{"id":22058,"date":"2019-01-24T23:51:48","date_gmt":"2019-01-25T01:51:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22058"},"modified":"2019-01-24T23:59:08","modified_gmt":"2019-01-25T01:59:08","slug":"haiti-a-revolucao-que-mudou-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22058","title":{"rendered":"Haiti: a Revolu\u00e7\u00e3o que mudou o mundo"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/quilombociberneticohome.files.wordpress.com\/2019\/01\/whatsapp-image-2019-01-23-at-13.17.50.jpeg?w=1400&#038;h=9999\"\/><!--more-->Quilombo Cibern\u00e9tico<\/p><p>Em janeiro comemoram-se os 228 anos da Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana, \u00fanica revolu\u00e7\u00e3o de escravizados que n\u00e3o s\u00f3 conseguiu p\u00f4r um fim \u00e0 escravid\u00e3o como tamb\u00e9m proclamou a independ\u00eancia, formando o primeiro estado negro fora da \u00c1frica.<\/p><p>Nenhum processo revolucion\u00e1rio, por\u00e9m, nasce do dia para noite, e a hist\u00f3ria da col\u00f4nia francesa das \u00cdndias Ocidentais de S\u00e3o Domingos \u00e9 muito anterior \u00e0 presen\u00e7a de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo no Novo Mundo. Por\u00e9m, \u00e9 com a invas\u00e3o realizada pelos europeus que a ilha passa a ser a col\u00f4nia mais pr\u00f3spera da Am\u00e9rica, processo que se iniciou com o exterm\u00ednio da popula\u00e7\u00e3o nativa, a qual, em quinze anos de coloniza\u00e7\u00e3o, foi reduzida de um milh\u00e3o para menos de sessenta mil.<\/p><p>Em 1517 o padre Bartolomeu de Las Casas, junto com o rei Carlos V , organizaram a compra de 15 mil africanos como escravos para solucionar o exterm\u00ednio nativo. Assim, o sacerdote e o rei, representando a Igreja e o Estado, come\u00e7avam o tr\u00e1fico negreiro e a escravid\u00e3o africana na Am\u00e9rica.<\/p><p>Concomitantemente \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, os revolucion\u00e1rios haitianos entenderam que precisavam de uma mudan\u00e7a brusca na realidade em que viviam, mas como esperar que os ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade chegassem \u00e0 col\u00f4nia que representava quase dois ter\u00e7os da economia da metr\u00f3pole e movimentava economicamente todo o Ocidente atrav\u00e9s da escravid\u00e3o e tr\u00e1fico negreiro no s\u00e9culo VIII?<\/p><p>Foram mais de 300 anos de sangue, suor e l\u00e1grimas at\u00e9 1791 e uma insurrei\u00e7\u00e3o realmente organizada. A ilha com at\u00e9 ent\u00e3o mais de quinhentos mil escravizados (sendo 2\/3 nascidos no continente africano) iniciaram o come\u00e7o do fim do sistema escravista nas col\u00f4nias francesas quando, ap\u00f3s uma cerim\u00f4nia voodoo, desceram o morro e atearam fogo em mais de mil fazendas, com um senhor de escravos queimando no meio de cada fogueira, enquanto dan\u00e7avam e cantavam: \u00ca! \u00ca! Bomba! Heu! Heu! Canga, bafio t\u00e9! Canga, moun\u00e9 de l\u00e9! Canga, do ki l\u00e1! Canga, li! (\u201cJuramos destruir os brancos e tudo que possuem; que morramos se falharmos nessa promessa.\u201d)<\/p><p>Aquela era a primeira noite de uma sangrenta guerra civil, colonial e racial que durou at\u00e9 1804, com a proclama\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia do Haiti. Toussaint L\u2019Ouverture, que era escravo at\u00e9 os 45 anos, quando conseguiu comprar sua alforria, se destaca nesse processo como \u201co negro invenc\u00edvel\u201d, proclamando a si mesmo como o respons\u00e1vel pela vingan\u00e7a e dedicando sua vida para que a liberdade e a igualdade reinassem em S\u00e3o Domingos.<\/p><p>Os revolucion\u00e1rios haitianos mostraram para o mundo que n\u00e3o era necess\u00e1ria educa\u00e7\u00e3o formal nem coragem para nutrir um sonho de liberdade. Liderados por Toussaint, eles venceram os ex\u00e9rcitos franc\u00eas, espanhol, holand\u00eas e botaram para correr o at\u00e9 ent\u00e3o todo-poderoso ex\u00e9rcito brit\u00e2nico.<\/p><p>Em toda a Am\u00e9rica escravagista rumores de uma revolu\u00e7\u00e3o de escravos fazia os brancos ficarem com o famigerado &#8220;cu na m\u00e3o\u201d, e o medo de uma haitiniza\u00e7\u00e3o se espalhava. Em 1845, para citar apenas um dos diversos exemplos no continente, era preso em Recife o ex-escravizado Agostinho Pereira do Nascimento, chamado pelos seus mais de 300 seguidores de Divino Mestre, com a acusa\u00e7\u00e3o de ensinar negros e negras a ler e escrever. Em sua posse estava o ABC do Haiti, livro que contava em verso de A a Z a vit\u00f3ria dos revolucion\u00e1rios haitianos. N\u00e3o h\u00e1 mais registros dele ap\u00f3s ser detido pelas autoridades da \u00e9poca, como aconteceu mais de 150 anos depois com o ajudante de pedreiro Amarildo, que ainda hoje permanece com seus restos mortais desaparecidos depois de ter sido levado a uma Unidade de Pol\u00edcia Pacificadora.<\/p><p>A Revolu\u00e7\u00e3o Haitiana e todos os obst\u00e1culos que teve de enfrentar nos d\u00e3o um vislumbre de que qualquer intento de negros e negras de escrever a pr\u00f3pria Hist\u00f3ria n\u00e3o ser\u00e1 tolerado pelas autoridades. Quase um ano depois de seu violento assassinato, ainda n\u00e3o sabemos os respons\u00e1veis pela morte de Marielle Franco e Anderson Gomes. Mas tanto Toussaint e seus revolucion\u00e1rios, como o Divino Mestre e Marielle continuam presentes em nossa luta cotidiana. Sementes que est\u00e3o brotando em toda parte e suas vozes continuam ecoando atrav\u00e9s da nossa vida. As antigas autoridades tal como as atuais temem e tremem diante da organiza\u00e7\u00e3o do povo negro. Em tempos de ascens\u00e3o fascista \u00e9 mais do que nunca imprescind\u00edvel que nos haitinizemos e que os racistas voltem a ser o carv\u00e3o a queimar fogueiras em cada canto desse pa\u00eds.<\/p><p>Messias Martins<\/p><p>https:\/\/quilombocibernetico.home.blog\/2019\/01\/23\/a-revolucao-que-mudou-o-mundo\/\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22058\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[55],"tags":[223],"class_list":["post-22058","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c66-haiti","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5JM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22058","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22058"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22058\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22058"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22058"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22058"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}