{"id":21867,"date":"2019-01-07T22:18:47","date_gmt":"2019-01-08T00:18:47","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21867"},"modified":"2019-01-07T22:18:52","modified_gmt":"2019-01-08T00:18:52","slug":"os-fuzis-e-as-flechas-a-resistencia-indigena-na-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21867","title":{"rendered":"Os fuzis e as flechas: a resist\u00eancia ind\u00edgena na ditadura"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" alt=\"imagem\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/jornalistaslivres.org\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/indio-trac%CC%A7oJL.jpg\"><!--more-->Por Jornalistas Livres<\/p>\n<p>Revista Cadernos de Campo &#8211; USP<\/p>\n<p>Resenha por MESSIAS BASQUES, Universidade Federal do Rio de Janeiro \u2013 Museu Nacional, Rio de Janeiro, RJ, Brasil<\/p>\n<p>As manchetes dos jornais revelam um cen\u00e1rio desolador. Aldeia Munduruku \u00e9 dizimada pelo garimpo. Hidrel\u00e9trica inunda cachoeira sagrada, retira urnas ind\u00edgenas e gera crise espiritual na Amaz\u00f4nia. Mais da metade dos Xavante sofrem de diabetes e doen\u00e7a coronariana. CPI da Funai aprova relat\u00f3rio com pedido de indiciamento de lideran\u00e7as ind\u00edgenas. Professor Xokleng \u00e9 morto a pauladas e entidade v\u00ea intoler\u00e2ncia \u00e9tnica em Santa Catarina. Ind\u00edgenas denunciam descaso com sa\u00fade na regi\u00e3o do Vale do Javari. Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal investiga den\u00fancia de intimida\u00e7\u00e3o e amea\u00e7as durante evento que debatia impactos ambientais da extra\u00e7\u00e3o de ouro pela mineradora Belo Sun. Taxa de suic\u00eddio entre ind\u00edgenas \u00e9 tr\u00eas vezes maior que a m\u00e9dia nacional. Ato de vandalismo destr\u00f3i gravuras hist\u00f3ricas do povo Wauj\u00e1 em caverna do Xingu. \u201cNem um cent\u00edmetro a mais para terras ind\u00edgenas\u201d, prometeu o candidato eleito \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. A fot\u00f3grafa Claudia Andujar alerta: \u201cS\u00f3 vai piorar\u201d.<\/p>\n<p>Imaginemos que o leitor dessas manchetes estivesse recluso desde aquela hist\u00f3rica tarde do dia 5 de outubro de 1988, quando tudo parecia indicar que voltar\u00edamos a viver em uma democracia de fato e de direito. At\u00f4nito, ele descobriria que passados 30 anos da promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3, os jornais noticiam que os militares est\u00e3o de volta \u00e0 pol\u00edtica e, como nos anos de chumbo, a Amaz\u00f4nia, as \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o ambiental e as terras ind\u00edgenas continuam a ser vistas como obst\u00e1culos que impedem o desenvolvimento econ\u00f4mico e colocam em risco a soberania e a seguran\u00e7a nacional. As bancadas parlamentares da bala, do boi e da B\u00edblia, a elite financeira e as empreiteiras, sempre \u00e0 espreita de uma ocasi\u00e3o para desfigurar a Constitui\u00e7\u00e3o e o Estado em benef\u00edcio pr\u00f3prio, agora contam com mecanismos sofisticados de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas em redes sociais e de campanhas publicit\u00e1rias que procuram convencer os telespectadores de que o futuro do Brasil depende do neoliberalismo, do latif\u00fandio e da monocultura da f\u00e9 e dos \u201cbons costumes\u201d.<\/p>\n<p>Diante da inc\u00f4moda sensa\u00e7\u00e3o de um tempo que parece girar em falso torna-se urgente refletir sobre \u201ca maneira insidiosa que a ditadura militar brasileira encontrou de n\u00e3o passar, de permanecer em nossa estrutura jur\u00eddica, em nossas pr\u00e1ticas pol\u00edticas, em nossa viol\u00eancia cotidiana\u201d (TELES e SAFATLE, 2010, p.9). Por\u00e9m, como apontava Manuela Carneiro da Cunha (2009), em um artigo publicado na d\u00e9cada de 1980, aqueles que se disp\u00f5em a estudar o problema pelo prisma da hist\u00f3ria ind\u00edgena e do indigenismo deparam-se com uma dupla limita\u00e7\u00e3o: de um lado, os \u00edndios aparecem frequentemente \u201ccomo v\u00edtimas de um processo no qual se supunha que n\u00e3o interviessem como atores\u201d (p.130), o que corrobora para o desconhecimento de suas formas de resist\u00eancia e de seu protagonismo; de outro, \u201ca hist\u00f3ria cr\u00edtica das grandes ag\u00eancias indigenistas do s\u00e9culo XX, o SPI e a Funai\u201d (p.131) ainda est\u00e1 por ser feita, na medida em que o acesso aos arquivos era, na maioria das vezes, n\u00e3o apenas restrito, mas tamb\u00e9m objeto de censura. Trata-se de um per\u00edodo que, em virtude da car\u00eancia de pesquisas s\u00f3lidas sobre o tema, ficou de fora do not\u00e1vel projeto que culminou na publica\u00e7\u00e3o do livro Hist\u00f3ria dos \u00cdndios no Brasil (CARNEIRO DA CUNHA, 1992).<\/p>\n<p>Os fuzis e as flechas se insere justamente nessa lacuna e oferece uma contribui\u00e7\u00e3o de valor inestim\u00e1vel para a compreens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre o regime militar e os povos ind\u00edgenas, assim como nos permite refletir sobre a continuidade da viol\u00eancia civil e estatal contra esses povos e a persist\u00eancia do pensamento autorit\u00e1rio em um regime supostamente democr\u00e1tico. Por ironia do destino, coube a Rubens Valente, um dos jornalistas mais premiados da Folha de S\u00e3o Paulo, o mesmo jornal que no ano de 2009 definiu o regime militar brasileiro como uma \u201cditabranda\u201d, a tarefa de reportar um cen\u00e1rio que conhec\u00edamos por meio de fragmentos e de vers\u00f5es oficiais pouco confi\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ao articular a an\u00e1lise de uma vasta documenta\u00e7\u00e3o, mantida sob sigilo pelos \u00f3rg\u00e3os do poder p\u00fablico at\u00e9 muito recentemente, aos depoimentos de ind\u00edgenas, servidores da Funai, mission\u00e1rios e militares, o autor p\u00f5e abaixo a fal\u00e1cia de que teria havido uma \u201cgradua\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia\u201d na ditadura brasileira, pois em cada um dos 27 cap\u00edtulos do livro ecoa um grito: genoc\u00eddio. Fruto de uma primorosa investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, ancorada em milhares de documentos e fontes cuidadosamente apuradas, o livro registra, detalha e comprova centenas de mortes de ind\u00edgenas entre os anos de 1964 e 1985.<\/p>\n<p>As palavras que o xam\u00e3 Davi Kopenawa dirige aos \u201cbrancos\u201d cont\u00eam um \u201crecado da mata alertando para a trai\u00e7\u00e3o que estamos cometendo contra nossos conterr\u00e2neos [\u2026], contra as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es\u201d e, portanto, \u201ccontra n\u00f3s mesmos\u201d (VIVEIROS DE CASTRO, 2015, p.23). E pode-se dizer que o livro Os fuzis e as flechas d\u00e1 voz a um \u201crecado dos arquivos\u201d: uma l\u00f3gica empresarial-militar perdura no cerne da Nova Rep\u00fablica, iniciada no ocaso do regime militar, em 1985, e as suas consequ\u00eancias nefastas podem ser vistas nas entrelinhas e nos desdobramentos dos programas de acelera\u00e7\u00e3o do crescimento, como na constru\u00e7\u00e3o da Hidrel\u00e9trica de Belo Monte, no Par\u00e1. O recado \u00e9 claro: a defesa do desenvolvimento econ\u00f4mico e da soberania nacional tem la\u00e7os estreitos com as viola\u00e7\u00f5es de direitos dos povos ind\u00edgenas no passado e no presente. Como nos lembra o cineasta Vincent Carelli, codiretor do document\u00e1rio Mart\u00edrio (2016): \u201c\u00c9 no trato com os \u00edndios que a sociedade brasileira se revela. At\u00e9 quando essa hist\u00f3ria vai se repetir?\u201d.<\/p>\n<p>Na Introdu\u00e7\u00e3o, Rubens Valente delineia o contexto em que se deu o golpe de Estado e a atua\u00e7\u00e3o dos agentes da pol\u00edtica indigenista, com destaque para o Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios (SPI) e a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), cuja fun\u00e7\u00e3o era \u201catrair\u201d e \u201cpacificar\u201d popula\u00e7\u00f5es ditas \u201chostis\u201d para, em seguida, abrir o caminho para a explora\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios e recursos naturais. Valente questiona a raz\u00e3o de o relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, institu\u00edda pela presidente Dilma Rousseff no ano de 2011, ter inclu\u00eddo um cap\u00edtulo sobre os ind\u00edgenas sem que, no entanto, as principais narrativas a respeito do golpe e do per\u00edodo militar se refiram a eles como \u201cfoco principal, o que [pode] dar a impress\u00e3o de que a pol\u00edtica repressiva adotada em diversos momentos pelos militares passou em branco nas aldeias ind\u00edgenas\u201d (p.10).<\/p>\n<p>O autor pretende \u201cdescrever como o Estado brasileiro sob comando militar deu cabo de suas duas tarefas b\u00e1sicas\u201d: \u201ccuidar do \u00edndio aldeado e contatar o \u201carredio\u201d (p.11). Escrito entre outubro de 2013 e setembro de 2015, o livro se baseia na experi\u00eancia acumulada por Valente ao longo de quase trinta anos de reportagem para diversos jornais, mas tamb\u00e9m est\u00e1 diretamente associado ao per\u00edodo em que o autor, ainda na adolesc\u00eancia, viveu com a fam\u00edlia na cidade de Dourados (MS), nas proximidades da maior terra ind\u00edgena urbana do pa\u00eds. No local, vivem cerca de 12 mil ind\u00edgenas \u201cespremidos em 3,4 mil hectares, uma esp\u00e9cie de s\u00edmbolo e resumo da mis\u00e9ria enfrentada pelos Guarani no estado\u201d (p.371).<\/p>\n<p>Valente descortina a trama de rela\u00e7\u00f5es que culminaram nos desfechos cru\u00e9is das opera\u00e7\u00f5es do regime militar, que sob o argumento de proteger, acabou matando e destruindo. Contudo, o livro tamb\u00e9m oferece um panorama mais complexo do que uma an\u00e1lise superficial do per\u00edodo poderia sugerir. Isto porque a atua\u00e7\u00e3o dos sertanistas, servidores da Funai encarregados de estabelecer contato com povos que viviam em condi\u00e7\u00e3o de isolamento, foi muitas vezes fundamental para evitar o etnoc\u00eddio. Aos sertanistas se somavam os mission\u00e1rios, evang\u00e9licos e cat\u00f3licos, que de modo igualmente controverso, empenhavam-se tanto na evangeliza\u00e7\u00e3o dos \u00edndios quanto na defesa dos mesmos, ora em sintonia com os interesses do regime militar, ora em conflito com as pol\u00edticas de Estado.<\/p>\n<p>Sertanistas e mission\u00e1rios viviam sob o risco iminente de morte nas tentativas de contato com popula\u00e7\u00f5es isoladas, mas tamb\u00e9m foram perseguidos e amea\u00e7ados ao contrariar os interesses de fazendeiros, garimpeiros, agentes pol\u00edticos e da pol\u00edcia, tornando-se alvos de um servi\u00e7o de espionagem entranhado nas estruturas do Estado. O c\u00e9lebre lema de Rondon \u2013 \u201cmorrer se preciso for, matar nunca\u201d \u2013 continuava a inspirar alguns desses homens e mulheres, cujas vidas se entrecruzam com dezenas de mortes tr\u00e1gicas e de farsas montadas pelo regime com o objetivo de silenciar os descontentes e desinformar a opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Logo no in\u00edcio do livro, somos apresentados \u00e0 hist\u00f3ria de um jovem que ingressou no SPI sem jamais ter visto um \u00edndio. Ant\u00f4nio Cotrim Soares participou da primeira expedi\u00e7\u00e3o de contato realizada no regime militar, no ano de 1965. O m\u00e9todo era o mesmo desde os tempos do marechal C\u00e2ndido Rondon (1865-1958):<\/p>\n<p>Criava-se uma frente de atra\u00e7\u00e3o, que funcionava assim: os sertanistas distribu\u00edam presentes aos \u00edndios; esperava-se que estes passassem a retribuir os presentes, na fase chamada de namoro; na terceira fase, os \u00edndios convidavam os sertanistas para conhecer suas malocas; a quarta fase, de consolida\u00e7\u00e3o da \u201cpacifica\u00e7\u00e3o\u201d, constitu\u00eda-se no estabelecimento de um acordo pelo qual, em resumo, \u201ccivilizados\u201d e \u00edndios concordavam em n\u00e3o matar mais uns aos outros, [\u2026] por \u00faltimo, os \u00edndios \u201cpacificados\u201d eram ent\u00e3o agregados e entregues aos cuidados de funcion\u00e1rios de um posto, que se encarregava de dar a eles atendimento de sa\u00fade e alimenta\u00e7\u00e3o e ensinar-lhes m\u00e9todos de agricultura dos \u201ccivilizados\u201d. Assim, os \u00edndios deixariam de atacar e matar vizinhos ou trabalhadores que passavam pela regi\u00e3o. Estava criado um novo posto ind\u00edgena para \u00edndios aldeados. (p.14-15).<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a maior parte das expedi\u00e7\u00f5es resultava na morte dos \u00edndios. Ant\u00f4nio Cotrim Soares admite que dos 48 \u00edndios contatados quase todos morreram de gripe. Sem os medicamentos necess\u00e1rios, a expedi\u00e7\u00e3o os atra\u00eda \u201cpara o pr\u00f3prio exterm\u00ednio\u201d (p.17). No mesmo per\u00edodo, outra expedi\u00e7\u00e3o provocou a morte de 60 \u00edndios Xikrin da regi\u00e3o do Bacaj\u00e1. Respons\u00e1veis pela pacifica\u00e7\u00e3o dos \u00edndios e pela sua prote\u00e7\u00e3o, os sertanistas viam-se resumidos \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de coveiros. Questionado a respeito da exist\u00eancia de relat\u00f3rios sobre esses casos, o sertanista conta que os \u00edndios \u201c[morriam] e o pessoal n\u00e3o dava aten\u00e7\u00e3o\u201d, que \u201cn\u00e3o existe documento sobre isso\u201d (p.22).<\/p>\n<p>Epis\u00f3dios id\u00eanticos marcaram a rela\u00e7\u00e3o do regime militar com os povos ind\u00edgenas na ditadura. Diante do desprezo demonstrado pelo Estado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mortes causadas pelas epidemias de gripe, sarampo, tuberculose, mal\u00e1ria, coqueluche\u2026, cabe lembrar que um dos elementos centrais do \u00eaxito do imperialismo europeu foi o seu componente ecol\u00f3gico (Crosby, 2011). Apesar da cat\u00e1strofe demogr\u00e1fica da Am\u00e9rica n\u00e3o ter sido provocada exclusivamente por microrganismos, a hist\u00f3ria novamente os colocou entre os protagonistas de uma nova ofensiva, capitaneada por uma ditadura empresarial-militar que pretendia reformular a pol\u00edtica de \u201cvaloriza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Amaz\u00f4nia\u201d (Valente, 2017, p.23). O resultado foi devastador: 108 \u00edndios Parakan\u00e3 mortos nas obras da Transamaz\u00f4nica; 66 Arawet\u00e9 mortos em um deslocamento for\u00e7ado, que consistiu em uma caminhada de 17 dias na selva; mais de uma centena de \u00edndios Panar\u00e1 mortos na constru\u00e7\u00e3o da BR-165 e da BR-080; no m\u00ednimo, 240 \u00edndios Waimiri-Atraori mortos na constru\u00e7\u00e3o da BR-174; entre os Yanomami, em uma \u00fanica aldeia morreram 68 \u00edndios, a metade daquele grupo\u2026<\/p>\n<p>Os documentos sigilosos do Conselho Nacional de Seguran\u00e7a, nos quais era delineado o \u201cConceito Estrat\u00e9gico Nacional\u201d, n\u00e3o mencionam os \u00edndios. Em vez disso, afirma-se a necessidade da cria\u00e7\u00e3o de uma superintend\u00eancia de desenvolvimento para a Amaz\u00f4nia (a Sudam) e a abertura de linhas de financiamento para a agropecu\u00e1ria. Na \u201cmarcha para o Oeste\u201d, o povoamento, a cria\u00e7\u00e3o de unidades produtivas, a abertura de estradas e o escoamento da produ\u00e7\u00e3o eram vistos como aspectos estrat\u00e9gicos e que deveriam ser implementados a qualquer custo. Aos \u00edndios, que estavam no \u201cmeio do caminho\u201d, restavam a remo\u00e7\u00e3o e o deslocamento for\u00e7ado ou a transfer\u00eancia para \u00e1reas como o Parque Ind\u00edgena do Xingu.<\/p>\n<p>A conjuntura em que o SPI promovia essas iniciativas \u00e9 assustadoramente atual: \u201cO SPI n\u00e3o tinha nenhum funcion\u00e1rio, com exce\u00e7\u00e3o do chefe, que dirigia a si pr\u00f3prio nas fun\u00e7\u00f5es de datil\u00f3grafo, escrevente, motorista, cont\u00ednuo e servente\u201d (p.33). Esta \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o em que hoje se encontra, por exemplo, a Coordena\u00e7\u00e3o T\u00e9cnica Local da Funai que atende a Terra Ind\u00edgena Kadiw\u00e9u (MS): um \u00fanico funcion\u00e1rio, com uma viatura sem manuten\u00e7\u00e3o ou combust\u00edvel, respons\u00e1vel pelo atendimento de quase dois mil ind\u00edgenas, em uma \u00e1rea de 538 mil hectares. Desde a extin\u00e7\u00e3o do SPI, em 1967, a precariedade na infraestrutura, os sucessivos cortes no or\u00e7amento e o sucateamento da Funai continuam a ser a regra em todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>A presid\u00eancia do novo \u00f3rg\u00e3o indigenista oficial logo se transformou em \u201cuma m\u00e1quina de concess\u00e3o de certid\u00f5es negativas\u201d (p.202), declarando a inexist\u00eancia de diversas aldeias ind\u00edgenas e liberando terras ao agroneg\u00f3cio, tornando-as assim aptas a receber incentivos fiscais e financiamentos. Mas n\u00e3o bastava usurpar, destruir e matar. O regime chegou ao c\u00famulo de criar uma Guarda Rural Ind\u00edgena (a Grin) e um \u201creformat\u00f3rio\u201d conhecido como Krenak: a primeira, com o suposto objetivo de \u201cdefender aldeamentos contra abusos e impedir que os silv\u00edcolas tamb\u00e9m pratiquem desmandos\u201d (p.73); no segundo, que em nada diferia de uma verdadeira pris\u00e3o, os \u00edndios presos n\u00e3o tinham documentos nem a causa declarada da puni\u00e7\u00e3o que lhes era imposta.<\/p>\n<p>Os fuzis e as flechas, como revela o pr\u00f3prio t\u00edtulo, n\u00e3o se resume aos casos de viol\u00eancia perpetrados contra os \u00edndios na ditadura. S\u00e3o abundantes as descri\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia ind\u00edgena e dos personagens que a eles se aliaram para exigir uma mudan\u00e7a radical da pol\u00edtica indigenista. A segunda metade do livro descreve o surgimento das assembleias ind\u00edgenas, a atua\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as e o apoio fundamental do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi), dos indigenistas e dos antrop\u00f3logos que, juntos, lutaram contra um projeto que pregava a emancipa\u00e7\u00e3o dos \u00edndios com o evidente prop\u00f3sito de usurpar os seus direitos e territ\u00f3rios. Entre os \u00edndios, destacam-se as vozes de M\u00e1rio Juruna, o primeiro a ser eleito ao Congresso Nacional, e do guarani Mar\u00e7al de Souza, ou Tup\u00e3\u2019i, cuja hist\u00f3ria se reflete no destino atual de crian\u00e7as guarani e kaiow\u00e1 que, sob a alega\u00e7\u00e3o de que a pobreza das fam\u00edlias as impediria de criar os pr\u00f3prios filhos, continuam a ser removidas de seus lares e entregues a orfanatos e institui\u00e7\u00f5es de acolhimento em Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p>Entre as d\u00e9cadas de 1970 e 1980, \u201co protagonismo dos \u00edndios come\u00e7ou a produzir v\u00edtimas entre seus l\u00edderes\u201d (p.332): o Apurin\u00e3 Raimundo Pereira da Silva; o cacique pankarar\u00e9 \u00c2ngelo Pereira Xavier; o cacique \u00c2ngelo Kret\u00e3; Mar\u00e7al de Souza; e tantos outros. O caso de Mar\u00e7al \u00e9 emblem\u00e1tico, pois os proj\u00e9teis que haviam sido levados \u00e0 per\u00edcia simplesmente desapareceram no F\u00f3rum de Ponta Por\u00e3 (MS): \u201cSem a bala para fazer a confronta\u00e7\u00e3o com o rev\u00f3lver apreendido [\u2026] n\u00e3o havia um elo material entre o acusado e o crime\u201d (p.378). O principal suspeito era o funcion\u00e1rio de um fazendeiro sul-mato-grossense, que chegou a solicitar \u00e0 Pol\u00edcia Federal a retirada dos \u00edndios de suas terras e \u201cuma prensa nos padres\u201d (p.336). Ap\u00f3s receber um habeas corpus, o funcion\u00e1rio fugiu e nunca mais foi visto. O fazendeiro foi absolvido.<\/p>\n<p>No ep\u00edlogo, intitulado Talvez uma vit\u00f3ria, Valente faz men\u00e7\u00e3o a um documento de maio de 1985, no qual os servidores da Funai exigiam a reformula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica indigenista, o fim dos processos de \u201catra\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cpacifica\u00e7\u00e3o\u201d e a reestrutura\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o. O documento afirma a exist\u00eancia de \u201cuma pol\u00edtica de exterm\u00ednio\u201d que percorreu a hist\u00f3ria brasileira, da col\u00f4nia \u00e0 rep\u00fablica, onde sempre se \u201ctentou manobrar o destino das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas nacionais no terreno limitado pelo exterm\u00ednio puro e simples e pela prote\u00e7\u00e3o f\u00edsica para posterior assimila\u00e7\u00e3o\u201d (p.382-383). Mesmo com o fim da ditadura, \u201cas cr\u00edticas apresentadas pelos servidores da Funai produziram poucos resultados\u201d (p.383). Que o digam os Yanomami, que viram o ent\u00e3o presidente da Funai, Romero Juc\u00e1, determinar a amplia\u00e7\u00e3o de uma pista de pouso no territ\u00f3rio yanomami, favorecendo a entrada de dezenas de milhares de garimpeiros.<\/p>\n<p>Valente defende que o fim da ditadura, a mudan\u00e7a da pol\u00edtica indigenista oficial, o crescimento e consolida\u00e7\u00e3o do movimento ind\u00edgena em todo o pa\u00eds permitiram n\u00e3o apenas a resist\u00eancia, mas tamb\u00e9m a retomada de territ\u00f3rios e, principalmente, uma \u201cespiral de crescimento populacional\u201d (p.390). Ao contr\u00e1rio do que vaticinavam os principais antrop\u00f3logos e indigenistas, os povos ind\u00edgenas n\u00e3o foram extintos e tampouco assimilados. Como sugerem Danowsky e Viveiros de Castro (2014, p.138), a resili\u00eancia ind\u00edgena diz muito sobre o fato de que \u201cpara os povos nativos das Am\u00e9ricas, o fim do mundo j\u00e1 aconteceu, cinco s\u00e9culos atr\u00e1s\u201d. A tentativa da ditadura de impor aos \u00edndios um novo apocalipse se confrontou com povos que se tornaram \u201cespecialistas em fim de mundo\u201d. Afinal, desde 1500 os seus mundos continuam a desmoronar a cada nova viola\u00e7\u00e3o de seus direitos origin\u00e1rios e constitucionais, no assassinato de lideran\u00e7as e na destrui\u00e7\u00e3o dos lugares que habitam. O fim de seus mundos tamb\u00e9m tem sido imposto pelo Poder Judici\u00e1rio, quando determina a reintegra\u00e7\u00e3o de posse de \u00e1reas de ocupa\u00e7\u00e3o tradicional em benef\u00edcio de latifundi\u00e1rios.<\/p>\n<p>O \u201cdesgosto\u201d, sentimento e afeto que entre os Paumari irrompe diante de acontecimentos tristes ou traum\u00e1ticos, provoca desinteresse, tristeza e des\u00e2nimo (BONILLA, 2018). A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 sair e se afastar, impondo dist\u00e2ncia entre a pessoa e tudo aquilo que a afeta de modo a ter desgosto. O que antes se curava pela mobilidade, pela mudan\u00e7a de caminhos e dos fluxos da vida, hoje \u00e9 diagnosticado pelos profissionais de sa\u00fade como depress\u00e3o. Oiara Bonilla (2018, p.7) tra\u00e7a um paralelo entre o desgosto paumari e a asfixia imposta aos mesmos Guarani e Kaiow\u00e1 presentes no livro de Rubens Valente: \u201cAsfixia capitalista, ruralista, asfixia pelo cerco do Estado. Cercam-se as terras, os corpos, as pessoas, a alegria\u201d. Finda a leitura de Os fuzis e as flechas, facilmente se reconhecer\u00e1 no notici\u00e1rio de nossos dias a continuidade de um dispositivo genocida, que imp\u00f5e aos \u00edndios o confinamento em \u00e1reas diminutas, a contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua que bebem, a criminaliza\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as, a judicializa\u00e7\u00e3o intermin\u00e1vel dos processos de demarca\u00e7\u00e3o de terras, a medicaliza\u00e7\u00e3o dos afetos.<\/p>\n<p>Um dos depoimentos mais marcantes de Os fuzis e as flechas se encontra no cap\u00edtulo 22 \u2013 A espinha. O sertanista Sidney Possuelo descreve a primeira visita de um grupo de \u00edndios Arara \u00e0 cidade de Altamira, no Par\u00e1. Eles teriam ficado \u201cem choque ao perceber que os \u2018civilizados\u2019 s\u00e3o muitos, centenas de milhares, contra apenas cinquenta ou sessenta Arara\u201d (p.320). Um estado que os sertanistas costumavam chamar de \u201ca quebra da espinha\u201d: \u201cAquela altivez que eles t\u00eam antes do contato, [\u2026] aquilo desaparece. [\u2026] Eles veem que se o branco quiser, ele massacra, tem uma quantidade infinita de gente\u201d (p.320).<\/p>\n<p>No atual momento, \u00e9 a espinha de milh\u00f5es de brasileiros que se ressente diante da ascens\u00e3o dos militares e do fim da Nova Rep\u00fablica. Nas s\u00e1bias palavras de Ailton Krenak, resta saber se os \u201cbrancos\u201d saber\u00e3o resistir. Pois no que se refere aos povos ind\u00edgenas, configura-se uma contraofensiva como a ditadura militar jamais poderia imaginar. Assistimos a um aumento expressivo do n\u00famero de jovens ind\u00edgenas no ensino superior, ao reconhecimento de seus intelectuais, artistas e escritores, \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o de movimentos, organiza\u00e7\u00f5es e assembleias ind\u00edgenas, e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de suas lideran\u00e7as em institui\u00e7\u00f5es internacionais de promo\u00e7\u00e3o e defesa dos direitos humanos. Trinta e seis anos depois da elei\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Juruna, Jo\u00eania Wapichana, a primeira mulher ind\u00edgena a se tornar advogada no pa\u00eds, foi eleita deputada federal. S\u00f4nia Bone Guajajara protagonizou a primeira candidatura ind\u00edgena \u00e0 vice-presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Derrotas que os \u00edndios impuseram aos militares e ao vatic\u00ednio daqueles que tantas vezes anunciaram a sua extin\u00e7\u00e3o. Justamente por isso, o livro de Rubens Valente constitui uma refer\u00eancia obrigat\u00f3ria n\u00e3o apenas para antrop\u00f3logos e estudiosos do tema, mas para todos os interessados na compreens\u00e3o da hist\u00f3ria ind\u00edgena e do indigenismo. Se a ditadura empresarial-militar e o autoritarismo insistem em n\u00e3o passar, os \u00edndios continuam a ocupar o seu lugar no presente e no futuro; e a sua luta nos ensina a resistir.<\/p>\n<p>https:\/\/jornalistaslivres.org\/os-fuzis-e-as-flechas\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21867\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[163],"tags":[221],"class_list":["post-21867","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-movimento-indigena","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5GH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21867","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21867"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21867\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21867"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21867"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21867"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}