{"id":22021,"date":"2019-01-23T00:07:57","date_gmt":"2019-01-23T02:07:57","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22021"},"modified":"2023-08-11T21:54:40","modified_gmt":"2023-08-12T00:54:40","slug":"o-que-e-agitacao-e-o-que-e-propaganda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22021","title":{"rendered":"O que \u00e9 agita\u00e7\u00e3o e o que \u00e9 propaganda?"},"content":{"rendered":"\r\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/i.etsystatic.com\/7825570\/r\/il\/48d132\/587063873\/il_570xN.587063873_260p.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Algumas quest\u00f5es na era das m\u00eddias digitais<\/p>\r\n<p>Por Gabriel Landi Fazzio<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Lavra Palavra<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201c20. Nossa tarefa mais importante antes do levante revolucion\u00e1rio declarado \u00e9 a propaganda e a agita\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Esta atividade e sua organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 conduzida frequentemente ainda da antiga maneira formalista. Em manifesta\u00e7\u00f5es ocasionais, reuni\u00f5es de massas e sem cuidado com o conte\u00fado revolucion\u00e1rio concreto dos discursos e panfletos.\u201d Em \u201cA Estrutura, os M\u00e9todos e a A\u00e7\u00e3o dos Partidos Comunistas\u201d, III Internacional, 1921.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Boa parte da milit\u00e2ncia revolucion\u00e1ria conhece o termo agitprop, popularizado pelos partidos comunistas da III Internacional em meio aos movimentos contra a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o. A agita\u00e7\u00e3o e a propaganda, reunidas por meio desse acr\u00f4nimo, sempre tiveram um lugar de destaque em meio \u00e0s tarefas da milit\u00e2ncia comunista. Como leninistas, acreditamos que a atividade fundamental de toda milit\u00e2ncia comunista \u201cdeve consistir em um trabalho de agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica unificada; que ilumine todos os aspectos de vida e dirija-se \u00e0s massas em geral\u201d. Mas, afinal, o que \u00e9 agita\u00e7\u00e3o, e o que \u00e9 propaganda, e qual a diferen\u00e7a entre ambas as coisas?<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Uma das melhores s\u00ednteses sobre a quest\u00e3o est\u00e1 na obra \u201cQue Fazer?\u201d, de Lenin. A cita\u00e7\u00e3o pode ser um pouco longa, mas vale a pena transcrev\u00ea-la para, depois, retornarmos \u00e0s v\u00e1rias quest\u00f5es que esse s\u00edntese permite levantar, em nossa \u00e9poca. Referindo-se \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de Plekhanov sobre o tema, e criticando as ideias de Martynov a respeito, Lenin repete:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201c[\u2026] as palavras de Plekhanov: \u2018O propagandista inculca muitas ideias em uma \u00fanica pessoa, ou em um pequeno n\u00famero de pessoas; o agitador inculca apenas uma \u00fanica ideia, ou um pequeno n\u00famero de ideias, em troca, inculca-as em toda uma massa de pessoas\u2019. [\u2026]<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>[Pensamos] (com Plekhanov e todos os dirigentes do movimento oper\u00e1rio internacional) que um propagandista, ao tratar, por exemplo, do problema do desemprego, deve explicar a natureza capitalista das crises, mostrar o que as torna inevit\u00e1veis na sociedade moderna, mostrar a necessidade da transforma\u00e7\u00e3o dessa sociedade em sociedade socialista etc. Em uma palavra, deve fornecer \u201cmuitas ideias\u201d, um n\u00famero t\u00e3o grande de ideias que, de imediato, todas essas ideias tomadas em conjunto apenas poder\u00e3o ser assimiladas por um n\u00famero (relativamente) restrito de pessoas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Tratando da mesma quest\u00e3o, o agitador tomar\u00e1 o fato mais conhecido de seus ouvintes, e o mais palpitante, por exemplo uma fam\u00edlia de desempregados morta de fome, a indig\u00eancia crescente etc., e apoiando-se sobre esse fato conhecido de todos, far\u00e1 todo o esfor\u00e7o para dar \u00e0 massa \u201cuma \u00fanica ideia\u201d: a [ideia] da contradi\u00e7\u00e3o absurda entre o aumento da riqueza e o aumento da mis\u00e9ria; esfor\u00e7ar-se-\u00e1 para suscitar o descontentamento, a indigna\u00e7\u00e3o da massa contra essa injusti\u00e7a gritante, deixando ao propagandista o cuidado de dar uma explica\u00e7\u00e3o completa dessa contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Por isso, o propagandista age principalmente por escrito, e o agitador de viva voz. N\u00e3o se exige de um propagandista as mesmas qualidades de um agitador. Diremos que Kautsky e Lafargue, por exemplo, s\u00e3o propagandistas, enquanto Bebel e Guesde s\u00e3o agitadores.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Distinguir um terceiro dom\u00ednio, ou uma terceira fun\u00e7\u00e3o da atividade pr\u00e1tica, fun\u00e7\u00e3o que consistiria em \u201catrair as massas para certos atos concretos\u201d, \u00e9 o maior dos absurdos, pois o \u201capelo\u201d sob forma de ato isolado, ou \u00e9 o complemento natural e inevit\u00e1vel do tratado te\u00f3rico, do folheto de propaganda, do discurso de agita\u00e7\u00e3o, ou \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o pura e simples de execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>De fato, tomemos, por exemplo, a luta atual dos sociais-democratas alem\u00e3es contra os direitos alfandeg\u00e1rios sobre os cereais. Os te\u00f3ricos redigem estudos especiais sobre a pol\u00edtica alfandeg\u00e1ria, onde \u201capelam\u201d, digamos assim, para se lutar por tratados comerciais e pela liberdade do com\u00e9rcio; o propagandista faz o mesmo em uma revista, e o agitador nos discursos p\u00fablicos. Os \u201catos concretos\u201d da massa s\u00e3o, nesse caso, a assinatura de uma peti\u00e7\u00e3o endere\u00e7ada ao \u201cReichstag\u201d contra a majora\u00e7\u00e3o dos direitos alfandeg\u00e1rios sobre os cereais. O apelo a essa a\u00e7\u00e3o emana indiretamente dos te\u00f3ricos, dos propagandistas e dos agitadores, e diretamente dos oper\u00e1rios que passam as listas de peti\u00e7\u00e3o nas f\u00e1bricas e domic\u00edlios particulares.\u201d<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Existem, ent\u00e3o, dois crit\u00e9rios que Lenin destacada como diferen\u00e7as entre a agita\u00e7\u00e3o e a propaganda: um crit\u00e9rio principal, referente \u00e0 \u201cdensidade do conte\u00fado\u201d e \u00e0 amplitude do p\u00fablico; e um crit\u00e9rio acess\u00f3rio, relacionado \u00e0 forma da comunica\u00e7\u00e3o (escrita ou oral).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Esmiu\u00e7ando o crit\u00e9rio principal, \u00e9 oportuno desfazer algumas confus\u00f5es. A come\u00e7ar pelo termo \u201cpropaganda\u201d, cujo significado na tradi\u00e7\u00e3o da social-democracia alem\u00e3 (de onde Lenin e os bolcheviques aprenderam o termo) \u00e9 bastante distinto do uso corriqueiro do termo, que n\u00e3o se pode confundir com a no\u00e7\u00e3o comercial e burguesa de propaganda. Na verdade, nada poderia ser mais diferente.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O conceito comercial de propaganda est\u00e1 muito mais pr\u00f3ximo daquilo que chamar\u00edamos agita\u00e7\u00e3o: a publicidade comercial busca inculcar em um amplo p\u00fablico uma \u00fanica ideia bastante simples, qual seja, a ideia da utilidade e da necessidade de se consumir tal ou qual mercadoria e marca.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Enquanto a \u201cpropaganda\u201d comercial busca t\u00e3o somente promover uma empresa (construindo a credibilidade de sua marca e a cren\u00e7a na qualidade de suas mercadorias); a propaganda comunista busca n\u00e3o apenas nossa autopromo\u00e7\u00e3o e a divulga\u00e7\u00e3o de nossos s\u00edmbolos (identidade visual), mas a explica\u00e7\u00e3o aprofundada dos fen\u00f4menos contradit\u00f3rios das rela\u00e7\u00f5es sociais existentes.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A respeito de nossa propaganda, seria preciso acrescentar: \u00e9 bastante arraigado na tradi\u00e7\u00e3o socialista brasileira o h\u00e1bito de chamar de \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d aquilo que \u00e9, no mais das vezes, propaganda. Esse p\u00e9ssimo h\u00e1bito chega ao extremo de produzir consequ\u00eancias organizativas, quando separamos estes trabalhos como coisas distintas (e, com isso, no mais das vezes, tornamos nossa agitprop em pura agita\u00e7\u00e3o, quando n\u00e3o em propaganda de m\u00e1 qualidade).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ocorre que, na verdade, cursos abertos, rodas de discuss\u00e3o, grupos de estudo p\u00fablicos, palestras, etc, n\u00e3o s\u00e3o nada mais que formas n\u00e3o-escritas de propaganda! Quando consideramos essa atividade como \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d, em um dom\u00ednio distinto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 propaganda te\u00f3rica, nosso trabalho nesse terreno resulta desconexo ou at\u00e9 mesmo \u201cprofessoral\u201d. N\u00e3o raras vezes, essas \u201cforma\u00e7\u00f5es\u201d d\u00e3o aos ouvintes interessantes conhecimentos te\u00f3ricos, mas que n\u00e3o lhes conduzem muito seguramente \u00e0 conclus\u00e3o de concep\u00e7\u00f5es pol\u00edtica revolucion\u00e1rias. Como toda propaganda, essas \u201cforma\u00e7\u00f5es\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o podem se perder em escolasticismo, e devem estabelecer com nitidez a rela\u00e7\u00e3o existente entre a teoria propagada e a estrat\u00e9gia, a t\u00e1tica, o programa, em suma, as concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas aplicadas \u00e0 pr\u00e1tica que s\u00e3o produto das luta ideol\u00f3gica comum do intelectual coletivo partid\u00e1rio.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Uma outra coisa distinta \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de quadros propriamente dita (a prepara\u00e7\u00e3o de propagandistas, agitadores, organizadores, etc). Aqui, com efeito, o aprofundamento pol\u00eamico pode ultrapassar a finalidade de propaganda revolucion\u00e1ria \u2013 pois, presume-se, trata-se de aprofundar a forma\u00e7\u00e3o de militantes que j\u00e1 se dedicam efetivamente ao trabalho pol\u00edtico sob uma perspectiva revolucion\u00e1ria. No entanto, tamb\u00e9m isso \u00e9 prejudicado quando se faz uma m\u00e1 propaganda a t\u00edtulo de \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d e, ent\u00e3o, d\u00e1-se por cumprido o trabalho formativo dos quadros. A verdadeira forma\u00e7\u00e3o fica, assim, relegada a um segundo plano \u2013 ou, por vezes, realizada puramente em sua dimens\u00e3o t\u00e9cnica (basta ver como as oficinas de produ\u00e7\u00e3o audiovisual ou de edi\u00e7\u00e3o, por exemplo, quase sempre ocorrem desacompanhadas da forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos quadros t\u00e9cnicos da comunica\u00e7\u00e3o). Entre essas dimens\u00f5es t\u00e9cnicas, a prepara\u00e7\u00e3o na arte da orat\u00f3ria costuma ser bastante negligenciada, como se fosse uma mera quest\u00e3o de aptid\u00e3o nata, dispensando qualquer aprimoramento e desenvolvimento. [1]<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Outro engano corrente \u00e9 aquele mesmo que Lenin critica na defini\u00e7\u00e3o dada por Martynov para a agita\u00e7\u00e3o. Muitos camaradas consideram que a agita\u00e7\u00e3o significaria o plano da comunica\u00e7\u00e3o voltado ao \u201cchamado \u00e0 a\u00e7\u00e3o\u201d. Mas, como Lenin aponta, \u201co \u2018apelo\u2019 sob forma de ato isolado, ou \u00e9 o complemento natural e inevit\u00e1vel do tratado te\u00f3rico, do folheto de propaganda, do discurso de agita\u00e7\u00e3o, ou \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o pura e simples de execu\u00e7\u00e3o.\u201d Tanto a agita\u00e7\u00e3o quanto a propaganda (se n\u00e3o queremos ser meros falastr\u00f5es professorais, mas propagandistas revolucion\u00e1rios) devem infundir o esp\u00edrito de combate e de a\u00e7\u00e3o em nossos espectadores.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Tomar esse crit\u00e9rio para definir nossa agita\u00e7\u00e3o significaria, por um lado, negligenciar o aspecto do \u201cchamado \u00e0 a\u00e7\u00e3o\u201d em nossa propaganda; tanto quanto o aspecto de \u201cluta ideol\u00f3gica\u201d de nossa agita\u00e7\u00e3o. \u00c9 digno de nota, a esse respeito, o exemplo de agita\u00e7\u00e3o oferecido por Lenin, que trata n\u00e3o de alguma injusti\u00e7a ou arbitrariedade pontual, mas justamente de um dos tra\u00e7os da contradi\u00e7\u00e3o fundamental da sociabilidade capitalista: a contradi\u00e7\u00e3o entre a crescente socializa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e a crescente concentra\u00e7\u00e3o da propriedade, que se expressa, entre outras coisas, no simult\u00e2neo crescimento da riqueza e da mis\u00e9ria social. O agitador, tanto quanto o propagandista, faz \u201cluta de classes na filosofia\u201d e, ainda mais importante, faz luta ideol\u00f3gica de massas, e n\u00e3o apenas nos meios mais intelectualizados.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Feitos esses apontamentos em torno do crit\u00e9rio principal, resta analisar o crit\u00e9rio acess\u00f3rio (\u201co propagandista age principalmente por escrito, e o agitador de viva voz\u201c). Lenin pronuncia com nitidez o car\u00e1ter secund\u00e1rio deste crit\u00e9rio (por isso fala \u201cprincipalmente\u201d, e n\u00e3o de modo absoluto). Mesmo \u00e0 sua \u00e9poca, j\u00e1 circulavam impressos de car\u00e1ter eminentemente agitativo (car\u00e1ter que tamb\u00e9m se pode atribuir \u00e0s charges impressas, por exemplo, desde os cartazes e panfletos da \u00e9poca da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa). Do mesmo modo, os propagandistas j\u00e1 atuavam tamb\u00e9m por meios orais, especialmente por meio de palestras itinerantes (os \u201cpropagandistas volantes\u201d, que Lenin menciona em \u201cCarta a um camarada\u201d).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>No entanto, entre a \u00e9poca de Lenin e a nossa h\u00e1 um s\u00e9culo de grandes revolucionamentos nos meios t\u00e9cnicos de produ\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o. Tais modifica\u00e7\u00f5es nos meios de comunica\u00e7\u00e3o contribu\u00edram para tornar esse crit\u00e9rio acess\u00f3rio de diferencia\u00e7\u00e3o cada vez menos apropriado.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Isso ocorre, primeiramente, porque surgiram novos meios de formaliza\u00e7\u00e3o, de registro da comunica\u00e7\u00e3o. Uma palestra de um propagandista, tanto quanto o discurso de um agitador, podem ser gravados e reproduzidos infinitas vezes, necessitando ser proferidos uma \u00fanica vez. Tornou-se poss\u00edvel editar essas mesmas comunica\u00e7\u00f5es orais de modo a complement\u00e1-las com imagens, que demonstrem graficamente aquilo que o discurso enuncia. A \u201cagita\u00e7\u00e3o oral\u201d hoje tamb\u00e9m pode ser feita por meio de \u00e1udios em grupos de mensagens, etc. Ao mesmo tempo, se as imagens desempenhavam um papel secund\u00e1rio nas publica\u00e7\u00f5es impressas, adquirem, em especial nas m\u00eddias digitais, o papel de principal ve\u00edculo de conte\u00fados textuais (sejam os \u201cmemes\u201d ou mesmo as mais simples frases diagramadas em meio \u00e0s fotos).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Em segundo lugar, em especial ap\u00f3s o advento da Internet, modificaram-se significativamente os aspectos de nosso trabalho de \u201cdistribui\u00e7\u00e3o de literatura\u201d. H\u00e1 um s\u00e9culo, seria praticamente imposs\u00edvel obter contato com a literatura comunista sen\u00e3o atrav\u00e9s do trabalho partid\u00e1rio de distribui\u00e7\u00e3o de literatura. Se o pr\u00f3prio mercado editorial j\u00e1 passou a suprir parte desta demanda, a Internet modificou definitivamente a dificuldade material de acesso \u00e0 literatura revolucion\u00e1ria \u2013 vejamos, por exemplo, o brilhante trabalho de portais como o http:\/\/www.marxists.org.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Mas qual o interesse em insistir nessa quest\u00e3o? Ora, na Era da Prensa, a \u00e9poca em que os meios t\u00e9cnicos permitiam sustentar aquele crit\u00e9rio acess\u00f3rio de diferencia\u00e7\u00e3o com alguma seguran\u00e7a; esta distin\u00e7\u00e3o era um ponto de apoio para a divis\u00e3o especializada do trabalho nas organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. Enquanto os agitadores se qualificavam como oradores, os propagandistas se preparavam para desempenhar o papel de publicistas e redatores. Em ambos os casos, esses e essas camaradas eram coletivamente destacadas e coordenadas nestas tarefas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>E hoje? Cada vez mais as fronteiras entre a agita\u00e7\u00e3o e a propaganda se confundem. Virtualmente, como todo cidad\u00e3o se tornou um \u201cjornalista\u201d por meio de seu perfil online, tamb\u00e9m todo militante se tornou um publicista digital. Com o acesso facilitado aos meios de publica\u00e7\u00e3o, em seus perfis pessoais, muitos camaradas buscam atuar duplamente como agitadores e propagandistas, sem preparo especializado \u2013 e mesmo a cria\u00e7\u00e3o de diversas \u201cp\u00e1ginas\u201d virtuais \u00e9 produto de a\u00e7\u00f5es isoladas, sem conex\u00e3o org\u00e2nica.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ainda mais: como as m\u00eddias digitais s\u00e3o uma via interativa de m\u00e3o dupla, \u00e9 muito comum que a agita\u00e7\u00e3o e a propaganda ocorram desordenadamente, passando de uma \u00e0 outra sem muito cuidado e reflex\u00e3o. Um exemplo: se algum camarada publica uma pe\u00e7a de agita\u00e7\u00e3o e \u00e9 interpelado, nos coment\u00e1rios da postagem, sobre alguma quest\u00e3o mais complexa, rapidamente buscar\u00e1 respond\u00ea-la, mesmo sem grande dom\u00ednio do tema. Com isso, se substitui precariamente a pr\u00e9via prepara\u00e7\u00e3o do propagandista pela pesquisa imediata, em busca de fontes que respaldem uma reposta previamente concebida.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Dialogamos com dezenas de interlocutores em um mesmo debate, negligenciando seus n\u00edveis desiguais de consci\u00eancia e suas diferentes posi\u00e7\u00f5es materiais e pol\u00edticas. Respondemos raivosamente tanto ao pequeno burgu\u00eas reacion\u00e1rio que sequer mereceria aten\u00e7\u00e3o quanto ao trabalhador entorpecido pelo bombardeio midi\u00e1tico de mentiras. Esquece-se que, naturalmente, quanto mais profunda a explica\u00e7\u00e3o e mais complexo o tema, menos prov\u00e1vel que seja absorvida por \u201cmuitas pessoas\u201d, ainda mais em um ambiente desvinculado de qualquer experi\u00eancia efetiva de organiza\u00e7\u00e3o e luta de massas. Contudo, n\u00e3o importa o qu\u00e3o amplamente as novas m\u00eddias permitam que nossa comunica\u00e7\u00e3o se espalhe: a distin\u00e7\u00e3o entre n\u00edveis de compreens\u00e3o nas v\u00e1rias camadas da classe trabalhadora segue existindo, e n\u00e3o de elimina sen\u00e3o pela combina\u00e7\u00e3o consistente entre participa\u00e7\u00e3o efetiva nas lutas de classes e a influ\u00eancia, paciente e prolongada, de toda a propaganda socialista! Ignorando essa verdade, muitos camaradas se afobam e buscam coagir os interlocutores a aceitar as verdades do marxismo, a golpes de ironia, ofensas e desd\u00e9m. [2] O dogmatismo nunca esteve t\u00e3o em alta, talvez, quanto na \u00e9poca em que basta linkar uma cita\u00e7\u00e3o direto da fonte para atestar a veracidade de uma posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Talvez seja ainda mais importante do que nunca insistir, portanto, na quest\u00e3o da paci\u00eancia na propaganda, j\u00e1 manifestada por Lenin: \u201cPara n\u00e3o deixar nenhuma sombra de d\u00favida neste tocante, eu enfatizei por duas vezes nas Teses [de Abril] a necessidade de um trabalho \u201cexplicativo\u201d paciente e persistente, adaptado \u00e0s necessidades pr\u00e1ticas das massas\u201d. Quando os bolcheviques eram acusados caluniosamente de serem \u201cagentes dos interesses alem\u00e3es\u201d, Lenin insistia que, \u201cdesmentindo a farsa e a difama\u00e7\u00e3o, devemos, com mais calma que nunca\u201d pensar a fundo nas quest\u00f5es, sem nos bastar nas respostas prontas impacientes.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Essa afoba\u00e7\u00e3o desordenada n\u00e3o apenas enfraquece a agita\u00e7\u00e3o (passando ela para um plano secund\u00e1rio), como produz efeitos danosos no plano da propaganda, agravando a dispers\u00e3o de nosso \u201ctrabalho explicativo\u201d. E, na verdade, a centraliza\u00e7\u00e3o da propaganda \u00e9 um dos desafios fundamentais da organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, e a condi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria unidade na agita\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Quando vemos o tipo de preocupa\u00e7\u00e3o que, j\u00e1 \u00e0 \u00e9poca de Lenin, a organiza\u00e7\u00e3o dos propagandistas provocava, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil compreender como a din\u00e2mica digital ajuda a encubar os piores h\u00e1bitos liberais de nossos intelectuais e publicistas de esquerda (em \u201cCarta a um camarada\u201d):<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201cA propaganda dever\u00e1 ser feita de forma un\u00edssona por todo o comit\u00ea, a quem corresponde centraliz\u00e1-la rigorosamente. (\u2026)<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Quanto aos propagandistas, ainda gostaria de dizer algumas palavras contra a tend\u00eancia usual de abarrotar essa profiss\u00e3o com pessoas pouco capazes rebaixando com isso, o n\u00edvel da propaganda. \u00c0s vezes, entre n\u00f3s, qualquer estudante indiscriminadamente \u00e9 considerado propagandista, e todos os jovens exigem que se lhes \u201cd\u00ea um c\u00edrculo\u201d, etc. Temos que lutar contra essa pr\u00e1tica, pois s\u00e3o muitos os males que da\u00ed adv\u00e9m. As pessoas realmente firmes quanto aos princ\u00edpios, e capazes de ser propagandistas s\u00e3o muito poucas (e para chegar a s\u00ea-lo \u00e9 preciso estudar muito e acumular experi\u00eancia), e a estas pessoas \u00e9 necess\u00e1rio especializ\u00e1-las, ocupar-se delas e cuid\u00e1-las com zelo. \u00c9 preciso organizar v\u00e1rias aulas por semana para esse tipo de pessoas, saber envi\u00e1-las oportunamente a outra cidade e, no geral, organizar visitas dos mais h\u00e1beis propagandistas pelas diversas cidades.\u201d<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Se \u00e9 verdade que as m\u00eddias digitais permitem ampliar a abrang\u00eancia do nosso trabalho de massas, incumbindo contingentes cada vez maiores de quadros na produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de nossa agita\u00e7\u00e3o e propaganda \u2013 ent\u00e3o, organizar de modo consequente e planejado a atua\u00e7\u00e3o dispersa de centenas de militantes \u00e9 uma das quest\u00f5es candentes de nosso movimento, no s\u00e9culo XXI.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ainda estamos reagindo \u00e0 chamada \u201ccrise do jornalismo\u201d. N\u00e3o apenas ainda organizamos de forma insuficiente nossa atua\u00e7\u00e3o virtual como permitimos, muitas vezes, que essa desorganiza\u00e7\u00e3o nos atinja no plano do trabalho f\u00edsico (refletindo na distribui\u00e7\u00e3o dos jornais impressos, na correspond\u00eancia e na literatura partid\u00e1ria, nos contatos entre os organismos e militantes, etc).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Retomar a discuss\u00e3o aberta sobre nossa agita\u00e7\u00e3o e nossa propaganda \u00e9 um ponto de partida inevit\u00e1vel. S\u00f3 assim poderemos aproveitar as oportunidades [3] que esses novos ve\u00edculos abrem, assegurando nossa unidade de a\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, ampliando tamb\u00e9m a consist\u00eancia de nossas redes org\u00e2nicas, f\u00edsicas, de distribui\u00e7\u00e3o de panfletos, jornais, comunicados, etc. N\u00e3o basta que um debate ef\u00eamero venha \u00e0 tona a cada nova situa\u00e7\u00e3o (cada novo caso problem\u00e1tico de agita\u00e7\u00e3o e propaganda virtual, cada nova confus\u00e3o na resposta aos eventos da conjuntura, etc). O ponto de partida para organizar de nosso trabalho comum na luta ideol\u00f3gica deve ser a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o da discuss\u00e3o sobre os dilemas de nossa luta ideol\u00f3gica diante dos desafios da comunica\u00e7\u00e3o digital. De nenhum outro modo poderemos sistematizar as experi\u00eancias j\u00e1 existentes rumo a uma atua\u00e7\u00e3o planejada e sistem\u00e1tica, que escape \u00e0 reatividade.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>[1] Outra quest\u00e3o sobre a qual valeria uma reflex\u00e3o, ligada a este tema terminol\u00f3gico da \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d, \u00e9 a distin\u00e7\u00e3o entre o \u201ctrabalho de base\u201d, termo corrente entre n\u00f3s, e o \u201ctrabalho de massas\u201d, conforme formulado por Lenin. N\u00e3o se trata apenas de uma diferente escolha de palavras: enquanto o trabalho de massas compreende a agita\u00e7\u00e3o e a propaganda de modo integrado, concebido \u00e0 escala geral de todo um pa\u00eds (um trabalho que demanda a\u00e7\u00f5es locais, mas concebido \u00e0 escala de massas); o trabalho de base pode muito bem existir de modo localizado, sem qualquer perspectiva program\u00e1tica integral, sem exigir a conjuga\u00e7\u00e3o de diferentes esfor\u00e7os e \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o, etc. Por isso mesmo, talvez, todo o falat\u00f3rio t\u00e3o presente na esquerda h\u00e1 uma d\u00e9cada sobre a \u201cfalta de trabalho de base\u201d n\u00e3o tenha levado a grandes solu\u00e7\u00f5es: agrava a dispers\u00e3o, empurra a milit\u00e2ncia para as diversas frentes locais de atua\u00e7\u00e3o cotidiana, sem muito bem sanar as debilidades da esquerda na luta ideol\u00f3gica em um plano mais geral e unit\u00e1rio. Sem d\u00favida alguma o trabalho pedag\u00f3gico \u00e0 escala local \u00e9 uma necessidade prim\u00e1ria no trabalho de organiza\u00e7\u00e3o, agita\u00e7\u00e3o e propaganda. Mas n\u00e3o devemos relegar o pr\u00f3prio trabalho de coordena\u00e7\u00e3o dos propagandistas, agitadores e organizadores atuando entre as massas (\u201cna base\u201d) como um trabalho desprez\u00edvel, menor, burocr\u00e1tico, etc.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O \u201ctrabalho de base\u201d aparece no discurso corrente como a panaceia contra o distanciamento entre dirigentes e dirigidos, e como cura contra a pura a\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica. Mas nenhuma agita\u00e7\u00e3o pode prescindir de alguma dose de performance. Seria um desprop\u00f3sito extrair, da cr\u00edtica da a\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica, uma nega\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia de a\u00e7\u00f5es como o teatro pol\u00edtico de rua, por exemplo. Nesse sentido, a cr\u00edtica da a\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica deve frisar muito mais a falta de consequ\u00eancia na luta ideol\u00f3gica do que um rep\u00fadio de tal ou qual forma de agita\u00e7\u00e3o e propaganda. Uma a\u00e7\u00e3o \u00e9 meramente perform\u00e1tica n\u00e3o porque \u00e9 tamb\u00e9m perform\u00e1tica, e sim porque lhe falta conex\u00e3o com um planejamento mais amplo e sistem\u00e1tico, associado ao conjunto do trabalho de propaganda e de organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>[2] Abordei alguns aspectos dessa quest\u00e3o em um texto anterior: \u201c\u201cN\u00e3o sou obrigado\u201d: impaci\u00eancia e arrog\u00e2ncia na esquerda\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>[3] A esse respeito, \u00e9 bastante interessante observar os apontamentos dos camaradas do PTB belga.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Imagem: \u201cAgitprop \u2013 Estude, Ativista!\u201d 1927, por Gustav Klutsis e Senkin S.Y.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-link is-provider-lavrapalavra\">\r\n<div class=\"wp-block-embed__wrapper\">https:\/\/lavrapalavra.com\/2019\/01\/21\/o-que-e-agitacao-e-o-que-e-propaganda-algumas-questoes-na-era-das-midias-digitais\/<\/div>\r\n<\/figure>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22021\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[33],"tags":[225],"class_list":["post-22021","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Jb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22021","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22021"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22021\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30731,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22021\/revisions\/30731"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22021"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22021"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22021"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}