{"id":223,"date":"2008-12-30T09:39:43","date_gmt":"2008-12-30T09:39:43","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=223"},"modified":"2008-12-30T09:39:43","modified_gmt":"2008-12-30T09:39:43","slug":"a-retomada-das-greves-em-2008","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/223","title":{"rendered":"A RETOMADA DAS GREVES EM 2008"},"content":{"rendered":"\n<p>O aumento das greves em 2008 deve ser saudado como um fato positivo, pois sinaliza um princ\u00edpio de retomada das lutas dos trabalhadores. Contudo, \u00e9 preciso aprofundar a an\u00e1lise sobre o seu significado. A base governista no interior do movimento sindical (CUT, CTB, CGTB e For\u00e7a Sindical), sugere que essas greves devem-se ao bom momento da economia. A nosso ver, resumir o fen\u00f4meno a esse \u00fanico aspecto, oculta outros fatores. Dentre eles, destacamos a deteriora\u00e7\u00e3o do poder aquisitivo dos sal\u00e1rios e da renda dos trabalhadores, a infla\u00e7\u00e3o no pre\u00e7o dos alimentos e a rea\u00e7\u00e3o contra formas precarizadas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Deve ser ponderada, portanto, a id\u00e9ia difundida pelo sindicalismo governista, de uma retomada das lutas como resultado apenas do crescimento da economia.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, 2008 conhece uma infla\u00e7\u00e3o mundial nos pre\u00e7os dos alimentos com reflexos tamb\u00e9m no Brasil. N\u00e3o entraremos no debate sobre suas causas, pois fugir\u00edamos do objetivo desse texto. O fato \u00e9 que entre agosto de 2007 e agosto de 2008, o pre\u00e7o dos alimentos subiu 24,92% em S\u00e3o Paulo, 16,85% em Porto Alegre, 27,65% em Bel\u00e9m, 31,70% em Belo Horizonte e 17,87% no Rio de Janeiro. Esses aumentos ficaram muito acima da infla\u00e7\u00e3o apurada pelo INPC do IBGE, \u00edndice usado para reajustar os sal\u00e1rios, para o mesmo per\u00edodo de apenas 7,78%. Portanto, a infla\u00e7\u00e3o de alimentos imp\u00f4s aos trabalhadores a necessidade de recuperarem o poder aquisitivo nas campanhas salariais.<\/p>\n<p>Outro fator decisivo est\u00e1 na perman\u00eancia, mesmo com o crescimento da economia, de um regime salarial baseado em forte arrocho e compress\u00e3o da remunera\u00e7\u00e3o paga aos trabalhadores. Cerca de 75% dos assalariados brasileiros ganham at\u00e9 dois sal\u00e1rios m\u00ednimos, quando o necess\u00e1rio seria de R$ 1.971,55, para o m\u00eas de setembro, conforme apurou o Dieese. Al\u00e9m do mais, mesmo com o crescimento de 3,2% em 2007 da renda m\u00e9dia do trabalhador brasileiro, alcan\u00e7ando R$ 956,00, ela ainda \u00e9 inferior ao patamar de 1998, quando atingiu R$ 1.003,00. Outra quest\u00e3o sumamente importante que nos auxilia a compreender a onda de greves, est\u00e1 no crescimento da desigualdade entre a renda do trabalho e a renda do capital. O governo Lula alardeou a not\u00edcia de uma diminui\u00e7\u00e3o na desigualdade social brasileira, vendendo a ilus\u00e3o de um suposto crescimento da classe m\u00e9dia. Em verdade, esses dados mostram somente uma queda na desigualdade entre os assalariados. Por\u00e9m, entre as d\u00e9cadas de 1950\/1960, enquanto os sal\u00e1rios ficavam com 56,6% da renda nacional, esta caiu em 2005 para 39,1%. Os ganhos financeiros, que em 1990 representavam 38,4% da renda nacional, subiram em 2003 para 51,7%. J\u00e1 a remunera\u00e7\u00e3o dos assalariados despencou, no mesmo per\u00edodo, de 53,5% para 42,9%.<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o entre aumento no pre\u00e7o dos alimentos com deteriora\u00e7\u00e3o no poder aquisitivo dos sal\u00e1rios observada nos \u00faltimos anos, fez das campanhas salariais o momento de recuperar as perdas, aproveitando o crescimento da economia e o aumento no n\u00edvel de emprego. O crescimento das greves, por\u00e9m, n\u00e3o foi suficiente para garantir a conquista generalizada de aumentos reais de sal\u00e1rios. Pelos dados do Dieese, no primeiro semestre de 2008, em 74% das negocia\u00e7\u00f5es coletivas foram conquistados aumentos acima da infla\u00e7\u00e3o. O \u00edndice \u00e9 menor do que o registrado nos dois anos anteriores, cerca de 87% em 2007 e 84% em 2006. Tamb\u00e9m cresceu o n\u00famero de categorias cujos \u00edndices de reajuste ficaram abaixo do INPC acumulado na data-base: 14% em 2008 e 3% em 2007. Como os dados referem-se ao primeiro semestre do ano, ficaram de fora categorias importantes cujas datas-bases s\u00e3o no segundo semestre, como metal\u00fargicos, qu\u00edmicos, banc\u00e1rios e petroleiros. Mesmo assim, os dados indicam irrefutavelmente, mesmo com o crescimento das greves, a dificuldade encontrada pelos trabalhadores em repor as perdas salariais causadas pela infla\u00e7\u00e3o e pelo padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o que favorece o capital em detrimento do trabalho.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00f3 de reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas as greves desse ano foram embaladas. Em algumas delas, as exig\u00eancias foram contra a precariza\u00e7\u00e3o e o ass\u00e9dio moral. Um exemplo \u00e9 a Dell Computadores, empresa de capital norte-americano instalada no munic\u00edpio de Hortol\u00e2ndia, S\u00e3o Paulo. Sua produ\u00e7\u00e3o ficou totalmente parada por 21 dias. A greve, ocorrida em plena campanha salarial dos metal\u00fargicos de Campinas, teve como foco o fim das terceiriza\u00e7\u00f5es, do trabalho tempor\u00e1rio, do banco de horas, al\u00e9m de exigir PLR sem metas e fim do ass\u00e9dio moral. Os trabalhadores n\u00e3o s\u00f3 conquistaram esses pontos, como conseguiram garantia de emprego, contrata\u00e7\u00e3o de 21 trabalhadores tempor\u00e1rios por prazo indeterminado e readmiss\u00e3o de dois oper\u00e1rios l\u00edderes da greve demitidos por justa causa. A import\u00e2ncia dessa luta deve-se ao fato de ser a primeira enfrentada pela Dell no mundo, al\u00e9m de ter sido levada adiante por uma nova gera\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios, formados sob a l\u00f3gica da reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva e com pouca experi\u00eancia de luta. Ela sinaliza a disposi\u00e7\u00e3o de setores do operariado, em n\u00e3o aceitar as \u201cnovas\u201d condi\u00e7\u00f5es de trabalho imposta pelo capital. Tamb\u00e9m os trabalhadores da Rhodia, multinacional francesa, fizeram em novembro uma greve de 5 dias na unidade de Paul\u00ednia. Foi conquistado o fim do banco de horas inclusive nas empresas terceiras e o compromisso de contratar novos trabalhadores, pois o enxugamento no quadro de funcion\u00e1rios acarretou o aumento nas horas extras.<\/p>\n<p>Os dados positivos sobre o crescimento no n\u00famero de greves e as paralisa\u00e7\u00f5es aqui citadas, parecem indicar que nosso proletariado recupera-se dos efeitos da reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva e das pol\u00edticas neoliberais, cujas conseq\u00fc\u00eancias foram nefastas em termos de organiza\u00e7\u00e3o, mobiliza\u00e7\u00e3o e conquista. O crescimento das greves mostra uma disposi\u00e7\u00e3o em recuperar o poder aquisitivo dos sal\u00e1rios, aumentar a participa\u00e7\u00e3o na renda nacional e p\u00f4r fim a formas de trabalho precarizado, como a terceiriza\u00e7\u00e3o e o trabalho tempor\u00e1rio. Portanto, mais do que aproveitar o bom momento da economia e o crescimento dos empregos formais, as greves de 2008 nos indicam uma rea\u00e7\u00e3o dos trabalhadores que come\u00e7am a demonstrar insatisfa\u00e7\u00e3o com a deteriora\u00e7\u00e3o em suas condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho.<\/p>\n<p>Se nossa conclus\u00e3o estiver correta sobre os motivos para o aumento das greves em 2008, o da disposi\u00e7\u00e3o dos trabalhadores em n\u00e3o aceitar mais o n\u00edvel de explora\u00e7\u00e3o a que est\u00e3o sendo submetidos, os efeitos da crise econ\u00f4mica pode impulsionar um novo ciclo de lutas. Como o pre\u00e7o da crise sempre \u00e9 pago pelos trabalhadores, se mantida a tend\u00eancia de luta desenhada nesse ano, podemos prever grandes mobiliza\u00e7\u00f5es para 2009, o que colocar\u00e1 o proletariado como principal protagonista do atual processo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>*Membro do CPR-S\u00e3o Paulo e da Comiss\u00e3o Sindical Nacional<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Renato Nucci Junior*\nEm 2008 estamos assistindo no Brasil uma retomada das lutas sindicais, com o cresci mento no n\u00famero de greves e paralisa\u00e7\u00f5es. Conforme dados do Dieese, o n\u00famero de paralisa\u00e7\u00f5es e greves at\u00e9 setembro, havia superado os n\u00fameros registrados em todo o ano de 2007, quando ocorreram 316 greves, atingindo o total de 28.519 horas paradas. Em julho, os trabalhadores dos Correios ficaram parados 21 dias. Os metal\u00fargicos seguiram o mesmo caminho. Em Campinas, a mobiliza\u00e7\u00e3o da categoria envolveu mais de 40 mil trabalhadores de 27 empresas, em paralisa\u00e7\u00f5es de dura\u00e7\u00e3o variada, indo de algumas horas at\u00e9 v\u00e1rios dias. At\u00e9 o Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Paulo, principal basti\u00e3o da For\u00e7a Sindical, impulsionou paralisa\u00e7\u00f5es por f\u00e1brica para for\u00e7ar os patr\u00f5es a negociarem um reajuste melhor. Os rodovi\u00e1rios de Campinas literalmente atropelaram a dire\u00e7\u00e3o do Sindicato, organizando pela base uma paralisa\u00e7\u00e3o de dois dias que arrancou um reajuste de 10% para os cobradores e 9% para os motoristas. Os banc\u00e1rios paralisaram as atividades em mais de 4 mil ag\u00eancias em todo o pa\u00eds. Por fim, S\u00e3o Paulo conhece h\u00e1 dois meses uma greve dos policiais civis, fato in\u00e9dito na hist\u00f3ria da categoria.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/223\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[56],"tags":[],"class_list":["post-223","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c67-greve"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3B","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/223","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=223"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/223\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=223"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=223"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=223"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}