{"id":2180,"date":"2011-12-18T20:05:08","date_gmt":"2011-12-18T20:05:08","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2180"},"modified":"2011-12-18T20:05:08","modified_gmt":"2011-12-18T20:05:08","slug":"uma-retirada-sem-gloria-nem-honra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2180","title":{"rendered":"Uma retirada sem gl\u00f3ria nem honra"},"content":{"rendered":"\n<p>Mais uma vez, os Estados Unidos concluem uma guerra sem ganh\u00e1-la, ao n\u00e3o conseguir impor sua plena vontade aos agredidos. Os soldados norte-americanos n\u00e3o saem do Iraque como sa\u00edram de Saigon, em 30 de abril de 1975, escorra\u00e7ados pelas tropas de Han\u00f3i e pelos vietcongs. Desta vez, eles primeiro arrasaram o Iraque, durante uma d\u00e9cada de bombardeios constantes.<\/p>\n<p>O despotismo de Saddam n\u00e3o incomodava antes os Estados Unidos, quando coincidia com o interesse de Washington. Tanto era assim, que os norte-americanos estimularam a guerra contra o Ir\u00e3, e lhe ofereceram suporte b\u00e9lico e diplom\u00e1tico, mas seu objetivo era o de debilitar os dois pa\u00edses. No momento em que \u2014 cometendo erro pol\u00edtico elementar \u2014 Saddam pretendeu restaurar as fronteiras hist\u00f3ricas do Iraque, ao invadir o Kueit, Washington encontrou, com o primeiro Bush, o pretexto para a agress\u00e3o a\u00e9rea a Bagdad, a cria\u00e7\u00e3o da chamada zona de exclus\u00e3o, em que o bombardeio a\u00e9reo era indiscriminado, e o bloqueio econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Foram dezenas de milhares de mortos durante os dez anos de ataques a\u00e9reos, pr\u00e9vios \u00e0 invas\u00e3o. Entre os sobreviventes da agress\u00e3o, houve milhares de crian\u00e7as, acometidas de leucemia pela radia\u00e7\u00e3o das muni\u00e7\u00f5es amalgamadas com ur\u00e2nio empobrecido.<\/p>\n<p>Assim, ao invadir o pa\u00eds por terra, os americanos encontraram um ex\u00e9rcito debilitado, parte do territ\u00f3rio arrasado e um governo na defensiva diplom\u00e1tica. O pretexto, que os fatos desmoralizaram, era o de que Saddam Hussein dispunha de armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa.<\/p>\n<p>Semana passada, o presidente Obama disse que o Iraque \u00e9 hoje um \u201cpa\u00eds independente, livre e soberano, muito melhor do que era com Saddam\u201d. Saddam, sabem os observadores internacionais, era muito menos obscurantista do que os pr\u00edncipes da Ar\u00e1bia Saudita.<\/p>\n<p>Seu povo vivia relativamente bem, suas mulheres n\u00e3o eram tratadas com desrespeito e frequentavam a universidade. Algumas ocupavam cargos importantes no governo, na vida acad\u00eamica e nos laborat\u00f3rios de pesquisas. Havia toler\u00e2ncia religiosa, n\u00e3o obstante a diverg\u00eancia secular entre os sunitas e os xiitas, que ele conseguia administrar, a fim de assegurar a paz interna.<\/p>\n<p>O vice-primeiro-ministro Tarik Aziz era cat\u00f3lico, do rito caldeu. Pa\u00eds de cultura isl\u00e2mica, sim, mas talvez o mais aberto de todos eles a outras culturas e costumes. O pa\u00eds se encontrava em pleno desenvolvimento econ\u00f4mico, com grandes obras de infraestrutura, e mantinha excelentes rela\u00e7\u00f5es com o Brasil, mediante a troca de petr\u00f3leo por tecnologia e servi\u00e7os de engenharia, quando come\u00e7aram os bombardeios.<\/p>\n<p>Depois disso, nos \u00faltimos nove anos, a ocupa\u00e7\u00e3o norte-americana causou a morte de mais de 100 mil civis, 20 mil soldados iraquianos e 4.800 militares invasores, dos quais 4.500 ianques. Milhares e milhares de cidad\u00e3os iraquianos ficaram feridos, bem como soldados invasores, a maioria deles mutilados. As cidades foram arrasadas \u2014 mas se dividiram os po\u00e7os de petr\u00f3leo entre as empresas dos pa\u00edses que participaram da coliga\u00e7\u00e3o militar invasora.<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o h\u00e1 quem desconhe\u00e7a as verdadeiras raz\u00f5es da guerra, tanto contra o Iraque, quanto contra o Afeganist\u00e3o: a necessidade do suprimento de petr\u00f3leo e g\u00e1s, do Oriente M\u00e9dio e do Vale do C\u00e1spio, aos Estados Unidos e \u00e0 Europa Ocidental. Da\u00ed a guerra preemptiva e sem limites, declarada pelo segundo Bush, que se dizia chamado por Deus a fim de ir ao Iraque matar Saddam Hussein. N\u00e3o s\u00f3 os mortos ficam da agress\u00e3o ao Iraque. Os americanos saem do pa\u00eds, deixando-o sem energia el\u00e9trica suficiente, sem \u00e1gua pot\u00e1vel, com 15% de desempregados e, 85% dos que trabalham est\u00e3o a servi\u00e7o do governo.<\/p>\n<p>Toda a hist\u00f3ria dos Estados Unidos \u2014 ao lado de m\u00e9ritos fant\u00e1sticos de seu povo \u2014 foi constru\u00edda no af\u00e3 da conquista e da morte. Desde a ocupa\u00e7\u00e3o da Nova Inglaterra, n\u00e3o s\u00f3 os \u00edndios conheceram a sua f\u00faria expansionista: na guerra contra o M\u00e9xico, o pa\u00eds vencido perdeu a metade do territ\u00f3rio p\u00e1trio, o que corresponde a quase um ter\u00e7o do atual espa\u00e7o norte-americano no continente.<\/p>\n<p>Uma das desgra\u00e7as da vit\u00f3ria americana foi a ruptura do Compromisso do Missouri, com a amplia\u00e7\u00e3o do escravagismo aos novos territ\u00f3rios, que seria \u2014 pouco mais de dez anos depois \u2014 uma das causas do grande confronto interno, entre o Sul e o Norte, a Guerra da Secess\u00e3o. Lincoln, que a enfrentou, havia sido, em 1847, um dos poucos a se opor ao conflito contra o M\u00e9xico.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, a \u00e2nsia imperialista dos Estados Unidos n\u00e3o teve limites. Suas elites dirigentes e seus governantes, salvo alguns poucos homens l\u00facidos, moveram-se convencidos de que cabia a Washington dominar o mundo. Ainda se movem nessa fan\u00e1tica determina\u00e7\u00e3o. Agora, saem do Iraque e anunciam que deixar\u00e3o tamb\u00e9m o Afeganist\u00e3o, no ano que vem. Mas, ao mesmo tempo, dentro da doutrina Bush da guerra sem fim, preparam-se para nova agress\u00e3o genocida contra o Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos nunca conheceram a presen\u00e7a de invasores estrangeiros. Sua guerra da independ\u00eancia se fez contra tropas brit\u00e2nicas, que n\u00e3o eram invasoras, mas sim ocupantes da metr\u00f3pole na col\u00f4nia. As poucas incurs\u00f5es mexicanas na fronteira, de t\u00e3o fr\u00e1geis, n\u00e3o contam. Mas h\u00e1 uma for\u00e7a que cresce, e que n\u00e3o poder\u00e3o derrotar: a do pr\u00f3prio povo norte-americano, cansado de suportar o imperialismo interno de seus banqueiros e das poucas fam\u00edlias bilion\u00e1rias que se nutrem da desigualdade.<\/p>\n<p>O povo, mais do que tudo, se sente exaurido do tributo de sangue que, a cada gera\u00e7\u00e3o, \u00e9 obrigado a oferecer, nas guerras sem gl\u00f3ria, contra povos inermes e quase sempre pac\u00edficos, em nome disso ou daquilo, mas sempre provocadas pelos interesses dos saqueadores das riquezas alheias.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o tomou rumo novo, a partir dos anos 80, como apontou, em artigo publicado ontem por El Pais, o bi\u00f3logo e fil\u00f3sofo catal\u00e3o Federico Mayor Zaragoza, ex-ministro da Educa\u00e7\u00e3o de seu pa\u00eds e, durante 12 anos, diretor-geral da Unesco. A alian\u00e7a de interesses entre Reagan e Margareth Thatcher significou a capitula\u00e7\u00e3o do Estado diante do mercado, e se iniciou a era do verdadeiro terror, com 4 bilh\u00f5es de d\u00f3lares gastos a cada dia, em armamentos e outras despesas militares, e, a cada dia, 60 mil pessoas mortas de fome no mundo.<\/p>\n<p>Mayor lembra a que levou o novo credo das elites, que Celso Furtado chamou de \u201cfundamentalismo mercantil\u201d: a melanc\u00f3lica eros\u00e3o da ONU e sua substitui\u00e7\u00e3o por grupos plutocr\u00e1ticos, como o grupo dos 7, dos 8 e, agora, sob a press\u00e3o dos emergentes, dos 20. E na p\u00e1tria da nova f\u00e9 nas \u201craz\u00f5es do mercado\u201d, os Estados Unidos, h\u00e1 hoje 20 milh\u00f5es de desempregados, 40 milh\u00f5es de novos pobres e 50 milh\u00f5es de pessoas sem qualquer seguro de sa\u00fade.<\/p>\n<p>A Europa assediada e perplexa, com a fal\u00eancia de suas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, est\u00e1 presa na armadilha do euro, que n\u00e3o tem como concorrer com o d\u00f3lar nem com o yuan, porque yuan e o d\u00f3lar s\u00e3o emitidos de acordo com a necessidade dos Estados Unidos e da China. Disso conseguiu escapar a Inglaterra, que mant\u00e9m a sua moeda pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos, se n\u00e3o houver a rea\u00e7\u00e3o, esperada, de seu povo, se preparam para manter o terror no mundo, mediante suas armas eletr\u00f4nicas de alcance global, entre elas os avi\u00f5es n\u00e3o tripulados. Seu destino, se assim ocorrer, ser\u00e1 o do atirador solit\u00e1rio, que se compraz em assassinar os inocentes \u00e0 dist\u00e2ncia, at\u00e9 que algu\u00e9m consiga, com o mesmo m\u00e9todo, abat\u00ea-lo. E n\u00e3o faltam os que se preparam para isso.<\/p>\n<p>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.maurosantayana.com\/2011\/12\/uma-retirada-sem-gloria-e-sem-honra.html\" target=\"_blank\">Do Blog do Mauro Santayana<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Mauro Santayana\n\n\n\n\n\n\n\n\nMauro Santayana\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2180\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-2180","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-za","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2180","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2180"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2180\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2180"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2180"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2180"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}