interesses dos capitalistas como interesses universais. O capital, como diz Guha, obt\u00e9m a habilidade de falar por toda a sociedade: n\u00e3o apenas como classe dominante, mas tamb\u00e9m hegem\u00f4nica que n\u00e3o precisa da coer\u00e7\u00e3o para manter seu poder.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Guha localiza esse impulso universalizante na constru\u00e7\u00e3o de uma cultura pol\u00edtica abrangente. O ponto fulcral para Guha \u00e9 que a burguesia no Ocidente foi capaz de atingir tal ordem enquanto a burguesia no Oriente falhou em faz\u00ea-lo. Ao inv\u00e9s de derrubar o feudalismo, realizou algum tipo de acordo com as classes feudais; ao inv\u00e9s de tornar-se a for\u00e7a hegem\u00f4nica com uma coaliza\u00e7\u00e3o ampla de diversas classes, tentou ao m\u00e1ximo evitar o envolvimento dos camponeses e da classe trabalhadora. Ao inv\u00e9s de erigir uma ordem pol\u00edtica consensual e abrangente, p\u00f4s em p\u00e9 ordens pol\u00edticas altamente inst\u00e1veis e francamente autorit\u00e1rias. Manteve o fosso entre a cultura das classes subalternas e a das elites.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, para Guha, enquanto no Ocidente a burguesia foi capaz de falar por todas as diversas classes, no Oriente ela falhou em tal objetivo, fazendo-se dominante, mas n\u00e3o hegem\u00f4nica. Isso faz com que a modernidade nas duas partes do mundo seja fundamentalmente diferente, gerando din\u00e2micas pol\u00edticas distintas no Oriente e no Ocidente, e isso significa que o impulso universalizante do capital falhou.<\/p>\n<p>Jonah Birch: Ent\u00e3o o argumento consiste em uma alega\u00e7\u00e3o sobre o papel da burguesia no Oriente, e a falha de sua contraparte nas sociedades p\u00f3s-coloniais?<\/p>\n<p>Vivek Chibber: Para Guha, absolutamente, e os grupos de estudos subalternos aceitam esses argumentos, em grande parte sem maiores debates. Eles descrevem a situa\u00e7\u00e3o \u2013 a condi\u00e7\u00e3o do Oriente \u2013 como uma condi\u00e7\u00e3o na qual a burguesia domina, mas carece de hegemonia, enquanto no Ocidente h\u00e1 tanto dom\u00ednio como hegemonia.<\/p>\n<p>Agora, o problema com isso \u00e9, como voc\u00ea disse, que o cerne do argumento \u00e9 uma determinada descri\u00e7\u00e3o das conquistas da burguesia Ocidental. O argumento, infelizmente, tem pouca base hist\u00f3rica. Houve um tempo, no s\u00e9culo XIX, no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, mesmo at\u00e9 os anos 50 em que muitos historiadores aceitaram esse quadro da ascens\u00e3o da burguesia no Ocidente. Nos \u00faltimos 30 ou 40 anos, por\u00e9m, ele foi amplamente rejeitado, mesmo entre marxistas.<\/p>\n<p>O que \u00e9 estranho \u00e9 que o livro de Guha e seu artigo foram escritos como se a cr\u00edtica dessa abordagem nunca tivesse sido feita. E o que \u00e9 ainda mais estranho \u00e9 que a profiss\u00e3o da hist\u00f3ria \u2013 na qual os estudos subalternos t\u00eam sido t\u00e3o influentes \u2013 nunca questionou esse fundamento do projeto dos estudos subalternos, ainda que todos eles anunciem que esse \u00e9 o fundamento. A burguesia no Ocidente nunca aspirou aos objetivos que Guha lhe atribui: nunca tentou trazer \u00e0 tona uma cultura pol\u00edtica consensual ou representar os interesses da classe trabalhadora. Em verdade, lutou com unhas e dentes contra ela por s\u00e9culos ap\u00f3s as chamadas revolu\u00e7\u00f5es burguesas.  Quando essas liberdades foram finalmente atingidas, foi atrav\u00e9s de uma luta bastante intensa dos despossu\u00eddos assalariados contra os her\u00f3is da narrativa de Guha, a burguesia. Ent\u00e3o a ironia \u00e9 que Guha realmente trabalha com uma no\u00e7\u00e3o incrivelmente ing\u00eanua, mesmo ideol\u00f3gica da experi\u00eancia Ocidental. Ele n\u00e3o v\u00ea que os capitalistas foram, em todos os lugares e sempre, hostis \u00e0 extens\u00e3o dos direitos pol\u00edticos ao povo trabalhador.<\/p>\n<p>Jonah Birch: Ent\u00e3o esse \u00e9 um dos argumentos sobre a especificidade radical do mundo colonial e p\u00f3s-colonial. Mas voc\u00ea disse antes que h\u00e1 um outro?<\/p>\n<p>Vivek Chibber: Sim, o segundo argumento vem principalmente do trabalho de Dipesh Chakrabarty. Suas d\u00favidas sobre a universaliza\u00e7\u00e3o do capital s\u00e3o distintas das de Guha. Guha localiza a tend\u00eancia \u00e0 universalia\u00e7\u00e3o do capital em um agente particular: a burguesia. Chakrabarty a localiza na habilidade do capitalismo de transformar todas as rela\u00e7\u00f5es sociais aonde quer que ele v\u00e1. E ele conclui que ele falhou em tal prova, porque lhe parece que h\u00e1 v\u00e1rias pr\u00e1ticas culturais, sociais e pol\u00edticas no Oriente que n\u00e3o se conformam ao seu modelo de como a cultura e sistema pol\u00edtico capitalista deveriam parecer.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em sua vis\u00e3o, o teste para uma universaliza\u00e7\u00e3o bem-sucedida do capital \u00e9 que todas as pr\u00e1ticas sociais devem ser imersas na l\u00f3gica do capital. Ele nunca especifica claramente o que \u00e9 a l\u00f3gica do capital, mas h\u00e1 alguns par\u00e2metros amplos que ele tem em mente.<\/p>\n<p>Jonah Birch: Parece uma meta bastante alta.<\/p>\n<p>Vivek Chibber: Sim, esse \u00e9 o ponto: \u00e9 uma meta imposs\u00edvel. Ent\u00e3o se voc\u00ea descobre que na \u00cdndia pr\u00e1ticas matrimoniais ainda usam antigos rituais; se voc\u00ea descobre que na \u00c1frica as pessoas ainda tendem a rezar enquanto est\u00e3o trabalhando \u2013 esse tipo de pr\u00e1tica representa uma falha da universaliza\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>O que eu digo em meu livro \u00e9 que isso \u00e9 meio bizarro: tudo o que a universaliza\u00e7\u00e3o do capital requer \u00e9 que a l\u00f3gica econ\u00f4mica do capitalismo seja implantada em v\u00e1rias partes do mundo e que ele se reproduza com sucesso ao longo do tempo. Isso ir\u00e1, \u00e9 claro, gerar certas mudan\u00e7a culturais e pol\u00edtica tamb\u00e9m. De qualquer modo, n\u00e3o se requer que tudo, ou quase tudo, das pr\u00e1ticas culturais de uma regi\u00e3o sejam transformadas de acordo com algum tipo de linha capitalista identific\u00e1vel.<\/p>\n<p>Jonah Birch: Esse \u00e9 o argumento te\u00f3rico que voc\u00ea defende em seu livro quanto \u00e0 universaliza\u00e7\u00e3o capitalista n\u00e3o requerer que se apague toda divis\u00e3o social.<\/p>\n<p>Vivek Chibber: Certo.Uma manobra t\u00edpica dos te\u00f3ricos p\u00f3s-coloniais \u00e9 dizer algo como: o marxismo se baseia em categorias abstratas, universalizantes. Mas para essas categorias terem aplica\u00e7\u00e3o, a realidade deveria parecer exatamente com as descri\u00e7\u00f5es abstratas do capital, dos trabalhadores, do estado, etc. Mas, dizem os te\u00f3ricos p\u00f3s-coloniais, a realidade \u00e9 muito mais diversa. Trabalhadores vestem roupas t\u00e3o coloridas: rezam enquanto trabalham, capitalistas consultam astr\u00f3logos \u2013 isso n\u00e3o parece nada com o que Marx descreve no Capital. Ent\u00e3o isso deve significar que as categorias do capital n\u00e3o s\u00e3o realmente aplic\u00e1veis aqui. O argumento acaba sendo que qualquer desvio da realidade concreta das descri\u00e7\u00f5es abstratas da teoria \u00e9 um problema da teoria. Mas isso \u00e9 tolo, indo al\u00e9m das palavras: isso significa que voc\u00ea n\u00e3o pode ter uma teoria. Porque deveria importar se os capitalistas consultam astr\u00f3logos contanto que eles s\u00e3o movidos a acumular lucros? Similarmente, n\u00e3o importa se os trabalhadores rezam no ch\u00e3o de f\u00e1brica contanto que eles trabalhem. Isso \u00e9 tudo o que a teoria requer. Isso n\u00e3o \u00e9 dizer que diferen\u00e7as culturais desaparecer\u00e3o; \u00e9 dizer que essas diferen\u00e7as n\u00e3o importam para a dissemina\u00e7\u00e3o do capitalismo, contanto que os agentes obede\u00e7am a compuls\u00e3o que lhe inscreve sua posi\u00e7\u00e3o nas estruturas capitalistas. Eu vou a dist\u00e2ncias consider\u00e1veis para explicar isso no livro.<\/p>\n<p>Jonah Birch: Muito do apelo da teoria p\u00f3s-colonial reflete o desejo disseminado de evitar o eurocentrismo e entender a import\u00e2ncia das especificidades locais e culturais quanto \u00e0s categorias, formas, identidades, e que \u00e9 preciso entender as pessoas como elas eram, ou s\u00e3o, n\u00e3o apenas como abstra\u00e7\u00f5es. Mas eu pondero se n\u00e3o h\u00e1 inclusive um perigo nesse racioc\u00ednio sobre a especificidade cultural das culturas n\u00e3o-Ocidentais, e se isso n\u00e3o \u00e9 uma forma de essencialismo cultural.<\/p>\n<p>Vivek Chibber: Absolutamente, esse \u00e9 o perigo. E n\u00e3o \u00e9 apenas um perigo; \u00e9 algo em que os estudos subalternos e a teoria p\u00f3s-colonial constantemente incorrem. Voc\u00ea v\u00ea isso mais frequentemente em seus argumentos sobre a\u00e7\u00e3o social e resist\u00eancia. Est\u00e1 perfeitamente bem que as pessoas carreguem suas culturas e pr\u00e1ticas locais quando elas est\u00e3o resistindo ao capitalismo, ou quando elas resistem a v\u00e1rios agentes do capital. Mas \u00e9 uma coisa bastante distinta dizer que n\u00e3o h\u00e1 a\u00ed nenhuma aspira\u00e7\u00e3o universal, ou nenhum interesse universal, que as pessoas devam ter.<\/p>\n<p>Em verdade, uma das coisas que eu mostro em meu livro \u00e9 que quando os historiadores dos estudos subalternos fazem trabalhos emp\u00edricos sobre a resist\u00eancia camponesa, eles exibem nitidamente que os camponeses [na \u00cdndia], quando sem engajam em a\u00e7\u00f5es coletivas, est\u00e3o mais ou menos agindo sob as mesmas aspira\u00e7\u00f5es e os mesmos impulsos que moviam os camponeses ocidentais. O que os separava do Ocidente eram formas culturais nas quais essas aspira\u00e7\u00f5es eram expressas, mas as aspira\u00e7\u00f5es tendem elas pr\u00f3prias a ser bastante consistentes.<\/p>\n<p>E quando pensamos sobre isso, \u00e9 realmente estranho dizer que camponeses indianos  estavam dispostos a defender seu bem-estar; que eles n\u00e3o gostam de ser passados para tr\u00e1s; que eles gostariam de ser capazes de encontrar-se em certas condi\u00e7\u00f5es nutricionais b\u00e1sicas; que quando eles entregavam rendas para os donos de terras eles tentavam manter o quanto pudessem para si pr\u00f3prios porque n\u00e3o gostavam de dar suas colheitas? Atrav\u00e9s de todos os s\u00e9culos XIV e XX, esse foi na verdade o motivo das lutas dos camponeses.<\/p>\n<p>Quando os te\u00f3ricos subalternos erguem esse gigantesco muro separando o Oriente do Ocidente, e quando insistem que os agentes Orientais n\u00e3o s\u00e3o movidos pelo mesmo tipo de preocupa\u00e7\u00f5es que os agentes Ocidentais, o que eles est\u00e3o fazendo \u00e9 endossar o tipo de essencialismo que as autoridades coloniais usavam para justificar sua depreda\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XIX. \u00c9 o mesmo tipo de essencialismo que os chauvinistas dos EUA utilizaram quando bombardearam o Vietn\u00e3 ou quando eles atacam o Oriente M\u00e9dio. Ningu\u00e9m na Esquerda pode estar tranquilo com esse tipo de argumentos.<\/p>\n<p>Jonah Birch: Mas n\u00e3o seria poss\u00edvel responder dizendo que voc\u00ea est\u00e1 endossando algum tipo de essencialismo ao atribuir uma racionalidade comum a atores em contextos bastante diferentes?<\/p>\n<p>Vivek Chibber: Bom, isso n\u00e3o \u00e9 exatamente essencialismo, mas eu endosso essa vis\u00e3o de que h\u00e1 alguns interesses em comum e necessidades que as pessoas t\u00eam atrav\u00e9s das culturas. H\u00e1 alguns aspectos da nossa natureza humana que n\u00e3o s\u00e3o culturalmente constru\u00eddos: assumem uma forma culturalmente, mas n\u00e3o s\u00e3o criados por ela. Minha vis\u00e3o \u00e9 de que mesmo que haja enormes diferen\u00e7as entre as pessoas no Oriente e no Ocidente, tamb\u00e9m h\u00e1 um n\u00facleo de preocupa\u00e7\u00f5es que as pessoas t\u00eam em comum, quer tenham nascido no Egito, na \u00cdndia, em Manchester ou em Nova York. N\u00e3o s\u00e3o muitas, mas podemos enumerar ao menos duas ou tr\u00eas delas: dizem respeito ao bem-estar f\u00edsico; h\u00e1 provavelmente uma preocupa\u00e7\u00e3o com o grau de autonomia e auto-determina\u00e7\u00e3o; h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o com aquelas pr\u00e1ticas que diretamente pertencem ao seu bem-estar. Isso n\u00e3o \u00e9 muito, mas voc\u00eas ficaria surpreso com o qu\u00e3o longe isso o leva na explica\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas realmente importantes.<\/p>\n<p>Por dois s\u00e9culos, qualquer um que se chamasse progressista abra\u00e7ava esse tipo de universalismo. Era simplesmente entendido que a raz\u00e3o pela qual os trabalhadores ou camponeses poderiam se unir atrav\u00e9s dos limites nacionais \u00e9 porque eles compartilham certos interesses materiais. Isso est\u00e1 sendo posto em quest\u00e3o agora pelos estudos subalternos, e \u00e9 realmente marcante que tantas pessoas na Esquerda tenham aceitado isso. \u00c9 ainda mais marcante que  \u00e9 que isso seja ainda aceito depois dos \u00faltimos 15 ou 20 anos em que vimos movimentos globais atrav\u00e9s das culturas e fronteiras nacionais contra o neoliberalismo, contra o capitalismo. Ainda assim, na universidade, ousar dizer que as pessoas compartilham, preocupa\u00e7\u00f5es comuns em todas as culturas \u00e9 de alguma forma visto como ser euroc\u00eantrico. Isso demonstra o qu\u00e3o longe a cultura pol\u00edtica e intelectual caiu nos \u00faltimos vinte anos.<\/p>\n<p>Jonah Birch: Se voc\u00ea argumenta que o capitalismo n\u00e3o requer liberalismo burgu\u00eas, e que a burguesia n\u00e3o desempenhou um papel hist\u00f3rico na lideran\u00e7a dessa luta popular pela democracia no Ocidente, como voc\u00ea explica o fato de que foi atingido o liberalismo e a democracia no Ocidente, e n\u00e3o se atingiram tais desfechos da mesma forma em boa parte do mundo p\u00f3s-colonial?<\/p>\n<p>Vivek Chibber: Essa \u00e9 a grande quest\u00e3o. A coisa interessante \u00e9 que quando Guha escreveu seu ensaio original anunciando a agenda dos estudos subalternos, ele atribuiu a falha do liberalismo no Oriente \u00e0 falha da sua burguesia. Mas ele tamb\u00e9m sugere que havia outra possibilidade hist\u00f3rica, nomeadamente que o movimento independentista na \u00cdndia e em outros pa\u00edses coloniais pudesse ter sido liderado por classes populares, as quais poderiam ter empurrado as coisas em dire\u00e7\u00e3o diferente e, talvez, criar uma tipo diferente  e ordem pol\u00edtica. Ele traz isso \u00e0 tona e depois ele esquece, e isso nunca mais aparece em qualquer trabalho seu.<\/p>\n<p>Se ele tivesse tomado esse caminho, e se ele tivesse tomado-o com mais seriedade, poderia t\u00ea-lo levado a um entendimento mais preciso do que aconteceu no Ocidente n\u00e3o apenas no Oriente. O fato \u00e9 que no Ocidente, quando uma ordem consensual, democr\u00e1tica e abrangente finalmente emergiu lentamente no s\u00e9culo XIX e no come\u00e7o do XX, n\u00e3o foi presente oferecido pelos capitalistas. Foi de fato um produto de lutas muito longas e concentradas da parte dos trabalhadores, agricultores e camponeses. Em outras palavras, foi trazido \u00e0 tona por lutas de baixo.<\/p>\n<p>Guha e os subalternistas ignoram isso inteiramente, porque insistem que a ascens\u00e3o da ordem liberal foi um feito dos capitalistas. Porque descrevem mal isso no Ocidente, diagnosticam equivocadamente a falha de tal ordem no Oriente. No Oriente eles erroneamente atribuem essa falha aos atalho da burguesia.<\/p>\n<p>Agora, se voc\u00ea quer um projeto de pesquisa hist\u00f3rico de precis\u00e3o, explicando a fragilidade das  institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas no Oriente e sua guinada rumo ao autoritarismo, a resposta n\u00e3o tem a ver com os atalhos da burguesia, mas com a fraqueza do movimento oper\u00e1rio das organiza\u00e7\u00f5es camponesas, e com os partidos representantes dessas classes. A fraqueza dessas for\u00e7as pol\u00edticas na tentativa de trazer algum tipo de disciplina \u00e0 classe capitalista \u00e9 a resposta \u00e0 quest\u00e3o colocado pelos estudos subalternos. Essa quest\u00e3o \u00e9: \u201cPor que a cultura pol\u00edtica do Sul Global \u00e9 t\u00e3o diferente daquela do Norte Global?\u201d. \u00c9 para isso que deviam olhar: para as din\u00e2micas das organiza\u00e7\u00f5es populares e os partidos das organiza\u00e7\u00f5es populares; n\u00e3o para alguma falha putativa da classe capitalista, que no Oriente n\u00e3o era nada mais olig\u00e1rquica e autorit\u00e1ria do que j\u00e1 foi no Ocidente.<\/p>\n<p>Jonah Birch: Voc\u00ea \u00e9 obviamente muito cr\u00edtico da teoria p\u00f3s-colonial. Mas n\u00e3o h\u00e1 algo v\u00e1lido ou valioso nessa acusa\u00e7\u00e3o da ordem p\u00f3s-colonial?<\/p>\n<p>Vivek Chibber: \u00c9, h\u00e1 algumas coisas valiosas, especialmente se voc\u00ea olhar para o trabalho de Guha. Em todo o seu trabalho, especialmente em \u201cDom\u00ednio sem hegemonia\u201c, eu penso que h\u00e1 um criticismo bastante saud\u00e1vel e um desprezo geral voltados aos poderes estabelecidos em um pa\u00eds como a \u00cdndia. E essa \u00e9 uma alternativa tremendamente positiva ao tipo de historiografia nacionalista que tem sido posta de p\u00e9 por d\u00e9cadas em pa\u00edses como a \u00cdndia, nos quais os l\u00edderes do movimento independentista eram vistos como algo pr\u00f3ximo a salvadores. A insist\u00eancia de Guha n\u00e3o apenas no fato de tal lideran\u00e7a n\u00e3o ser salvadora, mas que ela \u00e9 de fato respons\u00e1vel por muitos dos atalhos da ordem p\u00f3s-colonial deve ser louvada e endossada.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 sua descri\u00e7\u00e3o da ordem p\u00f3s-colonial: o problema \u00e9 seu diagn\u00f3stico sobre o respons\u00e1vel por tais falhas e como devem ser consertadas. Eu estou totalmente a bordo da atitude geral de Guha quanto \u00e0 elite indiana e seus capangas. O problema \u00e9 que sua an\u00e1lise das causas disso vai tanto na dire\u00e7\u00e3o errada que se p\u00f5e no caminho de uma resposta e uma cr\u00edtica apropriada dessa ordem.<\/p>\n<p>Jonah Birch: E Partha Chatterjee? Seu trabalho n\u00e3o oferece uma cr\u00edtica s\u00e9ria do estado p\u00f3s-colonial na \u00cdndia?<\/p>\n<p>Vivek Chibber: Em alguns aspectos, sim. Em um n\u00edvel puramente descritivo, o trabalho de Chatterjee sobre o nacionalismo, como o de Guha, demonstra a estreiteza das preocupa\u00e7\u00f5es da lideran\u00e7a nacionalista, sua fidelidade aos interesses das elites e suas ressalvas quanto \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o popular. E isso deve ser elogiado.<\/p>\n<p>O problema, novamente, \u00e9 o diagn\u00f3stico. No caso de Chatterjee, a falha do movimento nacionalista indiano \u00e9 imputada \u00e0 sua lideran\u00e7a ter internalizado um ethos particular, e esse \u00e9 o ethos \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o que vem da moderniza\u00e7\u00e3o e do modernismo. Ent\u00e3o, para Chatterjee, o problema com Nehru \u00e9 que ele adotou rapidamente um posicionamento modernizante quanto \u00e0 economia pol\u00edtica. Em outras palavras, ele deu grande valor a uma abordagem cient\u00edfica quanto \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o, o planejamento racional e organiza\u00e7\u00e3o \u2013 e esse \u00e9 o cerne do porque, para Chatterjee, a \u00cdndia est\u00e1 presa em uma posi\u00e7\u00e3o de \u201csujei\u00e7\u00e3o continuada\u201d na ordem global.<\/p>\n<p>\u00c9 justo dizer que Nehru \u00e9 sustentado por um estreito rol de interesses, mas localizar as fontes profundas de seu conservadorismo em sua ado\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o de mundo modernizante e cient\u00edfica confunde seriamente qual seja o problema. Se o problema com a elite p\u00f3s-colonial \u00e9 que ela adotou uma vis\u00e3o de mundo cient\u00edfica e racional, a quest\u00e3o emerge: como os te\u00f3ricos p\u00f3s-coloniais pretendem se livrar da presente crise \u2013 n\u00e3o apenas econ\u00f4mica e pol\u00edtica, mas inclusive ambiental \u2013 se eles est\u00e3o dizendo que ci\u00eancia, objetividade, evid\u00eancia, preocupa\u00e7\u00f5es com o desenvolvimento, devem ser descartados?<\/p>\n<p>Chatterjee n\u00e3o tem uma sa\u00edda para isso. Em minha vis\u00e3o, o problema com a lideran\u00e7a de Nehru, e com a lideran\u00e7a do Congresso Nacional Indiano, n\u00e3o \u00e9 que eles eram cient\u00edficos e modernizantes, mas que eles ligaram seu programa ao interesse das elites indianas \u2013 da classe capitalista indiana, e dos latifundi\u00e1rios indianos \u2013 e que abandonaram seu compromisso com a mobiliza\u00e7\u00e3o popular e tentaram manter as classes populares sob um controle bastante r\u00edgido.<\/p>\n<p>A abordagem de Chatterjee, ainda que tenha o apelo de uma cr\u00edtica radical, \u00e9 na verdade bastante conservadora, porque localiza a ci\u00eancia e a racionalidade no Ocidente, e ao faz\u00ea-lo descreve o Oriente mais ou menos como faziam as ideologias coloniais. \u00c9 tamb\u00e9m conservadora porque nos deixa sem qualquer meio pelo qual dever\u00edamos construir uma ordem mais humana e mais racional, porque n\u00e3o importa em que caminho voc\u00ea tente se mover \u2013 quer voc\u00ea tente se mover do capitalismo em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo, quer voc\u00ea tente humanizar o capitalismo atrav\u00e9s de algum tipo de social-democracia, quer voc\u00ea tente mitigar os desastres ambientais mediante um uso racional nos recursos \u2013 tudo isso vai requerer uma daquelas coisas que Chaterjee impugna: ci\u00eancia, racionalidade e planejamento de algum tipo. Localizar essas como as fontes da marginaliza\u00e7\u00e3o do Oriente n\u00e3o \u00e9 apenas equivocado, mas penso que essa cr\u00edtica \u00e9 bastante conservadora.<\/p>\n<p>Jonah Birch: Mas n\u00e3o h\u00e1 qualquer fundamento na cr\u00edtica que os te\u00f3ricos p\u00f3s-coloniais fazem ao marxismo, bem como a outras formas de pensamento Ocidental enraizadas no Iluminismo; que elas sejam euroc\u00eantricas?<\/p>\n<p>Vivek Chibber: Bem, temos que distinguir entre duas formas de eurocentrismo: uma \u00e9 neutra e benigna, que diz que uma teoria \u00e9 euroc\u00eantrica na medida em que sua base evidencial tenha vindo majoritariamente do estudo da Europa. Nesse sentido, \u00e9 claro, todas as teorias Ocidentais que conhecemos desde meados do fim do s\u00e9culo XIX amplamente extra\u00edram suas evid\u00eancias e informa\u00e7\u00f5es da Europa, porque a escolaridade e a literatura hist\u00f3rica e antropol\u00f3gica no Oriente era bastante subdesenvolvida. Nesse sentido, elas eram euroc\u00eantricas.<\/p>\n<p>Eu penso que esse tipo de eurocentrismo \u00e9 natural, ainda que carregue toda uma s\u00e9rie de problemas, mas isso n\u00e3o pode realmente ser indicado. A forma mais perniciosa de eurocentrismo \u2013 a que os te\u00f3ricos p\u00f3s-coloniais perseguem \u2013 se d\u00e1 quando o conhecimento baseado em fato particulares sobre o Ocidente \u00e9 projetado sobre o Oriente e pode induzir ao erro. De fato, os te\u00f3ricos p\u00f3s-coloniais t\u00eam acusado os te\u00f3ricos Ocidentais porque eles n\u00e3o apenas ilicitamente projetam sobre o Oriente conceitos e categorias que podem ser inaplic\u00e1veis; eles sistematicamente ignoram evid\u00eancias que est\u00e3o \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o e podem gerar teorias melhores.<\/p>\n<p>Se \u00e9 esse segundo tipo de eurocentrismo do qual estamos falando, ent\u00e3o h\u00e1 elementos na hist\u00f3ria do pensamento marxista que caem como uma luva nesse tipo de eurocentrismo. De todo modo, se voc\u00ea olha para a hist\u00f3ria atual do desenvolvimento desta teoria, esses casos t\u00eam sido bastante raros.<\/p>\n<p>Desde o come\u00e7o do s\u00e9culo XX, eu acredito \u00e9 que exato dizer que o marxismo \u00e9 talvez a \u00fanica teoria da mudan\u00e7a hist\u00f3rica vinda da Europa que sistematicamente se bateu com a especificidade do Oriente. Um dos fatos mais curiosos dos estudos subalternos e da teoria p\u00f3s-colonial \u00e9 que eles ignoram isso. A come\u00e7ar pela Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1905 e a Revolu\u00e7\u00e3o de 1917, depois a Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa, depois os movimentos africanos pela descoloniza\u00e7\u00e3o, depois os movimentos guerrilheiros na Am\u00e9rica Latina \u2013 toda essas efervesc\u00eancias sociais geraram tentativas de lidar com a especificidade do capitalismo em pa\u00edses fora da Europa.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode encontrar diversas teorias espec\u00edficas que se desdobraram do marxismo que n\u00e3o apenas se voltaram para as especificidades do Oriente, mas explicitamente negaram a teleologia e o determinismo que os estudos subalternos dizem ser centrais no marxismo: a teoria trotskista do desenvolvimento desigual e combinado, a teoria de Lenin sobre o imperialismo, a articula\u00e7\u00e3o de modos de produ\u00e7\u00e3o, etc. Cada uma dessas teorias foi um reconhecimento de que as sociedades em desenvolvimento n\u00e3o parecem completamente com as sociedades europeias.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o se voc\u00ea quer marcar pontos, \u00e9 poss\u00edvel trazer \u00e0 tona exemplos aqui e ali de algum tipo de reminisc\u00eancia euroc\u00eantrica no marxismo. Mas se voc\u00ea olhar para o balan\u00e7o geral, n\u00e3o apenas o resultado do placar \u00e9, no fim das contas, bastante positivo, mas se voc\u00ea o compara com o orientalismo que os estudos subalternos reviveram, me parece que o enquadramento mais natural para entender a especificidade do Oriente v\u00eam do marxismo e da tradi\u00e7\u00e3o iluminista, n\u00e3o da teoria p\u00f3s-colonial.<\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o duradoura da teoria p\u00f3s-colonial \u2013 o que ser\u00e1 conhecido dela, a meu ver, se ela ainda for lembrada daqui a 50 anos \u2013 ser\u00e1 que ela reviveu o essencialismo cultural e agiu como um endosso do orientalismo, mais do que foi um ant\u00eddoto para ele.<\/p>\n<p>Jonah Birch: Tudo isso imp\u00f5e a pergunta: por que a teoria p\u00f3s-colonial ganhou tal proemin\u00eancia nas \u00faltimas d\u00e9cadas? Na verdade, por que ela foi capaz de suplantar ideias como as que voc\u00ea defende em seu livro? Claramente, a teoria p\u00f3s-colonial veio ocupar um espa\u00e7o antes preenchido por v\u00e1rias formas de pensamento marxista e derivados, e influenciou especialmente amplas faixas da esquerda intelectual angl\u00f3fona.<\/p>\n<p>Vivek Chibber: Na minha vis\u00e3o, essa proemin\u00eancia se deve estritamente a raz\u00f5es sociais e hist\u00f3ricas; n\u00e3o expressa o valor ou a utilidade da teoria, e \u00e9 por isso que decidi escrever o livro. Eu penso que a teoria p\u00f3s-colonial veio se tornou proeminente por dois motivos. Um \u00e9 que ap\u00f3s o decl\u00ednio do movimento oper\u00e1rio e o esmagamento da Esquerda nos anos 70, n\u00e3o haveria qualquer tipo de teoria proeminente na academia que focasse no capitalismo, na classe trabalhadora, ou na luta de classes. Muitas pessoas apontaram isso: nos quadros universit\u00e1rios, \u00e9 irreal imaginar que qualquer cr\u00edtica do capitalismo de uma perspectiva de classe v\u00e1 ter muito lastro exceto em per\u00edodo de massiva turbul\u00eancia ou convuls\u00e3o social.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a quest\u00e3o interessante \u00e9 porque h\u00e1 qualquer tipo de teoria que sequer se autodenomine radical, uma vez que n\u00e3o seja a teoria anticapitalista cl\u00e1ssica. Creio que isso tem a ver com duas coisas: primeiro, com as mudan\u00e7as nas universidades nos \u00faltimos 30 anos, ap\u00f3s as quais elas n\u00e3o s\u00e3o mais as torres de marfim que j\u00e1 costumaram ser. S\u00e3o institui\u00e7\u00f5es de massas, e essas institui\u00e7\u00f5es se abriram a grupos que, historicamente, eram mantidos fora: minorias raciais, mulheres, imigrantes de pa\u00edses em desenvolvimento. Todas as pessoas experimentam diversos tipos de opress\u00e3o, mas n\u00e3o necessariamente explora\u00e7\u00e3o de classe. Surge, ent\u00e3o, uma base de massas para o que chamamos de estudos das opress\u00f5es, os quais s\u00e3o um tipo de radicalismo \u2013 e isso \u00e9 importante, e \u00e9 real. De todo modo, n\u00e3o \u00e9 uma base muito interessada em quest\u00f5es sobre a luta de classes ou forma\u00e7\u00f5es de classe, e coisas como as que o marxismo costuma tratar.<\/p>\n<p>Complementarmente, houve a trajet\u00f3ria da intelligentsia. A gera\u00e7\u00e3o de 68 n\u00e3o se tornou convencional conforme envelheceu. Alguns queriam manter seus compromissos morais e \u00e9ticos com o radicalismo. Mas, como todos os demais, tamb\u00e9m se afastaram do radicalismo classista. Ent\u00e3o voc\u00ea teve um movimento de baixo, que foi como um tipo de demanda por teorias focando nas opress\u00f5es, e um movimento de cima, entre professores que se ofereciam para suprir teorias focando nas opress\u00f5es. O que os fez convergir n\u00e3o foi apenas um foco nas opress\u00f5es, mas a remo\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o e da explora\u00e7\u00e3o de classe da hist\u00f3ria. E a teoria p\u00f3s-colonial, por conta de sua pr\u00f3pria remo\u00e7\u00e3o do capitalismo e das classes \u2013 porque ela minimiza e subestima a din\u00e2mica da explora\u00e7\u00e3o \u2013 acaba estando na medida perfeita.<\/p>\n<p>Jonah Birch: Qual sua previs\u00e3o para a teoria p\u00f3s-colonial? Voc\u00ea espera que ela seja eclipsada, no interior da academia e da esquerda, em breve?<\/p>\n<p>N\u00e3o, eu n\u00e3o espero. Eu n\u00e3o acho que a teoria p\u00f3s-colonial est\u00e1 sob nenhum risco de ser substitu\u00edda, n\u00e3o t\u00e3o cedo, ao menos. Tend\u00eancias acad\u00eamicas v\u00eaem e v\u00e3o, n\u00e3o baseadas na validade de suas teses ou no valor de suas proposi\u00e7\u00f5es, mas por causa da sua rela\u00e7\u00e3o com um ambiente pol\u00edtico e social mais amplo. A desorganiza\u00e7\u00e3o geral do trabalho e da esquerda, que criou as condi\u00e7\u00f5es para o florescimento da teoria p\u00f3s-colonial, ainda est\u00e1 muito colocado. Al\u00e9m disso, a teoria p\u00f3s-colonial tem agora pelo menos duas gera\u00e7\u00f5es de acad\u00eamicos que empenharam todas suas carreiras nisso; eles tem meia d\u00fazia de jornais dedicados a isso; h\u00e1 um ex\u00e9rcito de estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o desenvolvendo agendas de pesquisa que v\u00e3o ao encontro disso. Seus interesses materiais est\u00e3o atado diretamente com o sucesso da teoria.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode criticar o quanto quiser, mas at\u00e9 que tenhamos movimentos do tipo que o marxismo p\u00f4s em movimento  nos anos logo ap\u00f3s a I Guerra Mundial, ou no augo dos anos 60 e no come\u00e7o dos 70, voc\u00ea n\u00e3o ver\u00e1 uma mudan\u00e7a. Na verdade, o que voc\u00ea ver\u00e1 \u00e9 uma reposta \u00e1gil e perniciosa a qualquer cr\u00edtica que possa emergir. Meu triste, mas \u2013 eu acho \u2013 realista progn\u00f3stico \u00e9 que isso vai estar por a\u00ed por um bom tempo.india<\/p>\n<p>*O t\u00edtulo original, \u201cHow does the subaltern speaks?\u201d (como o subalterno fala?)  se contrap\u00f5e ao t\u00edtulo de uma importante obra dos estudos subalternos chamada \u201cCan the subaltern speak?\u201d (pode o subalterno falar?).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/lavrapalavra.com\/2015\/12\/01\/a-teoria-pos-colonial-e-o-espectro-do-capital\/\">A Teoria P\u00f3s-Colonial e o Espectro do&nbsp;Capital<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21765\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[227],"class_list":["post-21765","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5F3","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21765","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21765"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21765\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21765"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21765"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21765"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}