{"id":2182,"date":"2011-12-18T20:16:45","date_gmt":"2011-12-18T20:16:45","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2182"},"modified":"2017-08-25T00:55:00","modified_gmt":"2017-08-25T03:55:00","slug":"o-brasil-faz-parte-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2182","title":{"rendered":"O BRASIL FAZ PARTE DO MUNDO"},"content":{"rendered":"\n<p>Afinal, a crise vai ou n\u00e3o \u201cestourar\u201d no Brasil? N\u00e3o \u00e9 preciso ser L\u00eanin nem m\u00e3e Din\u00e1 para afirmar que a crise \u00e9 inevit\u00e1vel, num mundo em que a fome atinge um em cada sete seres humanos, em que nos pa\u00edses centrais as popula\u00e7\u00f5es tomam as ruas em manifesta\u00e7\u00f5es contra o capital e em que mesmo as ferozes ditaduras do Oriente M\u00e9dio sucumbem aos golpes assestados pelos movimentos de massa. Mas n\u00e3o \u00e9 ainda poss\u00edvel dizer quando a crise vir\u00e1, por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es que concorrem para tornar o quadro \u201cdom\u00e9stico\u201d bastante complexo. Entre elas:<\/p>\n<p>A febre especulativa propiciada pela Copa do Mundo de 2014 e pelos Jogos Ol\u00edmpicos de 2016, com a hiperatividade da constru\u00e7\u00e3o civil e setores relacionados que geram empregos e uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de \u201cprosperidade\u201d (como aconteceu antes, por exemplo, na Espanha e na Gr\u00e9cia);<\/p>\n<p>A festa de capitais especulativos atra\u00eddos pelos mais altos juros praticados no planeta e a de investimentos diretos que aproveitam um quadro de conten\u00e7\u00e3o dos movimentos de trabalhadores e conseq\u00fcente arrocho promovidos pelo lulismo;<\/p>\n<p>Uma pol\u00edtica de movimenta\u00e7\u00e3o da economia mediante o endividamento crescente da popula\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>Pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social, como o Bolsa Fam\u00edlia, que beneficiam cerca de 60% da popula\u00e7\u00e3o e permitem o ingresso de novos contingentes populacionais na esfera do consumo;<\/p>\n<p>A entrega da Amaz\u00f4nia e dos recursos naturais \u00e0 sanha do capital financeiro e do agrone-g\u00f3cio (o maior respons\u00e1vel individual pelo crescimento do PIB brasileiro nos \u00faltimos anos).<\/p>\n<p>Mas o mero ato de elucidar os principais componentes da \u201ccalmaria\u201d brasileira permite, ao mesmo tempo, estabelecer os seus limites:<\/p>\n<p>A especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria propicia uma sensa\u00e7\u00e3o apenas aparente de crescimento. Ap\u00f3s a \u201cfebre\u201d dos jogos, sobram as imensas d\u00edvidas, que incluem centenas de bilh\u00f5es de reais gastos na constru\u00e7\u00e3o e melhoria dos est\u00e1dios e obras p\u00fablicas. Perguntem ao povo grego o que isso significa. No Brasil, esse quadro \u00e9 agravado pela dispensa de licita\u00e7\u00f5es para fechar contratos, sob o pretexto da \u201curg\u00eancia\u201d &#8211; o que multiplica quase ao infinito as possibilidades de assalto ao er\u00e1rio. Isso se combina com a brutalidade policial cada vez maior para remover o \u201clixo humano\u201d das \u00e1reas valorizadas, o que acentua a tens\u00e3o e os riscos de uma explos\u00e3o social.<\/p>\n<p>A entrada do capital especulativo nos n\u00edveis praticados na \u00faltima d\u00e9cada depende da capacidade do pa\u00eds manter os juros nas estratosferas. Mas a remunera\u00e7\u00e3o escandalosa do capital especulativo s\u00f3 pode ser garantida mediante a destrui\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria nacional, que n\u00e3o tem como suportar as mais altas taxas de juros do planeta. O resultado, mostra um estudo realizado por Osvaldo Coggiola, \u00e9 que entre 1985 e 2008, a ind\u00fastria brasileira reduziu em 17% sua participa\u00e7\u00e3o no PIB (de 33% para 16%). Entre 2004 e 2010, o percentual da ind\u00fastria na pauta exportadora caiu de 19,4% para 15,8%: a rela\u00e7\u00e3o manufaturas\/exporta\u00e7\u00f5es totais, que atingiu 60% na d\u00e9cada de 1980, hoje se situa em 40%. O super\u00e1vit comercial de US$ 24 bilh\u00f5es na \u00e1rea de produtos industriais, em 2004, se transformou, em 2010, em um d\u00e9ficit de US$ 36 bilh\u00f5es. Cerca de 60% das empresas brasileiras est\u00e3o nas m\u00e3os de estrangeiros. As remessas de lucros ao exterior superam os US$ 34 bilh\u00f5es (74% correspondem a empresas estrangeiras que fizeram investimentos diretos). Nesse quadro de destrui\u00e7\u00e3o da economia real, h\u00e1 uma limita\u00e7\u00e3o objetiva \u00e0 capacidade de manter a taxa de remunera\u00e7\u00e3o do capital nas estratosferas.<\/p>\n<p>Se a desindustrializa\u00e7\u00e3o tende a diminuir a oferta dos empregos mais qualificados, a pol\u00edtica de estimular a economia mediante o endividamento \u00e9 receita certa de cat\u00e1strofe, como mostrou a crise imobili\u00e1ria estadunidense. Segundo um estudo da Federa\u00e7\u00e3o do Com\u00e9rcio do Estado de S\u00e3o Paulo, em outubro de 2011, 64% das fam\u00edlias que vivem nas 27 capitais estavam endividadas (88% em Curitiba e 86% em Florian\u00f3polis). No \u00faltimo ano, o valor m\u00e9dio da d\u00edvida m\u00e9dia familiar aumentou quase 18%: de R$ 1.298 para R$ 1.527 mensais. O total da d\u00edvida das pessoas f\u00edsicas chegou a R$ 653 bilh\u00f5es (em dezembro de 2009, era de R$ 485 bilh\u00f5es). O que acontecer\u00e1 quando uma parte significativa das fam\u00edlias notar que n\u00e3o ter\u00e1 como honrar os compromissos?<\/p>\n<p>As pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o sociais mobilizam menos de 0,5% do PIB (cerca de R$ 15 bilh\u00f5es anuais). Para efeito de compara\u00e7\u00e3o: o Brasil gastou, nos \u00faltimos anos, em m\u00e9dia, mais de R$ 200 bilh\u00f5es anuais apenas em juros e amortiza\u00e7\u00e3o da<\/p>\n<p>d\u00edvida p\u00fablica. Entre 1995 e 2010 (FHC e Lula), os gastos com a d\u00edvida somaram mais de R$ 6,8 trilh\u00f5es (dois PIBs). No final do governo Lula, o Bolsa Fam\u00edlia deixou 16,2 milh\u00f5es de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria absoluta (renda mensal inferior a 40 d\u00f3lares), mais de 50% dos quais no nordeste. Dilma lan\u00e7ou o programa Brasil sem Mis\u00e9ria dirigido a esse setor, dotado de p\u00edfios R$ 1,2 bilh\u00e3o. Se as compensa\u00e7\u00f5es atenuam a mis\u00e9ria, est\u00e3o muito longe de resolver qualquer problema real. Os recursos do pa\u00eds que poderiam construir escolas, hospitais e obras de infraestrutura que permitiriam dispensar o Bolsa Fam\u00edlia, servem para engordar os cofres do capital financeiro. De fato, a desigualdade e a mis\u00e9ria s\u00e3o perpetuadas, mas maquiadas por um verniz \u201chumanista\u201d.<\/p>\n<p>Finalmente, a exporta\u00e7\u00e3o de commodities agr\u00edcolas e minerais, combinada com a valoriza\u00e7\u00e3o do Real frente ao d\u00f3lar (40% desde 2006) s\u00e3o os maiores respons\u00e1veis pelo aparente \u201cboom\u201d econ\u00f4mico e os grandes super\u00e1vits comerciais, fazendo do agroneg\u00f3cio o grande her\u00f3i nacional. Na realidade, nos \u00faltimos cinco anos as im- porta\u00e7\u00f5es de produtos industrializados mais do que duplicaram (conseq\u00fc\u00eancia e agravante do j\u00e1 mencionado sucateamento da ind\u00fastria nacional), ao passo que as exporta\u00e7\u00f5es se concentram, cada vez mais, em produtos prim\u00e1rios (de baixo valor agregado). Al\u00e9m disso, a exporta\u00e7\u00e3o das commodities depende, principalmente, do crescimento da economia chinesa &#8211; que tamb\u00e9m sofre os efeitos da crise mundial &#8211; e da explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria dos recursos naturais brasileiros, o que pode eventualmente incluir a destrui\u00e7\u00e3o de culturas de povos origin\u00e1rios da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Os limites da \u201ccalmaria\u201d, portanto, est\u00e3o definidos. H\u00e1 os dados imponder\u00e1veis da vida pol\u00edtica, especialmente o estado de esp\u00edrito dos trabalhadores. Mas tamb\u00e9m a\u00ed o tempo joga contra o governo Dilma: nos seus primeiros dez meses, Bras\u00edlia passou por cinco crises de gabinete provocadas por den\u00fancias e ind\u00edcios de corrup\u00e7\u00e3o, a come\u00e7ar pela demiss\u00e3o de Ant\u00f4nio Palocci (Casa Civil) at\u00e9 a de Orlando Silva (Esporte), integrante de um partido que joga na lama o nome e a bandeira do comunismo. Dilma est\u00e1 infinitamente distante de exibir o carisma e a capacidade de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Lula. Chefe de um governo desmoralizado e colocada diante de mobiliza\u00e7\u00f5es que tendem a se multiplicar (como demonstraram as recentes greves dos correios, dos banc\u00e1rios e dos professores de universidades federais), Dilma eventualmente sentir\u00e1 sobre os seus ombros que o Brasil, afinal, faz parte do mundo.<\/p>\n<p>www.carosamigos.com.br<\/p>\n<p>novembro 2011\u2502caros amigos<\/p>\n<p>*Jos\u00e9 Arbex Jr. \u00e9 jornalista. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: FC\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor Jos\u00e9 Arbex Jr*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2182\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-2182","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-zc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2182","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2182"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2182\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2182"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2182"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2182"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}