{"id":22299,"date":"2019-02-10T20:06:27","date_gmt":"2019-02-10T22:06:27","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=22299"},"modified":"2019-02-10T20:06:32","modified_gmt":"2019-02-10T22:06:32","slug":"mais-retrocesso-governo-bolsonaro-quer-a-volta-dos-manicomios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/22299","title":{"rendered":"Mais retrocesso: governo Bolsonaro quer a volta dos manic\u00f4mios"},"content":{"rendered":"\n<img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\"  alt=\"imagem\"  src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/filme-bicho-de-sete-cabecas-600x337.jpg\"\/><!--more-->Di\u00e1rio do Centro do Mundo<\/p><p>\nPublicado originalmente no Ponte Jornalismo\n<\/p><p>\nPOR MARIA TERESA CRUZ\n<\/p><p>\nO Minist\u00e9rio da Sa\u00fade divulgou uma nota t\u00e9cnica na \u00faltima quarta-feira (6\/2) propondo novas diretrizes de pol\u00edticas nacionais de sa\u00fade mental e de drogas. As mudan\u00e7as provocaram alvoro\u00e7o em especialistas na \u00e1rea e, especialmente, em quem trabalha na ponta, com o usu\u00e1rio desse tipo de servi\u00e7o. O texto de 32 p\u00e1ginas ataca diretamente demandas da luta antimanicomial, que existe no Brasil h\u00e1 mais de 30 anos, e que come\u00e7ou para combater as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos nos hospitais psiqui\u00e1tricos denunciadas ap\u00f3s os anos 1970. Al\u00e9m disso, adota um discurso que refor\u00e7a a guerra \u00e0s drogas e, consequentemente, a criminaliza\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio de drogas, bastante amparada pelo racismo estrutural.\n<\/p><p>\nEm linhas gerais, a nota abre diversos precedentes para o retorno de terap\u00eauticas usadas amplamente no passado como a convulsoterapia [o uso terap\u00eautico de choques em casos extremos, onde o paciente n\u00e3o atende a comandos de maneira consciente] \u2013 com um verniz de modernidade \u2013 bem como aponta a abstin\u00eancia como melhor tratamento do que a redu\u00e7\u00e3o de danos para o caso de dependentes qu\u00edmicos. Al\u00e9m disso, estimula a rela\u00e7\u00e3o dos chamados CAPS (Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial, que recebe pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade para atendimento m\u00e9dico e psicol\u00f3gico, o que inclui usu\u00e1rios de drogas, moradores de rua, etc), que trabalham com a l\u00f3gica da redu\u00e7\u00e3o de danos, com hospitais psiqui\u00e1tricos e o fortalecimento das comunidades terap\u00eauticas. A redu\u00e7\u00e3o de danos trabalha com a l\u00f3gica de dar possibilidade de o dependente qu\u00edmico retomar a dignidade e poder controlar o uso da droga.\n<\/p><p>\nPara a psic\u00f3loga Rita Almeida, que trabalha na rede de sa\u00fade mental do SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade) desde 1995 e \u00e9 conselheira do CRP-MG (Conselho Regional de Psicologia) em Juiz de Fora, a suposta rela\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica entre essas l\u00f3gicas \u00e9 uma fal\u00e1cia. \u201cO que ficou \u00f3bvio na nota \u00e9 o que a gente chama de mudan\u00e7a de l\u00f3gica. E ela \u00e9 um gatilho desencadeador de tudo aquilo que a gente vem tentando desconstruir ao longo dos anos. Quando a nota diz que \u00e9 poss\u00edvel que o hospital psiqui\u00e1trico, os CAPS, a comunidade terap\u00eautica convivam harmonicamente, ela diz o seguinte: a l\u00f3gica manicomial vai voltar. Porque a gente sabe que na queda de bra\u00e7o de uma l\u00f3gica que exclui, que prende, que \u00e9 centrada na abstin\u00eancia, para outra que trabalha com a redu\u00e7\u00e3o de danos, que lida com as diferen\u00e7as de forma mais democr\u00e1tica, quem vai ganhar? Ainda mais no Brasil de hoje, nesse atual momento. Qual o modo de eu lidar com aquilo que me incomoda? Eu prendo. \u00c9 a mesma l\u00f3gica do c\u00e1rcere. Eu isolo, eu fa\u00e7o aquilo ficar do jeito que eu quero, eu formato, essa \u00e9 a l\u00f3gica prevalente\u201d, explica.\n<\/p><p>\nO filme \u201cBicho de Sete Cabe\u00e7as\u201d, de La\u00eds Bodanzky, de 2001, mostra com exatid\u00e3o o risco dos hospitais psiqui\u00e1tricos e o uso como terapia antidrogas. No filme, o personagem Neto, vivido pelo ator Rodrigo Santoro, \u00e9 flagrado com um cigarro de maconha e mandado pelos pais para um manic\u00f4mio, onde passa por uma s\u00e9rie de viola\u00e7\u00f5es: toma choques el\u00e9tricos, medica\u00e7\u00f5es fort\u00edssimas e \u00e9 obrigado a conviver, como em uma pris\u00e3o, com outras pessoas que t\u00eam doen\u00e7as mentais das mais diversas. O final do filme, sem querer dar spoiler (contar o que ser\u00e1 visto), mostra um jovem com a condi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica devastada e que, a\u00ed sim, adquire doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas. A hist\u00f3ria \u00e9 baseada em fatos reais, narrando hist\u00f3ria contada no livro \u201cCanto dos Malditos\u201d, de Austreg\u00e9silo Carrano Bueno, que relata sua experi\u00eancia nos hospitais psiqui\u00e1tricos nos quais foi tratado por usar maconha e medicamentos de uso restrito.\n<\/p><p>\nRita demonstra especial preocupa\u00e7\u00e3o com o conceito amplamente defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) desde a campanha e depois, durante o discurso de posse, de acabar com as ideologias. \u201cO novo governo trabalha com essa ideia que a gente precisa desideologizar a politica, ou seja, que a politica ideol\u00f3gica seria nociva. E a luta antimanicomial \u00e9 uma das apontadas como sendo ideol\u00f3gica. S\u00f3 que n\u00e3o existe nenhuma pol\u00edtica que n\u00e3o seja ideol\u00f3gica. A quest\u00e3o \u00e9 a quem ela serve: se \u00e9 uma ideologia que serve a quem est\u00e1 no poder, no caso os ditos normais, quando se discute a luta antimanicomial, ou se ela \u00e9 uma ideologia que serve \u00e0 diferen\u00e7a, \u00e0 loucura, \u00e0s minorias, aos oprimido, aos massacrados. Aos que est\u00e3o oprimidos naquela mesma pol\u00edtica dos ditos. E essa pol\u00edtica antimanicomial, obviamente, se sustenta a partir da perspectiva do  louco, da loucura, da diferen\u00e7a, daqueles que viveram aprisionados e que passaram toda uma vida torturados. A gente sabe bem o que foi a hist\u00f3ria do manic\u00f4mio no Brasil\u201d, explica a psic\u00f3loga, que \u00e9 cuidadosa ao dizer que s\u00e3o suposi\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mensurar o real impacto.\n<\/p><p>\nNo livro \u201cO holocausto brasileiro\u201d, Daniela Arbex retrata um pouco dos horrores sofridos pelos passageiros do \u201ctrem de doido\u201d que eram mandados para Barbacena, em Minas Gerais, e, em muitos casos, nunca mais voltavam para o conv\u00edvio social: ou porque terminavam de enlouquecer ou porque eram exterminados ap\u00f3s sess\u00f5es de tortura.\n<\/p><p>\nA outra quest\u00e3o bastante sens\u00edvel contida na nota \u00e9 um poss\u00edvel est\u00edmulo ao crescimento das comunidades terap\u00eauticas como principal forma de tratamento contra a adic\u00e7\u00e3o. Em junho do ano passado, o Conselho Federal de Psicologia divulgou um relat\u00f3rio sobre as viola\u00e7\u00f5es encontradas em inspe\u00e7\u00f5es nessas comunidades, em sua maioria ligadas a institui\u00e7\u00f5es religiosas. Vinte e oito estabelecimentos das cinco regi\u00f5es do Brasil foram vistoriados em outubro de 2017 em a\u00e7\u00e3o conjunta do MPF (Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal), do Conselho Federal de Psicologia e do MNPCT (Mecanismo Nacional de Preven\u00e7\u00e3o e Combate \u00e0 Tortura) e entre as viola\u00e7\u00f5es identificadas est\u00e3o: priva\u00e7\u00e3o de liberdade, trabalhos for\u00e7ados e interna\u00e7\u00e3o de adolescentes e castigos f\u00edsicos.\n<\/p><p>\nSegundo Rita Almeida, \u00e9 justamente essa constru\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica hospitalar, centrada na figura do m\u00e9dico e na medicaliza\u00e7\u00e3o, al\u00e9m dos pactos do governo Bolsonaro com grupos religiosos, principalmente neopentecostais, que criam um terreno bastante favor\u00e1vel para que a interna\u00e7\u00e3o e a l\u00f3gica da abstin\u00eancia passem a ser justificativas para uma cura. \u201cSem medo de errar, cerca de 90% ou mais das comunidades terap\u00eauticas est\u00e3o vinculadas a entidades religiosas e est\u00e3o centradas na abstin\u00eancia e salva\u00e7\u00e3o. Nada mais ideol\u00f3gico que isso: imaginar que Jesus ser\u00e1 o grande salvador. Todo esse processo abre precedente de isolamento, castigo f\u00edsico, cerceamento de liberdade\u201d.\n<\/p><p>\nSobre o uso da palavra \u201cconvulsoterapia\u201d na nota, Rita prefere, mais uma vez, focar na discuss\u00e3o central, que, para ela, \u00e9 o conceito de tudo isso. \u201cN\u00e3o \u00e9 a terap\u00eautica em si [uso de choques, anestesia], mas quando eu abro o precedente para que aquilo fa\u00e7a parte de uma l\u00f3gica de pol\u00edtica publica, eu abro a possibilidade para que seja usado de novo e como era usado antigamente. Quando se dava choque nos anos 1970, a l\u00f3gica que se usava era a terap\u00eautica. Ningu\u00e9m dava choque para torturar, dizia que era terapia. Mas a gente sabe que diante de uma l\u00f3gica de aprisionamento, de exclus\u00e3o, o choque pode passar a ser usado como medida punitiva\u201d, analisa a psic\u00f3loga com ampla experi\u00eancia no trabalho de redu\u00e7\u00e3o de danos.\n<\/p><p>\nPara Nathalia Oliveira, integrante da Plataforma Brasileira de Pol\u00edticas de Drogas, coordenadora da Iniciativa Negra por Uma Nova Pol\u00edtica de Drogas  e preside o COMUDA -SP (Conselho Municipal de Pol\u00edtica de \u00c1lcool e Drogas de S\u00e3o Paulo), o texto t\u00e9cnico se baseia em uma nota do Conad (Conselho Nacional de Pol\u00edticas sobre Drogas) do ano passado, que apontava na dire\u00e7\u00e3o da abstin\u00eancia.\n<\/p><p>\n\u201cEsse objetivo da abstin\u00eancia n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel porque n\u00e3o existe uma sociedade que n\u00e3o fa\u00e7a uso de drogas. At\u00e9 porque, \u00e0s vezes, o uso abusivo de drogas est\u00e1 relacionado a outros transtornos de fundo. \u00c9 tipo enxugar gelo, porque voc\u00ea gasta dinheiro para deixar pessoas abstinentes, s\u00f3 que esquece que outras pessoas v\u00e3o fazer uso. \u00c9 preciso admitir que existe um comportamento na sociedade. As pessoas v\u00e3o fazer uso de drogas, sejam elas l\u00edcitas ou il\u00edcitas. Qual \u00e9 a abstin\u00eancia que estamos falando? Um mundo sem \u00e1lcool, por exemplo?\u201d, afirma.\n<\/p><p>\nOutro ponto bastante problem\u00e1tico \u00e9 a quest\u00e3o da guerra \u00e0s drogas. \u201cEles se colocam contr\u00e1rios \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o das drogas, o que \u00e9 uma corrente de contram\u00e3o ao que o mundo est\u00e1 fazendo. V\u00e1rios pa\u00edses est\u00e3o legalizando a cannabis para uso da ind\u00fastria, medicinal ou recreativo. Ent\u00e3o, de novo, de que droga estamos falando? Tem drogas totalmente liberadas no pa\u00eds\u201d, explica Nath\u00e1lia, que refor\u00e7a a necessidade de trabalhar na redu\u00e7\u00e3o de danos.\n<\/p><p>\n\u201c[A forma colocada na nota] Realmente bane uma l\u00f3gica de redu\u00e7\u00e3o de danos, porque voc\u00ea est\u00e1 colocando uma exig\u00eancia ao usu\u00e1rio que \u00e9 muito dif\u00edcil que \u00e9 a abstin\u00eancia. \u00c9 um tratamento de alta exig\u00eancia para pessoas que est\u00e3o com problemas complexos relacionados \u00e0 droga. Al\u00e9m do mais, a abstin\u00eancia n\u00e3o garante que ela n\u00e3o v\u00e1 ter outros transtornos de ordem mental\u201d, afirma.\n<\/p><p>\nPara Nath\u00e1lia Oliveira, \u00e9 preciso entender o que est\u00e1 al\u00e9m da nota t\u00e9cnica, que \u00e9 uma vis\u00e3o de mundo a partir do novo governo. \u201cO pacote anticrimes do Moro, por exemplo, \u00e9 uma l\u00f3gica que est\u00e1 errada. Ele fala em combate ao crime organizado focando no criminoso. E a\u00ed quando se fala em droga, voc\u00ea quer combater o usu\u00e1rio, o pequeno criminoso e pequeno usu\u00e1rio, que se confundem na cena de uso. Isso tudo s\u00f3 segue a l\u00f3gica da segrega\u00e7\u00e3o no Brasil, da pobreza e do racismo institucional\u201d, finaliza.\n<\/p><p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"TyovN74eAT\"><a href=\"https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/governo-bolsonaro-quer-trazer-de-volta-os-manicomios-no-brasil-por-maria-teresa-cruz\/\">Governo Bolsonaro quer trazer de volta os manic\u00f4mios no Brasil. Por Maria Teresa Cruz<\/a><\/blockquote><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/www.diariodocentrodomundo.com.br\/governo-bolsonaro-quer-trazer-de-volta-os-manicomios-no-brasil-por-maria-teresa-cruz\/embed\/#?secret=TyovN74eAT\" data-secret=\"TyovN74eAT\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Governo Bolsonaro quer trazer de volta os manic\u00f4mios no Brasil. 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