{"id":21964,"date":"2019-01-16T22:08:04","date_gmt":"2019-01-17T00:08:04","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=21964"},"modified":"2019-01-16T22:33:36","modified_gmt":"2019-01-17T00:33:36","slug":"indios-de-maos-entrelacadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21964","title":{"rendered":"\u00cdndios: de m\u00e3os entrela\u00e7adas"},"content":{"rendered":"\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"498\" width=\"747\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" alt=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/191114-Xavantes-1024x683.jpeg?resize=747%2C498&#038;ssl=1\"><!--more-->Outras Palavras<\/p>\n\n\n\n<p><br>Nas aldeias, as cerim\u00f4nias seguem para manter o c\u00e9u sem desabar. Porque o povo das mercadorias est\u00e1 revigorado, coberto de armadura, investindo contra tudo que n\u00e3o \u00e9 espelho. Que podemos fazer nas cidades?<br><\/p>\n\n\n\n<p>Por Angela Pappiani<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o povo Xavante se junta nas dan\u00e7as rituais coletivas, cada pessoa segura firme na m\u00e3o do companheiro, entrela\u00e7ando os dedos. Assim, as m\u00e3os unidas garantem o equil\u00edbrio e a for\u00e7a para atravessar horas ou uma noite inteira de cerim\u00f4nia. A for\u00e7a e a energia de cada indiv\u00edduo alimenta o coletivo, criando um circulo de poder que desafia o cansa\u00e7o, o des\u00e2nimo, a for\u00e7a da gravidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O canto poderoso do povo Guarani entoado dentro da casa de rezas, em torno das velas acesas no altar sagrado, mant\u00e9m todos acordados durante toda a noite de cerim\u00f4nia. O canto sagrado, as belas palavras de poder que recriam o tempo imemorial, elevam o c\u00e9u, desafiam as for\u00e7as obscuras e garantem a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Os povos ind\u00edgenas, conectados com a natureza e o cosmos, reconhecem, respeitam e sabem lidar com os ciclos que se alternam: a noite e o dia, a tempestade e a seca, a fartura e a abstin\u00eancia, a beleza e a tristeza, o bom e o mau, a vida e a morte. Para manter o equil\u00edbrio, aprenderam com os ancestrais a cuidar do lugar onde vivem e a pacificar a ira dos esp\u00edritos com cantos, po\u00e7\u00f5es, fuma\u00e7a dos cachimbos, rituais e provas de coragem, com f\u00e9.<br>Desde sempre enfrentaram inimigos com quem disputaram territ\u00f3rios, a liberdade, modos de vida e cren\u00e7as, a pr\u00f3pria vida. Vit\u00f3rias e perdas se alternaram, alian\u00e7as foram constru\u00eddas e desfeitas, mudan\u00e7as dr\u00e1sticas nos rumos foram necess\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes o c\u00e9u desabou sobre suas cabe\u00e7as, muitas vezes o mundo acabou. Para centenas de povos o mundo acabou para sempre. Conheceram o momento final e n\u00e3o deixaram sequer o testemunho de suas vidas e lutas. N\u00e3o sabemos se os esp\u00edritos dos mortos encontraram o caminho certo porque n\u00e3o havia mais ningu\u00e9m para conduzir as cerim\u00f4nias necess\u00e1rias.<br>Alguns povos conheceram o fim do mundo, a perda de quase tudo e mesmo assim conseguiram sobreviver, algumas pessoas apenas, reconstruindo tudo a sua volta, com for\u00e7a e determina\u00e7\u00e3o porque a eles foi dada pelo criador a d\u00e1diva da vida que devem reverenciar e manter.<\/p>\n\n\n\n<p>Guerreiros preparados para a luta, com o fortalecimento do corpo, as estrat\u00e9gias de guerra e o poder de flechas e bordunas. Guerreiros preparados com o desenvolvimento do esp\u00edrito e as t\u00e1ticas de guerrilha e camuflagem que permitem ir al\u00e9m, passando invis\u00edveis ao inimigo.<br>A vida para esses povos nunca foi f\u00e1cil porque h\u00e1 muito tempo enfrentam o povo da mercadoria, como o s\u00e1bio Davi Yanomami define os n\u00e3o ind\u00edgenas. O povo que transforma a natureza em coisas, que acumula, que enriquece \u00e0s custas de todos os outros seres, que deixa marcas indel\u00e9veis sobre a terra, que conta o tempo olhando s\u00f3 para frente, que calcula a felicidade pelo tamanho dos bens . O povo que criou os muros, as fronteiras, as cercas, as barragens, os cofres, as certezas, as seitas: tudo que separa, corta, interrompe, descrimina, afasta, impede, acumula, adoece.<\/p>\n\n\n\n<p>Os guerreiros enfrentaram os cavaleiros e seus cavalos, destruindo aldeias, ro\u00e7as, vidas, em busca do ouro e da posse da terra. Enfrentaram os bandeirantes com suas armas e armadilhas, com seus cachorros e gan\u00e2ncia. Enfrentaram as cruzes que aprisionam em cren\u00e7as e pecados, que demonizam as culturas e os saberes, que roubam almas. Enfrentaram a roupa contaminada de doen\u00e7as contagiosas, guerra bacteriol\u00f3gica que dizima aldeias inteiras; o veneno misturado ao a\u00e7\u00facar, o \u00e1lcool que tira a consci\u00eancia. Enfrentaram as leis que permitem sua ca\u00e7a, que pagam os pares de orelhas de homens, mulheres e crian\u00e7as capturadas. Enfrentaram homens bem intencionados que os querem iguais, com of\u00edcios de gente de bem, trabalhando e contribuindo para o progresso da na\u00e7\u00e3o. Enfrentaram os internatos que separam as crian\u00e7as de suas fam\u00edlias; o garimpo que envenena os rios, que espalha doen\u00e7as e cria a depend\u00eancia; o agrot\u00f3xico que envenena a \u00e1gua dos rios; a cobi\u00e7a que devasta as florestas, que barra os rios, que extermina a ca\u00e7a e os peixes. Enfrentaram a ditadura que exterminou milhares de ind\u00edgenas, dezenas de aldeias para garantir a constru\u00e7\u00e3o de estradas e barragens, a explora\u00e7\u00e3o mineral, a titula\u00e7\u00e3o de terras do tamanho de estados e pa\u00edses a um \u00fanico propriet\u00e1rio. Enfrentaram a discrimina\u00e7\u00e3o, o preconceito, a viol\u00eancia expl\u00edcita, o ex\u00edlio, a perda do territ\u00f3rio, do c\u00edrculo que sustenta a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso desde o s\u00e9culo 16, num tempo em que poucos sabiam sobre o que acontecia no mundo, em que o saber era privil\u00e9gio dos poucos interessados no esquecimento, em que os fatos ficavam perdidos, ocultos, em tempos de controle da imprensa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como explicar que tudo isso continue acontecendo hoje, no tempo presente, agora enquanto estas palavras s\u00e3o lidas? Que todos os enfrentamentos listados, e os que nem imaginamos poss\u00edveis, sigam presentes? Num tempo de tanta tecnologia, de tantas c\u00e2meras invadindo a privacidade, de tantos aparatos para divulgar os acontecimentos, de redes sociais, de redes de televis\u00e3o cobrindo ao vivo o que acontece do outro lado do mundo?<\/p>\n\n\n\n<p>Como explicar que essa guerra contra os povos ind\u00edgenas continue acontecendo mesmo em tempos de governos ditos de esquerda ? E que agora se escancare num novo tempo de fundamentalismo mercadol\u00f3gico crist\u00e3o. O povo das mercadorias est\u00e1 revigorado, fortalecido em seu cavalo, coberto de armadura, investindo contra tudo que n\u00e3o \u00e9 espelho. Contra tudo e todos que representem a vida, em sua ess\u00eancia natural, pois esse \u00e9 o grande medo. O povo da mercadoria n\u00e3o pode admitir que outro modelo de vida seja poss\u00edvel, que o \u201c\u00edndio miser\u00e1vel, isolado do conv\u00edvio humano, das benesses da civiliza\u00e7\u00e3o, manipulado pelas ONGs\u201d, seja feliz em sua aldeia, dentro de sua tradi\u00e7\u00e3o, falando seu idioma, plantando e colhendo, ca\u00e7ando e pescando, convivendo com seus filhos, com expectativas para o futuro.<br>Essa guerra, os povos origin\u00e1rios conhecem h\u00e1 mais de 500 anos. Mas ousaram acreditar que a Constitui\u00e7\u00e3o que lhes garante direitos inalien\u00e1veis fosse suficiente para virar uma p\u00e1gina da hist\u00f3ria. Ousaram pensar que os direitos b\u00e1sicos \u2014 \u00e0 sua autodetermina\u00e7\u00e3o, cultura, territ\u00f3rio, idioma, saberes e cren\u00e7as, a uma vida digna \u2014 estivessem garantidos e reafirmados tamb\u00e9m pela Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem que completa 70 anos.<br>O desejo de um \u201cnovo tempo\u201d, de um Brasil da Ordem e do Progresso pode querer deletar um texto que garante o que nem deveria precisar de lei para ser reconhecido. Pode parecer f\u00e1cil retroceder s\u00e9culos no reconhecimento de direitos quando interesses econ\u00f4micos globais gritam por seu despojo de guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1910, no governo do presidente Nilo Pe\u00e7anha, era criado dentro do Minist\u00e9rio da Agricultura, Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio o Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios e Localiza\u00e7\u00e3o de Trabalhadores Nacionais (SPILTN), sob o comando do Marechal Rondon. O objetivo do Servi\u00e7o era proteger os ind\u00edgenas integrando-os \u00e0 sociedade nacional. A ideia era que gradualmente o \u201c\u00edndio\u201d deixasse de existir, aniquilado ou assimilado como um igual, n\u00e3o precisando mais de seu territ\u00f3rio para sobreviver. Se esse desejo se tivesse cumprido, ter\u00edamos hoje mais 1 milh\u00e3o de cidad\u00e3os abaixo da linha de pobreza, sem cultura, sem identidade, sem direitos, sem sonhos, sem perspectiva.<\/p>\n\n\n\n<p>O SPI foi extinto em 1967 em meio a esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, genoc\u00eddio, explora\u00e7\u00e3o ilegal dos territ\u00f3rios, prostitui\u00e7\u00e3o. A FUNAI substituiu o antigo \u00f3rg\u00e3o mas, exceto por abnegados funcion\u00e1rios que levaram a s\u00e9rio sua miss\u00e3o e alguns atos que realmente fizeram a diferen\u00e7a , mostrou-se incapaz de confrontar o poder econ\u00f4mico, de proteger e garantir a diversidade, de buscar o di\u00e1logo e construir pol\u00edticas afirmativas junto com os povos ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, o \u201cnovo governo\u201d volta a 1910 alocando a FUNAI no minist\u00e9rio da Agricultura, tentando mais uma vez integrar o \u00edndio \u00e0 sociedade nacional e \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3. Volta ao s\u00e9culo 16, quando o papa Paulo III ainda n\u00e3o havia confirmado a humanidade dos povos ind\u00edgenas.<br>A guerra continua, expl\u00edcita, cruel, arrogante, acobertada por interesses escusos, como sempre.<\/p>\n\n\n\n<p>O que esses povos t\u00eam a seu favor nos novos tempos: uma Constitui\u00e7\u00e3o escrita com sua participa\u00e7\u00e3o, a possibilidade de compartilhar a informa\u00e7\u00e3o, as imagens que se produz dentro das aldeias e podem correr mundo, jovens que dominam o portugu\u00eas, que frequentam universidades e conquistam conhecimentos importantes para a luta, anci\u00e3os s\u00e1bios e conhecedores da tradi\u00e7\u00e3o que seguem transmitindo o conhecimento para as novas gera\u00e7\u00f5es, mulheres guerreiras que se colocam lado a lado com seus companheiros pela manuten\u00e7\u00e3o da cultura e dos territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas aldeias, as cerim\u00f4nias seguem para manter o c\u00e9u sem desabar. Nos c\u00edrculos sagrados, as pessoas seguem de m\u00e3os entrela\u00e7adas, fortalecendo o coletivo. Daqui, da cidade, podemos seguir buscando a informa\u00e7\u00e3o, o conhecimento, os fatos verdadeiros, podemos compartilhar a palavra criadora, contribuir para que se abram cada vez mais espa\u00e7os onde os povos ind\u00edgenas se manifestem, para que seu pensamento e conhecimento sejam compartilhados. Podemos ampliar o c\u00edrculo de aliados, de companheiros, de guerreiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos criar juntos novos coletivos e seguir no c\u00edrculo de m\u00e3os entrela\u00e7adas.<\/p>\n\n\n\n<p><blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"9BV2NHecp6\"><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/eurocentrismoemxeque\/indios-de-maos-entrelacadas\/\">\u00cdndios: de m\u00e3os entrela\u00e7adas<\/a><\/blockquote><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/eurocentrismoemxeque\/indios-de-maos-entrelacadas\/embed\/#?secret=9BV2NHecp6\" data-secret=\"9BV2NHecp6\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;\u00cdndios: de m\u00e3os entrela\u00e7adas&#8221; &#8212; Outras Palavras\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/21964\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[163],"tags":[223],"class_list":["post-21964","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-movimento-indigena","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Ig","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21964","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21964"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21964\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21964"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21964"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21964"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}